Soluções dos Exercícios — Capítulo 8¶
✏️ Exercício 8.1¶
Solução.
Par (A, B) — domínio dos ganhos:
Sob utilidade esperada com \(u\) côncava: \(u(500) > 0{,}5 u(1000) + 0{,}5 u(0)\) (aversão ao risco). O investidor prefere A (ganho certo).
Sob Teoria do Prospecto: a função valor é côncava para ganhos, reforçando a preferência por A. Além disso, o efeito certeza (sobreponderação de resultados certos) torna A ainda mais atrativa. Escolha: A.
Par (C, D) — domínio das perdas:
Sob utilidade esperada com \(u\) côncava: \(u(-500) > 0{,}5 u(-1000) + 0{,}5 u(0)\) em valor absoluto, mas como \(u\) é côncava, o agente preferiria C (perda certa). Porém, a Teoria do Prospecto prevê o contrário.
Sob Teoria do Prospecto: a função valor é convexa para perdas (busca por risco no domínio negativo). Logo, \(v(-500) < 0{,}5 v(-1000) + 0{,}5 v(0)\) em termos de utilidade do prospecto, e o agente prefere D (loteria com chance de evitar a perda). Esse é o efeito reflexão: aversão ao risco para ganhos, busca por risco para perdas.
Interpretação econômica: Esse padrão explica por que investidores seguram ações perdedoras (buscando risco) e vendem ações ganhadoras cedo (aversão ao risco) — o "efeito disposição" documentado por Shefrin e Statman (1985).
✏️ Exercício 8.2¶
Solução.
Para ganhos: \(v(x) = x^{0,88}\). Para perdas: \(v(x) = -2{,}25(-x)^{0,88}\).
Verificação: \(|v(-100)| = 129{,}47 > 57{,}54 = v(100)\). ✓
A dor de perder R$ 100 (\(|{-129{,}47}|\)) é 2,25 vezes maior que o prazer de ganhar R$ 100 (57,54). Além disso, \(v(200)/v(100) = 1{,}84 < 2\): a sensibilidade marginal é decrescente para ganhos (concavidade). Analogamente, \(|v(-200)|/|v(-100)| = 1{,}84 < 2\): a sensibilidade também é decrescente para perdas (convexidade).
Interpretação econômica: A aversão à perda (\(\lambda = 2{,}25\)) é o parâmetro central da Teoria do Prospecto. Ela explica por que as pessoas rejeitam apostas com valor esperado positivo (como \(+110\) com 50% e \(-100\) com 50%) e por que negociações salariais são tão sensíveis a cortes nominais.
✏️ Exercício 8.3¶
Solução.
(a) Com \(u(x) = x\), \(\beta = 0{,}70\), \(\delta = 0{,}99\):
Plano X (depósito hoje, retorno em 12 meses):
Plano Y (depósito em 6 meses, retorno em 18 meses):
O consumidor prefere Y em \(t = 0\) (\(U_0(Y) = 21{,}72 > -6{,}93 = U_0(X)\)).
(b) Em \(t = 6\), o Plano Y exige depósito agora (imediato):
A utilidade de Y avaliada em \(t = 6\) é negativa — o custo imediato domina. O consumidor provavelmente não adere quando chega o momento.
- Agente sofisticado: Reconhece que seu "eu futuro" não aderirá ao Plano Y, e por isso pode buscar mecanismos de compromisso (como autorização prévia de débito automático em \(t = 6\)).
- Agente ingênuo: Acredita que aderirá ao Plano Y quando chegar \(t = 6\), mas sistematicamente procrastina. Esse padrão se repete indefinidamente.
Interpretação econômica: Essa dinâmica é central para entender a baixa adesão voluntária à previdência complementar no Brasil. Programas como a Funpresp (com adesão automática desde 2013 para novos servidores federais) exploram a inércia para contornar o viés do presente.
✏️ Exercício 8.4¶
Solução.
(i) Excesso de confiança: O consumidor, ao contratar o plano mensal, superestima a frequência futura de uso da academia. Ele projeta que irá 20 vezes por mês (custo de R$ 5/visita), mas na realidade vai apenas 4–5 vezes (custo efetivo de R$ 20–25/visita). Esse excesso de confiança sobre o autocontrole futuro é um viés documentado: as pessoas preveem que se comportarão de forma mais disciplinada do que efetivamente se comportam.
