Skip to content

Pesquisa em Ação — Capítulo 22

Paper 1 — Smith, V. L. (1962). An Experimental Study of Competitive Market Behavior

Referência: Smith, V. L. (1962). An Experimental Study of Competitive Market Behavior. Journal of Political Economy, 70(2), 111–137. DOI: 10.1086/258609

Contexto: Este é o artigo fundador da economia experimental moderna. Smith queria testar se o mecanismo de leilão de dupla — em que compradores e vendedores submetem lances e ofertas simultaneamente — produzia convergência ao equilíbrio competitivo previsto pela teoria neoclássica, mesmo com poucos participantes e informação limitada.

Método: Experimento de laboratório com valor induzido. Smith atribuiu valores de resgate a compradores e custos de produção a vendedores, criando curvas de oferta e demanda conhecidas. Os participantes negociaram em um mecanismo de leilão de dupla por várias rodadas.

Resultado principal: Mesmo com apenas 5 compradores e 5 vendedores, os preços convergiram para o equilíbrio competitivo em 3–5 rodadas, com eficiência de mercado acima de 95%. O resultado surpreendeu porque a teoria de equilíbrio competitivo pressupõe um grande número de agentes — mas o mecanismo de dupla ponta produzia convergência mesmo com poucos.

Impacto: O artigo estabeleceu os princípios metodológicos da economia experimental (valor induzido, incentivos reais, replicação) e demonstrou que a "mão invisível" funciona em laboratório. Contribuiu diretamente para o Nobel de Smith em 2002.

Conexão com o capítulo: Seção 22.2 (leilão de dupla, teoria do valor induzido, equações 22.2–22.3).

Paper 2 — Harrison, G. W.; List, J. A. (2004). Field Experiments

Referência: Harrison, G. W.; List, J. A. (2004). Field Experiments. Journal of Economic Literature, 42(4), 1009–1055. DOI: 10.1257/0022051043004577

Contexto: Este survey influente propôs uma taxonomia dos experimentos econômicos, classificando-os em um espectro entre laboratório puro e campo puro, com base em seis dimensões (amostra, informação, bem, tarefa, ambiente, apostas).

Método: Revisão da literatura teórica e empírica sobre experimentos de campo. Os autores argumentam que o movimento do laboratório para o campo aumenta a validade externa sem necessariamente sacrificar a validade interna, desde que o pesquisador mantenha controle sobre a aleatorização.

Resultado principal: A taxonomia distingue quatro tipos: lab convencional, lab artefactual, campo emoldurado e campo natural. O paper demonstra que muitos resultados de laboratório são sensíveis ao contexto — por exemplo, a cooperação em jogos de bens públicos varia entre estudantes e profissionais do campo.

Impacto: O paper definiu o vocabulário da área e motivou uma expansão massiva dos experimentos de campo nas duas décadas seguintes. A distinção entre "campo emoldurado" e "campo natural" tornou-se padrão na literatura.

Conexão com o capítulo: Seção 22.3 (taxonomia de Harrison e List, tabela comparativa).

Paper 3 — Banerjee, A.; Duflo, E.; Glennerster, R.; Kothari, D. (2010). Improving Immunisation Coverage in Rural India

Referência: Banerjee, A.; Duflo, E.; Glennerster, R.; Kothari, D. (2010). Improving Immunisation Coverage in Rural India: Clustered Randomised Controlled Evaluation of Immunisation Campaigns with and without Incentives. BMJ, 340, c2220. DOI: 10.1136/bmj.c2220

Contexto: A vacinação infantil na Índia rural tinha taxas muito baixas (menos de 5% de imunização completa em Rajasthan), apesar de as vacinas serem gratuitas. O estudo testou se a presença regular de equipes de vacinação (redução de custos de transação) e incentivos materiais (1 kg de lentilhas por vacinação) poderiam aumentar a cobertura.

Método: RCT com três braços: (i) controle (situação base), (ii) campos de vacinação regulares sem incentivo, (iii) campos regulares com incentivo (lentilhas). A randomização foi feita no nível de vilas (cluster randomization).

Resultado principal: A combinação de campos regulares com incentivos aumentou a taxa de imunização completa de 6% para 39% — um efeito massivo. Campos regulares sem incentivo tiveram efeito menor (18%). Crucialmente, o custo por vacinação completa caiu com o incentivo (de US$ 56 para US$ 28), porque o aumento na demanda diluiu os custos fixos de operação.

Impacto: O estudo demonstrou que barreiras comportamentais (procrastinação, custos de transação) podem ser mais importantes que barreiras financeiras na adoção de saúde preventiva. Influenciou programas de vacinação na Índia e em outros países.

Conexão com o capítulo: Seções 22.4 (RCT em desenvolvimento, Nobel 2019) e conexão com Capítulo 8 (vieses comportamentais).

