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Concavidade, Homogeneidade e Teorema de Euler

2.8 Quando as CPOs Bastam: Concavidade e Quase-Concavidade

Nas seções anteriores, encontramos candidatos a ótimo (CPO) e os classificamos (CSO). Mas em muitos problemas econômicos, podemos pular a CSO inteiramente — porque a forma da função garante que qualquer ponto estacionário é automaticamente o ótimo global. Essa garantia vem de propriedades de curvatura: concavidade, convexidade e, especialmente, quase-concavidade.

Conjuntos convexos

Conjunto Convexo

Um conjunto \(S \subseteq \mathbb{R}^n\) é convexo se, para quaisquer \(x, y \in S\) e \(\theta \in [0, 1]\):

\[ \theta x + (1 - \theta) y \in S \]

Geometricamente: o segmento de reta entre quaisquer dois pontos do conjunto está inteiramente contido nele.

Exemplos econômicos: a restrição orçamentária \(\{x : px \leq m\}\) é convexa; o conjunto de cestas preferidas \(\{x : U(x) \geq \bar{u}\}\) é convexo quando \(U\) é quase-côncava.

Funções côncavas e convexas

Concavidade e Convexidade

Uma função \(f: S \to \mathbb{R}\) (com \(S\) convexo) é:

  • Côncava se, para todo \(x, y \in S\) e \(\theta \in [0, 1]\):
\[ f(\theta x + (1 - \theta) y) \geq \theta f(x) + (1 - \theta) f(y) \label{eq:2.22} \tag{2.22} \]
  • Convexa se a desigualdade é invertida (\(\leq\)).
  • Estritamente côncava/convexa se a desigualdade é estrita para \(x \neq y\) e \(\theta \in (0, 1)\).

Intuição Econômica

Em uma frase: Uma função côncava "fica abaixo das cordas" — qualquer média ponderada dos inputs dá um output pelo menos tão bom quanto a média dos outputs.

Pense assim: A utilidade côncava é o fundamento da aversão ao risco (Capítulo 7): o consumidor prefere o valor esperado da loteria à loteria em si, porque a curva de utilidade está acima da corda que liga os dois resultados possíveis. A Desigualdade de Jensen (\(E[U(x)] \leq U(E[x])\)) é literalmente a definição de concavidade aplicada a esperanças.

Caracterização via derivadas

Propriedade Condição em \(f''\) (1 var.) Condição na Hessiana \(H\) (\(n\) var.)
Côncava \(f'' \leq 0\) \(H\) semidefinida negativa
Estritamente côncava \(f'' < 0\) \(H\) definida negativa
Convexa \(f'' \geq 0\) \(H\) semidefinida positiva

Quase-concavidade: a curvatura que importa para as preferências

Quase-Concavidade

\(f\) é quase-côncava se, para todo \(x, y\) com \(f(x) \geq f(y)\) e \(\theta \in [0, 1]\):

\[ f(\theta x + (1 - \theta) y) \geq f(y) \label{eq:2.23} \tag{2.23} \]

Equivalentemente: os conjuntos de nível superior \(\{x : f(x) \geq c\}\) são convexos para todo \(c\).

Intuição Econômica

Em uma frase: Quase-concavidade garante curvas de indiferença "bem comportadas" — convexas em direção à origem.

Por que importa mais que concavidade para preferências: A utilidade é ordinal no Capítulo 3 — transformações monotônicas crescentes não alteram as preferências. Concavidade não é preservada por transformações monotônicas, mas quase-concavidade sim. Logo, quase-concavidade é a propriedade "certa" para curvas de indiferença: ela garante que a tangência com a reta orçamentária encontra um máximo global, sem depender da escala de \(U\).

Concavidade, quase-concavidade e suficiência

Propriedade de \(f\) CPO necessária? CPO suficiente? Exemplo econômico
Estritamente côncava ✅ (máx global único) \(U = \ln x_1 + \ln x_2\)
Côncava ✅ (máx global, possivelmente múltiplo) \(U = \min(x_1, x_2)\)
Quase-côncava ✅ (com restrição convexa) \(U = x_1 x_2\)
Nenhuma das anteriores ❌ (CSO necessária) \(U = x_1^2 + x_2^2\)

Erro Comum

Confundir côncava com quase-côncava. Toda função côncava é quase-côncava, mas a recíproca é falsa. \(f(x) = x^3\) é quase-côncava (em \(\mathbb{R}\)) mas não côncava. Para preferências, quase-concavidade basta; para aversão ao risco, precisa-se de concavidade "de verdade".


