Soluções dos Exercícios — Capítulo 23¶
✏️ Exercício 23.1¶
Seguro de saúde com aversão ao risco.
Riqueza \(W = 100.000\), probabilidade de doença \(\pi = 0{,}1\), custo \(m = 50.000\), utilidade \(u(x) = \sqrt{x}\).
(a) Utilidade esperada sem seguro
(b) Prêmio atuarialmente justo e utilidade com seguro
Com seguro justo, a riqueza é certa: \(W - P = 100.000 - 5.000 = 95.000\).
Como \(308{,}22 > 306{,}97\), o indivíduo prefere o seguro justo. A diferença reflete a aversão ao risco.
(c) Prêmio máximo
O prêmio máximo \(P_{\max}\) torna o indivíduo indiferente entre seguro e não seguro:
(d) Conexão com o Capítulo 7
O prêmio máximo (R$ 5.769) excede o prêmio justo (R$ 5.000) em R$ 769,42. Essa diferença é o prêmio de risco — o valor que o indivíduo avesso ao risco está disposto a pagar acima do valor esperado da perda para eliminar a incerteza. Como \(u(x) = \sqrt{x}\) é côncava (aversão ao risco, Capítulo 7), a desigualdade de Jensen garante que \(E[u(X)] < u(E[X])\), e o indivíduo prefere a certeza ao valor esperado.
✏️ Exercício 23.2¶
Dinâmica do estoque de saúde no modelo de Grossman.
\(H_0 = 100\), \(\delta = 0{,}05\), \(I = 8\).
(a) Estado estacionário
Em estado estacionário: \(H^* = H^*(1 - \delta) + I \implies \delta H^* = I\).
(b) Trajetória de \(H_t\)
\(H_{t+1} = 0{,}95 H_t + 8\):
| \(t\) | \(H_t\) |
|---|---|
| 0 | 100,00 |
| 1 | 103,00 |
| 2 | 105,85 |
| 3 | 108,56 |
| 4 | 111,13 |
| 5 | 113,57 |
| 6 | 115,89 |
| 7 | 118,10 |
| 8 | 120,19 |
| 9 | 122,18 |
| 10 | 124,07 |
O estoque converge gradualmente para \(H^* = 160\), mas ainda está distante em \(t = 10\).
(c) Se \(\delta' = 0{,}10\) a partir de \(t = 5\)
Novo estado estacionário: \(H^{**} = 8/0{,}10 = 80\). A partir de \(t = 5\) (\(H_5 = 113{,}57\)):
\(H_{t+1} = 0{,}90 H_t + 8\):
| \(t\) | \(H_t\) |
|---|---|
| 5 | 113,57 |
| 6 | 110,21 |
| 7 | 107,19 |
| 8 | 104,47 |
| 9 | 102,02 |
| 10 | 99,82 |
O estoque agora diminui, convergindo para o novo estado estacionário de 80.
(d) Interpretação
Um aumento de \(\delta\) representa envelhecimento ou deterioração das condições de saúde: o corpo "consome" saúde mais rapidamente. Com o mesmo nível de investimento \(I\), o estado estacionário cai de 160 para 80. Para manter o estoque anterior, seria necessário duplicar o investimento para \(I' = \delta' H^* = 0{,}10 \times 160 = 16\). Isso explica por que o gasto em saúde cresce com a idade: manter a mesma saúde requer cada vez mais investimento à medida que \(\delta\) aumenta.
✏️ Exercício 23.3¶
Seleção adversa e espiral da morte.
Tipo L: \(\pi_L = 0{,}1\), Tipo H: \(\pi_H = 0{,}4\). Perda: \(L = 20.000\). Proporção: 60% L, 40% H. Disposição a pagar: 1,1× valor atuarial.
(a) Prêmios atuarialmente justos
- Tipo L: \(P_L = 0{,}1 \times 20.000 = \text{R\$}\;2.000\)
- Tipo H: \(P_H = 0{,}4 \times 20.000 = \text{R\$}\;8.000\)
- Pool: \(\bar{P} = 0{,}6 \times 2.000 + 0{,}4 \times 8.000 = 1.200 + 3.200 = \text{R\$}\;4.400\)
(b) Quem sai com prêmio do pool?
