Capítulo 22 — RCTs, Diff-in-Diff e Outras Siglas que Mudaram a Economia¶
Se a microeconomia é uma ciência, onde estão os experimentos? Durante a maior parte do século XX, a resposta era desanimadora: economistas observavam o mundo, construíam modelos elegantes, mas raramente testavam suas previsões em ambientes controlados. A economia era considerada uma ciência observacional, como a astronomia — incapaz de manipular variáveis para identificar relações causais. Essa limitação não era apenas metodológica; era conceitual. Se não podemos realizar experimentos controlados, como distinguir correlação de causalidade? Como saber se o salário mínimo causa desemprego, ou se ambos respondem a um terceiro fator? Como testar se as pessoas realmente maximizam utilidade, ou se os leilões de fato convergem ao equilíbrio previsto pela teoria?1
A economia experimental nasceu para responder essas perguntas. Em pouco mais de meio século, a disciplina passou de curiosidade marginal a ferramenta central da pesquisa econômica, premiada com três Prêmios Nobel (2002, 2019, 2021) e adotada por governos, ONGs e empresas em todo o mundo. Este capítulo complementa o Capítulo 8 (Economia Comportamental), que tratou dos resultados — os vieses e heurísticas que desafiam o modelo do agente racional. Aqui, o foco está nos métodos: como economistas desenham, conduzem e interpretam experimentos para testar teorias e avaliar políticas públicas.
O capítulo percorre quatro grandes tradições experimentais. Os experimentos de laboratório (Seção 22.2), herdeiros do trabalho pioneiro de Vernon Smith, trazem participantes a ambientes controlados com incentivos monetários reais para testar previsões teóricas — dos jogos do ultimato ao leilão de dupla. Os experimentos de campo (Seção 22.3) levam o controle experimental ao mundo real, preservando o contexto natural das decisões econômicas. Os ensaios controlados randomizados (RCTs, Seção 22.4), popularizados pelo J-PAL de Banerjee e Duflo, avaliam políticas públicas em larga escala com a mesma lógica dos ensaios clínicos na medicina. E os experimentos naturais (Seção 22.5) exploram variações exógenas que a história ou a política proporcionam, permitindo inferência causal sem manipulação experimental deliberada — a "revolução da credibilidade" que transformou a econometria aplicada.
A cada etapa, conectamos a metodologia experimental com os modelos teóricos desenvolvidos ao longo do livro: teoria dos jogos (Capítulos 9a–9d), bens públicos (Capítulo 20), mercado de trabalho (Capítulo 17), leilões (Capítulo 9c), informação assimétrica (Capítulo 19) e economia comportamental (Capítulo 8). O resultado é uma visão integrada de como a microeconomia moderna produz conhecimento — combinando teoria formal, evidência empírica e desenho institucional.
A literatura acadêmica sobre economia experimental é vasta. As referências centrais são Smith (1962) para o leilão de dupla e a teoria do valor induzido, Harrison e List (2004) para a taxonomia de experimentos de campo, Banerjee, Duflo e Kremer (trabalhos diversos) para RCTs em desenvolvimento, Card e Krueger (1994) para experimentos naturais, e Camerer et al. (2016) para a crise de replicação. Para tratamentos de livro-texto, ver Kagel e Roth (1995), Friedman e Cassar (2004) e Duflo, Glennerster e Kremer (2007).