(ii) Viés do presente: O plano anual exige um pagamento imediato grande (R$ 960), enquanto o mensal exige apenas R$ 100 agora. O desconto quasi-hiperbólico faz com que o custo imediato de R$ 960 pareça desproporcionalmente alto, mesmo sendo mais barato no acumulado. O \(\beta < 1\) amplifica o custo presente relativamente ao futuro, levando o consumidor a preferir pagamentos menores e frequentes — mesmo que totalizem mais.
Interpretação econômica: DellaVigna e Malmendier (2006) mostram que academias lucram precisamente com essa combinação de vieses: cobram mensalidades de clientes que superestimam o próprio uso e subestimam o custo efetivo por visita. É um exemplo de empresa que explora vieses comportamentais na precificação.
✏️ Exercício 8.5¶
Solução.
A adesão automática com opt-out (ii) provavelmente terá maior impacto. Justificativas:
-
Viés do status quo: A maioria dos trabalhadores aceita o default. Evidência empírica (Madrian e Shea, 2001) mostra que a adesão sobe de ~49% (opt-in) para ~86% (opt-out). O subsídio fiscal exige ação do trabalhador, que pode ser impedida por procrastinação.
-
Viés do presente: O subsídio fiscal tem benefício futuro (menor imposto na declaração), mas o custo (menor salário líquido hoje) é imediato. Com \(\beta < 1\), muitos trabalhadores procrastinam a adesão apesar do incentivo financeiro.
-
Complexidade e inércia: Aderir a um plano com subsídio fiscal exige decisões ativas (escolher alíquota, fundo, etc.). A sobrecarga cognitiva pode levar à "paralisia por excesso de opções". O opt-out elimina essa fricção.
-
Evidência empírica comparada: Chetty et al. (2014) mostram que mudanças automáticas em contribuições previdenciárias afetam 85% da população, enquanto subsídios fiscais afetam apenas os 15% de contribuintes mais atentos.
Interpretação econômica: O subsídio fiscal é a ferramenta correta se os agentes são racionais (modelo padrão). A adesão automática é superior se os agentes sofrem de viés do presente e inércia (modelo comportamental). A evidência favorece esmagadoramente a segunda hipótese.
✏️ Exercício 8.6¶
Solução.
No Paradoxo de Allais, as loterias são:
- \(A\): R$ 1 milhão com certeza
- \(B\): R$ 5M com prob 0,10; R$ 1M com prob 0,89; R$ 0 com prob 0,01
- \(C\): R$ 1M com prob 0,11; R$ 0 com prob 0,89
- \(D\): R$ 5M com prob 0,10; R$ 0 com prob 0,90
O padrão observado é \(A \succ B\) e \(D \succ C\).
Sob UE com \(u(x)\): \(A \succ B\) implica:
\(D \succ C\) implica:
As inequações (\(*\)) e (\(**\)) são contraditórias. Logo, não existe \(u(\cdot)\) que represente essas preferências simultaneamente. O axioma violado é o da independência: adicionar ou remover uma consequência comum (aqui, os 0,89 de chance de R$ 1M) não deveria alterar a ordenação. \(\blacksquare\)
Interpretação econômica: O Paradoxo de Allais revela que os agentes sobrepesam a certeza (\(A\) é "certo") relativamente a probabilidades altas (\(B\) tem 0,89 de R$ 1M, quase certo). Isso viola a linearidade nas probabilidades que a UE exige.
✏️ Exercício 8.7¶
Solução.
No Paradoxo de Ellsberg (duas cores), há duas urnas:
- Urna A: 50 bolas vermelhas e 50 pretas (composição conhecida).
- Urna B: 100 bolas, composição desconhecida.
Preferências observadas: apostar em vermelho da Urna A ≻ vermelho da Urna B, e preto da Urna A ≻ preto da Urna B.
Se o agente atribui probabilidade subjetiva \(q\) às bolas vermelhas na Urna B, então preferir A em vermelho implica \(0{,}5 > q\), e preferir A em preto implica \(0{,}5 > 1 - q\), ou seja, \(q > 0{,}5\). Contradição: \(q < 0{,}5\) e \(q > 0{,}5\) simultaneamente. Logo, não existe nenhuma probabilidade subjetiva \(q\) compatível com as preferências observadas. \(\blacksquare\)
O axioma violado é o axioma Sure-Thing Principle (P2) de Savage, que é a versão do axioma de independência para probabilidades subjetivas. As preferências de Ellsberg revelam aversão à ambiguidade: o agente prefere riscos conhecidos a incerteza genuína, independentemente da probabilidade subjetiva que atribua.
✏️ Exercício 8.8¶
Solução.