Paper 4 — Camerer, C. F. et al. (2016). Evaluating Replicability of Laboratory Experiments in Economics

Referência: Camerer, C. F. et al. (2016). Evaluating Replicability of Laboratory Experiments in Economics. Science, 351(6280), 1433–1436. DOI: 10.1126/science.aaf0918

Contexto: Inspirado pelo projeto de replicação em psicologia (Open Science Collaboration, 2015), este estudo tentou replicar 18 experimentos de laboratório publicados na AER e QJE entre 2011 e 2014.

Método: Os autores replicaram cada estudo com amostras consideravelmente maiores (em média 5x o tamanho original) e seguiram protocolos pré-registrados. Os resultados foram comparados com os estudos originais em termos de significância estatística, magnitude do efeito e direção.

Resultado principal: 11 dos 18 estudos (61%) replicaram com sucesso (efeito significativo na mesma direção). Os efeitos replicados eram em média 66% do tamanho original. Estudos com p-valores originais mais baixos e efeitos maiores tinham maior probabilidade de replicação.

Impacto: O paper catalisou mudanças institucionais significativas: pré-registro obrigatório, compartilhamento de dados, relatórios registrados. A taxa de 61% é melhor que em psicologia (36%), mas motivou autocrítica na profissão.

Conexão com o capítulo: Seções 22.7.1 (crise de replicação) e Box Mundo 22.2.

Paper 5 — Card, D.; Krueger, A. B. (1994). Minimum Wages and Employment

Referência: Card, D.; Krueger, A. B. (1994). Minimum Wages and Employment: A Case Study of the Fast-Food Industry in New Jersey and Pennsylvania. American Economic Review, 84(4), 772–793.

Contexto: O debate sobre os efeitos do salário mínimo sobre o emprego é um dos mais antigos e controversos da economia do trabalho. A teoria neoclássica padrão prevê que um salário mínimo acima do equilíbrio reduz o emprego. Card e Krueger usaram um experimento natural para testar essa previsão.

Método: Diferenças-em-diferenças. O tratamento foi o aumento do salário mínimo em New Jersey (de US$ 4,25 para US$ 5,05 em abril de 1992). O controle foi a Pensilvânia oriental (sem mudança no salário mínimo). Dados de 410 restaurantes fast food foram coletados antes e depois do aumento.

Resultado principal: O aumento do salário mínimo não reduziu o emprego — na verdade, o emprego em NJ cresceu relativamente a PA (DD = +2,76 empregos por restaurante). O resultado é consistente com modelos de monopsônio (poder de mercado do empregador) em que o salário mínimo pode aumentar tanto emprego quanto salários.

Impacto: O paper transformou o debate sobre salário mínimo e é considerado um marco da "revolução da credibilidade". Contribuiu diretamente para o Nobel de Card em 2021. A metodologia de DiD tornou-se padrão na economia do trabalho.

Conexão com o capítulo: Seção 22.5.2 (diferenças-em-diferenças, equação 22.10) e conexão com Capítulo 17 (monopsônio).

Paper 6 — Athey, S.; Imbens, G. W. (2022). Design-based Analysis in Difference-In-Differences Settings with Staggered Adoption

Referência: Athey, S.; Imbens, G. W. (2022). Design-based Analysis in Difference-In-Differences Settings with Staggered Adoption. Journal of Econometrics, 226(1), 62–79. DOI: 10.1016/j.jeconom.2020.10.012

Contexto: A maioria das aplicações de diferenças-em-diferenças na prática envolve adoção escalonada (staggered adoption): diferentes unidades adotam o tratamento em momentos diferentes. Os estimadores tradicionais de DD com efeitos fixos de unidade e tempo podem produzir estimativas enviesadas quando os efeitos do tratamento são heterogêneos — um problema que só ganhou atenção na literatura recente.

Método: Athey e Imbens adotam uma perspectiva de desenho (design-based), analisando as propriedades dos estimadores condicionais ao mecanismo de atribuição do tratamento (em vez de depender de modelos para os resultados potenciais). Eles mostram que, sob atribuição aleatória da data de adoção, o estimador DD convencional é não-enviesado para uma média ponderada específica de efeitos causais — mas os pesos podem ser negativos quando os efeitos são heterogêneos.

Resultado principal: Quando os efeitos do tratamento variam entre unidades ou ao longo do tempo, o estimador DD com TWFE (two-way fixed effects) pode atribuir pesos negativos a certos efeitos causais, gerando estimativas que não representam nenhuma média causal interpretável. Os autores propõem estimadores alternativos com pesos não-negativos que são robustos à heterogeneidade.

