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5.3–5.6 Efeitos Renda e Substituição, Equação de Slutsky e Curvas de Demanda

5.3 Preço Subiu — E Agora? Efeitos Renda e Substituição

Agora vem a jogada mais importante da teoria do consumidor — e uma das ideias mais bonitas de toda a economia. Quando o preço da carne cai, você compra mais carne. Óbvio. Mas por quê? Há duas razões misturadas, e separá-las é fundamental:

  • A carne ficou mais barata que o frango → você troca frango por carne (efeito substituição).
  • Com carne mais barata, seu salário rende mais → você pode comprar mais de tudo (efeito renda).

No supermercado, esses dois efeitos acontecem ao mesmo tempo, e o consumidor nem percebe a diferença. Mas o governo precisa perceber: se quiser saber o impacto distributivo de uma redução tarifária, precisa saber quanto do aumento de consumo é troca (substituição) e quanto é enriquecimento (renda). A decomposição de Slutsky faz exatamente essa cirurgia.

Quando o preço de um bem cai, dois fenômenos ocorrem simultaneamente:

  1. Efeito substituição (\(ES\)): o bem ficou relativamente mais barato em relação aos demais, induzindo o consumidor a substituir outros bens por ele.
  2. Efeito renda (\(ER\)): a queda do preço aumenta o poder de compra real do consumidor, permitindo-lhe consumir mais de todos os bens normais.

5.3.1 Decomposição de Hicks

Na abordagem de Hicks, desenvolvida por John Hicks e R. G. D. Allen em 1934, o efeito substituição é definido mantendo-se o nível de utilidade constante. O consumidor é "compensado" de modo a permanecer na mesma curva de indiferença, mas enfrenta a nova razão de preços. Essa abordagem é teoricamente mais elegante porque mantém o conceito de utilidade como referência, mas tem o inconveniente prático de exigir o conhecimento das curvas de indiferença — que não são diretamente observáveis.

\[ \underbrace{\Delta x_i}_{\text{efeito total}} = \underbrace{\Delta x_i^{ES}}_{\substack{\text{efeito substituição} \\ \text{(utilidade constante)}}} + \underbrace{\Delta x_i^{ER}}_{\substack{\text{efeito renda} \\ \text{(poder de compra)}}} \label{eq:5.3.1} \tag{5.3.1} \]

O efeito substituição de Hicks move o consumidor ao longo da curva de indiferença original; o efeito renda move o consumidor entre curvas de indiferença.

5.3.2 Decomposição de Slutsky

A decomposição de Hicks, embora elegante, exige que conheçamos as curvas de indiferença do consumidor — algo que, na prática, não observamos diretamente. Existe uma alternativa mais operacional? Sim: a abordagem de Slutsky propõe um critério de compensação baseado em grandezas observáveis. Na abordagem de Slutsky, o efeito substituição é definido mantendo-se o poder de compra constante — ou seja, compensando-se a renda de modo que a cesta original permaneça acessível. A compensação de Slutsky é dada por:

\[ \Delta I^S = x_i^* \cdot \Delta p_i \label{eq:5.3.2} \tag{5.3.2} \]

Ambas as decomposições — a de Hicks, expressa na equação \(\eqref{eq:5.3.1}\), e a de Slutsky, com compensação dada pela equação \(\eqref{eq:5.3.2}\) — convergem para variações infinitesimais de preço e resultam na mesma equação fundamental — a Equação de Slutsky. A distinção entre as duas abordagens reaparecerá na Seção 5.8, quando calcularmos medidas de bem-estar: a decomposição de Hicks é a base teórica da variação compensatória e da variação equivalente, enquanto a decomposição de Slutsky está intimamente ligada à interpretação do excedente do consumidor marshalliano.

Intuição Econômica

Em uma frase: Toda mudança de preço tem dois efeitos: substituição (troca entre bens) e renda (poder de compra) — separá-los é a chave da análise da demanda.

