Pesquisa em Ação¶
Falk, A.; Becker, A.; Dohmen, T.; Enke, B.; Huffman, D.; Sunde, U. (2018). Global Evidence on Economic Preferences. Quarterly Journal of Economics, 133(4), 1645–1692.
Pergunta central: Os axiomas de preferência apresentados na Seção 3.1 são abstrações teóricas — mas como as preferências reais dos indivíduos variam entre países e dentro de cada sociedade? Existem padrões sistemáticos que conectem preferências a características demográficas, culturais e econômicas? Este artigo é o maior esforço empírico já realizado para responder a essas perguntas.
Método: Falk e coautores construíram o Global Preference Survey (GPS), um instrumento de pesquisa experimentalmente validado, aplicado a amostras representativas de 80.000 pessoas em 76 países — incluindo o Brasil. O GPS mede seis dimensões de preferências: paciência (preferência temporal), disposição a assumir riscos, reciprocidade positiva e negativa, altruísmo e confiança. A validação experimental foi realizada comparando as respostas da pesquisa com escolhas em experimentos com incentivos monetários reais.
Resultado principal: Há substancial heterogeneidade de preferências entre países, mas a variação dentro de cada país é ainda maior. Globalmente, preferências variam sistematicamente com idade, gênero e habilidade cognitiva — porém essas relações são parcialmente específicas de cada país. O Brasil apresenta níveis intermediários de paciência e disposição ao risco na comparação internacional, com heterogeneidade interna significativa — consistente com a elevada desigualdade socioeconômica do país.
Por que isso importa: O estudo demonstra que as preferências — fundamento de toda a teoria do consumidor — não são uniformes nem entre nem dentro de países. Diferenças de preferência ajudam a explicar variações em poupança, investimento em educação e comportamento de consumo, complementando os modelos baseados apenas em diferenças de renda e preços.
Relevância para o capítulo: O artigo conecta diretamente os axiomas da Seção 3.1 com evidências empíricas: se as preferências variam sistematicamente entre indivíduos, as funções de utilidade que as representam também diferem — o que justifica a diversidade de formas funcionais apresentadas na Seção 3.6. Além disso, a heterogeneidade de preferências dentro do Brasil reforça a importância de modelos que permitam diferenças individuais, como a análise por faixa de renda da POF discutida no Box Brasil sobre Cobb-Douglas.
Choi, S.; Kariv, S.; Müller, W.; Silverman, D. (2014). Who Is (More) Rational? American Economic Review, 104(6), 1518–1550.
Pergunta central: Os axiomas de preferência — especialmente a transitividade e a completude — são de fato satisfeitos pelas escolhas dos consumidores reais? E se houver variação na "racionalidade" das decisões, ela está correlacionada com resultados econômicos importantes, como a acumulação de riqueza?
Método: Choi e coautores conduziram um experimento em larga escala com uma amostra representativa da população holandesa (painel CentERpanel). Cada participante tomou 25 decisões de alocação entre dois bens sob restrições orçamentárias variadas. Os autores testaram se as escolhas observadas satisfazem o GARP (Generalized Axiom of Revealed Preference) — a condição necessária e suficiente para que os dados sejam consistentes com a maximização de alguma função de utilidade bem comportada (Teorema 3.1).
Resultado principal: A consistência com GARP varia substancialmente entre indivíduos: enquanto muitos participantes fazem escolhas quase perfeitamente racionais, outros violam sistematicamente os axiomas. Crucialmente, a consistência com a maximização de utilidade está fortemente correlacionada com a riqueza: um aumento de um desvio-padrão na consistência está associado a 15-19% a mais de riqueza acumulada. Essa associação é robusta mesmo controlando para renda, educação e outras variáveis.
Por que isso importa: O resultado sugere que a capacidade de tomar decisões consistentes com uma função de utilidade — ou seja, de satisfazer os axiomas da Seção 3.1 na prática — não é apenas uma abstração teórica, mas uma habilidade com consequências econômicas reais e mensuráveis.
Relevância para o capítulo: Este artigo testa empiricamente os fundamentos do Capítulo 3. O GARP é a tradução operacional dos axiomas de completude e transitividade para dados de consumo observados. Os resultados mostram que, embora a maioria dos consumidores se comporte de forma aproximadamente consistente com os axiomas, há variação significativa — o que justifica tanto o uso do arcabouço axiomático como ponto de partida quanto a atenção a seus limites, discutidos na observação sobre preferências lexicográficas (Seção 3.1).
