Soluções dos Exercícios — Capítulo 20¶
✏️ Exercício 20.1¶
Externalidade de poluição e imposto pigouviano.
Uma fábrica de celulose produz \( q \) toneladas com custo \( C(q) = 10q + q^2 \), vende ao preço \( P = 110 \). O custo externo da poluição é \( E(q) = 2q^2 \).
(a) Quantidade sem regulação
Sem regulação, a firma maximiza seu lucro privado:
Condição de primeira ordem:
Sem regulação, a firma produz \( q = 50 \) toneladas.
(b) Quantidade socialmente ótima
O planejador social maximiza o bem-estar líquido, considerando o custo externo:
Condição de primeira ordem:
Alternativamente, no ótimo social o benefício marginal (preço líquido do custo marginal privado) iguala o custo marginal externo:
A quantidade socialmente ótima é \( q^{**} = \frac{50}{3} \approx 16{,}67 \) toneladas.
(c) Imposto pigouviano ótimo
O imposto pigouviano ótimo é igual ao dano marginal externo avaliado na quantidade eficiente:
Verificação: Com o imposto \( t^* \), a firma maximiza:
Condição de primeira ordem:
O imposto pigouviano \( t^* = \frac{200}{3} \approx 66{,}67 \) por tonelada induz a firma a escolher exatamente a quantidade socialmente eficiente.
(d) Peso morto da ausência de regulação
O peso morto (DWL) corresponde à perda de bem-estar social causada pela produção excessiva, ou seja, a área entre o custo marginal social e o benefício marginal, de \( q^{**} \) a \( q^* \):
O custo marginal social é \( C'(q) + E'(q) = 10 + 2q + 4q = 10 + 6q \), e o benefício marginal é \( P = 110 \). A diferença é:
O peso morto da ausência de regulação é \( DWL = \frac{10\,000}{3} \approx 3333{,}33 \).
Interpretação: essa é a perda líquida de bem-estar social provocada pela produção de 50 toneladas em vez das 16,67 toneladas eficientes. A firma ignora o dano ambiental que impõe a terceiros, gerando superprodução significativa.
✏️ Exercício 20.2¶
Provisão eficiente de bem público e preços de Lindahl.
Três indivíduos (A, B, C) com valorações marginais pelo bem público \( G \):
| \( G \) | \( BMg_A \) | \( BMg_B \) | \( BMg_C \) | \( \sum BMg \) | \( CMg \) |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 40 | 30 | 20 | 90 | 60 |
| 2 | 35 | 25 | 15 | 75 | 60 |
| 3 | 25 | 20 | 10 | 55 | 60 |
| 4 | 15 | 10 | 5 | 30 | 60 |
| 5 | 5 | 5 | 2 | 12 | 60 |
(a) Nível eficiente de provisão
A condição de Samuelson para bens públicos exige que a soma das valorações marginais iguale o custo marginal:
Calculando a soma das valorações marginais para cada nível:
- \( G = 1 \): \( 40 + 30 + 20 = 90 > 60 \) — vale a pena prover mais.
- \( G = 2 \): \( 35 + 25 + 15 = 75 > 60 \) — vale a pena prover mais.
- \( G = 3 \): \( 25 + 20 + 10 = 55 < 60 \) — não vale a pena prover mais.
Como a soma dos benefícios marginais excede o custo marginal até \( G = 2 \) e é inferior a partir de \( G = 3 \), o nível eficiente é:
(b) Preços de Lindahl
Os preços de Lindahl são contribuições personalizadas que refletem a valoração marginal de cada indivíduo no nível eficiente \( G^* = 2 \):
Os preços de Lindahl são: \( p_A^L = 35 \), \( p_B^L = 25 \) e \( p_C^L = 15 \).
Cada indivíduo paga exatamente sua valoração marginal, de modo que todos "concordam" com o nível \( G^* = 2 \).