Pense assim: A gasolina ficou 10% mais barata. O efeito substituição faz você trocar um pouco de transporte público por carro. O efeito renda faz você "se sentir mais rico", podendo aumentar o consumo de diversos bens. Se a gasolina for um bem normal, ambos reforçam a maior demanda. Se for inferior, os efeitos se opõem.

Por que isso importa: A decomposição de Slutsky é a base para avaliar o impacto de impostos e subsídios sobre o consumo — e para distinguir quando uma queda de preço beneficia os consumidores pelo barateamento relativo ou pelo aumento do poder de compra.

Box Brasil 5.2 — Preços administrados e o efeito substituição: energia elétrica e bandeiras tarifárias

No Brasil, diversos preços são fixados ou regulados por agências governamentais — os chamados preços administrados, que representam cerca de 25% do IPCA. A energia elétrica é um caso particularmente interessante para a teoria do consumidor, pois o sistema de bandeiras tarifárias (verde, amarela e vermelha) funciona como uma variação exógena de preço com periodicidade mensal.

Mecanismo: quando a bandeira muda de verde para vermelha (patamar 2), a tarifa residencial pode subir mais de R$ 0,07/kWh, o que equivale a um aumento de 8–10% no custo da energia. Essa variação é exógena ao consumidor (depende de condições hidrológicas), criando um experimento natural para observar efeitos substituição e renda.

Efeito substituição: quando a bandeira vermelha é ativada, famílias reduzem o uso de chuveiro elétrico, ar-condicionado e máquina de lavar em horários de pico — substituindo eletricidade por gás (aquecimento), ventilação natural ou deslocamento temporal do consumo. A tarifa média de energia residencial subiu em média 5,6% a 6,9% em 2023, segundo a ANEEL.

Efeito renda: para famílias de baixa renda, em que a conta de luz pode representar 10–15% do orçamento mensal, o efeito renda do aumento tarifário é significativo, reduzindo o consumo de outros bens.

Fontes: ANEEL — Tarifas e Bandeiras Tarifárias; BCB — Relatório de Inflação; Agência Brasil (2022).

Figura 5.2 — Decomposição dos efeitos renda e substituição. Ajuste o novo preço \(p_1'\) e observe como o efeito total (vermelho) se decompõe em efeito substituição (verde, ao longo da curva de indiferença) e efeito renda (azul, entre curvas). Alterne entre as decomposições de Hicks e Slutsky.


5.4 A Equação Que Separa Tudo: Slutsky

Os gráficos deram a intuição; agora a álgebra dá a precisão. A Equação de Slutsky é, sem exagero, a equação da teoria do consumidor — aquela que aparece em toda prova de micro, em todo paper de demanda, em toda análise de política tributária. Ela decompõe a resposta da demanda a uma variação de preço em dois pedaços cirurgicamente separados, conectando as funções marshalliana e hicksiana numa identidade elegante. Se este livro fosse uma peça de teatro, a Equação de Slutsky seria o monólogo do ato final.

Uma nota sobre convenção de sinais, que frequentemente gera confusão: na Equação de Slutsky, o efeito renda aparece com sinal negativo, pois um aumento de preço reduz o poder de compra real. Assim, para um bem normal (\(\partial x_i/\partial I > 0\)), o termo \(-x_j \partial x_i/\partial I\) é negativo — reforçando a queda na demanda causada pelo aumento de preço. Para um bem inferior (\(\partial x_i/\partial I < 0\)), o mesmo termo é positivo — o efeito renda atenua (ou até reverte) a queda na demanda.

Teorema: Equação de Slutsky

Para quaisquer bens \(i\) e \(j\):

\[ \frac{\partial x_i}{\partial p_j} = \frac{\partial h_i}{\partial p_j} - x_j \frac{\partial x_i}{\partial I} \label{eq:5.4.3} \tag{5.4.3} \]

onde \(x_i = x_i(p_1, \ldots, p_n, I)\) é a demanda marshalliana, \(h_i = h_i(p_1, \ldots, p_n, \bar{U})\) é a demanda hicksiana e \(I\) é a renda.

O primeiro termo é o efeito substituição (sempre não-positivo para \(i = j\)); o segundo é o efeito renda, ponderado pela quantidade consumida do bem cujo preço variou.

