Soluções dos Exercícios — Capítulo 9c¶
✏️ Exercício 9c.1¶
Solução.
Considere o jogo bayesiano 2×2 genérico. O jogador 1 tem tipo \(\theta \in \{H, L\}\) com \(\Pr(H) = 0{,}5\). J1 escolhe \(U\) ou \(D\); J2 (sem tipo privado) escolhe \(L\) ou \(R\).
Método geral para encontrar o BNE:
-
Estratégia de J1: Uma estratégia contingente ao tipo: \(s_1(\theta)\). Com 2 tipos e 2 ações, há 4 estratégias possíveis: (U,U), (U,D), (D,U), (D,D), onde \((a_H, a_L)\) denota a ação de cada tipo.
-
Melhor resposta de J2: Para cada estratégia de J1, J2 calcula o payoff esperado (ponderado pelas crenças \(\Pr(H) = 0{,}5\)) e escolhe \(L\) ou \(R\).
-
Consistência: Verificar que cada tipo de J1 está jogando sua melhor resposta dada a ação de J2.
Exemplo concreto (usando os payoffs do Exercício Resolvido 9c.1): incumbente com tipo forte/fraca, entrante decide se entra.
Com \(\Pr(\theta_F) = 0{,}5\): \(E[\pi_E] = 0{,}5(-2) + 0{,}5(4) = 1 > 0\). A entrante entra. BNE: (Entrar), com ambos os tipos da incumbente aceitando o resultado.
O ponto-chave é que J2 maximiza contra a distribuição sobre os tipos de J1, não contra um tipo específico. Isso é o que distingue jogos bayesianos de jogos com informação completa.
✏️ Exercício 9c.2¶
Solução.
No leilão all-pay, ambos os licitantes pagam seus lances, mas apenas o maior lance ganha o objeto. Com \(v_i \sim U[0,1]\):
BNE simétrico: Cada licitante joga \(b(v) = v^2/2\).
Derivação: O licitante \(i\) com valor \(v\) maximiza:
Se \(b(v) = \alpha v^2\), então \(b^{-1}(b) = \sqrt{b/\alpha}\) e \(\Pr(v_j < \sqrt{b/\alpha}) = \sqrt{b/\alpha}\).
CPO: \(v \cdot \frac{1}{2\sqrt{\alpha b}} - 1 = 0 \implies b = v^2/(4\alpha)\). Para consistência: \(\alpha v^2 = v^2/(4\alpha) \implies \alpha = 1/2\).
Receita esperada: Cada licitante paga \(E[b(v_i)] = E[v^2/2] = 1/6\). Receita total (2 licitantes) = \(2 \times 1/6 = 1/3\).
Comparação com primeiro preço: No leilão de primeiro preço com \(N = 2\) e \(v \sim U[0,1]\): \(b(v) = v/2\), receita = \(E[\max(v_1/2, v_2/2)] = 1/3\).
As receitas são idênticas (1/3), confirmando o Teorema da Equivalência de Receita.
Interpretação econômica: O leilão all-pay modela competições onde todos os participantes incorrem em custos (lobbying, P&D, competições esportivas). A equivalência de receita implica que o "desperdício" total é o mesmo que em um leilão convencional — mas a distribuição dos custos é muito diferente (todos pagam, não apenas o vencedor).
✏️ Exercício 9c.3¶
Solução.
Com \(V = 100\), \(s_i = V + \varepsilon_i\), \(\varepsilon_i \sim U[-20, 20]\), e 3 empresas lançando \(b_i = s_i\):
O vencedor é quem tem o maior sinal: \(s^{(1)} = \max(s_1, s_2, s_3)\).
Maldição do vencedor: Condicional a vencer, o vencedor é aquele cujo \(\varepsilon_i\) é o maior dos três. O valor esperado de \(\max(\varepsilon_1, \varepsilon_2, \varepsilon_3)\) com \(\varepsilon \sim U[-20, 20]\) é:
(usando a fórmula para a \(k\)-ésima estatística de ordem de \(U[a,b]\): \(E[\varepsilon^{(k)}] = a + (b-a) \times k/(N+1)\).)
O sinal do vencedor é, em média, \(s^{(1)} = 100 + 10 = 110\). Se ele lançar \(b = s = 110\), seu lucro esperado é:
O vencedor paga, em média, mais do que o valor verdadeiro: lucro esperado negativo.
