Skip to content

Capítulo 20 — Fumaça, Caronas e Tragédias

Seu vizinho resolve criar galos. Às 5h da manhã, o canto ecoa pelo quarteirão — e o preço do imóvel ao lado despenca. O vizinho não pagou nada por isso. O mercado de galos funcionou perfeitamente; o mercado de noites bem dormidas, não. Bem-vindo ao mundo das externalidades — onde o prejuízo de um não aparece na conta de ninguém.1

Nos capítulos anteriores, demonstramos que mercados competitivos com informação completa conduzem a alocações Pareto-eficientes — o resultado central dos Teoremas do Bem-Estar. Entretanto, essa conclusão depende criticamente da hipótese de que todas as interações entre agentes econômicos ocorrem via mecanismo de preços. Quando as ações de um agente afetam diretamente o bem-estar de outros fora do sistema de preços, surgem as externalidades — e a alocação de mercado deixa de ser eficiente.

Da mesma forma, certos bens possuem características que tornam o mecanismo de mercado inadequado para sua provisão: bens não-rivais e não-excludentes — os chamados bens públicos — tendem a ser subprovidos pelo mercado devido ao problema do carona (free rider).

Este capítulo analisa essas duas importantes falhas de mercado e discute as principais soluções propostas pela teoria econômica: impostos pigouvianos, o Teorema de Coase, mercados de permissão de emissão, preços de Lindahl e mecanismos de revelação de preferências. Essas questões assumem importância crescente no debate sobre políticas ambientais, saúde pública e infraestrutura.

A análise de externalidades e bens públicos tem raízes profundas na história do pensamento econômico. Já Alfred Marshall, nos Principles of Economics (1890), reconhecia a existência de "economias externas" — benefícios que a atividade de uma firma gerava para outras firmas ou para a sociedade sem compensação pelo mercado. Contudo, foi Arthur Cecil Pigou quem, em The Economics of Welfare (1920), sistematizou a análise das externalidades como divergência entre custo privado e custo social, propondo a intervenção fiscal como mecanismo de correção. Quatro décadas depois, Ronald Coase (1960) desafiou a prescrição pigouviana, argumentando que a negociação privada poderia, sob certas condições, alcançar a eficiência sem intervenção estatal. Esse debate Pigou–Coase permanece no centro da economia ambiental e da análise econômica do direito até hoje. Do lado dos bens públicos, a contribuição seminal de Paul Samuelson (1954) formalizou a condição de eficiência que distingue radicalmente bens públicos de bens privados, inaugurando a moderna teoria da economia do setor público.


Roteiro do Capítulo

Seção Pergunta-guia O que você vai aprender Página
20.1 Quando a ação de um afeta o bem-estar de outro sem passar pelo mercado? Definição e tipologia de externalidades Externalidades
20.2 Por que a poluição é excessiva se ninguém paga por ela? Externalidades e ineficiência alocativa Ineficiência
20.3 Como medir o custo social de uma externalidade? Modelo de equilíbrio parcial com externalidade Modelo
20.4 Imposto, negociação ou regulação — o que resolve melhor? Pigou, Coase, cap-and-trade Soluções
20.5 O que torna um bem "público" — e por que o mercado falha em provê-lo? Não rivalidade, não exclusibilidade Bens públicos
20.6 Quanto de bem público a sociedade deveria produzir? Condição de Samuelson, soma vertical Alocação
20.7 Existe um preço personalizado que faz todo mundo pagar pelo que valoriza? Preços de Lindahl Lindahl
20.8 Por que todo mundo quer pegar carona e ninguém quer pagar? Free-rider, provisão voluntária Carona
20.9 A maioria vota bem — ou vota mal? Votação, teorema do eleitor mediano Votação
20.10 Como fazer as pessoas revelarem quanto realmente valorizam o bem público? Mecanismos de revelação, VCG Revelação
Exercícios Teste, pratique, resolva Revisão, exercícios, ANPEC Exercícios
Pesquisa O que a pesquisa recente diz? Artigos seminais e fronteira empírica Pesquisa

Atividade de Sala — Jogo de Bens Públicos (Contribuição Voluntária)

Formato: Experimento de contribuição voluntária com e sem punição Duração: 40–45 minutos (20 rodadas + 15 debrief + 10 discussão) Material: Fichas ou moedas (10 por aluno), quadro para registrar contribuições.

Preparação (5 min):

  • Divida a turma em grupos de 4–5 alunos.
  • Cada aluno recebe 10 fichas por rodada.
  • Regra: cada ficha mantida rende 1 ponto ao aluno. Cada ficha contribuída ao "fundo público" do grupo rende 0,4 pontos para cada membro do grupo (incluindo o contribuidor).
  • Com 5 membros, o retorno social de 1 ficha contribuída = 5 × 0,4 = 2,0 > 1,0 (custo privado). Contribuir é socialmente eficiente. Mas individualmente, contribuir 1 ficha retorna apenas 0,4 para o contribuidor — menos que manter (1,0). Free-riding é individualmente racional.

Fase 1 — Sem punição (rodadas 1–8, 10 min):

  • Cada rodada: alunos decidem secretamente quantas fichas contribuir (0–10).
  • O professor soma as contribuições, calcula o retorno e registra no quadro.
  • Resultado esperado: Contribuições começam em 40–60% e caem para 10–20% até a rodada 8. O free-riding emerge.

Fase 2 — Com punição (rodadas 9–16, 10 min):

  • Nova regra: após a revelação, cada aluno pode gastar 1 ficha para retirar 3 fichas de outro membro (punição).
  • Resultado esperado: Contribuições sobem para 60–90%. Free-riders são punidos. Cooperação se sustenta (Fehr & Gächter, 2000).

Fase 3 — Com comunicação (rodadas 17–20, 5 min, opcional):

  • Permita 2 min de conversa antes de cada rodada.
  • Resultado esperado: Contribuições próximas de 100%. Comunicação é poderosamente eficaz (Ostrom et al., 1992).

Debrief (15 min):

  1. Plote as contribuições médias por rodada no quadro. Identifique os padrões.
  2. Pergunte: "Por que as contribuições caíram sem punição?" → Problema do carona (Seção 20.8).
  3. Pergunte: "Por que a punição funciona, mesmo sendo custosa para quem pune?" → Punição altruísta, normas sociais.
  4. Pergunte: "O que muda quando vocês podem conversar?" → Compromissos, reputação (Ostrom).
  5. Conecte: condição de Samuelson (retorno social > custo), subprovisão (Nash), Lindahl (preços personalizados).

Conexão com o capítulo: Seções 20.5–20.8. O experimento segue Fehr & Gächter (2000) e Holt (2007, Cap. 23).


  1. "What have the Romans ever done for us?" Em A Vida de Brian, os rebeldes tentam enumerar motivos para odiar os romanos — mas só conseguem listar bens públicos: aquedutos, estradas, saneamento, irrigação, saúde pública, educação, vinho, ordem pública e a paz. A cena é a melhor análise custo-benefício de bens públicos já filmada. O líder do grupo, frustrado, repete a pergunta — e a cada repetição alguém lembra de mais um benefício. É a condição de Samuelson em ação: a soma dos benefícios marginais (aqueduto + estrada + saneamento + ...) excede claramente o custo marginal (a ocupação romana). Até os rebeldes, relutantemente, concordam. "All right, but apart from the sanitation, the medicine, education, wine, public order, irrigation, roads, a fresh water system, and public health, what have the Romans ever done for us?"