2.9 Funções Homogêneas e o Teorema de Euler

Homogeneidade

Função Homogênea de Grau \(k\)

\(f: \mathbb{R}^n_+ \to \mathbb{R}\) é homogênea de grau \(k\) se, para todo \(t > 0\):

\[ f(tx) = t^k f(x) \label{eq:2.24} \tag{2.24} \]

Exemplos centrais:

Função Grau \(k\) Onde aparece
\(f(L, K) = AL^\alpha K^\beta\) (Cobb-Douglas) \(\alpha + \beta\) Cap. 10: retornos de escala
Demanda marshalliana \(x(p, m)\) 0 em \((p, m)\) Cap. 5: ausência de ilusão monetária
Função custo \(C(w, q)\) 1 em \(w\) Cap. 11: custos sobem proporcionalmente aos preços

Retornos de escala

A homogeneidade da função de produção determina os retornos de escala — um dos conceitos mais importantes da teoria da firma:

Grau \(f(tL, tK)\) vs. \(tf(L, K)\) Retornos
\(k > 1\) \(>\) Crescentes (IRS)
\(k = 1\) \(=\) Constantes (CRS)
\(k < 1\) \(<\) Decrescentes (DRS)

Teorema de Euler

Teorema de Euler

Se \(f\) é homogênea de grau \(k\) e diferenciável, então:

\[ \sum_{i=1}^n x_i \frac{\partial f}{\partial x_i} = k \cdot f(x) \label{eq:2.25} \tag{2.25} \]

Prova: Derive \(f(tx) = t^k f(x)\) em relação a \(t\) pela regra da cadeia: \(\sum_i x_i f_i(tx) = kt^{k-1}f(x)\). Avalie em \(t = 1\). \(\blacksquare\)

Aplicações econômicas do Teorema de Euler

  1. Esgotamento do produto (CRS): Se \(f(L, K)\) é homogênea de grau 1, então \(L \cdot PMg_L + K \cdot PMg_K = f(L, K)\) — pagar a cada fator seu produto marginal esgota exatamente o produto total. Este resultado é a base da teoria da distribuição de renda (Capítulo 17).

  2. Funções de demanda: A demanda marshalliana \(x(p, m)\) é homogênea de grau 0 em \((p, m)\) — dobrar todos os preços e a renda não muda a cesta escolhida. Pelo Teorema de Euler: \(\sum_j \frac{\partial x_i}{\partial p_j} p_j + \frac{\partial x_i}{\partial m} m = 0\), que gera a agregação de elasticidades do Capítulo 5.

Intuição Econômica

Em uma frase: O Teorema de Euler é a garantia de que, em concorrência perfeita com retornos constantes de escala, a conta fecha: a firma paga todos os fatores o que eles "merecem" e não sobra nada.

Por que isso importa: Se há retornos crescentes (\(k > 1\)), pagar cada fator seu produto marginal geraria um déficit — a soma das fatias excede o bolo. Isso é uma das razões pelas quais rendimentos crescentes e concorrência perfeita são incompatíveis, tema central do Capítulo 15 (monopólio).

Derivadas de funções homogêneas

Propriedade das derivadas

Se \(f\) é homogênea de grau \(k\), então \(\partial f / \partial x_i\) é homogênea de grau \(k - 1\).

Corolário: O produto marginal de uma função de produção CRS (\(k = 1\)) depende apenas das proporções dos insumos, não dos níveis. Se \(f(L, K) = L^\alpha K^{1-\alpha}\), então \(PMg_L = \alpha(K/L)^{1-\alpha}\) — função apenas da razão capital-trabalho.

R Interativo
# Verificação do Teorema de Euler para Cobb-Douglas
alpha <- 0.3; beta <- 0.7
f <- function(L, K) L^alpha * K^beta

L <- 10; K <- 20
k <- alpha + beta  # grau de homogeneidade

# Derivadas parciais (numéricas)
dL <- (f(L + 0.001, K) - f(L, K)) / 0.001
dK <- (f(L, K + 0.001) - f(K, K)) / 0.001

# Lado esquerdo de Euler
euler_lhs <- L * dL + K * dK

# Lado direito
euler_rhs <- k * f(L, K)

cat("Euler LHS:", round(euler_lhs, 4), "\n")
cat("Euler RHS:", round(euler_rhs, 4), "\n")
cat("Diferença:", round(abs(euler_lhs - euler_rhs), 6), "\n")

# Homogeneidade: f(tL, tK) = t^k * f(L, K)
t <- 2
cat("\nf(2L, 2K) =", f(t*L, t*K), "\n")
cat("t^k * f(L,K) =", t^k * f(L, K), "\n")

Conexão. Este capítulo cobriu o essencial do cálculo multivariado para microeconomia. As Seções 2.10–2.13 apresentam ferramentas complementares — integração (para excedentes), equações diferenciais (para dinâmica intertemporal), probabilidade (para incerteza) e teoremas de ponto fixo (para existência de equilíbrio) — que serão mobilizadas em capítulos específicos.