(c) Por que a provisão voluntária resultaria em \( G < G^* \)
Na provisão voluntária, cada indivíduo decide quanto contribuir considerando apenas seu benefício privado, não o benefício que sua contribuição gera para os demais. Isso ocorre porque o bem público é não-excludente: cada indivíduo pode usufruir da quantidade provida pelos outros sem contribuir.
Formalmente, cada indivíduo compara seu benefício marginal individual \( BMg_i \) com o custo marginal total \( CMg = 60 \). Como:
- \( BMg_A(1) = 40 < 60 \)
- \( BMg_B(1) = 30 < 60 \)
- \( BMg_C(1) = 20 < 60 \)
Nenhum indivíduo, isoladamente, teria incentivo para financiar sequer a primeira unidade do bem público, pois seu benefício marginal individual é inferior ao custo. Esse é o problema do carona (free-rider): cada um espera que os outros financiem o bem, resultando em subprovisão ou provisão nula.
(d) Verificação do equilíbrio orçamentário
A soma dos preços de Lindahl no nível eficiente deve cobrir exatamente o custo marginal:
Comparando com \( CMg = 60 \):
A soma dos preços de Lindahl (75) excede o custo marginal (60). Isso ocorre porque \( G^* = 2 \) é uma solução discreta — a condição de Samuelson não é satisfeita com igualdade exata. Na verdade, a soma dos benefícios marginais em \( G = 2 \) é 75 (ainda acima do custo), mas em \( G = 3 \) cairia para 55 (abaixo do custo). Se o nível ótimo contínuo existisse, ele estaria entre 2 e 3, e os preços de Lindahl somariam exatamente 60.
Para a solução discreta \( G^* = 2 \), os preços de Lindahl geram um superávit de \( 75 - 60 = 15 \), que poderia ser redistribuído entre os indivíduos como um desconto proporcional, mantendo a eficiência da provisão.
✏️ Exercício 20.3¶
Alocação custo-efetiva de abatimento e cap-and-trade.
Duas firmas emitem poluentes. Custos de abatimento: \( CA_1(a_1) = 2a_1^2 \), \( CA_2(a_2) = a_2^2 \). Cada firma emite 100 toneladas sem regulação. O regulador deseja reduzir as emissões totais em 60 toneladas.
(a) Alocação custo-efetiva do abatimento
A alocação custo-efetiva minimiza o custo total de abatimento sujeito à restrição \( a_1 + a_2 = 60 \):
A condição de eficiência exige igualdade dos custos marginais de abatimento:
Portanto \( a_2 = 2a_1 \). Substituindo na restrição:
A alocação custo-efetiva é \( a_1 = 20 \) toneladas (firma 1) e \( a_2 = 40 \) toneladas (firma 2).
A firma com menor custo marginal de abatimento (firma 2) abate mais, o que é o princípio da equalização marginal.
Custo total eficiente:
(b) Custo total com abatimento uniforme
Se cada firma abate 30 toneladas:
O custo total com abatimento uniforme é 2700.
(c) Comparação e economia
A alocação custo-efetiva gera uma economia de 300 em relação ao abatimento uniforme, uma redução de \( \frac{300}{2700} \approx 11{,}1\% \).
Essa economia surge porque o abatimento uniforme ignora as diferenças nos custos marginais entre as firmas. A firma 1, com custo marginal mais alto (\( CMgA_1 = 4a_1 \)), é forçada a abater tanto quanto a firma 2, que tem custo marginal mais baixo (\( CMgA_2 = 2a_2 \)). Ao realocar abatimento da firma 1 para a firma 2, reduz-se o custo total sem alterar a redução total de emissões.
(d) Preço de equilíbrio das permissões (cap-and-trade)
Num sistema de cap-and-trade, cada firma recebe permissões e pode negociá-las. No equilíbrio, o preço da permissão iguala os custos marginais de abatimento:
Verificando com a firma 2:
O preço de equilíbrio das permissões é \( p = 80 \) por tonelada.