Roteiro do Capítulo¶
| Seção | Pergunta-guia | O que você vai aprender | Página |
|---|---|---|---|
| 22.1 | Por que testar a teoria com dados de laboratório? | Motivação para economia experimental | Por que experimentar |
| 22.2 | O que acontece quando colocamos humanos reais num jogo de mercado? | Experimentos de laboratório, Vernon Smith | Laboratório |
| 22.3 | Dá para fazer experimento fora do laboratório — no mundo real? | Experimentos de campo, validade externa | Campo |
| 22.4 | Sorteio é a melhor maneira de medir impacto? | RCTs, Duflo-Banerjee, avaliação de políticas | RCTs |
| 22.5 | Quando a natureza faz o experimento por nós? | Experimentos naturais, DiD, RD | Naturais |
| 22.6 | Como desenhar mecanismos que revelam preferências verdadeiras? | Mecanismos experimentais, BDM, leilão de Vickrey | Mecanismos |
| 22.7 | O que o experimento não consegue responder? | Limites, validade interna vs. externa, controvérsias | Limites |
| Exercícios | Teste, pratique, resolva | Revisão, exercícios, ANPEC | Exercícios |
| Pesquisa | O que a pesquisa recente diz? | Artigos seminais e fronteira empírica | Pesquisa |
Atividade de Sala — Leilão de Dupla ao Vivo
Formato: Experimento de mercado (pit market) à la Vernon Smith Duração: 40–50 minutos (10 preparação + 20 rodadas + 10 debrief) Material: Fichas coloridas (azul = compradores, vermelha = vendedores), quadro para registro de preços.
Preparação (10 min):
- Divida a turma em dois grupos iguais: Compradores e Vendedores.
- Cada Comprador recebe uma ficha azul com um valor de resgate secreto (e.g., R$ 4, R$ 8, R$ 12, R$ 16, R$ 20 — distribuídos aleatoriamente).
- Cada Vendedor recebe uma ficha vermelha com um custo de produção secreto (e.g., R$ 2, R$ 6, R$ 10, R$ 14, R$ 18).
- Explique: "Compradores, vocês ganham (valor − preço pago) se comprarem. Vendedores, vocês ganham (preço recebido − custo) se venderem. Ninguém é obrigado a negociar."
- Desenhe no quadro as curvas de oferta e demanda teóricas (que os alunos não conhecem), marcando o preço e a quantidade de equilíbrio.
Fase 1 — Negociação livre (rodadas 1–3, 10 min):
- Compradores e vendedores circulam pela sala e negociam bilateralmente.
- Cada transação é registrada no quadro (preço e identidades).
- Resultado esperado: Preços dispersos, eficiência baixa (~70–80%). Replica o resultado de Chamberlin (1948).
Fase 2 — Leilão de dupla (rodadas 4–8, 10 min):
- Mude o mecanismo: compradores anunciam lances ("compro por R$ X!") e vendedores anunciam ofertas ("vendo por R$ Y!"). Transação ocorre quando um lance iguala ou supera uma oferta.
- Registre cada transação no quadro.
- Resultado esperado: Preços convergem para o equilíbrio competitivo em 2–3 rodadas. Eficiência sobe para 95%+. Replica o resultado de Smith (1962).
Debrief (10 min):
- Revele as curvas de oferta e demanda teóricas. Compare com os preços observados.
- Pergunte: "Por que a Fase 2 convergiu e a Fase 1 não?" → O mecanismo importa (transparência de preços, competição aberta).
- Pergunte: "Alguém com custo alto vendeu? Alguém com valor baixo comprou?" → Seleção pelo mercado.
- Pergunte: "Quantas transações deveriam ter ocorrido? Quantas de fato ocorreram?" → Eficiência de mercado.
- Conecte com: equilíbrio competitivo (Cap. 13), teoria do valor induzido (Seção 22.2), e a questão de por que mercados funcionam com tão poucos participantes.
Conexão com o capítulo: Seções 22.1 (motivação), 22.2 (valor induzido e leilão de dupla). Inspirado em Smith (1962) e Holt (2007, Cap. 1).
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"Nobody expects the Spanish Inquisition!" No célebre sketch de Monty Python, toda vez que alguém faz uma pergunta difícil, os inquisidores irrompem pela porta com uma lista de "armas" que muda a cada aparição — surpresa, medo, eficiência implacável... e "an almost fanatical devotion to the Pope". A economia experimental opera sob lógica semelhante: toda vez que um economista assume que uma hipótese-chave é satisfeita ("exogeneidade!", "preferências estáveis!", "informação perfeita!"), um experimentalista irrompe pela porta com dados mostrando que a hipótese falha. Nobody expects the exogeneity assumption to hold! — e a lista de armas do experimentalista (RCTs, diff-in-diff, RDD, IV) também muda conforme a situação. ↩