Demonstração: Derivação completa da Equação de Slutsky

Passo 1: Identidade fundamental.

A demanda hicksiana e a marshalliana estão conectadas pela função dispêndio \(E(\mathbf{p}, \bar{U})\). Para qualquer nível de utilidade \(\bar{U}\):

\[ h_i(\mathbf{p}, \bar{U}) = x_i(\mathbf{p}, E(\mathbf{p}, \bar{U})) \]

Essa identidade afirma que, ao nível de utilidade \(\bar{U}\), a demanda compensada coincide com a demanda não-compensada quando a renda é exatamente igual ao dispêndio mínimo.

Passo 2: Diferenciação em relação a \(p_j\).

Diferenciando ambos os lados em relação a \(p_j\):

\[ \frac{\partial h_i}{\partial p_j} = \frac{\partial x_i}{\partial p_j} + \frac{\partial x_i}{\partial I} \cdot \frac{\partial E}{\partial p_j} \]

Passo 3: Lema de Shephard.

Pelo Lema de Shephard (a derivada da função dispêndio em relação ao preço \(p_j\) é a demanda hicksiana do bem \(j\)):

\[ \frac{\partial E}{\partial p_j} = h_j(\mathbf{p}, \bar{U}) \]

Passo 4: Avaliação no ótimo.

No ponto ótimo, \(h_j(\mathbf{p}, \bar{U}) = x_j(\mathbf{p}, I)\), ou seja, as demandas hicksiana e marshalliana coincidem. Substituindo:

\[ \frac{\partial h_i}{\partial p_j} = \frac{\partial x_i}{\partial p_j} + x_j \frac{\partial x_i}{\partial I} \]

Passo 5: Rearranjando.

\[ \boxed{\frac{\partial x_i}{\partial p_j} = \frac{\partial h_i}{\partial p_j} - x_j \frac{\partial x_i}{\partial I}} \]

O termo \(\frac{\partial h_i}{\partial p_j}\) captura o efeito substituição puro (a preços relativos), e \(-x_j \frac{\partial x_i}{\partial I}\) captura o efeito renda: a variação em \(p_j\) altera o poder de compra em magnitude proporcional a \(x_j\), que então afeta a demanda por \(x_i\) na proporção de \(\frac{\partial x_i}{\partial I}\). \(\blacksquare\)

Vale notar a elegância da derivação: bastaram a identidade entre demandas hicksiana e marshalliana e o Lema de Shephard para conectar duas funções de demanda aparentemente distintas em uma única equação. O resultado revela que a quantidade consumida do bem cujo preço variou (\(x_j\)) atua como um "multiplicador" do efeito renda — quanto mais o consumidor gasta com esse bem, maior o impacto sobre seu poder de compra.

⚠️ Erro Comum

Confundir o sinal do efeito renda na Equação de Slutsky.

A Equação de Slutsky é escrita como:

\[ \frac{\partial x_i}{\partial p_j} = \frac{\partial h_i}{\partial p_j} - x_j \frac{\partial x_i}{\partial I} \]

O sinal de menos antes do efeito renda é fonte frequente de confusão. Lembre-se: o efeito renda aparece com sinal negativo porque um aumento em \(p_j\) reduz o poder de compra real (para \(j = i\), o bem fica mais caro, então o consumidor efetivamente "fica mais pobre"). Para verificar se o sinal está correto, aplique o teste para um bem normal (\(\partial x_i/\partial I > 0\)) com aumento de preço próprio (\(j = i\)): o efeito substituição é \(\leq 0\) e o efeito renda é \(-x_i \cdot (+) < 0\), logo o efeito total é negativo — consistente com a Lei da Demanda. Se você obtiver o sinal contrário, provavelmente inverteu o efeito renda.

Se a equação parece intimidante, foque na intuição: o efeito total é substituição + renda. Para um bem normal, os dois puxam na mesma direção (demanda cai quando preço sobe). Para um bem inferior, puxam em sentidos opostos — e o resultado depende de quem é mais forte.