Atkin, D. (2013). Trade, Tastes, and Nutrition in India. American Economic Review, 103(5), 1629–1663.
Pergunta central: As preferências dos consumidores — que a Seção 3.1 trata como dadas e estáveis — podem ser moldadas por forças econômicas como a abertura comercial? E, se as preferências mudam, quais são as consequências para o bem-estar, especialmente em dimensões como a nutrição?
Método: Atkin explora a liberalização comercial na Índia a partir de 1991 para investigar como a queda nos preços relativos de certos alimentos afetou não apenas as quantidades consumidas, mas os hábitos alimentares de longo prazo. Utilizando dados de consumo domiciliar de mais de 500.000 observações ao longo de duas décadas, o autor estima um modelo estrutural de demanda que permite distinguir entre movimentos ao longo de curvas de indiferença (substituição padrão) e deslocamentos das próprias curvas (mudança de preferências — formação de hábitos).
Resultado principal: A abertura comercial reduziu os preços de calorias, mas parte dos ganhos calóricos potenciais foi dissipada por mudanças nos gostos: consumidores expostos a preços mais baixos de certos alimentos desenvolveram preferências por esses alimentos que persistiram mesmo após os preços retornarem. O efeito-hábito reduziu em até 10% os ganhos nutricionais da liberalização, especialmente entre os mais pobres.
Relevância para o capítulo: O artigo questiona a hipótese de preferências estáveis que sustenta o arcabouço axiomático da Seção 3.1. Se as preferências são endógenas aos preços (via formação de hábitos), a função de utilidade \(u(\mathbf{x})\) não é fixa — ela se desloca com o histórico de consumo. Isso tem implicações diretas para a interpretação das curvas de indiferença e da TMS: a "taxa de troca subjetiva" de hoje pode diferir da de amanhã, não por mudança de preços, mas por mudança nos próprios gostos. O resultado é especialmente relevante para países em desenvolvimento como o Brasil, onde mudanças estruturais rápidas (como o Plano Real, discutido no Box Brasil §3.7) alteram simultaneamente preços e hábitos.
Aguiar, M.; Bils, M. (2015). Has Consumption Inequality Mirrored Income Inequality? American Economic Review, 105(9), 2725–2756.
Pergunta central: A desigualdade de consumo acompanhou o aumento da desigualdade de renda nos Estados Unidos nas últimas décadas? Se as preferências são homotéticas (Seção 3.6.6), a resposta deveria ser sim — mas os dados contam uma história mais complexa.
Método: Aguiar e Bils utilizam dados da Consumer Expenditure Survey (CEX) e da Nielsen Homescan para construir medidas de desigualdade de consumo que corrigem problemas de mensuração nos dados de pesquisas domiciliares. A estratégia empírica central explora a Lei de Engel: bens com alta elasticidade-renda (bens de luxo) servem como "indicadores" de renda permanente, permitindo inferir desigualdade de consumo a partir da composição das cestas — e não apenas dos valores totais declarados, que sofrem viés de subdeclaração.
Resultado principal: Contrariamente a estudos anteriores que sugeriam estabilidade, a desigualdade de consumo cresceu significativamente entre 1980 e 2010, acompanhando de perto a desigualdade de renda. A chave metodológica foi usar a composição das cestas (participações engelianas) em vez de valores totais. As famílias mais ricas deslocaram seu consumo fortemente para bens de luxo (educação, lazer, serviços), enquanto as mais pobres mantiveram alta participação em necessidades (alimentação, moradia).
Relevância para o capítulo: O artigo mobiliza diretamente dois conceitos centrais do capítulo: a Lei de Engel (discutida no Box Brasil sobre homoteticidade, §3.6.6) e a distinção entre preferências homotéticas e não homotéticas. Se as preferências fossem homotéticas, a composição das cestas seria idêntica entre ricos e pobres — e a estratégia de identificação dos autores não funcionaria. O fato de que a estratégia é bem-sucedida é, em si, evidência empírica contra a homoteticidade. O resultado reforça a importância de modelos não homotéticos (como o AIDS) para análises distributivas — inclusive no contexto brasileiro, onde a POF revela padrões engelianos ainda mais pronunciados.
Thomas, D.; Strauss, J.; Henriques, M. H. (1991). How Does Mother's Education Affect Child Height? Journal of Human Resources, 26(2), 183–211.
Pergunta central: A educação materna afeta a nutrição infantil por meio de mudanças nas preferências (função de utilidade) ou apenas por mudanças na restrição orçamentária (renda e preços)? Utilizando dados brasileiros, este artigo seminal testa se mães mais educadas fazem escolhas alimentares qualitativamente diferentes para seus filhos — e não apenas quantitativamente maiores.