No modelo de Fehr-Schmidt, a utilidade do respondedor ao receber oferta \(s\) (de um total \(S = 200\)) é:
(a) Para \(s \leq 100\) (respondedor recebe menos que metade), o termo de inveja domina:
O respondedor aceita se \(U_R(s) \geq 0\) (rejeitar dá \(U_R = 0\)):
Oferta mínima aceita: R$ 85,71 (≈ 42,9% do total).
(b) Com \(\alpha_R = \beta_R = 0\): \(U_R(s) = s\). O respondedor aceita qualquer \(s > 0\). Oferta mínima: R$ 0,01 (essencialmente zero).
(c) A diferença (R$ 85,71 vs. ~R$ 0) reflete a aversão à inequidade desvantajosa. Com \(\alpha_R = 3\), o respondedor sofre intensamente com desigualdade a seu desfavor, preferindo rejeitar (e ficar com zero) a aceitar uma oferta que considere "injusta". Isso explica as taxas de rejeição de 40–60% observadas experimentalmente para ofertas abaixo de 30% em jogos do ultimato.
✏️ Exercício 8.9¶
Solução.
As quatro regras de edição hedônica de Thaler (1985):
- Segregar ganhos (concavidade de \(v\) para ganhos: \(v(x) + v(y) > v(x+y)\))
- Integrar perdas (convexidade de \(v\) para perdas: \(v(-x-y) > v(-x) + v(-y)\))
- Integrar perda pequena com ganho grande (aversão à perda: \(v(x-y) > v(x) + v(-y)\) se \(x > y\))
- Segregar ganho pequeno de perda grande (busca por risco: \(v(-x) + v(y) > v(-x+y)\) se \(x > y\))
(a) "20% + 10% extra" em vez de "28%": segregar ganhos. O consumidor percebe dois ganhos separados: primeiro 20%, depois 10% sobre o preço já reduzido. Pela concavidade da função valor para ganhos, \(v(20\%) + v(10\%) > v(28\%)\). Dois descontos separados geram mais prazer percebido que um desconto único equivalente.
(b) Taxa condominial mensal em vez de anual: integrar perdas. Se cobrada anualmente, o morador sentiria uma única perda grande. Dividindo em 12 parcelas mensais, cada perda individual é menor — mas pela convexidade de \(v\) para perdas, \(12 \times v(-x/12)\) é mais doloroso que \(v(-x)\) em teoria. Na prática, a regra 2 sugere que o condomínio deveria cobrar tudo de uma vez! A cobrança mensal se justifica mais por restrições de liquidez e por habituação (perdas recorrentes se tornam menos salientes, como se incorporadas ao status quo).
(c) Cashback em vez de desconto: segregar ganho pequeno de perda grande (regra 4). O pagamento integral é a perda grande; o cashback é um ganho pequeno posterior. Pela regra 4, sentir a perda do pagamento e depois o ganho do cashback separadamente gera mais satisfação do que simplesmente pagar menos. O cashback cria um momento de "ganho" que atenua psicologicamente a dor do pagamento.
✏️ Exercício 8.10¶
Solução.
A função de ponderação: \(w(p) = \frac{p^\gamma}{(p^\gamma + (1-p)^\gamma)^{1/\gamma}}\).
(a)
(b) Com \(\gamma = 0{,}61\):
\(0{,}01^{0,61} = e^{0,61 \ln 0,01} = e^{-2,81} = 0{,}0603\)
\(0{,}99^{0,61} = e^{0,61 \ln 0,99} = e^{-0,00613} = 0{,}9939\)
Probabilidade objetiva de 1% é ponderada como ~5,5% (sobreponderação de eventos raros).
Analogamente: \(w(0{,}50) \approx 0{,}421\) e \(w(0{,}99) \approx 0{,}914\).
(c) Subcerteza:
A propriedade de subcerteza (\(w(p) + w(1-p) < 1\)) implica que os pesos de decisão somam menos que 1. Isso reflete um "pessimismo" generalizado: o agente atua como se a "probabilidade total" fosse menor que 100%, subponderando eventos de probabilidade intermediária.
Interpretação econômica: A função de ponderação explica simultaneamente: (i) a compra de bilhetes de loteria (sobreponderação de ganhos improváveis: \(w(0{,}01) \gg 0{,}01\)); e (ii) a compra de seguros contra catástrofes (sobreponderação de perdas improváveis). Esses dois comportamentos são incompatíveis com a utilidade esperada mas naturais na Teoria do Prospecto.