Disposição a pagar do tipo L: \(1{,}1 \times 2.000 = 2.200\). Como \(\bar{P} = 4.400 > 2.200\), o tipo L não compra seguro ao prêmio do pool.
Disposição a pagar do tipo H: \(1{,}1 \times 8.000 = 8.800\). Como \(\bar{P} = 4.400 < 8.800\), o tipo H compra.
(c) Prêmio de equilíbrio
Com apenas tipo H no pool: \(P^* = \pi_H \times L = 0{,}4 \times 20.000 = \text{R\$}\;8.000\).
A disposição a pagar do tipo H é 8.800 > 8.000, então o tipo H permanece segurado. O equilíbrio tem apenas tipo H segurado, ao prêmio de R$ 8.000.
(d) Diagrama da espiral
Iteração 1: \(\bar{P} = 4.400\). Tipo L sai (\(V_L = 2.200 < 4.400\)). Tipo H fica.
Iteração 2: Pool = 100% tipo H. \(P = 8.000\). Tipo H fica (\(V_H = 8.800 > 8.000\)). Equilíbrio.
Resultado: 60% da população fica sem seguro. Se os tipo-L pudessem obter seguro a R$ 2.000, ambos os tipos estariam melhor — mas a informação assimétrica impede esse resultado.
✏️ Exercício 23.4¶
Demanda induzida pelo ofertante.
Fee-for-service: R$ 200/procedimento. \(n^* = 5\). \(U = 200n - 50(n-5)^2\) para \(n \geq 5\).
(a) Número ótimo de procedimentos
Verificação (segunda ordem): \(\frac{d^2U}{dn^2} = -100 < 0\). Máximo.
(b) Excesso de procedimentos
O custo adicional: \(2 \times 200 = \text{R\$}\;400\).
(c) Com capitation
Sob capitation, a renda é fixa (R$ 1.000) independentemente de \(n\). A utilidade torna-se:
Maximizar: \(\frac{dU}{dn} = -100(n - 5) = 0 \implies n = 5\).
O médico escolhe exatamente o número clinicamente adequado — eliminando a demanda induzida.
(d) Trade-off
O fee-for-service incentiva o sobretratamento (SID), mas garante produtividade — o médico tem incentivo para atender pacientes. A capitation elimina o SID, mas cria risco de subtratamento: como a renda não depende do número de procedimentos, o médico pode minimizar o esforço. Na prática, muitos sistemas usam pagamento misto (base fixa + bônus por desempenho) para equilibrar os incentivos.
✏️ Exercício 23.5¶
Vacinação como externalidade positiva.
\(R_0 = 4\), custo = R$ 100, benefício privado = R$ 80, benefício externo = R$ 60.
(a) Decisão privada
\(B_p = 80 < c = 100\). Não, o indivíduo não se vacina voluntariamente. O benefício privado não cobre o custo.
(b) Ótimo social
Benefício social total: \(B_p + B_e = 80 + 60 = 140 > 100 = c\).
Benefício social líquido: \(140 - 100 = \text{R\$}\;40\) por pessoa vacinada. Sim, é socialmente ótimo vacinar.
(c) Limiar de imunidade de rebanho
(d) Política pigouviana
Um subsídio pigouviano de R$ 60 (igual ao benefício externo) por vacina: o custo efetivo para o indivíduo cai para \(100 - 60 = 40 < 80 = B_p\). Agora o indivíduo se vacina voluntariamente. Alternativamente, vacinação gratuita (subsídio de R$ 100) ou obrigatória.
✏️ Exercício 23.6¶
Comparação de sistemas de saúde.
(a) Índice de eficiência simples
- País A: \(82/10 = 8{,}2\) anos de vida por % do PIB
- País B: \(77/17 = 4{,}5\) anos de vida por % do PIB
(b) Eficiência e equidade
- Mais eficiente: País A (índice 8,2 vs. 4,5 — mais saúde por unidade de gasto).
- Mais equitativo: País A (0% sem seguro vs. 8%; mortalidade infantil menor).
País B tem vantagem apenas no tempo de espera (2 vs. 12 semanas).
