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Pesquisa em Ação — Capítulo 18

🔬 Pesquisa em Ação

Araujo, A.; Ferreira, R.; Funchal, B. (2012). The Brazilian Collateral Reform and Access to Credit. Journal of Corporate Finance, 18(4), 808–827.

Pergunta central: A reforma do sistema de garantias reais no Brasil (Lei 10.931/2004, que instituiu a alienação fiduciária de imóveis) ampliou o acesso ao crédito e reduziu seu custo?

Método: Os autores utilizaram um design de diferenças-em-diferenças, explorando o fato de que a reforma afetou contratos de crédito imobiliário (tratamento) mas não contratos de crédito pessoal sem garantia (controle). Com dados do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central, compararam a evolução do volume e custo do crédito nos dois segmentos antes e depois da reforma.

Resultado principal: A reforma gerou aumento significativo no volume de crédito imobiliário e redução nos spreads bancários. O efeito foi particularmente forte para tomadores de maior risco, sugerindo que a melhoria nas garantias reduziu o racionamento de crédito.

Relevância para o capítulo: O paper ilustra empiricamente como restrições institucionais afetam o mercado de crédito e, por extensão, a capacidade dos agentes de suavizar consumo intertemporalmente (Seção 18.3). A reforma reduziu o custo efetivo do capital para investimentos imobiliários, alterando o VPL de projetos no setor.

Mehra, R.; Prescott, E. C. (1985). The Equity Premium: A Puzzle. Journal of Monetary Economics, 15(2), 145–161.

Pergunta central: O prêmio de risco observado no mercado acionário americano (~6% sobre títulos do governo) é consistente com modelos de agente representativo com aversão ao risco razoável?

Método: Os autores calibraram um modelo de consumo com agente representativo e utilidade CRRA (aversão relativa ao risco constante) usando dados históricos do consumo per capita e retornos de ativos nos EUA (1889–1978). Calcularam o prêmio de risco que o modelo implica para diferentes valores do coeficiente de aversão ao risco.

Resultado principal: Para gerar um prêmio de risco de 6%, o modelo requer um coeficiente de aversão relativa ao risco de ~30–50, valores considerados implausíveis. Com aversão ao risco entre 1 e 10 (faixa considerada razoável), o modelo prevê prêmios de risco de apenas 0,1–0,4%. Esse é o equity premium puzzle.

Relevância para o capítulo: O puzzle conecta-se diretamente à discussão do CAPM e do fator de desconto estocástico (Seção 18.5). Ele motivou décadas de pesquisa sobre preferências não-padrão (formação de hábito, Epstein-Zin) e riscos de cauda (desastres raros), e continua sendo referência central na economia financeira.

Cavalcanti, T. V.; Moura, G. V. (2014). What Are the Effects of Monetary Policy on the Real Economy? Evidence from Brazil. Journal of Development Economics, 108, 152–165.

Pergunta central: Qual é o efeito de choques de política monetária (variações na taxa Selic) sobre variáveis reais como produto, investimento e inflação no Brasil?

Método: Os autores estimaram um VAR estrutural (SVAR) com restrições de sinal para identificar choques de política monetária no Brasil, usando dados mensais de 1999 a 2011. As restrições de sinal são derivadas de um modelo DSGE novo-keynesiano calibrado para a economia brasileira.

Resultado principal: Um choque contracionista de política monetária (aumento inesperado da Selic) reduz o produto e o investimento de forma significativa e persistente. O investimento é a variável real mais sensível: uma elevação de 1 ponto percentual na Selic real reduz o investimento em aproximadamente 2% no acumulado de 12 meses. A inflação responde com defasagem de 6–9 meses.

Relevância para o capítulo: O paper quantifica empiricamente a sensibilidade do investimento à taxa de juros discutida nas Seções 18.8 (demanda por capital) e 18.10 (VPL e taxa de desconto). A elevada elasticidade-juro do investimento no Brasil é consistente com o custo de uso do capital (equação 18.11) e ajuda a explicar por que a taxa de investimento brasileira é cronicamente baixa.

Laibson, D. (1997). Golden Eggs and Hyperbolic Discounting. Quarterly Journal of Economics, 112(2), 443–478.

Pergunta central: Se os agentes apresentam desconto hiperbólico (viés pelo presente), quais são as implicações para a acumulação de riqueza, o consumo e o desenho de instituições de poupança?

Método: Laibson desenvolveu um modelo de consumo intertemporal com preferências quasi-hiperbólicas (\(\beta\delta\)-preferences), em que o agente desconta o futuro próximo mais fortemente que o distante. O modelo gera inconsistência temporal: o agente planeja poupar, mas sempre adia a poupança. Laibson calibrou o modelo com dados do Survey of Consumer Finances e comparou suas previsões com o comportamento observado de acumulação de riqueza.

Resultado principal: O modelo com desconto hiperbólico explica vários fatos estilizados que o modelo exponencial padrão não consegue: (i) a baixa taxa de poupança apesar de altos retornos; (ii) a popularidade de instrumentos de comprometimento (previdência com penalidade por resgate antecipado); (iii) a coexistência de dívida de cartão de crédito com poupança ilíquida. O parâmetro \(\beta \approx 0{,}7\) calibrado nos dados implica que os agentes descontam o próximo período em ~30% a mais do que o desconto exponencial prevê.

Relevância para o capítulo: O paper fundamenta a atividade de sala de aula deste capítulo (teste de consistência temporal) e contrasta com o modelo de Fisher (Seção 18.3). O desconto hiperbólico tem implicações diretas para o desenho de políticas públicas: previdência obrigatória, opt-out em planos de poupança e regulação de crédito consignado são respostas racionais a agentes irracionais.

Bonomo, M.; Brito, R. (2002). Regra de Taylor e Política Monetária no Brasil. Revista Brasileira de Economia, 56(4), 551–589.

Pergunta central: A política monetária do Banco Central do Brasil segue uma regra de Taylor? Se sim, quais são os parâmetros que governam a resposta da Selic à inflação e ao hiato do produto?

Método: Os autores estimaram regras de Taylor forward-looking e backward-looking para o Brasil no período pós-Real (1996–2001), usando dados mensais da taxa Selic, inflação (IPCA) e proxies para o hiato do produto. Testaram diferentes especificações incluindo suavização de juros e resposta a câmbio.

Resultado principal: O Banco Central brasileiro segue uma regra de Taylor com forte inércia (suavização), resposta mais que proporcional à inflação esperada (coeficiente > 1, satisfazendo o "princípio de Taylor") e resposta significativa ao câmbio — refletindo o regime de metas de inflação com câmbio flutuante adotado em 1999.

Relevância para o capítulo: O paper contextualiza a determinação da taxa Selic — o \(r\) do modelo — no arcabouço institucional brasileiro. A forte resposta da Selic à inflação é consistente com o efeito Fisher (Seção 18.4), e a magnitude dos movimentos da Selic ajuda a explicar a volatilidade do custo de uso do capital e do investimento no Brasil.


📚 Referências do Capítulo