5.4.1 Implicações da Equação de Slutsky

Com a Equação de Slutsky em mãos, podemos extrair consequências cruciais para a teoria da demanda:

  1. Para o próprio preço (\(i = j\)): \(\frac{\partial x_i}{\partial p_i} = \underbrace{\frac{\partial h_i}{\partial p_i}}_{\leq 0} - x_i \frac{\partial x_i}{\partial I}\). O efeito substituição é sempre não-positivo (pela concavidade da função dispêndio). Logo, se o bem for normal (\(\frac{\partial x_i}{\partial I} > 0\)), a demanda cai quando o preço sobe — a Lei da Demanda vale sem ambiguidade.

  2. Bens de Giffen: se o bem for inferior e o efeito renda dominar o efeito substituição, \(\frac{\partial x_i}{\partial p_i} > 0\), e temos um bem de Giffen.1 Esses casos são raros e exigem que o bem represente parcela significativa do orçamento — condição necessária para que o efeito renda seja suficientemente forte.

Bem de Giffen

Um bem \(i\) é dito de Giffen se sua demanda marshalliana é positivamente inclinada no próprio preço:

\[ \frac{\partial x_i}{\partial p_i} > 0 \]

Pela Equação de Slutsky, isso exige simultaneamente:

  • (a) \(\frac{\partial x_i}{\partial I} < 0\) — o bem é inferior;
  • (b) \(\left| x_i \frac{\partial x_i}{\partial I} \right| > \left| \frac{\partial h_i}{\partial p_i} \right|\) — o efeito renda (em valor absoluto) supera o efeito substituição.

A condição (b) tende a ser satisfeita apenas quando o bem representa parcela muito elevada do orçamento, de modo que \(x_i\) seja grande o suficiente para amplificar o efeito renda. Em particular, todo bem de Giffen é inferior, mas a recíproca é falsa: um bem pode ser inferior sem ser de Giffen se o efeito substituição ainda dominar.

Intuição Econômica

Em uma frase: Um bem de Giffen é tão essencial e ocupa tanta parte do orçamento que, quando seu preço sobe, o consumidor fica tão mais pobre que acaba comprando mais dele, não menos.

Pense assim: Pense numa família muito pobre que gasta quase tudo em farinha de mandioca. Se o preço da farinha sobe, a família não pode mais comprar carne (que já era rara). Ela fica tão mais pobre que precisa comer ainda mais farinha para sobreviver — o efeito renda (empobrecimento) domina o efeito substituição. Na prática, esse fenômeno é raríssimo e só foi documentado de forma robusta para o arroz entre famílias extremamente pobres na China.

Por que isso importa: O paradoxo de Giffen mostra por que a Lei da Demanda não é uma lei universal — e por que programas como o Bolsa Família, ao elevar a renda, podem eliminar esse tipo de comportamento extremo.

  1. Simetria de Slutsky: \(\frac{\partial h_i}{\partial p_j} = \frac{\partial h_j}{\partial p_i}\). Os efeitos substituição cruzados são simétricos. Essa simetria, que não vale para a demanda marshalliana, é uma propriedade poderosa: ela reduz pela metade o número de parâmetros a estimar em sistemas de demanda e reflete uma propriedade profunda da dualidade entre maximização de utilidade e minimização de dispêndio.

Prêmio Nobel — Angus Deaton (2015)

Angus Stewart Deaton (1945– ) é um economista escocês-americano, professor em Princeton. Obteve seu PhD em Cambridge e construiu carreira unindo teoria microeconômica avançada com evidência empírica rigorosa.

Por que ganhou o Nobel: O Comitê Nobel premiou Deaton "por sua análise do consumo, da pobreza e do bem-estar". Em particular, Deaton desenvolveu o Almost Ideal Demand System (AIDS, junto com Muellbauer, 1980) — um sistema de equações de demanda que satisfaz automaticamente as restrições teóricas da Equação de Slutsky (simetria, homogeneidade, esgotamento da renda) e pode ser estimado com dados de orçamentos domiciliares. Além disso, seu trabalho sobre como inferir elasticidades de demanda a partir de dados de pesquisa domiciliar (onde os preços não são diretamente observados) abriu caminho para a estimação de demanda em países em desenvolvimento, incluindo o Brasil.