Ajuste ótimo: O licitante racional deve ajustar seu lance para baixo, descontando a maldição do vencedor:
Com 3 licitantes e \(U[-20, 20]\), o ajuste é \(-10\): \(b(s_i) = s_i - 10\).
Interpretação econômica: A maldição do vencedor é particularmente relevante em leilões de concessões no Brasil (petróleo, espectro, rodovias). Empresas que não ajustam seus lances para a informação revelada pela vitória tendem a pagar preços excessivos. O pré-sal brasileiro, leiloado sob o regime de partilha, é projetado em parte para mitigar esse problema.
✏️ Exercício 9c.4¶
Solução.
Dados do problema:
- J1: tipo \(A\) (prob. 0,3) ou tipo \(B\) (prob. 0,7); ações \(\{X, Y\}\).
- J2: sem tipo privado; ações \(\{X, Y\}\).
- Payoffs (J1, J2):
- Tipo A: (X,X) = (4,1); (X,Y) = (2,3); (Y,X) = (1,2); (Y,Y) = (3,0)
- Tipo B: (X,X) = (1,1); (X,Y) = (3,2); (Y,X) = (2,3); (Y,Y) = (0,1)
Passo 1 — Estratégias de J1 (contingentes ao tipo).
Uma estratégia de J1 é um par \((a_A, a_B)\) indicando a ação de cada tipo. Há 4 estratégias puras: (X,X), (X,Y), (Y,X), (Y,Y).
Passo 2 — Para cada estratégia de J1, calcule a melhor resposta de J2.
J2 não observa o tipo de J1, portanto maximiza o payoff esperado usando as crenças \((0{,}3, 0{,}7)\).
- Se J1 joga (X,X): J2 recebe \(E[u_2 | L] = 0{,}3 \cdot 1 + 0{,}7 \cdot 1 = 1\) com X, e \(E[u_2 | R] = 0{,}3 \cdot 3 + 0{,}7 \cdot 2 = 2{,}3\) com Y. BR de J2: Y.
- Se J1 joga (X,Y): J2 recebe \(E[u_2 | X] = 0{,}3 \cdot 1 + 0{,}7 \cdot 3 = 2{,}4\) com X, e \(E[u_2 | Y] = 0{,}3 \cdot 3 + 0{,}7 \cdot 2 = 2{,}3\) com Y. BR de J2: X.
- Se J1 joga (Y,X): J2 recebe \(E[u_2 | X] = 0{,}3 \cdot 2 + 0{,}7 \cdot 1 = 1{,}3\) com X, e \(E[u_2 | Y] = 0{,}3 \cdot 0 + 0{,}7 \cdot 3 = 2{,}1\) com Y. BR de J2: Y.
- Se J1 joga (Y,Y): J2 recebe \(E[u_2 | X] = 0{,}3 \cdot 2 + 0{,}7 \cdot 1 = 1{,}3\) com X, e \(E[u_2 | Y] = 0{,}3 \cdot 0 + 0{,}7 \cdot 1 = 0{,}7\) com Y. BR de J2: X.
Passo 3 — Verificar consistência: cada tipo de J1 deve jogar melhor resposta dada a ação de J2.
Candidato (X,X) com J2 jogando Y: - Tipo A com J2=Y: payoff de X é 2, de Y é 3. Tipo A prefere Y — inconsistente.
Candidato (X,Y) com J2 jogando X: - Tipo A com J2=X: payoff de X é 4, de Y é 1. Tipo A prefere X. ✓ - Tipo B com J2=X: payoff de X é 1, de Y é 2. Tipo B prefere Y — inconsistente.
Candidato (Y,X) com J2 jogando Y: - Tipo A com J2=Y: payoff de X é 2, de Y é 3. Tipo A prefere Y. ✓ - Tipo B com J2=Y: payoff de X é 3, de Y é 0. Tipo B prefere X — inconsistente.
Candidato (Y,Y) com J2 jogando X: - Tipo A com J2=X: payoff de X é 4, de Y é 1. Tipo A prefere X — inconsistente.
Resultado: Nenhum dos quatro candidatos de BNE puro é consistente. O único BNE neste jogo envolve estratégias mistas.