Método: Thomas, Strauss e Henriques utilizam microdados do ENDEF (Estudo Nacional da Despesa Familiar) de 1974-75, com informações antropométricas de crianças e características socioeconômicas de mais de 50.000 domicílios brasileiros. O modelo estima o efeito da educação materna sobre a estatura infantil (height-for-age), controlando para renda familiar, preços locais, acesso a serviços de saúde e região geográfica. A estratégia de identificação compara crianças dentro de faixas de renda similares, isolando o efeito da educação que opera via preferências (escolha de alimentos mais nutritivos, práticas de higiene) do efeito que opera via renda.
Resultado principal: A educação materna tem um efeito forte e robusto sobre a nutrição infantil, mesmo após controlar para renda: um ano adicional de escolaridade da mãe aumenta a estatura da criança em 0,3-0,5 cm. Crucialmente, o efeito é muito maior para a educação da mãe do que para a do pai, sugerindo que o canal relevante não é apenas renda (ambos os pais contribuem para a renda), mas a forma como a mãe aloca os recursos do domicílio entre as diferentes categorias de consumo — alimentação nutritiva, cuidados de saúde, saneamento.
Relevância para o capítulo: O artigo ilustra, com dados brasileiros, que a forma da função de utilidade — não apenas a restrição orçamentária — é determinante para os resultados de consumo. Nos termos do capítulo, mães com diferentes níveis de educação possuem curvas de indiferença com formatos distintos: mães mais educadas atribuem TMS mais alta a alimentos nutritivos em relação a outros bens, mesmo quando enfrentam os mesmos preços e a mesma renda. Isso reforça a mensagem do artigo de Falk et al. (2018) sobre a heterogeneidade de preferências e conecta-se à discussão sobre a Lei de Engel (Box Brasil §3.6.6): a composição da cesta depende não apenas de quanto se ganha, mas de quem decide como gastar.
Referências do Capítulo¶
- Aguiar, Mark, e Mark Bils. 2015. "Has Consumption Inequality Mirrored Income Inequality?" American Economic Review 105 (9): 2725–2756.
- Arrow, Kenneth J., Hollis B. Chenery, Bagicha S. Minhas, e Robert M. Solow. 1961. "Capital-Labor Substitution and Economic Efficiency." Review of Economics and Statistics 43 (3): 225–250.
- Atkin, David. 2013. "Trade, Tastes, and Nutrition in India." American Economic Review 103 (5): 1629–1663.
- Barros, Ricardo Paes de, Miguel Nathan Foguel, e Gabriel Ulyssea, orgs. 2007. Desigualdade de renda no Brasil: uma análise da queda recente. Brasília: IPEA.
- Besanko, David, e Ronald R. Braeutigam. 2014. Microeconomics. 5ª ed. Hoboken: Wiley. Capítulos 3–4.
- Choi, Syngjoo, Shachar Kariv, Wieland Müller, e Dan Silverman. 2014. "Who Is (More) Rational?" American Economic Review 104 (6): 1518–1550.
- Debreu, Gerard. 1954. "Representation of a preference ordering by a numerical function." In Decision Processes, editado por Robert M. Thrall, Clyde H. Coombs, e Robert L. Davis, 159–165. New York: Wiley.
- Falk, Armin, Anke Becker, Thomas Dohmen, Benjamin Enke, David Huffman, e Uwe Sunde. 2018. "Global Evidence on Economic Preferences." Quarterly Journal of Economics 133 (4): 1645–1692.
- IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2019. Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017–2018: Primeiros Resultados. Rio de Janeiro: IBGE.
- Mas-Colell, Andreu, Michael D. Whinston, e Jerry R. Green. 1995. Microeconomic Theory. New York: Oxford University Press. Capítulo 3.
- Thomas, Duncan, John Strauss, e Maria-Helena Henriques. 1991. "How Does Mother's Education Affect Child Height?" Journal of Human Resources 26 (2): 183–211.
- Nicholson, Walter, e Christopher M. Snyder. 2017. Microeconomic Theory. 12ª ed. Boston: Cengage Learning. Capítulo 3.
- Vasconcellos, Marco Antonio Sandoval de, e Manuel Enriquez Garcia. 2014. Fundamentos de economia. 5ª ed. São Paulo: Saraiva.
- Varian, Hal R. 2015. Microeconomia: uma abordagem moderna. 9ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier. Capítulos 3–5.