Conexão com este capítulo: A Equação de Slutsky (Seção 5.4) é o núcleo teórico do trabalho de Deaton: as propriedades de simetria e semidefinição negativa da matriz de Slutsky são as restrições que o AIDS impõe na estimação econométrica. As medidas de bem-estar discutidas na Seção 5.8 (VC e VE) são também ferramentas centrais na obra de Deaton sobre pobreza e distribuição de consumo — tema revisitado na Seção "Pesquisa em Ação" deste capítulo.

Giffen na prática: arroz na China

Bens de Giffen são raríssimos empiricamente. A evidência mais robusta foi documentada por Jensen e Miller (2008), que identificaram comportamento de Giffen para o arroz entre famílias extremamente pobres na província de Hunan, na China. Nessas famílias, o arroz representava parcela tão grande do orçamento que o efeito renda de um aumento de preço dominava o efeito substituição. Voltaremos a esse estudo no Apêndice.

Box Mundo 5.1 — O experimento do arroz em Hunan: evidência causal de comportamento de Giffen

Contexto: A existência de bens de Giffen — bens cuja demanda aumenta quando o preço sobe — foi debatida por mais de um século desde que Alfred Marshall atribuiu a ideia a Sir Robert Giffen nos anos 1890. Apesar de sua importância teórica para a Equação de Slutsky (demonstrando que o efeito renda pode dominar o efeito substituição), nenhum estudo havia conseguido documentar convincentemente esse fenômeno até o experimento de campo conduzido por Robert Jensen e Nolan Miller na província de Hunan, China, publicado na American Economic Review em 2008.

Dados: Jensen e Miller implementaram um experimento randomizado controlado (RCT) em que famílias extremamente pobres receberam subsídios aleatórios ao preço do arroz — o alimento básico que representava até 60-80% de suas calorias diárias. O resultado principal foi surpreendente: quando o subsídio reduzia o preço do arroz, as famílias consumiam menos arroz, não mais. Especificamente, um subsídio de aproximadamente 25% no preço do arroz levou a uma redução média de 10-15% no consumo de arroz entre as famílias mais pobres. Simultaneamente, essas famílias aumentaram o consumo de alimentos de maior qualidade nutricional — carne, vegetais e frutas. Em uma segunda província (Gansu), onde o alimento básico era o trigo, a evidência apontou na mesma direção, embora com significância estatística menor.

Análise: O mecanismo é precisamente o previsto pela Equação de Slutsky \(\eqref{eq:5.4.3}\): o arroz nessas famílias era simultaneamente (i) um bem fortemente inferior (\(\partial x_i / \partial I < 0\)) e (ii) representava parcela dominante do orçamento (\(x_i\) grande), de modo que o termo do efeito renda \(-x_i \cdot \partial x_i / \partial I > 0\) superava em magnitude o efeito substituição \(\partial h_i / \partial p_i < 0\). Quando o subsídio barateava o arroz, o ganho de poder de compra (efeito renda) era tão expressivo que as famílias podiam finalmente diversificar sua dieta, reduzindo a dependência do arroz. O estudo é particularmente valioso porque o desenho experimental — randomização do subsídio — elimina problemas de endogeneidade que comprometiam tentativas anteriores de identificar bens de Giffen com dados observacionais.

Fonte: Jensen, R. T.; Miller, N. H. (2008). "Giffen Behavior and Subsistence Consumption." The American Economic Review, 98(4), 1553–1577.

Box Brasil 5.3 — Slutsky na bomba: gasolina, etanol e a decomposição que o motorista faz sem saber

Quando o preço da gasolina sobe no Brasil, o motorista flex faz — inconscientemente — a decomposição de Slutsky em tempo real. A regra prática é conhecida: se o etanol custa menos de 70% do preço da gasolina, compensa abastecer com etanol. Essa regra é, na essência, uma heurística de efeito substituição.