Interpretação: a firma 1 (custo marginal alto) compraria permissões da firma 2 (custo marginal baixo) até que os custos marginais se igualem. O mercado de permissões atinge automaticamente a alocação custo-efetiva, independentemente da distribuição inicial das permissões (resultado análogo ao Teorema de Coase).
✏️ Exercício 20.4¶
Bem público discreto, problema do carona e mecanismo de Clarke.
Uma comunidade com 100 moradores decide sobre a construção de um parque público que custa R$50.000. Cada morador \( i \) tem valoração \( v_i \) uniformemente distribuída entre R$200 e R$800.
(a) O parque deve ser construído?
A valoração esperada de cada morador é:
A soma esperada das valorações dos 100 moradores é:
Como \( \sum E[v_i] = 50\,000 = \text{Custo} \), em termos de valor esperado a provisão é marginalmente eficiente. Na realidade, como \( v_i \sim U[200, 800] \), a soma das valorações tem média 50.000 e desvio-padrão \( \sigma = \sqrt{100 \cdot \frac{(800-200)^2}{12}} = 10 \cdot \frac{600}{\sqrt{12}} \approx 1732{,}05 \).
Portanto, em cerca de metade das realizações, a soma das valorações excederá o custo. Se usarmos o critério de eficiência esperada, o parque está na fronteira de viabilidade. Na prática, porém, como a soma pode superar 50.000 com probabilidade significativa e os benefícios distribuem-se por todos, há um argumento razoável a favor da construção, especialmente se considerarmos que a decisão é "construir ou não" (discreta).
(b) Quantos contribuiriam voluntariamente com R$500?
Um morador contribui R$500 voluntariamente se e somente se sua valoração \( v_i \geq 500 \). Como \( v_i \sim U[200, 800] \):
Espera-se que 50 dos 100 moradores contribuam voluntariamente.
Porém, essa análise ignora o raciocínio estratégico. Mesmo moradores com \( v_i \geq 500 \) podem optar por não contribuir se acreditarem que o parque será construído com as contribuições dos outros. Além disso, com apenas 50 contribuições de R$500, arrecadam-se R$25.000, insuficiente para cobrir o custo de R$50.000.
(c) O problema do carona (free-rider)
O parque público é um bem não-excludente: uma vez construído, todos os moradores se beneficiam, independentemente de terem contribuído. Isso gera o problema do carona:
-
Incentivo individual a não contribuir: cada morador percebe que sua contribuição individual (R$500) tem efeito marginal na provisão total, mas o custo é certo. O benefício de "pegar carona" — usufruir do parque sem pagar — domina a decisão individual.
-
Sub-revelação de preferências: se a contribuição é voluntária, moradores têm incentivo a declarar valorações menores que as verdadeiras ou simplesmente não contribuir, esperando que outros financiem o bem.
-
Resultado ineficiente: o equilíbrio de Nash da contribuição voluntária resulta em provisão inferior à eficiente (ou provisão nula), mesmo quando a soma das valorações verdadeiras excede o custo.
Esse é o fundamento teórico para a intervenção governamental na provisão de bens públicos, tipicamente via tributação compulsória.
(d) Mecanismo de imposto pivotal (Clarke)
O mecanismo de Clarke (ou mecanismo pivotal) funciona da seguinte forma:
Etapa 1 — Declaração de valorações. Cada morador \( i \) declara sua valoração \( \hat{v}_i \) pelo parque.
Etapa 2 — Decisão de provisão. O parque é construído se e somente se:
Cada morador paga uma parcela fixa do custo: \( c_i = \frac{50\,000}{100} = 500 \).
Etapa 3 — Imposto pivotal. Verifica-se se o morador \( i \) é pivotal, ou seja, se sua declaração altera a decisão coletiva. Define-se:
- Se \( S_{-i} > 0 \) (o parque seria construído mesmo sem \( i \)) e a decisão final é construir: morador \( i \) não é pivotal e paga imposto zero.
