Pesquisa em Ação¶
Chiappori, Pierre-André; Salanié, Bernard. (2000). Testing for Asymmetric Information in Insurance Markets. Journal of Political Economy, 108(1), 56–78. DOI: 10.1086/262111
Pergunta central: A teoria prevê que, sob informação assimétrica, indivíduos de maior risco escolhem contratos com mais cobertura (seleção adversa) e/ou reduzem seus cuidados após a contratação (risco moral). Mas essas previsões se verificam empiricamente? Existe, de fato, uma correlação positiva entre cobertura e sinistralidade nos dados reais de seguros?
Método: Chiappori e Salanié propuseram um teste empírico geral: se há informação assimétrica (seja por seleção adversa, risco moral ou ambos), deve existir uma correlação positiva condicional entre a cobertura contratada e a ocorrência de sinistros, mesmo após controlar todas as variáveis observáveis usadas pelas seguradoras na precificação. Utilizaram dados detalhados do mercado francês de seguros de automóvel, com informações sobre contratos, prêmios, características dos condutores e histórico de acidentes.
Resultado principal: Surpreendentemente, os autores não encontraram evidência estatisticamente significativa de correlação positiva entre cobertura e sinistralidade para motoristas jovens e inexperientes — o grupo mais sujeito a assimetria informacional. Esse resultado sugere que as seguradoras são eficazes em usar variáveis observáveis (idade, bônus/malus, localização) para classificar os riscos, reduzindo o escopo residual da informação assimétrica.
Por que isso importa: O artigo inaugurou uma ampla literatura empírica de testes de informação assimétrica em mercados de seguros, saúde, crédito e trabalho. Para o Brasil, a metodologia é diretamente aplicável ao mercado de seguros de automóvel (Box Brasil acima) e ao sistema de saúde suplementar, onde o desenho de contratos com franquias e copagamentos busca mitigar tanto seleção adversa quanto risco moral.
Relevância para o capítulo: O artigo testa empiricamente as previsões teóricas da Seção 7.8. A correlação positiva entre cobertura e risco é uma implicação testável da teoria de informação assimétrica. A ausência dessa correlação em alguns mercados sugere que os mecanismos de triagem (screening) e sinalização funcionam razoavelmente bem — ou que as fontes de heterogeneidade são mais complexas do que o modelo básico prevê.
Mehra, Rajnish; Prescott, Edward C. (1985). The Equity Premium: A Puzzle. Journal of Monetary Economics, 15(2), 145–161. DOI: 10.1016/0304-3932(85)90061-3
Pergunta central: Historicamente, ações renderam cerca de 6 pontos percentuais a mais por ano do que títulos públicos nos Estados Unidos. Essa diferença — o equity premium — pode ser racionalizada pelo modelo padrão de utilidade esperada com aversão ao risco (CRRA)?
Método: Mehra e Prescott calibraram um modelo de equilíbrio geral com agente representativo, utilidade CRRA e consumo estocástico baseado em dados macroeconômicos americanos de 1889 a 1978. Calcularam qual coeficiente de aversão relativa ao risco \(\gamma\) seria necessário para gerar o prêmio de risco observado nos dados.
Resultado principal: Para reproduzir o equity premium observado de aproximadamente 6%, o modelo exigia um coeficiente \(\gamma\) superior a 30 — muito acima das estimativas empíricas plausíveis (tipicamente entre 1 e 10). Com valores razoáveis de \(\gamma\), o modelo previa um prêmio de risco de no máximo 0,35%. Esse hiato entre teoria e dados ficou conhecido como o enigma do prêmio de risco (equity premium puzzle).
Por que isso importa: O puzzle motivou décadas de pesquisa em finanças e macroeconomia, incluindo modelos com formação de hábito, perdas mais salientes que ganhos (aversão à perda), custos de participação no mercado acionário e mercados incompletos. No Brasil, estudos usando dados do Ibovespa e da taxa Selic encontram um equity premium ainda mais elevado do que nos EUA, tornando o enigma ainda mais agudo no contexto brasileiro.
Relevância para o capítulo: O artigo demonstra que as medidas de Arrow-Pratt (Seção 7.4) — em particular o coeficiente de aversão relativa constante \(\gamma\) da utilidade CRRA — têm implicações quantitativas testáveis para os preços dos ativos financeiros. O puzzle revela os limites do modelo VNM padrão (Seção 7.2) e motiva extensões teóricas que relaxam os axiomas clássicos.
Kahneman, Daniel; Tversky, Amos. (1979). Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk. Econometrica, 47(2), 263–291. DOI: 10.2307/1914185
Pergunta central: Os axiomas de Von Neumann e Morgenstern descrevem com precisão como as pessoas realmente tomam decisões sob incerteza? Em particular, o axioma da independência é violado de forma sistemática — e se sim, que teoria alternativa pode explicar os padrões observados?