✏️ Exercício 8.11¶
Solução.
O consumidor tem \(u(x) = x^{0{,}5}\) e riqueza inicial \(W = 1000\).
(i) Sob utilidade esperada:
- Opção (a) — perda certa de R$ 400: riqueza final = 600. \(u(600) = \sqrt{600} \approx 24{,}49\).
- Opção (b) — loteria: com prob. 0,5 perde 800 (riqueza = 200) e com prob. 0,5 não perde nada (riqueza = 1000).
Como \(u(600) = 24{,}49 > 22{,}88 = EU(b)\), o consumidor prefere a perda certa (a) sob utilidade esperada. Isso é consistente com aversão ao risco (função \(u\) côncava): prefere a perda certa à loteria com mesmo valor esperado.
(ii) Sob Teoria do Prospecto:
O ponto de referência é \(r = 1000\). As variações (ganhos/perdas relativas ao ponto de referência) são:
- Opção (a): perda certa de 400. \(v(-400) = -2{,}25 \times 400^{0{,}88}\). Calculando: \(400^{0{,}88} = e^{0{,}88 \ln 400} = e^{0{,}88 \times 5{,}991} = e^{5{,}272} \approx 194{,}5\). Portanto, \(v(-400) \approx -2{,}25 \times 194{,}5 = -437{,}6\).
- Opção (b): com prob. 0,5, perda de 800; com prob. 0,5, perda de 0.
Como \(V(b) = -402{,}6 > -437{,}6 = v(-400)\), sob a Teoria do Prospecto o consumidor prefere a loteria (b).
(iii) Diferença entre os modelos:
A utilidade esperada prediz aversão ao risco em todo o domínio (por concavidade de \(u\)), resultando na preferência pela perda certa. A Teoria do Prospecto prediz busca por risco no domínio das perdas (a função valor é convexa para perdas), resultando na preferência pela loteria — o agente prefere a chance de evitar a perda a aceitar a perda certa. Esse é o efeito reflexão: o mesmo agente pode ser avesso ao risco para ganhos e buscar risco para perdas, dependendo do ponto de referência.
Interpretação econômica: Essa assimetria explica por que empresas em dificuldade financeira tomam decisões de risco elevado (apostam na recuperação) em vez de liquidar ativos a preços baixos (a "perda certa"), e por que governos relutam em reconhecer formalmente programas falhos — ambos os casos envolvem agentes operando no domínio das perdas.
✏️ Exercício 8.12¶
Solução.
(a) Verdadeira. A Teoria do Prospecto assume que a função valor é convexa para perdas (\(v''(x) > 0\) para \(x < 0\)), o que implica propensão ao risco nesse domínio. Formalmente, para uma perda esperada de \(-E[L]\), o valor esperado do prospecto \(E[v(-L)] > v(-E[L])\) quando \(v\) é convexa — ou seja, o agente prefere a aposta à perda certa de mesmo valor esperado. Isso é o efeito reflexão documentado por Kahneman e Tversky (1979).
(b) Verdadeira. O efeito dotação implica que WTA (disposição a aceitar para vender um bem que já se possui) > WTP (disposição a pagar para adquirir o mesmo bem). Na teoria neoclássica, para bens normais sem efeito renda significativo, WTA ≈ WTP. O efeito dotação viola esse resultado, pois a mera posse do bem altera o ponto de referência: ceder o bem é codificado como perda (domain of losses), enquanto adquiri-lo é codificado como ganho. Como perdas pesam mais (\(\lambda > 1\)), WTA > WTP. Kahneman, Knetsch e Thaler (1990) documentaram esse efeito com canecas de cerâmica.
(c) Falsa. Agentes quasi-hiperbólicos não preferem sempre recompensas imediatas. A preferência pelo presente só aparece quando uma recompensa é imediata versus futura. Para duas recompensas ambas no futuro (\(t \geq 1\)), o fator \(\beta\) cancela e o desconto entre elas é exponencial puro (\(\delta\)). Por exemplo, com \(\beta = 0{,}7\) e \(\delta = 0{,}95\): \(U_0(\text{R\$ 100 em } t=5) = 0{,}7 \times 0{,}95^5 \times 100 = 54{,}7\) e \(U_0(\text{R\$ 120 em } t=6) = 0{,}7 \times 0{,}95^6 \times 120 = 62{,}3\). O agente prefere R$ 120 em \(t=6\) a R$ 100 em \(t=5\), apesar de ambas serem futuras.