- Se \( S_{-i} < 0 \) (sem \( i \) o parque não seria construído) mas com \( i \) é construído: morador \( i \) é pivotal e paga um imposto adicional igual a \( |S_{-i}| \), compensando exatamente o "prejuízo líquido" imposto aos demais.
Propriedade de compatibilidade de incentivos: O mecanismo de Clarke torna a declaração verdadeira (\( \hat{v}_i = v_i \)) uma estratégia dominante para cada morador. Isso ocorre porque o imposto pivotal depende apenas das declarações dos outros, e o morador só afeta a decisão (e seu imposto) quando é pivotal — nesse caso, declarar a verdade maximiza sua utilidade líquida.
Limitação: O mecanismo de Clarke não é orçamentariamente equilibrado — a receita dos impostos pivotais é um excedente que não pode ser redistribuído aos participantes sem comprometer os incentivos.
✏️ Exercício 20.5¶
Condição de Samuelson e provisão voluntária de bem público.
Economia com bem privado \( x \) e bem público \( G \), dois consumidores:
Preço do bem privado = 1, custo marginal do bem público = \( c \). Cada consumidor tem renda \( W \).
(a) Condição de Samuelson
A condição de Samuelson para provisão eficiente de bens públicos exige que a soma das taxas marginais de substituição (TMS) entre bem público e bem privado iguale o custo marginal relativo:
Para o consumidor 1:
Para o consumidor 2:
A condição de Samuelson é:
(b) Nível eficiente \( G^* \)
A restrição de recursos da economia é:
Da condição de Samuelson: \( 2x_1 + x_2 = cG \).
Para encontrar \( G^* \), resolvemos o problema do planejador social. Maximizamos \( U_1 + U_2 \) (com pesos iguais) sujeito à restrição de recursos. Pelo Lagrangeano:
Condições de primeira ordem:
Das duas primeiras condições: \( x_1 = x_2 = \frac{1}{\lambda} \).
Da terceira: \( G = \frac{3}{\lambda c} \).
Substituindo na restrição de recursos:
Portanto:
E os consumos privados: \( x_1^* = x_2^* = \frac{2W}{5} \).
(c) Provisão voluntária (equilíbrio de Nash)
Na provisão voluntária, cada consumidor \( i \) escolhe sua contribuição \( g_i \geq 0 \) ao bem público, tomando a contribuição do outro como dada. O nível total é \( G = g_1 + g_2 \).
Consumidor 1 maximiza:
Condição de primeira ordem:
Consumidor 2 maximiza:
Condição de primeira ordem:
Resolvendo o sistema:
Da segunda equação: \( g_1 = W - 2g_2 \). Substituindo na primeira:
O nível total de bem público no equilíbrio de Nash é:
Com custo marginal \( c \), a quantidade efetiva de bem público é:
(assumindo que cada unidade monetária contribuída compra \( 1/c \) unidades de bem público).
Os consumos privados são: \( x_1^{Nash} = W - g_1 = \frac{2W}{5} \) e \( x_2^{Nash} = W - g_2 = \frac{4W}{5} \).
(d) Comparação: \( G^{Nash} < G^* \)
Comparando os dois níveis:
O equilíbrio de Nash produz apenas \( \frac{2}{3} \) do nível eficiente de bem público.
Interpretação econômica:
A subprovisão no equilíbrio voluntário ocorre porque cada consumidor, ao decidir quanto contribuir, considera apenas seu próprio benefício marginal, ignorando o benefício que sua contribuição gera para o outro consumidor. Este é o cerne do problema de externalidade positiva na provisão de bens públicos.
Especificamente:
- O consumidor 1 iguala sua \( TMS_{G,x}^1 = c \) (em vez de contribuir até que a soma das TMS iguale \( c \)).