Método: Kahneman e Tversky conduziram uma série de experimentos com sujeitos humanos, apresentando escolhas hipotéticas entre loterias. Os experimentos foram desenhados para testar sistematicamente se os axiomas VNM são satisfeitos, com atenção especial ao axioma da independência, ao tratamento de probabilidades e à simetria entre ganhos e perdas.
Resultado principal: Os autores documentaram três desvios sistemáticos da teoria VNM: (i) o efeito certeza — as pessoas sobrevalorizam resultados certos em relação a resultados probabilísticos, violando o axioma da independência; (ii) o efeito reflexo — as pessoas exibem aversão ao risco no domínio dos ganhos e propensão ao risco no domínio das perdas; (iii) a aversão à perda — perdas têm peso subjetivo maior do que ganhos de mesma magnitude. Com base nesses achados, propuseram a teoria dos prospectos: uma função de valor côncava sobre ganhos e convexa sobre perdas (com inflexão no ponto de referência) e uma função de ponderação de probabilidades não linear que sobrepesa probabilidades pequenas e subpondera probabilidades grandes.
Por que isso importa: Este é o artigo mais citado da economia, com mais de 80.000 citações segundo o Google Scholar. Ele abriu o campo da economia comportamental e rendeu a Kahneman o Prêmio Nobel de Economia de 2002 (Tversky faleceu em 1996). Para o Brasil, as implicações são diretas: as distorções documentadas por Kahneman e Tversky afetam decisões de poupança e previdência, contratação de seguros, endividamento no crédito rotativo e adesão a programas sociais — todos contextos em que políticas "nudge" (empurrõezinhos) podem corrigir falhas comportamentais de forma custo-efetiva.
Relevância para o capítulo: O artigo desafia diretamente os axiomas VNM da Seção 7.2 e motiva a distinção entre teoria normativa (como agentes deveriam decidir) e descritiva (como eles de fato decidem). A teoria dos prospectos será tratada em detalhe no Capítulo 8; neste capítulo, ela serve como contraponto que reforça a importância de compreender a teoria VNM antes de criticá-la.
Rabin, Matthew. (2000). Risk Aversion and Expected-Utility Theory: A Calibration Theorem. Econometrica, 68(5), 1281–1292. DOI: 10.1111/1468-0262.00158
Pergunta central: Se um agente rejeita uma aposta de pequena escala (digamos, recusar uma aposta de ganhar R$ 110 ou perder R$ 100) em todos os níveis de riqueza, quais são as implicações para sua aversão ao risco em apostas de grande escala? A teoria da utilidade esperada pode acomodar aversão ao risco tanto em pequena quanto em grande escala com um mesmo coeficiente de curvatura?
Método: Rabin demonstrou um resultado matemático puro (um teorema de calibração) sem necessidade de dados: a partir de hipóteses de rejeição de apostas de pequena escala em múltiplos níveis de riqueza, derivou implicações para o prêmio de risco exigido em apostas de grande escala, usando apenas as propriedades matemáticas da utilidade esperada com função crescente e côncava.
Resultado principal: O teorema de Rabin mostra que a teoria da utilidade esperada é internamente inconsistente como teoria descritiva da aversão ao risco: se um agente rejeita a aposta "perder R$ 100 ou ganhar R$ 110, cara ou coroa" para qualquer nível de riqueza abaixo de R$ 300.000, então a mesma função de utilidade implica que ele deveria rejeitar qualquer aposta com perda esperada superior a R$ 1 bilhão — um resultado absurdo. A concavidade global da função de utilidade, necessária para gerar aversão ao risco em pequenas apostas, implica aversão ao risco implausível em apostas grandes. Isso sugere que a aversão ao risco em pequena escala não é bem modelada pela curvatura da utilidade VNM, mas sim por outros mecanismos como aversão à perda (Kahneman e Tversky, 1979).
Por que isso importa: O artigo de Rabin, junto com o de Kahneman e Tversky, é um dos pilares da crítica à teoria VNM como teoria descritiva. Ele demonstra que a teoria VNM e a teoria dos prospectos não são igualmente válidas para todos os tamanhos de aposta: VNM pode ser adequada para riscos de grande escala (decisões de portfólio), mas falha para riscos de pequena escala (onde a aversão à perda domina).
Relevância para o capítulo: O artigo complementa a discussão das medidas de Arrow-Pratt (Seção 7.4) ao mostrar que coeficientes de aversão ao risco estimados a partir de escolhas sobre pequenas apostas não são comparáveis aos estimados de escolhas de portfólio. Para um economista brasileiro que usa dados de loterias ou experimentos de campo para medir preferências de risco de agricultores familiares, essa distinção é fundamental.
