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Jogadores, Estratégias e o Dilema dos Prisioneiros

9a.1 As Regras do Tabuleiro: Jogadores, Estratégias e Payoffs

Antes de jogar, precisamos aprender as regras. A teoria dos jogos exige uma descrição completa do ambiente: quem joga, o que cada um pode fazer, e o que cada combinação de ações rende para cada jogador. Parece burocrático, mas é libertador — uma vez que o jogo está bem definido, a análise se torna mecânica. Duas representações capturam essa informação: a forma normal (uma tabela, ideal para jogos simultâneos como os deste capítulo) e a forma extensiva (uma árvore, ideal para jogos sequenciais do Módulo 9b).

Jogo na forma normal (ou estratégica)

Um jogo na forma normal é definido pela tripla \(\Gamma = \langle N, (S_i)_{i \in N}, (u_i)_{i \in N} \rangle\), onde:

  • \(N = \{1, 2, \ldots, n\}\) é o conjunto finito de jogadores.
  • \(S_i\) é o conjunto de estratégias disponíveis para o jogador \(i\). O perfil de estratégias é \(s = (s_1, s_2, \ldots, s_n) \in S = S_1 \times S_2 \times \cdots \times S_n\).
  • \(u_i: S \to \mathbb{R}\) é a função de payoff (utilidade) do jogador \(i\), que associa a cada perfil de estratégias um resultado para \(i\).

Jogo na forma extensiva

Um jogo na forma extensiva é representado por uma árvore de decisão que especifica:

  • A ordem cronológica das jogadas.
  • Os conjuntos de informação de cada jogador (o que cada um sabe quando decide).
  • As ações disponíveis em cada nó de decisão.
  • Os payoffs nos nós terminais.
  • A distribuição de probabilidade nos nós da natureza (se houver).

A forma extensiva é especialmente útil para jogos sequenciais (Módulo 9b) e jogos com informação imperfeita.

Com essas duas representações em mãos, podemos definir os conceitos que serão utilizados ao longo de todo o capítulo. Quais são os ingredientes mínimos que um jogador racional precisa considerar ao tomar uma decisão? A resposta passa pelas noções de estratégia, dominância e melhor resposta. É importante distinguir o conceito de estratégia do conceito de ação: em jogos estáticos as duas noções coincidem, mas em jogos dinâmicos (Módulo 9b) uma estratégia é um plano completo que especifica a ação do jogador em cada nó de decisão — inclusive aqueles que não são alcançados no equilíbrio. Essa distinção, aparentemente pedante, tem consequências profundas para o refinamento de equilíbrios.

🔑 Conceitos auxiliares

  • Estratégia pura: uma escolha determinística de ação, \(s_i \in S_i\).
  • Estratégia mista: uma distribuição de probabilidade sobre as estratégias puras, \(\sigma_i \in \Delta(S_i)\).
  • Estratégia dominante: \(s_i^*\) é (estritamente) dominante se \(u_i(s_i^*, s_{-i}) > u_i(s_i, s_{-i})\) para todo \(s_i \neq s_i^*\) e todo \(s_{-i} \in S_{-i}\).
  • Estratégia dominada: \(s_i\) é dominada se existe \(s_i'\) tal que \(u_i(s_i', s_{-i}) > u_i(s_i, s_{-i})\) para todo \(s_{-i}\).
  • Notação \(s_{-i}\): perfil de estratégias de todos os jogadores exceto \(i\), ou seja, \(s_{-i} = (s_1, \ldots, s_{i-1}, s_{i+1}, \ldots, s_n)\).

Estratégia Dominante

A estratégia \(s_i^* \in S_i\) é estritamente dominante para o jogador \(i\) se, para toda estratégia alternativa \(s_i \in S_i\) com \(s_i \neq s_i^*\) e para todo perfil de estratégias dos demais jogadores \(s_{-i} \in S_{-i}\):

\[ u_i(s_i^*, s_{-i}) > u_i(s_i, s_{-i}) \]

Ou seja, \(s_i^*\) é estritamente ótima independentemente do que os outros jogadores façam. Um jogador racional sempre joga sua estratégia dominante quando ela existe — e, se todos os jogadores têm estratégia dominante, a solução do jogo é trivial.

A estratégia dominante é fracamente dominante se a desigualdade for \(\geq\) (em vez de \(>\)) e estrita em ao menos um perfil \(s_{-i}\).