- O consumidor 2 faz o mesmo com sua \( TMS_{G,x}^2 = c \).
Cada um "pega carona" parcialmente no outro, e o resultado é que ambos subinvestem no bem público. A condição de Samuelson \( \sum TMS = c \) não é satisfeita no equilíbrio de Nash; em vez disso, cada consumidor individualmente iguala \( TMS^i = c \), o que resulta em \( \sum TMS^i > c \) no equilíbrio — sinalizando que mais bem público seria desejável do ponto de vista social.
Este resultado fundamenta a necessidade de mecanismos coletivos (tributação, mecanismos de revelação) para atingir a provisão eficiente de bens públicos.
✏️ Exercício 20.6¶
Imposto pigouviano com incerteza sobre a alíquota ótima.
Uma indústria siderúrgica produz \( q \) toneladas de aço com custo total \( C(q) = 20q + 0{,}5q^2 \), vende ao preço \( P = 80 \). Custo externo: \( E(q) = q^2 \).
(a) Quantidade sem regulação e quantidade socialmente ótima
Sem regulação, a firma maximiza lucro privado:
Condição de primeira ordem:
Ótimo social — o planejador maximiza bem-estar líquido:
Sem regulação: \( q^{priv} = 60 \). Ótimo social: \( q^{soc} = 20 \).
(b) Imposto pigouviano ótimo
O imposto pigouviano ótimo iguala o dano marginal externo avaliado na quantidade eficiente:
Verificação: Com \( t^* = 40 \), a firma maximiza:
O imposto pigouviano ótimo é \( t^* = 40 \) por tonelada.
(c) Receita fiscal e peso morto eliminado
A receita fiscal do imposto pigouviano é:
O peso morto da ausência de regulação é a perda de bem-estar entre \( q^{soc} = 20 \) e \( q^{priv} = 60 \). O custo marginal social é \( CMgS(q) = C'(q) + E'(q) = 20 + q + 2q = 20 + 3q \), e o benefício marginal é \( P = 80 \):
A receita fiscal é 800 e o peso morto eliminado pelo imposto é \( DWL = 2400 \).
(d) Imposto incorreto \( t = 30 \)
Com \( t = 30 \), a firma maximiza:
O peso morto residual corresponde à perda entre \( q^{soc} = 20 \) e \( q = 30 \):
Com imposto incorreto \( t = 30 \), a firma produz \( q = 30 \) (acima do ótimo), e o peso morto residual é 150. O imposto subótimo elimina a maior parte da ineficiência (reduz DWL de 2400 para 150, ou seja, remove 93,75% do peso morto), mas não a totalidade, pois o imposto é inferior ao dano marginal externo na quantidade eficiente.
✏️ Exercício 20.7¶
Teorema de Coase: fazendeiro vs. lavrador.
Lucro do fazendeiro: \( \pi_F(n) = 120n - 3n^2 \). Dano à lavoura: \( D(n) = 2n^2 \).
(a) Equilíbrio sem negociação
O fazendeiro maximiza seu lucro privado:
Sem negociação, o fazendeiro cria \( n^{priv} = 20 \) cabeças. Lucro: \( \pi_F(20) = 120 \times 20 - 3 \times 400 = 2400 - 1200 = 1200 \). Dano: \( D(20) = 2 \times 400 = 800 \).
(b) Número socialmente ótimo
O bem-estar social é o lucro do fazendeiro menos o dano ao lavrador:
O número socialmente ótimo é \( n^{soc} = 12 \) cabeças. Lucro: \( \pi_F(12) = 120 \times 12 - 3 \times 144 = 1440 - 432 = 1008 \). Dano: \( D(12) = 2 \times 144 = 288 \).
(c) Negociação coaseana — fazendeiro tem o direito
Se o fazendeiro tem o direito de criar gado livremente, ele escolheria \( n = 20 \). O lavrador pode oferecer uma compensação \( T \) para que o fazendeiro reduza o rebanho de 20 para 12 cabeças.