(c) Complexidade da comparação
O índice simples ignora: (i) composição da população (idade, renda, comportamento); (ii) qualidade de vida (não apenas duração); (iii) inovação tecnológica produzida; (iv) satisfação do paciente e escolha; (v) fatores não médicos que afetam a expectativa de vida (violência, dieta, desigualdade). Além disso, a expectativa de vida nos EUA é afetada por epidemia de opioides, homicídios e obesidade — fatores parcialmente independentes do sistema de saúde.
(d) Métrica mais adequada
QALYs produzidos por unidade de gasto, ajustados por fatores de risco da população (idade, tabagismo, obesidade, pobreza). Ou: mortalidade evitável (amenable mortality) — mortes que não teriam ocorrido com cuidados médicos oportunos e efetivos — que isola melhor a contribuição do sistema de saúde.
✏️ Exercício 23.7¶
Análise custo-efetividade de duas intervenções.
A: R$ 30.000/paciente, 5 QALYs. B: R$ 500/paciente, 0,5 QALYs. Orçamento: R$ 300.000.
(a) ICER de cada intervenção
(b) Número de pacientes com orçamento total
- Só A: \(300.000/30.000 = 10\) pacientes → \(10 \times 5 = 50\) QALYs.
- Só B: \(300.000/500 = 600\) pacientes → \(600 \times 0{,}5 = 300\) QALYs.
(c) Alocação que maximiza QALYs
A intervenção B tem ICER menor (mais custo-efetiva). Investir tudo em B gera 300 QALYs vs. 50 QALYs em A. Logo, alocar os R$ 300.000 integralmente em B maximiza os QALYs totais.
Alocação mista (exemplo: R$ 30.000 em A + R$ 270.000 em B): 5 + 270 = 275 QALYs < 300.
(d) Implicações éticas
A alocação por custo-efetividade puro (tudo em B) significa que nenhum paciente com obesidade mórbida recebe cirurgia bariátrica. Questões éticas: (i) severidade: pacientes com condições mais graves podem ter direito a tratamento mesmo se menos custo-efetivo; (ii) equidade: se os pacientes de bariátrica são de baixa renda e os de hipertensão de alta renda, a alocação pode agravar desigualdades; (iii) regra de resgate: a sociedade pode considerar moralmente imperativo tratar condições que ameaçam a vida, independentemente do ICER. Na prática, as decisões combinam custo-efetividade com critérios de equidade e severidade.
✏️ Exercício 23.8¶
SUS e sistema privado: dupla porta e gasto per capita.
75% no SUS (4% PIB), 25% no privado (5% PIB). PIB per capita: R$ 50.000. População: 200 milhões.
(a) Gasto per capita relativo
PIB total: \(200 \times 10^6 \times 50.000 = \text{R\$}\;10 \times 10^{12} = \text{R\$}\;10\) trilhões.
- SUS: 4% × R$ 10 tri = R$ 400 bilhões para 150 milhões de pessoas → R$ 2.667/pessoa.
- Privado: 5% × R$ 10 tri = R$ 500 bilhões para 50 milhões de pessoas → R$ 10.000/pessoa.
O gasto per capita no sistema privado é 3,75 vezes maior que no SUS.
(b) Gasto absoluto
- SUS: R$ 400 bilhões/ano
- Privado: R$ 500 bilhões/ano
- Total: R$ 900 bilhões/ano (9% do PIB)
(c) A "dupla porta"
Pacientes com plano privado usam o SUS para: (i) procedimentos de alta complexidade (transplantes, HIV/AIDS, oncologia complexa) que são referência no SUS; (ii) vacinação e vigilância epidemiológica (funções exclusivas do SUS); (iii) medicamentos de alto custo distribuídos pelo SUS; (iv) emergências quando distantes de hospitais conveniados ao plano. Isso configura um subsídio cruzado: o contribuinte financia serviços usados por quem também tem plano privado.
(d) Mecanismo de ressarcimento
A ANS já prevê o ressarcimento ao SUS por atendimentos a beneficiários de planos privados, mas a cobrança é lenta e subestimada. Uma proposta seria: (i) identificação automática via CPF de beneficiários de planos que usam o SUS; (ii) cobrança direta à operadora pelo valor da tabela SUS acrescido de margem administrativa; (iii) publicação anual dos valores de ressarcimento por operadora, incentivando concorrência reputacional. O valor estimado não ressarcido ultrapassa R$ 5 bilhões/ano.