Eliminação Iterada de Estratégias Dominadas (EIED)

A noção de dominância já sugere um primeiro método de solução. Se um jogador racional jamais escolheria uma estratégia estritamente dominada, e se todos sabem que todos são racionais (e que todos sabem que todos são racionais, ad infinitum — a condição de conhecimento comum de racionalidade), então é possível eliminar essas estratégias e simplificar o jogo. Repetindo esse raciocínio — agora no jogo reduzido — chega-se ao procedimento de Eliminação Iterada de Estratégias Estritamente Dominadas (EIED).

Este é um procedimento de solução que não requer o conceito de equilíbrio: elimine, iterativamente, as estratégias estritamente dominadas de cada jogador. O conjunto de estratégias que sobrevive a todas as rodadas de eliminação é o conjunto de estratégias racionalizáveis. Quando a EIED leva a um único perfil de estratégias, dizemos que o jogo é dominância-solucionável — o resultado decorre apenas da hipótese de racionalidade sem necessidade de coordenação de expectativas. O Dilema dos Prisioneiros é o exemplo canônico: trair domina cooperar para ambos os jogadores, e a EIED resolve o jogo em uma única rodada. Nos mercados financeiros, esse raciocínio embasou a crítica de Milgrom e Stokey (1982) ao paradoxo do não-comércio: se os preços de mercado revelam informação, é difícil que ambos os lados de uma transação acreditem, simultaneamente, estar em vantagem.

Ordem de eliminação

Para estratégias estritamente dominadas, o resultado da EIED independe da ordem de eliminação. Para estratégias fracamente dominadas, a ordem pode afetar o conjunto sobrevivente — um resultado frequentemente cobrado em provas da ANPEC.


9a.2 Por Que Mafiosos Confessam: O Dilema dos Prisioneiros

Com a linguagem formal estabelecida, podemos agora examinar os jogos que deram forma à teoria. Começamos pelo mais influente de todos — um jogo tão simples que pode ser descrito em uma frase, mas tão profundo que suas implicações permeiam a economia, a ciência política e a biologia.

O Dilema dos Prisioneiros é possivelmente o jogo mais célebre da teoria dos jogos. A história da sua criação é ela mesma fascinante: formulado em 1950 por Merrill Flood e Melvin Dresher no laboratório RAND, e batizado pelo matemático Albert Tucker (orientador de Nash) ao apresentá-lo para uma plateia de psicólogos em Stanford, o Dilema dos Prisioneiros captura, com elegância mínima, a tensão estrutural entre interesse individual e bem coletivo. Dois suspeitos são interrogados separadamente e cada um pode cooperar (ficar calado) ou trair (delatar o outro). A narrativa da prisão é apenas um disfarce: a mesma estrutura de payoffs aparece na corrida armamentista entre países, na concorrência predatória entre firmas, na tragédia dos comuns e na guerra fiscal entre estados brasileiros. É precisamente essa universalidade que torna o Dilema dos Prisioneiros o caso de teste obrigatório para qualquer teoria de comportamento estratégico.

Jogador 2: Cooperar Jogador 2: Trair
Jogador 1: Cooperar \((-1, -1)\) \((-10, 0)\)
Jogador 1: Trair \((0, -10)\) \((-5, -5)\)

Tabela 9a.1 — Dilema dos Prisioneiros.

A estrutura de payoffs satisfaz: \(T > R > P > S\) (onde \(T\) = tentação, \(R\) = recompensa mútua, \(P\) = punição, \(S\) = sucker's payoff), com a condição adicional \(2R > T + S\). Essa parametrização não é arbitrária: a desigualdade \(T > R\) garante que trair seja tentador quando o outro coopera; \(R > P\) garante que a cooperação mútua seja preferível à traição mútua; e \(P > S\) garante que ser traído enquanto se coopera é o pior resultado possível. A condição \(2R > T + S\) assegura que a cooperação mútua gera mais valor total do que a alternância entre traição e cooperação.

Cada jogador tem uma estratégia estritamente dominante: Trair. O equilíbrio (Trair, Trair) com payoffs \((-5, -5)\) é o único equilíbrio de Nash, mas é Pareto-dominado pelo resultado (Cooperar, Cooperar) com payoffs \((-1, -1)\). Essa tensão entre racionalidade individual e eficiência coletiva é o cerne do dilema. Vale notar que o resultado (Cooperar, Cooperar), embora superior para ambos, não é um equilíbrio de Nash: cada jogador teria incentivo unilateral para desviar e trair. O equilíbrio de Nash é um ponto de estabilidade — ninguém deseja mover-se sozinho — mas estabilidade não implica eficiência.

⚠️ Erro Comum

Supor que o equilíbrio de Nash é sempre eficiente (Pareto-ótimo). O Dilema dos Prisioneiros demonstra, de forma definitiva, que o equilíbrio de Nash pode ser Pareto-dominado: existe outro resultado factível em que todos os jogadores estão melhor, mas esse resultado não é sustentável pela racionalidade individual.