Lição: Em jogos bayesianos, a ausência de BNE puro é comum quando os interesses dos tipos conflitam — nesse jogo, o tipo A prefere X quando J2 joga X (incentivo oposto ao tipo B). O BNE misto exigiria encontrar probabilidades que tornem J2 indiferente, o que está além do escopo deste exercício.
✏️ Exercício 9c.5¶
Solução.
Dados: \(v_1 = 80\), \(v_2 = 60\), leilão de segundo preço (Vickrey).
(a) Estratégia fracamente dominante \(b_i = v_i\):
Pelo argumento da demonstração do texto (reproduzido brevemente): para o Jogador 1 com \(v_1 = 80\):
- Desvio para cima \(b_1' > 80\): só muda o resultado quando \(b_2 \in (80, b_1')\). Nesse intervalo, J1 passa a ganhar e paga \(b_2 > 80 = v_1\) — lucro negativo. Prejudicial.
- Desvio para baixo \(b_1' < 80\): só muda o resultado quando \(b_2 \in (b_1', 80)\). J1 perde quando poderia ganhar com lucro positivo (\(v_1 - b_2 = 80 - b_2 > 0\)). Prejudicial.
O argumento é idêntico para J2 com \(v_2 = 60\). Portanto, \(b_i = v_i\) é fracamente dominante para ambos.
(b) Vencedor e pagamento:
Com \(b_1 = 80 > b_2 = 60\), o Jogador 1 ganha. O pagamento é o segundo maior lance:
(c) Excedente do vencedor:
O Jogador 2 não paga nada e obtém excedente zero.
(d) Com preço de reserva \(r = 70\):
Para ganhar, o licitante deve lançar acima de \(\max(r, b_{-i})\). Com \(b_1 = v_1 = 80 > r = 70\) e \(b_2 = v_2 = 60 < r = 70\):
- J2 efetivamente é excluído do leilão (seu valor está abaixo do preço de reserva).
- J1 ganha, mas o preço mínimo passa a ser o preço de reserva: pagamento = \(\max(r, b_2) = \max(70, 60) = 70\).
- Excedente do vencedor: \(\pi_1 = 80 - 70 = 10\).
Efeito do preço de reserva: O vendedor aumenta sua receita de 60 para 70, mas correria risco de não vender se \(v_1 < r\). O preço de reserva ótimo de Myerson é positivo mesmo com valor de reserva zero para o vendedor — demonstração de que excluir licitantes pode aumentar a receita esperada.
✏️ Exercício 9c.6¶
Solução.
Dados: \(N = 4\) licitantes, \(v_i \sim U[0, 200]\).
(a) Receita esperada no leilão de primeiro preço:
BNE simétrico: \(b(v) = v \cdot (N-1)/N = v \cdot 3/4\).
O vencedor é quem tem o maior valor. A receita é o maior lance:
Com \(v \sim U[0, 200]\) e \(N = 4\), a esperança da maior estatística de ordem é:
Portanto:
Alternativamente, usando a fórmula direta: \(E[R] = \bar{v} \cdot (N-1)/(N+1) = 200 \cdot 3/5 = 120\).
(b) Receita esperada no leilão de segundo preço:
No leilão de segundo preço, a receita é o segundo maior valor (pois \(b_i = v_i\)):
Com \(v \sim U[0, 200]\) e \(N = 4\), a esperança da segunda estatística de ordem é:
(c) Verificação da equivalência:
O Teorema da Equivalência de Receita é confirmado: ambos os formatos geram receita esperada de R$ 120.
(d) Custo de participação de R$ 10:
Se um licitante tem custo de participação \(c = 10\), ele participa apenas se o excedente esperado supera o custo. O excedente esperado de um licitante com valor \(v\) em leilão de segundo preço com \(N\) competidores é \(E[\pi(v)] = F(v)^{N-1}(v - E[v^{(1)} | v^{(1)} < v])\).
O licitante com valor muito baixo prefere não participar. Com \(c = 10\) e \(N = 4 \to 3\), a receita do leiloeiro cai para:
A redução de um participante diminui a receita em R$ 20. Isso ilustra por que leiloeiros frequentemente cobrem custos de participação — o benefício de ter mais licitantes supera o custo de subsidiá-los.
✏️ Exercício 9c.7¶
Solução.