✏️ Exercício 23.9¶
Ajuste de risco em seguros de saúde.
(a) Pagamento de ajuste de risco
O ajuste de risco transfere com base nos custos previstos pelo modelo, não nos observados:
- Jovens homens: \((2.500 - 5.000) \times 250 = -625.000\) (paga R$ 625.000)
- Jovens mulheres: \((3.200 - 5.000) \times 250 = -450.000\) (paga R$ 450.000)
- Idosos homens: \((7.500 - 5.000) \times 250 = +625.000\) (recebe R$ 625.000)
- Idosas mulheres: \((6.800 - 5.000) \times 250 = +450.000\) (recebe R$ 450.000)
Soma: \(-625 - 450 + 625 + 450 = 0\) (balanceado).
(b) Quem recebe transferências?
Seguradoras que atendem predominantemente idosos recebem transferências; seguradoras com carteira de jovens pagam. Isso reduz o incentivo para cream-skimming (atrair jovens saudáveis).
(c) Adequação do modelo
Comparando custos previstos com observados:
- Jovens homens: previsto 2.500 vs. observado 2.000 → modelo superestima (+25%)
- Jovens mulheres: previsto 3.200 vs. observado 3.000 → modelo superestima (+7%)
- Idosos homens: previsto 7.500 vs. observado 8.000 → modelo subestima (−6%)
- Idosas mulheres: previsto 6.800 vs. observado 7.000 → modelo subestima (−3%)
O modelo subestima custos dos idosos e superestima dos jovens — compensando insuficientemente as seguradoras de idosos.
(d) Fatores adicionais
Diagnósticos prévios (HCC — Hierarchical Condition Categories), uso de medicamentos, hospitalizações anteriores, indicadores socioeconômicos (renda, região). Modelos mais sofisticados (como o usado pelo Medicare Advantage nos EUA) explicam 10–15% da variância individual dos custos — melhor que idade/sexo sozinhos (5%), mas ainda longe do ideal.
✏️ Exercício 23.10¶
Valor de uma vida estatística e políticas públicas.
VSL = R$ 5 milhões. Política X: 500 mortes evitadas, custo R$ 400 mi. Política Y: 200 mortes evitadas, custo R$ 800 mi.
(a) Benefício monetário
- Política X: \(500 \times 5.000.000 = \text{R\$}\;2{,}5\) bilhões
- Política Y: \(200 \times 5.000.000 = \text{R\$}\;1{,}0\) bilhão
(b) Benefício líquido
- Política X: \(2.500 - 400 = \text{R\$}\;2{,}1\) bilhões (positivo)
- Política Y: \(1.000 - 800 = \text{R\$}\;200\) milhões (positivo)
(c) Escolha com orçamento limitado
Política X tem maior benefício líquido (R$ 2,1 bi vs. R$ 200 mi) e maior razão benefício-custo (2.500/400 = 6,25 vs. 1.000/800 = 1,25). Escolher Política X.
Alternativamente: custo por morte evitada: X = 400/500 = R$ 800 mil; Y = 800/200 = R$ 4 milhões. X é 5 vezes mais custo-efetiva.
(d) Limitações éticas do VSL
(i) Equidade: o VSL é estimado a partir de decisões de mercado (diferenciais salariais), refletindo a disposição a pagar — que depende da renda. O VSL dos ricos é maior que o dos pobres, mas isso não significa que suas vidas "valem mais". (ii) Identifiabilidade: o VSL aplica-se a vidas estatísticas (anônimas), não a indivíduos identificados — a sociedade valoriza diferentemente "salvar 1 de 100.000 pessoas anônimas" vs. "salvar João que está morrendo no hospital". (iii) Incomensurabilidade: alguns filósofos argumentam que a vida humana não pode ser comparada com bens materiais — o que tornaria a monetização fundamental ilegítima. (iv) Na prática, o VSL é uma ferramenta imperfeita mas útil: sem ele, as decisões ainda são tomadas — mas implicitamente e sem transparência.