Perda do fazendeiro ao reduzir de 20 para 12:
Ganho do lavrador com a redução:
A negociação ocorre se o ganho do lavrador excede a perda do fazendeiro: \( 512 > 192 \). O excedente da negociação é \( 512 - 192 = 320 \).
A compensação \( T \) deve satisfazer:
O fazendeiro aceita reduzir o rebanho se recebe ao menos 192 (sua perda de lucro). O lavrador aceita pagar no máximo 512 (o dano evitado). A negociação conduz ao ótimo social \( n = 12 \), com compensação \( T \in [192, 512] \).
(d) Negociação coaseana — lavrador tem o direito
Se o lavrador tem direito a não sofrer danos, o fazendeiro precisa compensar o lavrador pelo dano causado. O fazendeiro oferece \( T' \) para poder criar \( n = 12 \) cabeças (ele não criaria \( n = 20 \) pois teria que compensar todo o dano, e o dano marginal excede o lucro marginal para \( n > 12 \)).
Ganho do fazendeiro ao criar 12 cabeças (partindo de 0):
Dano ao lavrador com 12 cabeças:
A compensação \( T' \) deve satisfazer:
O lavrador aceita se recebe ao menos 288 (compensação integral pelo dano). O fazendeiro aceita pagar no máximo 1008 (seu lucro total). O excedente é \( 1008 - 288 = 720 \).
A negociação novamente conduz a \( n = 12 \), com compensação \( T' \in [288, 1008] \). Isso confirma o Teorema de Coase: a alocação eficiente é alcançada independentemente da distribuição inicial dos direitos de propriedade. A diferença está apenas na distribuição do excedente — quem detém o direito obtém maior parcela do ganho.
✏️ Exercício 20.8¶
Condição de Samuelson e subprovisão de bem público com \( N \) consumidores.
\( N = 50 \) consumidores idênticos, renda \( W = 100 \), utilidade \( U_i = x_i + 10\sqrt{G} \), custo \( C(G) = G \).
(a) Condição de Samuelson e \( G^* \)
A TMS de cada consumidor entre bem público e bem privado é:
A condição de Samuelson exige:
Verificação da viabilidade: O custo do bem público é \( G^* = 62\,500 \), e a renda total é \( 50 \times 100 = 5000 \). Como \( 62\,500 > 5000 \), o nível eficiente não é viável com essas rendas.
Reconsiderando com a restrição de recursos \( \sum x_i + G = NW = 5000 \) e \( x_i \geq 0 \), o nível eficiente alcançável é limitado. Na verdade, se toda a renda fosse destinada ao bem público, \( G^{max} = 5000 \). Neste caso, como a solução interior exige \( G^* = 62\,500 \), temos uma solução de canto onde \( G^* = 5000 \) e \( x_i = 0 \) para todo \( i \).
No entanto, para a análise comparativa, consideremos o caso com parâmetros ajustados em que a solução é interior. Com a utilidade quasilinear, se \( G^* = 62\,500 \) excede a renda total, interpretamos que a condição de Samuelson indica \( G^* = 62\,500 \) como ótimo irrestrito. O nível eficiente irrestrito é \( G^* = 62\,500 \).
(b) Equilíbrio de Nash de contribuição voluntária
No equilíbrio de Nash, cada consumidor \( i \) escolhe \( g_i \) para maximizar:
onde \( G_{-i} = \sum_{j \neq i} g_j \). Condição de primeira ordem:
No equilíbrio simétrico com \( N = 50 \) consumidores idênticos: \( g_i = G/N = 25/50 = 0{,}5 \).
(c) Razão \( G^{Nash}/G^* \)
Com \( N = 50 \): \( G^{Nash}/G^* = 1/2500 = 0{,}04\% \). A provisão voluntária produz uma fração ínfima do nível eficiente. Isso ocorre porque cada consumidor iguala sua TMS individual (não a soma) ao custo marginal: \( 5/\sqrt{G} = 1 \) vs. \( 250/\sqrt{G} = 1 \).