Dados: ANP leiloa bloco de petróleo, \(V = 100\). Empresas grandes (\(c_G = 20\), prob. 0,5) e pequenas (\(c_P = 50\), prob. 0,5). Valor líquido: \(v_G = V - c_G = 80\) e \(v_P = V - c_P = 50\).
(a) BNE no leilão de primeiro preço:
Este é um leilão bayesiano com dois tipos assimétricos — não há BNE simétrico na forma \(b(v)\) geral. Porém, com dois tipos discretos, o BNE pode ser calculado diretamente.
Seja \(b_G\) o lance da empresa grande e \(b_P\) o lance da pequena.
Empresa pequena: Se lança \(b_P\), ganha se \(b_P > b_G\). Mas como \(v_P < v_G\), em equilíbrio a empresa grande lança mais alto. A empresa pequena ganha somente se a empresa grande não participa, ou se a pequena supera o lance da grande — o que só é racional se \(b_P > b_G\) e o lucro líquido \(v_P - b_P > 0\).
Resultado do BNE assimétrico:
Em equilíbrio, a empresa grande lança \(b_G > b_P\) para garantir a vitória. A melhor resposta da empresa pequena é \(b_P = v_P\) se lançar acima não for lucrativo:
O BNE de equilíbrio de licitação em estratégias puras com dois tipos envolve a empresa grande lançando suficientemente mais que a pequena para garantir vitória. Em particular:
Na prática, a empresa grande lança logo acima de 50 para vencer com lucro máximo: \(b_G^* \to 50^+\), obtendo quase todo o excedente \(v_G - b_G \approx 30\).
(b) Formato que maximiza receita da ANP:
O leilão ótimo de Myerson para tipos assimétricos recomenda:
- Preço de reserva: Excluir empresas com valor líquido abaixo de um limiar \(\bar{v}\).
- Discriminação: Tratar os tipos assimetricamente — exigir que a empresa grande lance mais alto (via "virtual valuation") para vencer.
A receita esperada do leilão ótimo supera a do leilão de primeiro preço simétrico porque explora a assimetria entre tipos.
(c) Regime de partilha versus bônus de assinatura:
No leilão de bônus de assinatura, as empresas oferecem um valor fixo. A maldição do vencedor e a incerteza sobre \(V\) fazem com que as empresas sombreiem seus lances.
No regime de partilha de produção, as empresas oferecem uma percentagem \(\alpha\) do excedente em óleo para a União. Esse formato tem uma propriedade importante: o risco de estimação errada de \(V\) é compartilhado entre empresa e União. Se o bloco se revelar menos produtivo, a empresa paga menos (proporcionalmente). Isso reduz o incentivo para sombrear lances e pode levar a lances mais agressivos.
Comparação: Partilha de produção é mais robusta à maldição do vencedor (menor seleção adversa), mas cria desincentivos à exploração eficiente (o risco compartilhado reduz o upside da empresa). O formato atual da ANP combina bônus fixo com partilha — um compromisso entre extração de receita e eficiência exploratória.
(d) Comparação com o leilão ótimo de Myerson:
O leilão da ANP difere do leilão ótimo em vários aspectos:
- Critérios múltiplos (bônus + programa exploratório + conteúdo local): o leilão ótimo maximiza uma única dimensão; múltiplos critérios complicam a análise de BNE.
- Conteúdo local obrigatório: distorce a alocação para favorecer fornecedores brasileiros — uma preocupação política que o leilão de Myerson (puramente de receita) não captura.
- Assimetria de informação sobre reservas: a ANP dispõe de dados sísmicos que empresas não têm igualmente — elemento do "linkage principle" de Milgrom-Weber.
Conclusão: O formato da ANP é um mecanismo de revelação direta parcial, com múltiplos objetivos (receita, desenvolvimento industrial, segurança energética), o que o afasta do leilão ótimo de receita puro. Essa é uma escolha consciente de política pública.
✏️ Exercício 9c.8¶
Solução.
Dados: \(N\) licitantes, \(v_i \sim^{i.i.d.} F\) com densidade \(f\) contínua, suporte \([0,1]\).
(a) Condição de primeira ordem para o BNE simétrico do leilão de primeiro preço:
Assuma um BNE simétrico crescente \(b(v)\). O licitante com valor \(v\) maximiza:
Seja \(G(b) = F(b^{-1}(b))^{N-1}\). Por simetria, se todos jogam \(b(\cdot)\), a probabilidade de ganhar com lance \(\beta\) é \(F(b^{-1}(\beta))^{N-1}\).