Dados ANP (2019–2024):

Período Gasolina (R$/L) Etanol (R$/L) Razão E/G Comportamento observado
Jan 2020 4,54 3,16 0,70 Indiferente
Jun 2022 (pico) 7,39 5,47 0,74 Gasolina preferida (ES fraco)
Dez 2023 5,79 3,72 0,64 Etanol preferido (ES forte)
Dez 2024 6,15 4,07 0,66 Etanol preferido

Efeito substituição: Quando a razão etanol/gasolina cai abaixo de 0,70, o consumo de etanol sobe e o de gasolina cai — substituição pura entre combustíveis. A ANP documenta que, em estados produtores como São Paulo, Goiás e Minas Gerais, a participação do etanol nas vendas de combustíveis varia de 35% a 55%, respondendo diretamente aos preços relativos.

Efeito renda: O combustível representa 4–8% do orçamento das famílias brasileiras (POF 2017-2018). Para motoristas de aplicativo e caminhoneiros, essa participação pode chegar a 25–40% da receita bruta. Nesses casos, o efeito renda de um aumento de combustível é significativo: o motorista de aplicativo não apenas substitui gasolina por etanol (ES), mas também reduz o número de corridas porque o lucro líquido por corrida diminuiu (ER negativo sobre lazer). É a Equação de Slutsky em ação na gig economy.

Conexão com a teoria: Combustível é um bem normal para a maioria das famílias (\(\partial x / \partial I > 0\)), de modo que ES e ER se reforçam: quando o preço sobe, a demanda cai tanto pela substituição por etanol/transporte público quanto pelo empobrecimento. A elasticidade-preço da demanda por gasolina no Brasil é estimada entre −0,3 e −0,5 no curto prazo e entre −0,7 e −1,0 no longo prazo (Santos, 2013) — consistente com substituição limitada no curto prazo (poucas alternativas imediatas) e ampla no longo prazo (troca de veículo, mudança de rota, transporte público).

Fontes: ANP — Levantamento de Preços de Combustíveis; IBGE — POF 2017-2018; Santos, G. F. (2013). "Fuel demand in Brazil in a dynamic panel data approach." Energy Economics, 36, 229–240.

Exercício Resolvido 5.3

Enunciado: Um consumidor tem utilidade \(U(x_1, x_2) = x_1^{1/2} x_2^{1/2}\), com preços \(p_1 = 4\), \(p_2 = 1\) e renda \(I = 80\). O preço do bem 1 cai para \(p_1' = 1\). (a) Encontre as cestas ótimas antes e depois da variação de preço. (b) Decomponha o efeito total sobre \(x_1\) em efeito substituição e efeito renda (Hicks). (c) Verifique a decomposição com a Equação de Slutsky.

Dados: Cobb-Douglas com \(a = b = 1/2\), \(p_1 = 4\), \(p_2 = 1\), \(I = 80\), \(p_1' = 1\).

Resolução:

Passo 1 — Cestas ótimas

Demandas marshallianas para Cobb-Douglas: \(x_i^* = \frac{a_i}{a_1 + a_2} \cdot \frac{I}{p_i}\). Com \(a_1 = a_2 = 1/2\):

  • Antes: \(x_1^0 = \frac{1}{2} \cdot \frac{80}{4} = 10\), \(x_2^0 = \frac{1}{2} \cdot \frac{80}{1} = 40\). \(U_0 = \sqrt{10 \times 40} = 20\).
  • Depois: \(x_1^1 = \frac{1}{2} \cdot \frac{80}{1} = 40\), \(x_2^1 = 40\). \(U_1 = \sqrt{40 \times 40} = 40\).

Efeito total: \(\Delta x_1 = 40 - 10 = +30\).

Passo 2 — Decomposição de Hicks

Demanda hicksiana: \(h_1 = \bar{U} \sqrt{p_2/p_1}\).

  • Com \(\bar{U} = U_0 = 20\) e preço novo \(p_1' = 1\): \(h_1 = 20 \sqrt{1/1} = 20\).