Em linguagem econômica: o equilíbrio de Nash é uma condição de estabilidade (ninguém quer desviar unilateralmente), não de eficiência (ninguém poderia estar melhor sem prejudicar alguém). As duas propriedades coincidem em mercados perfeitamente competitivos (Primeiro Teorema do Bem-Estar, Capítulo 7), mas divergem em situações de externalidades, poder de mercado ou interação estratégica. A distinção importa na prática: reguladores como o CADE, ao reprimir cartéis, estão precisamente forçando a transição de um equilíbrio de Nash eficiente para as firmas (conluio) para um equilíbrio menos lucrativo para elas, mas superior do ponto de vista do bem-estar social.

Outros exemplos de EN Pareto-dominados: corrida armamentista entre nações (ambas estariam melhor sem armas, mas nenhuma quer desarmar sozinha), propaganda excessiva em mercados oligopolísticos (anular a publicidade do rival é sempre dominante, mesmo que ambas as firmas preferissem cortar gastos de marketing), e tragédia dos comuns na exploração de recursos pesqueiros.

Intuição Econômica

Em uma frase: No Dilema dos Prisioneiros, cada um faz o melhor para si e o resultado é ruim para todos.

Pense assim: Dois quiosques vizinhos na praia de Copacabana poderiam manter preços altos e lucrar bem. Mas cada um pensa: "se eu baixar o preço, roubo os clientes do vizinho". Ambos baixam, ambos lucram menos — e nenhum consegue voltar atrás sozinho.

Por que isso importa: A guerra fiscal entre estados brasileiros, os cartéis de postos de gasolina e o desmatamento da Amazônia são versões reais desse dilema — situações em que o interesse individual corrói o bem coletivo. A repetição do jogo (Módulo 9b) e o desenho institucional são os mecanismos para escapar da armadilha.

Figura 9a.1 — Matriz de payoffs e equilíbrio de Nash. Edite os payoffs ou selecione um jogo clássico (Dilema dos Prisioneiros, Batalha dos Sexos, Hawk-Dove, Matching Pennies). O solver detecta estratégias dominantes, equilíbrios de Nash em puras e mistas.

Brasil na Prática — Operação Lava Jato: o dilema do prisioneiro na delação premiada

Contexto. A Operação Lava Jato (2014–2021) utilizou extensivamente a colaboração premiada (Lei 12.850/2013), em que réus recebem redução de pena em troca de informação sobre co-conspiradores. A estrutura é exatamente um dilema dos prisioneiros: dois executivos acusados de corrupção, interrogados separadamente, devem decidir se colaboram (delatam) ou permanecem calados.

Payoffs estilizados. Suponha dois executivos da empreiteira, A e B:

B: Calar B: Delatar
A: Calar (−5, −5) — pena média (−15, −1)
A: Delatar (−1, −15) — A sai leve (−8, −8) — ambos delatam

Se ambos calam, a investigação tem menos provas (pena intermediária). Se um delata e o outro cala, o delator recebe grande redução; o calado recebe pena máxima. Se ambos delatam, as provas se acumulam, mas ambos recebem benefício parcial. Delatar é estratégia dominante — exatamente como no modelo. Resultado: ~180 acordos de delação até 2019.

Conexão com a teoria. O mecanismo da delação premiada é um design de mecanismos (Capítulo 9c) que explora a estrutura do dilema do prisioneiro: cria um incentivo individual tão forte para delatar que a cooperação entre criminosos se torna insustentável. É Trair como equilíbrio de Nash — mas agora a "traição" serve ao interesse público.

Fonte: MPF, Caso Lava Jato — Resultados, 2021; Lei 12.850/2013 (Lei das Organizações Criminosas).

Brasil na Prática — Licitações públicas e conluio: o jogo se repete

Contexto. O CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) investiga regularmente cartéis em licitações públicas, onde empresas coordenam lances para garantir preços altos. Entre 2006 e 2024, o CADE condenou cartéis em licitações de obras públicas (metrô de SP, Petrobras), material hospitalar, ambulâncias e merenda escolar.

A estrutura do jogo. Em uma licitação de menor preço, \(N\) empresas decidem simultaneamente seus lances. Sem conluio, a competição à la Bertrand (Seção 9a.5) levaria o preço para o custo marginal. Com conluio, as empresas designam um "vencedor" que cobra preço alto, e as demais apresentam propostas "de fachada" (lance de cobertura). A divisão do sobrepreço é combinada em rodízio ao longo de múltiplas licitações — um jogo repetido (Módulo 9b) sustentado pelo folk theorem.

