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Capítulo 18 — A Paciência Tem Preço

Em janeiro de 1999, a Selic chegou a 45% ao ano — o preço que o Brasil pagava pela impaciência coletiva de uma economia em crise. Em agosto de 2020, essa mesma taxa tocou 2% — a mais baixa da história. Entre esses dois extremos, gerações inteiras de brasileiros tomaram decisões de vida: comprar casa ou alugar, investir num negócio ou deixar no CDB, estudar no exterior ou começar a trabalhar já. Cada uma dessas decisões era, em essência, uma aposta sobre o preço do tempo — a taxa de juros.

A microeconomia trata o tempo como um bem escasso, exatamente como trata o dinheiro. Agentes econômicos constantemente fazem escolhas que envolvem quando: poupar hoje para consumir amanhã, investir em uma fábrica cujos retornos virão ao longo de anos, extrair petróleo agora ou preservá-lo para o futuro. Neste capítulo, estudamos a teoria do capital e dos juros, que fornece o arcabouço analítico para compreender essas decisões — e para entender por que, no Brasil, a paciência custa particularmente caro.1

Conexões com outros capítulos. O leitor que estudou o Capítulo 3 (preferências e utilidade) reconhecerá aqui a mesma lógica de otimização sob restrição — agora aplicada a consumo em diferentes períodos de tempo. O Capítulo 7 (incerteza) fornece a base para a precificação de ativos arriscados e o fator de desconto estocástico. O Capítulo 8 (economia comportamental) introduziu o desconto hiperbólico e a inconsistência temporal, que contrastam com o desconto exponencial do modelo de Fisher. Os capítulos de equilíbrio geral (14–15) estenderam a análise para múltiplos mercados simultâneos; aqui, focamos na dimensão temporal dessa interação. Finalmente, o Capítulo 17 (mercados de fatores) analisou a remuneração do trabalho e da terra — este capítulo completa a análise dos mercados de fatores examinando a remuneração do capital.


Roteiro do Capítulo

Seção Pergunta-guia O que você vai aprender Página
18.1 De onde vêm as máquinas — e quanto rendem? Capital físico, taxa de retorno Capital
18.2 O que determina o preço da impaciência? Determinação da taxa de juros Juros
18.3 Gastar agora ou guardar para janeiro? Modelo de Fisher, escolha intertemporal Fisher
18.4 Qual é a diferença entre o juro que você vê e o que você sente? Juro nominal vs. real, efeito Fisher Inflação
18.5 Quanto vale uma promessa incerta de pagamento futuro? Precificação de ativos, valor presente Ativos
18.6 O forno novo compensa mais que o CDB? Valor presente líquido (VPL) VPL
18.7 O projeto rende quanto por cento ao ano? Taxa interna de retorno (TIR) TIR
18.8 Mais um caminhão ou deixa o dinheiro no banco? Demanda por capital, custo de uso Demanda K
18.9 Por que Einstein chamou juros compostos de oitava maravilha? Juros compostos e tempo contínuo Compostos
18.10 Como colocar todos os números na mesa para decidir? VPL aplicado, taxa de desconto Decisão
18.11 Extrair petróleo hoje ou deixar no solo para amanhã? Regra de Hotelling, recursos exauríveis Hotelling
Exercícios Teste, pratique, resolva Revisão, exercícios, ANPEC Exercícios
Pesquisa O que a pesquisa recente diz? Artigos seminais e fronteira empírica Pesquisa

Atividade em Sala: O Leilão do Futuro — Desconto Intertemporal e Viés pelo Presente

Objetivo pedagógico: Revelar experimentalmente o desconto hiperbólico e o viés pelo presente, contrastando decisões intertemporais com o modelo exponencial de Fisher.

Materiais: Cartões de decisão impressos (um por aluno), planilha projetada para registrar respostas, cronômetro.

Formato: 3 rodadas × 8 min cada + 12 min debrief = 36 min


Rodada 1 — Desconto puro (8 min)

  • Cada aluno recebe um cartão com 5 pares de escolhas intertemporais:
    • R$ 100 hoje ou R$ 110 em 1 mês
    • R$ 100 hoje ou R$ 120 em 1 mês
    • R$ 100 hoje ou R$ 150 em 1 mês
    • R$ 100 hoje ou R$ 200 em 1 mês
    • R$ 100 hoje ou R$ 500 em 1 mês
  • Alunos marcam suas escolhas individualmente (sem discussão).
  • Previsão: A maioria troca a partir de algum valor — revelando sua taxa de desconto implícita.

Rodada 2 — Teste de consistência temporal (8 min)

  • Agora os mesmos pares, mas deslocados no tempo:
    • R$ 100 em 12 meses ou R$ 110 em 13 meses
    • R$ 100 em 12 meses ou R$ 120 em 13 meses
    • (mesma estrutura)
  • Previsão: Muitos alunos que preferiram R$ 100 hoje a R$ 110 em 1 mês agora preferem esperar R$ 110 em 13 meses a receber R$ 100 em 12 meses. Isso é inconsistência temporal — o modelo exponencial de Fisher prevê escolhas idênticas.

Rodada 3 — Leilão de projetos de investimento (8 min)

  • O professor apresenta 3 "projetos" com fluxos de caixa diferentes (curto prazo vs. longo prazo). Grupos de 4 alunos negociam qual projeto "comprar" dado um orçamento limitado.
  • Projete a tabela de VPL para diferentes taxas de desconto.
  • Previsão: Grupos com viés pelo presente escolhem projetos de retorno rápido; grupos mais pacientes investem no longo prazo.

Debrief (12 min)

  1. Projete o histograma de taxas de desconto implícitas da Rodada 1.
  2. Compare respostas das Rodadas 1 e 2: "Quantos de vocês mudaram de opinião?" → isso é desconto hiperbólico.
  3. "O modelo de Fisher assume consistência temporal. Vocês foram consistentes? O que isso implica para políticas como previdência obrigatória?"
  4. Conecte com Laibson (1997) e o design de nudges (opt-in vs. opt-out em planos de previdência).


  1. A Santa Granada de Mão de Antioquia, em Monty Python e o Santo Graal, vem com instruções precisas: "Primeiro, tirarás o pino sagrado. Então, contarás até três. Nem mais, nem menos. Três será o número que contarás, e o número da contagem será três." A regra do VPL tem uma precisão semelhante: primeiro, identifica os fluxos de caixa. Então, desconta à taxa apropriada. Nem taxa nominal quando deveria ser real, nem taxa real quando deveria ser nominal. A taxa será a correta, e a taxa correta será a taxa. Confundir as duas — como confundir três com cinco — pode fazer o projeto explodir na sua cara.