Substituindo \(\beta = b(v)\) e diferenciando com respeito a \(v\) (usando que no ótimo o licitante com valor \(v\) lança \(b(v)\)):
A CPO (aplicando o envelope theorem ao problema do licitante) resulta na EDO:
Reescrevendo:
(b) Solução da EDO:
Integrando com condição de fronteira \(b(0) = 0\):
Integrando por partes:
O segundo termo é \(E[v^{(N-1)} | v^{(N-1)} \leq v]\) — a esperança da maior estatística de ordem entre os \(N-1\) outros licitantes, condicional a ser menor que \(v\). Assim:
Interpretação: O licitante lança exatamente o que esperaria pagar no leilão de segundo preço — a esperança do segundo maior valor. Isso é a Equivalência de Receita em ação a nível individual.
(c) Demonstração da equivalência via envelope theorem:
Seja \(\Pi(v)\) o payoff esperado de equilíbrio de um licitante com valor \(v\) em qualquer mecanismo eficiente e individualmente racional. Pelo envelope theorem aplicado ao problema do licitante:
pois a derivada do payoff maximizado com respeito ao tipo é igual à probabilidade de ganhar (derivada parcial do payoff em relação ao tipo, avaliada na ação ótima). Integrando:
Com racionalidade individual: \(\Pi(0) = 0\). Portanto, o payoff esperado de qualquer mecanismo eficiente é determinado apenas por \(F\) — não depende das regras de pagamento. Pela condição de equilíbrio orçamentário (o que o licitante perde, o leiloeiro ganha):
Esta expressão depende apenas de \(F\) e de \(N\), não do formato do leilão. \(\blacksquare\)
(d) Hipóteses essenciais e contra-exemplos:
| Hipótese | Papel | Contra-exemplo |
|---|---|---|
| IPV (valores privados independentes) | Garante que a estratégia ótima depende apenas do próprio valor | Leilão de petróleo (valor comum): lances dependem dos sinais dos outros; receita do 2º preço > 1º preço com valores afiliados (Milgrom-Weber, 1982) |
| Simetria | Garante que todos os licitantes usam a mesma função \(b(v)\) | Dois licitantes com distribuições distintas (\(F_1 \neq F_2\)): o leilão de 1º preço favorece o licitante "mais fraco" (que lança mais agressivamente), gerando receitas distintas |
| Risco-neutralidade | Garante que os licitantes maximizam valor esperado | Aversão ao risco: licitantes sombreiam menos no 1º preço (para reduzir o risco de perder), gerando mais receita do que o 2º preço |
| Eficiência (\(b\) crescente, ganha quem tem maior valor) | Permite o argumento de envelope | Leilão de 1º preço com preço de reserva: o objeto pode não ser vendido mesmo com compradores com valores positivos — ineficiência que aumenta a receita esperada |
✏️ Exercício 9c.9¶
Solução.
(a) Interpretação como leilão all-pay:
O jogo é equivalente a um leilão all-pay com valores privados: o "lance" é o esforço \(e_i\), o "prêmio" é \(\theta_i\) (valor privado), e ambos os jogadores pagam seu lance independentemente de ganhar. A diferença em relação ao leilão all-pay padrão é que o prêmio é específico ao tipo (não um valor fixo), mas como cada jogador conhece seu próprio \(\theta_i\), a análise é análoga.
(b) BNE simétrico:
Buscamos \(e(\theta)\) crescente e diferenciável. O jogador \(i\) com tipo \(\theta\) escolhe esforço \(e\) para maximizar:
Com \(\theta_j \sim U[0,1]\), temos \(\Pr(\theta_j < e^{-1}(e)) = e^{-1}(e)\).
Suponha \(e(\theta) = \alpha \theta^2\). Então \(e^{-1}(e) = \sqrt{e/\alpha}\).
O problema se torna:
CPO: \(\theta \cdot \frac{1}{2\sqrt{\alpha e}} - 1 = 0 \implies e = \frac{\theta^2}{4\alpha}\).
Para consistência: \(e(\theta) = \alpha \theta^2 = \frac{\theta^2}{4\alpha}\), logo \(\alpha = 1/2\).