Dados. No cartel do metrô de São Paulo (2013), seis construtoras combinaram lances por mais de uma década. O sobrepreço estimado foi de 20–30% em obras que totalizaram R$ 7+ bilhões. A multa aplicada pelo CADE totalizou R$ 534 milhões. No cartel de ambulâncias (2022), 14 empresas dividiram licitações em 14 estados por 8 anos.

Fonte: CADE, Relatório de Gestão, 2024; TCU, Relatórios de auditoria em licitações.

O Dilema dos Prisioneiros não é, contudo, o único arquétipo de interação estratégica. Diferentes configurações de payoffs capturam problemas econômicos fundamentalmente distintos — coordenação, anti-coordenação, competição pura. A Tabela 9a.2 sistematiza os jogos clássicos que servirão de referência ao longo dos quatro módulos de teoria dos jogos.

Taxonomia dos Jogos Clássicos

Jogo Payoffs (genéricos) EN em puras EN em mistas Característica Aplicação
Dilema dos Prisioneiros \(T > R > P > S\); \(2R > T+S\) (Trair, Trair) — único Dominância estrita; ineficiência Cartéis, corrida armamentista
Batalha dos Sexos Coordenação com preferências divergentes (F,F) e (C,C) Sim — ver Seção 9a.4 Múltiplos equilíbrios Padrões tecnológicos
Hawk-Dove \(V>0\), \(C > V\) (H,D) e (D,H) \(p_H = V/C\) Anti-coordenação Disputas territoriais
Coordenação Pura Payoffs altos na diagonal (A,A) e (B,B) Sim (instável) Seleção de equilíbrio Convenções sociais
Matching Pennies Soma zero; interesses opostos Nenhum \((1/2, 1/2)\) cada Jogo estritamente competitivo Estratégias militares, esportes

Tabela 9a.2 — Taxonomia dos jogos clássicos.

R Interativo — Simulação do Dilema dos Prisioneiros Repetido

Simule um torneio entre estratégias clássicas no Dilema dos Prisioneiros repetido (à la Axelrod, 1984). Compare tit-for-tat, always cooperate, always defect, grim trigger e random.

# Torneio do Dilema dos Prisioneiros Repetido
set.seed(42)
n_rodadas <- 50

# Payoffs: (R, R) = (3,3); (T, S) = (5,0); (S, T) = (0,5); (P, P) = (1,1)
payoff <- function(a, b) {
  ifelse(a == "C" & b == "C", 3,
    ifelse(a == "C" & b == "D", 0,
      ifelse(a == "D" & b == "C", 5, 1)))
}

# Estratégias
always_c  <- function(hist_me, hist_opp, t) "C"
always_d  <- function(hist_me, hist_opp, t) "D"
tit4tat   <- function(hist_me, hist_opp, t) ifelse(t == 1, "C", hist_opp[t-1])
grim      <- function(hist_me, hist_opp, t) {
  if(t == 1) return("C")
  ifelse(any(hist_opp[1:(t-1)] == "D"), "D", "C")
}
random_s  <- function(hist_me, hist_opp, t) sample(c("C","D"), 1)

estrategias <- list(
  "Tit-for-Tat" = tit4tat, "Always Cooperate" = always_c,
  "Always Defect" = always_d, "Grim Trigger" = grim, "Random" = random_s
)

# Simular duelo
duelo <- function(s1, s2, n) {
  h1 <- h2 <- character(n)
  p1 <- p2 <- numeric(n)
  for(t in 1:n) {
    h1[t] <- s1(h1, h2, t); h2[t] <- s2(h2, h1, t)
    p1[t] <- payoff(h1[t], h2[t]); p2[t] <- payoff(h2[t], h1[t])
  }
  c(sum(p1), sum(p2))
}

# Torneio round-robin
nomes <- names(estrategias)
scores <- setNames(rep(0, 5), nomes)
for(i in 1:5) for(j in 1:5) {
  res <- duelo(estrategias[[i]], estrategias[[j]], n_rodadas)
  scores[i] <- scores[i] + res[1]
}

# Resultado
barplot(sort(scores, decreasing = TRUE), col = "steelblue",
        main = "Torneio Axelrod — Pontuação Total",
        ylab = "Payoff acumulado", las = 2, cex.names = 0.8)
cat("Ranking:\n")
print(sort(scores, decreasing = TRUE))

Experimente: Altere n_rodadas para 5 ou 200. Com poucas rodadas, Always Defect se sai melhor? Com muitas, Tit-for-Tat domina? Essa é a intuição do folk theorem: cooperação emerge quando o futuro importa.