Efeito substituição: \(ES = h_1(p_1', U_0) - x_1^0 = 20 - 10 = +10\).

Efeito renda: \(ER = x_1^1 - h_1(p_1', U_0) = 40 - 20 = +20\).

Verificação: \(ES + ER = 10 + 20 = 30 = \Delta x_1\). ✓

Passo 3 — Verificação pela Equação de Slutsky

\[ \frac{\partial x_1}{\partial p_1} = \frac{\partial h_1}{\partial p_1} - x_1 \frac{\partial x_1}{\partial I} \]
  • \(\frac{\partial x_1}{\partial p_1} = -\frac{I}{2p_1^2} = -\frac{80}{2 \times 16} = -2{,}5\)
  • \(\frac{\partial h_1}{\partial p_1} = -\frac{\bar{U}}{2} p_2^{1/2} p_1^{-3/2} = -\frac{20}{2} \times 1 \times 4^{-3/2} = -10 \times \frac{1}{8} = -1{,}25\)
  • \(x_1 \frac{\partial x_1}{\partial I} = 10 \times \frac{1}{2 \times 4} = 10 \times 0{,}125 = 1{,}25\)
  • Verificação: \(-1{,}25 - 1{,}25 = -2{,}5\)

Resultado: o efeito total (+30 unidades) decompõe-se em efeito substituição (+10) e efeito renda (+20). O efeito renda é o dobro do efeito substituição.

Interpretação econômica: a forte queda de preço (de 4 para 1) gera um expressivo aumento de poder de compra. Como o bem é normal e a queda de preço é grande, o efeito renda domina. Em termos brasileiros, pense em uma redução drástica no preço da energia elétrica: parte do aumento no consumo viria da substituição de gás por eletricidade (ES), mas a maior parte viria do aumento no poder de compra permitindo consumir mais de tudo (ER).


5.5 De Cima a Baixo: A Curva de Demanda Individual

A Equação de Slutsky nos permitiu decompor o efeito de uma variação de preço em suas partes constitutivas. Agora, podemos construir e comparar as duas curvas de demanda que emergem dessa análise: a marshalliana, que observamos nos mercados reais, e a hicksiana, que isola o efeito substituição puro. Compreender as diferenças entre elas é essencial tanto para a análise positiva (o que acontece) quanto para a análise normativa (como medir o bem-estar). Uma analogia útil: a curva marshalliana é o "preço de mercado" — o que de fato se observa; a curva hicksiana é o "preço verdadeiro" — o que o economista usa para análise de bem-estar.

5.5.1 Demanda marshalliana (não-compensada)

A curva de demanda marshalliana relaciona preço e quantidade mantendo a renda nominal constante. É a curva observável — aquela que efetivamente descreve o comportamento do consumidor no mercado.

\[ x_i^* = x_i(p_i; \bar{p}_{-i}, \bar{I}) \]

Pela Equação de Slutsky, sua inclinação combina efeitos substituição e renda. Para bens normais, é inequivocamente negativamente inclinada — a famosa Lei da Demanda. Para bens inferiores, pode ser positivamente inclinada (caso Giffen), embora, como vimos, esse cenário exija condições bastante especiais. Em termos empíricos, é a demanda marshalliana que os economistas estimam a partir de dados de preços e quantidades observadas — seja com séries temporais de preços de mercado, seja com microdados de pesquisas domiciliares como a POF.

5.5.2 Demanda hicksiana (compensada)

Enquanto a demanda marshalliana reflete o comportamento efetivamente observado, a curva de demanda hicksiana responde a uma pergunta contrafactual: como a demanda variaria se o consumidor fosse permanentemente compensado de modo a manter seu nível de utilidade inalterado? Essa curva mantém a utilidade constante e, embora seja uma construção teórica, é fundamental para a análise de bem-estar. A demanda hicksiana é, em certo sentido, "mais pura" que a marshalliana: ela captura unicamente a resposta do consumidor a variações nos preços relativos, sem o confundimento causado pela variação no poder de compra real.

\[ h_i = h_i(p_i; \bar{p}_{-i}, \bar{U}) \]

Como captura apenas o efeito substituição, é sempre negativamente inclinada (ou nula). Para bens normais, a curva hicksiana é mais inclinada (menos elástica) que a marshalliana, pois o efeito renda reforça o efeito substituição na marshalliana; para bens inferiores, a situação se inverte e a hicksiana é menos inclinada. Essa diferença de inclinação não é apenas teórica: ela implica que a elasticidade estimada a partir de dados observados (marshalliana) superestima a elasticidade de substituição pura (hicksiana) para bens normais, e subestima para bens inferiores.