(c) Esforço total esperado e "desperdício":
O esforço esperado de cada jogador é:
O esforço total esperado (dois jogadores) é \(2 \times 1/6 = 1/3\).
O valor esperado do prêmio para o vencedor é \(E[\theta \cdot \mathbf{1}_{[\text{ganha}]}]\). Por simetria, cada jogador ganha com probabilidade 1/2 em média. O valor esperado do prêmio do vencedor é:
Porém, o vencedor recebe \(\theta_{\text{vencedor}}\), e o prêmio efetivo é \(E[\max(\theta_1, \theta_2)] = 2/3\).
A "dissipação de rendas" é a razão entre esforço total e valor do prêmio: \((1/3)/(2/3) = 1/2\). Metade do valor do prêmio é dissipada em esforço — há desperdício de recursos, pois ambos os jogadores gastam esforço, mas apenas um obtém o prêmio.
(d) Aplicações:
-
Tournaments corporativos (Lazear e Rosen, 1981): Em competições por promoção, funcionários investem esforço (horas extras, projetos especiais) para vencer a "corrida". O modelo all-pay captura o fato de que todos incorrem em custos, mas apenas um recebe a promoção. A dissipação de rendas implica que o custo total do esforço dos funcionários pode exceder o prêmio salarial da promoção — gerando ineficiência organizacional.
-
Lobby político: Firmas que competem por regulação favorável investem em atividades de lobby (consultores, contribuições de campanha). O modelo prevê que o investimento total em lobby cresce com o valor da regulação e com o número de competidores, mas a maior parte desse investimento é socialmente desperdiçada (rent-seeking). Tullock (1980) formalizou essa ideia usando exatamente a estrutura de leilão all-pay.
✏️ Exercício 9c.10¶
Solução.
Dados: \(N = 2\), \(v_i \sim U[0,1]\), \(v_0 = 0\).
(a) Receita sem preço de reserva:
No leilão de segundo preço sem reserva, \(b_i = v_i\) e a receita é o segundo maior valor:
(b) Receita com preço de reserva \(r\):
Com preço de reserva \(r\), o objeto é vendido apenas se ao menos um licitante tem \(v_i \geq r\). Há três casos:
-
Ambos \(v_i < r\): Probabilidade \(r^2\). Receita = 0 (objeto não vendido).
-
Exatamente um \(v_i \geq r\): Probabilidade \(2r(1-r)\). O vencedor paga \(r\) (preço de reserva é o "segundo lance"). Receita = \(r\).
-
Ambos \(v_i \geq r\): Probabilidade \((1-r)^2\). Receita = \(E[v^{(2)} | v^{(2)} \geq r]\).
Para o caso 3, com \(v_i \sim U[0,1]\) condicionado em \(v_i \geq r\):
A receita esperada total é:
Expandindo e simplificando:
(c) Preço de reserva ótimo:
CPO:
As soluções são \(r = 0\) (mínimo local) e \(r = 1/2\). Verificando a CSO: \(\frac{d^2 E[R]}{dr^2} = 2 - 8r\). Em \(r = 1/2\): \(2 - 4 = -2 < 0\). Máximo.
(d) Ganho de receita:
Ganho em relação ao leilão sem reserva: \(\frac{5/12 - 1/3}{1/3} = \frac{5/12 - 4/12}{4/12} = \frac{1/12}{4/12} = \frac{1}{4} = 25\%\).
O preço de reserva ótimo aumenta a receita esperada em 25% — um ganho substancial, obtido ao custo de ineficiência ocasional (25% de probabilidade de não vender o objeto).
(e) Conexão com Myerson:
O valor virtual com \(v \sim U[0,1]\) é:
O leilão ótimo de Myerson exclui licitantes com valor virtual negativo: \(\psi(v) < 0 \iff v < 1/2\). Com \(v_0 = 0\), a condição \(\psi(r^*) = v_0\) dá:
Isso confirma que o preço de reserva ótimo encontrado no item (c) coincide exatamente com o do leilão ótimo de Myerson. O resultado é geral: para qualquer distribuição regular, o preço de reserva ótimo é o valor \(r\) tal que \(\psi(r) = v_0\) — ou seja, o valor virtual no preço de reserva iguala o valor de reserva do leiloeiro. \(\blacksquare\)