(d) Efeito do tamanho do grupo
Com \( N = 200 \):
A razão diminui dramaticamente. O nível de Nash não muda (cada consumidor resolve o mesmo problema individual), mas o nível eficiente cresce com \( N^2 \). À medida que o grupo aumenta, o free-riding se agrava: cada consumidor é uma fração menor do total, seu impacto na provisão é insignificante, e o incentivo a contribuir diminui. Este é o resultado clássico de Olson (1965): grupos maiores enfrentam problemas de ação coletiva mais severos, pois o benefício individual da contribuição é diluído entre mais membros.
✏️ Exercício 20.9¶
Tragédia dos comuns: pesca em lago de acesso aberto.
Captura total: \( Q = E(100 - E) \). Preço do peixe: \( p = 1 \). Custo por unidade de esforço: \( w = 10 \). \( n = 10 \) pescadores idênticos.
(a) Esforço total de equilíbrio (acesso aberto)
No equilíbrio simétrico de Nash, cada pescador escolhe \( e_i \) tomando \( E_{-i} \) como dado. A receita do pescador \( i \) é:
O lucro do pescador \( i \) é:
Com \( E = e_i + E_{-i} \) e no equilíbrio simétrico \( e_i = E/n \):
O esforço total de equilíbrio é \( E^{Nash} = 900/11 \approx 81{,}82 \).
(b) Esforço socialmente eficiente
O planejador social maximiza o lucro total:
O esforço socialmente eficiente é \( E^{soc} = 45 \).
(c) Peso morto do acesso aberto
Lucro total no ótimo social:
Lucro total no equilíbrio de acesso aberto:
O peso morto do acesso aberto é aproximadamente 1355,58, representando \( 1355{,}58 / 2025 \approx 66{,}9\% \) do excedente potencial desperdiçado.
(d) Políticas para alcançar o ótimo
Política 1 — Imposto pigouviano sobre esforço. O regulador cobra um imposto \( t \) por unidade de esforço que internalize a externalidade negativa. No equilíbrio, cada pescador iguala:
Para induzir \( E^{soc} = 45 \):
O imposto corrige a cunha entre produto médio e produto marginal, fazendo cada pescador perceber o custo social de seu esforço.
Política 2 — Sistema de quotas individuais transferíveis (ITQ). O regulador fixa o esforço total em \( E^{soc} = 45 \) e distribui permissões de pesca. Cada pescador recebe uma quota de \( 45/10 = 4{,}5 \) unidades de esforço. As quotas são transferíveis, permitindo que pescadores mais eficientes comprem quotas dos menos eficientes. Com pescadores idênticos, não há comércio, mas o cap garante o nível eficiente. O preço de equilíbrio da quota reflete o produto marginal social da pesca no ótimo.
✏️ Exercício 20.10¶
Cap-and-trade vs. imposto sobre emissões com três firmas.
Custos marginais de abatimento: \( CMgA_1 = 2a_1 \), \( CMgA_2 = 4a_2 \), \( CMgA_3 = a_3 \). Meta: redução total de 100 toneladas.
(a) Alocação custo-efetiva e equivalência dos instrumentos de mercado
A alocação custo-efetiva equaliza os custos marginais de abatimento:
onde \( \mu \) é o preço-sombra (ou preço da permissão). Portanto:
Pela restrição \( a_1 + a_2 + a_3 = 100 \):
Cap-and-trade: Cada firma negocia permissões até igualar seu custo marginal de abatimento ao preço da permissão \( p \). No equilíbrio: \( p = \mu = 400/7 \approx 57{,}14 \).
Imposto uniforme: Se o regulador fixa o imposto \( t = 400/7 \), cada firma abate até \( CMgA_i = t \), resultando em \( a_1 = 200/7 \), \( a_2 = 100/7 \), \( a_3 = 400/7 \) — exatamente a alocação custo-efetiva.