Relação geométrica

As curvas marshalliana e hicksiana se cruzam no ponto correspondente ao preço e à renda iniciais. A partir desse ponto, a marshalliana diverge conforme o efeito renda se acumula.

Figura 5.3 — Demanda marshalliana (vermelha) vs hicksiana (azul). Painel superior: curvas de indiferença e restrição orçamentária no espaço de bens. Painel inferior: curvas de demanda derivadas. Para bens normais, a hicksiana é mais inclinada. A área sombreada representa o excedente do consumidor.


5.6 A Demanda Sem Ilusão de Renda: Hicksiana e Suas Propriedades

A seção anterior apresentou as curvas de demanda marshalliana e hicksiana de forma intuitiva e gráfica. Agora, aprofundamos as propriedades formais da demanda compensada, que desempenham papel central tanto na teoria pura quanto na análise empírica. Essas propriedades geram restrições testáveis sobre o comportamento observado do consumidor — permitindo verificar se os dados são compatíveis com a hipótese de racionalidade. O Exercício 5.10 ao final do capítulo convida o leitor a demonstrar formalmente que a matriz de Slutsky é simétrica e negativa semidefinida.

A demanda hicksiana \(h_i(\mathbf{p}, \bar{U})\) pode ser obtida a partir da função dispêndio \(E(\mathbf{p}, \bar{U})\):

\[ h_i(\mathbf{p}, \bar{U}) = \frac{\partial E(\mathbf{p}, \bar{U})}{\partial p_i} \label{eq:5.6.4} \tag{5.6.4} \]

Este é o Lema de Shephard — a equação \(\eqref{eq:5.6.4}\) —, que já utilizamos na demonstração da equação de Slutsky \(\eqref{eq:5.4.3}\).

Propriedades da demanda hicksiana

  1. Homogeneidade de grau zero em preços: \(h_i(\alpha \mathbf{p}, \bar{U}) = h_i(\mathbf{p}, \bar{U})\).
  2. Negatividade própria: \(\frac{\partial h_i}{\partial p_i} \leq 0\).
  3. Simetria: \(\frac{\partial h_i}{\partial p_j} = \frac{\partial h_j}{\partial p_i}\).
  4. Semidefinição negativa da matriz de Slutsky: a matriz \(\mathbf{S}\) com elementos \(s_{ij} = \frac{\partial h_i}{\partial p_j}\) é simétrica e negativa semidefinida.

A propriedade 4 é particularmente poderosa: dela decorrem restrições testáveis sobre o comportamento da demanda observada, servindo como base para a análise empírica e para a teoria da preferência revelada. Em termos práticos, a simetria (propriedade 3) significa que se um aumento no preço do açúcar eleva a demanda por adoçante em 5%, então um aumento equivalente no preço do adoçante deve elevar a demanda por açúcar na mesma proporção (após controlar pelas diferenças de participação orçamentária). Sistemas de demanda como o Almost Ideal Demand System (AIDS), desenvolvido por Deaton e Muellbauer (1980), impõem essas restrições diretamente na estimação econométrica.


  1. O bem de Giffen é o Black Knight da microeconomia: o preço sobe (perde um braço), e o consumidor compra mais ("'Tis but a scratch!"). O preço sobe de novo (perde outro braço), e ele insiste ("Just a flesh wound!"). A analogia falha, porém, num ponto crucial: o Black Knight é irracional; o consumidor de Giffen é perfeitamente racional — ele compra mais porque ficou tão mais pobre que não pode se dar ao luxo de não comprar o bem básico.