Rosenzweig, Mark R.; Binswanger, Hans P. (1993). Wealth, Weather Risk and the Composition and Profitability of Agricultural Investments. The Economic Journal, 103(416), 56–78. DOI: 10.2307/2234337
Pergunta central: Em contextos agrícolas de países em desenvolvimento, como a aversão ao risco e a exposição ao risco climático afetam as decisões de investimento dos agricultores? Em particular: agricultores mais pobres e mais expostos ao risco climático adotam tecnologias de menor risco e menor retorno médio em comparação com agricultores mais ricos?
Método: Os autores utilizaram dados de painel de agricultores na Índia rural (Instituto Internacional de Pesquisa de Culturas para os Trópicos Semi-áridos — ICRISAT), combinando variação nas condições de riqueza e nas realizações climáticas ao longo do tempo. Estimaram a relação entre riqueza, exposição ao risco pluviométrico e composição do portfólio agrícola (culturas de alto risco/alto retorno versus culturas seguras de baixo retorno).
Resultado principal: Os dados confirmam que agricultores mais pobres e mais expostos ao risco climático adotam estratégias de produção significativamente mais conservadoras: cultivam variedades de menor rendimento médio mas maior resistência à seca, investem menos em insumos de alta produtividade e diversificam mais entre culturas do que os agricultores mais ricos. Estimaram que aumentar a riqueza agrícola em 50% elevaria a lucratividade esperada em até 35%, simplesmente por permitir a adoção de tecnologias de maior risco e maior retorno. A exposição ao risco climático, portanto, tem um custo real de eficiência: ela trava os agricultores em equilíbrios de baixa produtividade.
Por que isso importa: Este artigo fornece evidência empírica direta de que a aversão ao risco — modelada nos termos deste capítulo — tem consequências reais para o investimento agrícola e o desenvolvimento econômico. Para o Brasil, onde pequenos e médios produtores representam a maioria das propriedades rurais e onde o risco climático (secas no Nordeste, geadas no Sul, El Niño/La Niña) é uma constante, as conclusões são diretamente relevantes: programas como o Proagro e o PSR não são apenas transferências de renda, mas instrumentos de eficiência que desbloqueiam o potencial produtivo de agricultores que, sem cobertura, preferem seguir a estratégia segura e de baixo retorno.
Relevância para o capítulo: O artigo é a evidência empírica mais influente por trás do argumento teórico da Seção 7.6.1 (seguros como mecanismo de eficiência) e do Box Brasil sobre o Proagro (Seção 7.6.1). Ele conecta diretamente a teoria do prêmio de risco (Seção 7.5) ao comportamento observado de agricultores em países em desenvolvimento.
Referências do Capítulo¶
- Akerlof, George A. 1970. "The Market for 'Lemons': Quality Uncertainty and the Market Mechanism." The Quarterly Journal of Economics 84 (3): 488–500. DOI
- Arrow, Kenneth J. 1964. "The Role of Securities in the Optimal Allocation of Risk-Bearing." The Review of Economic Studies 31 (2): 91–96. DOI
- Chiappori, Pierre-André, e Bernard Salanié. 2000. "Testing for Asymmetric Information in Insurance Markets." Journal of Political Economy 108 (1): 56–78. DOI
- Friedman, Milton, e Leonard J. Savage. 1948. "The Utility Analysis of Choices Involving Risk." Journal of Political Economy 56 (4): 279–304. DOI
- Kahneman, Daniel, e Amos Tversky. 1979. "Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk." Econometrica 47 (2): 263–292. DOI
- Mas-Colell, Andreu, Michael D. Whinston, e Jerry R. Green. 1995. Microeconomic Theory. New York: Oxford University Press. Capítulo 6.
- Mehra, Rajnish, e Edward C. Prescott. 1985. "The Equity Premium: A Puzzle." Journal of Monetary Economics 15 (2): 145–161. DOI
- Nicholson, Walter, e Christopher M. Snyder. 2017. Microeconomic Theory: Basic Principles and Extensions. 12ª ed. Boston: Cengage Learning. Capítulo 7.
- Perloff, Jeffrey M. 2017. Microeconomics: Theory and Applications with Calculus. 4ª ed. Boston: Pearson. Capítulo 17.
- Pratt, John W. 1964. "Risk Aversion in the Small and in the Large." Econometrica 32 (1–2): 122–136. DOI
- Rabin, Matthew. 2000. "Risk Aversion and Expected-Utility Theory: A Calibration Theorem." Econometrica 68 (5): 1281–1292. DOI
- Rosenzweig, Mark R., e Hans P. Binswanger. 1993. "Wealth, Weather Risk and the Composition and Profitability of Agricultural Investments." The Economic Journal 103 (416): 56–78. DOI
- Varian, Hal R. 2015. Microeconomia: Uma Abordagem Moderna. 9ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier. Capítulo 12.
- Von Neumann, John, e Oskar Morgenstern. 1944. Theory of Games and Economic Behavior. Princeton: Princeton University Press.