Impacto: Este paper, junto com Goodman-Bacon (2021), de Chaisemartin & D'Haultfoeuille (2020) e Callaway & Sant'Anna (2021), inaugurou uma revisão profunda da prática de DD. Muitos estudos empíricos publicados antes de 2020 estão sendo reavaliados com os novos estimadores. A contribuição é metodológica e com implicações práticas diretas para a avaliação de políticas públicas com adoção escalonada (expansão do Bolsa Família, adesão de municípios a programas federais, etc.).

Conexão com o capítulo: Seção 22.5 (diferenças-em-diferenças) — complementa o tratamento clássico de Card e Krueger com a fronteira metodológica.


Exercício com Inteligência Artificial

Prompt sugerido para ChatGPT/Claude: "Simule um jogo de bens públicos com N=10 jogadores, dotação w=20 e fator de multiplicação α=2,0. Cada jogador escolhe quanto contribuir g_i ∈ [0, 20]. Simule 20 rodadas com três cenários: (a) jogadores puramente egoístas (Nash), (b) jogadores com reciprocidade condicional (contribuem a média das contribuições da rodada anterior), (c) jogadores com punição altruísta (podem gastar 1 para reduzir o payoff de um carona em 3). Plote as contribuições médias ao longo das rodadas para os três cenários. Compare com os dados experimentais de Fehr e Gächter (2000)."

Objetivo pedagógico: visualizar a dinâmica do jogo de bens públicos ao longo do tempo, comparando o equilíbrio de Nash estático com comportamentos motivados por reciprocidade e punição, e conectar com a evidência experimental discutida na Seção 22.2.3.


Referências

  • Athey, S.; Imbens, G. W. (2022). Design-based Analysis in Difference-In-Differences Settings with Staggered Adoption. Journal of Econometrics, 226(1), 62–79.
  • Angrist, J. D.; Krueger, A. B. (1991). Does Compulsory School Attendance Affect Schooling and Earnings? Quarterly Journal of Economics, 106(4), 979–1014.
  • Angrist, J. D.; Pischke, J.-S. (2009). Mostly Harmless Econometrics. Princeton University Press.
  • Banerjee, A.; Duflo, E. (2011). Poor Economics. PublicAffairs.
  • Banerjee, A.; Duflo, E.; Glennerster, R.; Kothari, D. (2010). Improving Immunisation Coverage in Rural India. BMJ, 340, c2220.
  • Barbosa, A. L. N. H.; Corseuil, C. H. L. (2014). Bolsa Família, escolha ocupacional e informalidade no Brasil. Texto para Discussão IPEA, 1948.
  • Camerer, C. F. et al. (2016). Evaluating Replicability of Laboratory Experiments in Economics. Science, 351(6280), 1433–1436.
  • Card, D.; Krueger, A. B. (1994). Minimum Wages and Employment: A Case Study of the Fast-Food Industry in New Jersey and Pennsylvania. American Economic Review, 84(4), 772–793.
  • Chamberlin, E. H. (1948). An Experimental Imperfect Market. Journal of Political Economy, 56(2), 95–108.
  • Cunningham, S. (2021). Causal Inference: The Mixtape. Yale University Press.
  • De Brauw, A. et al. (2015). Bolsa Família and Household Labor Supply. Economic Development and Cultural Change, 63(3), 423–457.
  • Duflo, E.; Glennerster, R.; Kremer, M. (2007). Using Randomization in Development Economics Research: A Toolkit. Handbook of Development Economics, 4, 3895–3962.
  • Fehr, E.; Gächter, S. (2000). Cooperation and Punishment in Public Goods Experiments. American Economic Review, 90(4), 980–994.
  • Friedman, D.; Cassar, A. (2004). Economics Lab: An Intensive Course in Experimental Economics. Routledge.
  • Gneezy, U.; Rustichini, A. (2000). A Fine Is a Price. Journal of Legal Studies, 29(1), 1–17.
  • Güth, W.; Schmittberger, R.; Schwarze, B. (1982). An Experimental Analysis of Ultimatum Bargaining. Journal of Economic Behavior & Organization, 3(4), 367–388.
  • Harrison, G. W.; List, J. A. (2004). Field Experiments. Journal of Economic Literature, 42(4), 1009–1055.
  • Holt, C. A. (2007). Markets, Games, and Strategic Behavior. Pearson.
  • Kagel, J. H.; Roth, A. E. (1995). The Handbook of Experimental Economics. Princeton University Press.
  • Roth, A. E.; Sönmez, T.; Ünver, M. U. (2004). Kidney Exchange. Quarterly Journal of Economics, 119(2), 457–488.
  • Smith, V. L. (1962). An Experimental Study of Competitive Market Behavior. Journal of Political Economy, 70(2), 111–137.
  • Soares, F. V.; Ribas, R. P.; Osório, R. G. (2010). Evaluating the Impact of Brazil's Bolsa Família. Latin American Research Review, 45(2), 173–190.