Ambos os instrumentos de mercado atingem a mesma alocação custo-efetiva, com o mesmo preço implícito \( \mu = 400/7 \).
(b) Custo total: custo-efetiva vs. uniforme
Os custos de abatimento são \( CA_1 = a_1^2 \), \( CA_2 = 2a_2^2 \), \( CA_3 = 0{,}5a_3^2 \) (integrando os custos marginais).
Custo custo-efetivo:
Custo com abatimento uniforme (\( a_i = 100/3 \) para cada firma):
Economia:
A alocação custo-efetiva gera economia de aproximadamente 1031,75, ou 26,5% do custo uniforme. A economia é substancial porque os custos marginais são muito heterogêneos: a firma 3 (custo marginal mais baixo) abate quatro vezes mais que a firma 2 (custo marginal mais alto).
(c) Imposto vs. cap-and-trade com custos subestimados
Se os verdadeiros custos de abatimento são 50% maiores: \( CMgA_1^{real} = 3a_1 \), \( CMgA_2^{real} = 6a_2 \), \( CMgA_3^{real} = 1{,}5a_3 \).
Com imposto \( t = 40 \): Cada firma abate até \( CMgA_i^{real} = 40 \):
Abatimento total: \( 13{,}33 + 6{,}67 + 26{,}67 = 46{,}67 \) toneladas (abaixo da meta de 100).
O dano da poluição residual extra (\( 100 - 46{,}67 = 53{,}33 \) toneladas a mais) é: \( D' \times 53{,}33 = 40 \times 53{,}33 = 2133{,}33 \).
Porém, a economia no custo de abatimento (por abater menos) também importa. O custo total social (abatimento + dano) com o imposto reflete o trade-off correto dado o preço \( t = 40 \).
Com cap-and-trade (cap = 100 toneladas): A meta de 100 toneladas é atingida independentemente dos custos reais. O preço da permissão ajusta-se para cima:
Como o dano marginal é constante (\( D' = 40 \)), o custo marginal de abatimento no cap-and-trade (\( \mu' \approx 85{,}71 \)) excede muito o dano marginal (40). Isso significa que a sociedade está gastando mais em abatimento do que o dano evitado justifica.
O imposto é preferível neste caso, pois mantém o custo marginal de abatimento (\( t = 40 \)) alinhado com o dano marginal (\( D' = 40 \)), mesmo que o abatimento total fique abaixo da meta.
(d) Relação com Weitzman (1974)
O resultado de Weitzman (1974) mostra que a escolha entre preços (imposto) e quantidades (cap) depende das inclinações relativas das curvas de custo marginal de abatimento e de dano marginal:
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Quando a curva de dano marginal é plana (como neste exercício, com \( D' = 40 \) constante) e a curva de custo marginal de abatimento é inclinada, o instrumento de preço (imposto) é preferível. Isso porque erros na estimação dos custos de abatimento levam a variações na quantidade abatida, mas o custo social dessas variações é pequeno quando o dano marginal é constante — o imposto mantém o custo marginal de abatimento igual ao dano marginal (a condição de eficiência).
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Quando a curva de dano marginal é inclinada (danos catastróficos acima de certo limiar) e a curva de custo de abatimento é plana, o instrumento de quantidade (cap) é preferível, pois garante que o nível de emissão não ultrapasse o limiar, mesmo que os custos sejam mal estimados.
No nosso exercício, com dano marginal constante e custos subestimados: o imposto errou na quantidade (abateu 46,67 em vez de 100), mas manteve a eficiência marginal. O cap-and-trade atingiu a meta, mas a um custo marginal de 85,71, muito acima do dano marginal de 40 — gerando ineficiência por abatimento excessivo em termos de custo-benefício. O imposto domina porque a curva de dano é plana.