(d) Falsa. Por definição, um nudge não restringe o conjunto de escolhas. Thaler e Sunstein (2008) definem explicitamente que, para ser um nudge, a intervenção deve ser "fácil e barata de evitar" — qualquer opção deve permanecer disponível. O que o nudge altera é a arquitetura de escolha (a forma de apresentação, o default, a saliência das opções), não o conjunto de alternativas. O que restringe escolhas é a regulação (proibições, obrigações), não o nudge.
✏️ Exercício 8.13¶
Solução.
Parâmetros: \(\beta = 0{,}70\), \(\delta = 0{,}95\), \(u(x) = x\).
(a) Avaliação em \(t = 0\):
Todas as opções estão no futuro, então o fator \(\beta\) aplica-se a todas:
Atenção: A é "hoje" (\(t=0\)), portanto não recebe desconto extra \(\beta\) — é imediato:
Ordenação em \(t = 0\): \(C \succ B \succ A\) (\(90{,}02 > 79{,}80 > ... \))
Porém, como A é imediato, \(U_0(A) = 100\). Recalculando:
Ordenação em \(t = 0\): \(A \succ C \succ B\).
(b) Avaliação em \(t = 1\) (mês 1 chegou):
Agora B é imediato (\(t=0\) na perspectiva do mês 1) e C está a 2 meses:
A é o passado — não mais disponível. Apenas B e C são relevantes em \(t=1\):
Ordenação em \(t = 1\) (escolhendo entre B e C): \(C \succ B\) (\(94{,}76 > ... \))
Porém B é imediato: \(U_1(B) = 120 > 94{,}76 = U_1(C)\).
Ordenação em \(t = 1\): \(B \succ C\).
(c) Ocorrência de inversão de preferências:
Em \(t=0\), o agente ordenou \(C \succ B\) (quando A não é opção relevante para o par B vs C): \(U_0(C) = 90{,}02 > U_0(B) = 79{,}80\).
Em \(t=1\), o agente ordena \(B \succ C\): \(U_1(B) = 120 > U_1(C) = 94{,}76\).
Sim, ocorre inversão de preferências entre B e C. Em \(t=0\), o agente planeja escolher C (pois ambas são futuras e o desconto entre elas é puramente exponencial com vantagem para C). Mas em \(t=1\), B tornou-se imediato, e o "puxão" do presente (\(\beta = 0{,}70\)) penaliza desproporcionalmente C (que está 2 meses no futuro). A fonte da inconsistência é o viés do presente: o parâmetro \(\beta < 1\) cria uma assimetria entre o presente e qualquer momento futuro que não existe entre dois momentos futuros.
Interpretação econômica: Um agente ingênuo com essas preferências chegará ao mês 1 e escolherá B (pagamento imediato) em vez de C (que havia planejado em \(t=0\)). Se puder, um agente sofisticado tentará se comprometer com C antes que o mês 1 chegue — por exemplo, assinando um contrato ou pedindo a alguém que o impeça de mudar de ideia.
✏️ Exercício 8.14¶
Solução.
Normalização: dividir por 1000. Contrato A: renda = 5 (certa). Contrato B: renda-base = 4 + bônus \(U[0, 2]\), renda total \(\sim U[4, 6]\) com \(E[\text{renda}] = 5\).
(i) Sob utilidade esperada com CRRA \(\gamma = 2\):
Contrato A: \(u(5) = -1/5 = -0{,}200\).
Contrato B: O bônus \(b\) é uniforme em \([0, 2]\), logo a renda total é \(x = 4 + b \sim U[4,6]\).
Como \(u(A) = -0{,}200 > -0{,}203 = EU(B)\), o trabalhador prefere o Contrato A (fixo) sob utilidade esperada. Isso reflete aversão ao risco com CRRA: o ganho de variância do contrato B não compensa a utilidade marginal crescente.
(ii) Sob Teoria do Prospecto com ponto de referência \(r = 5.000\) (= 5 normalizado):
Usando a função valor linear por partes com \(\lambda = 2\):
Contrato A: renda fixa = 5 = ponto de referência. Ganho/perda = 0. \(V(A) = v(0) = 0\).
Contrato B: O bônus \(b \sim U[0,2]\), então a renda \(x = 4 + b\). Em relação ao ponto de referência \(r = 5\), a variação é \(x - 5 = b - 1\), que varia de \(-1\) (quando \(b=0\)) a \(+1\) (quando \(b=2\)).
Separando pelo sinal:
- Para \(b < 1\): \(b - 1 < 0\), então \(v(b-1) = 2(b-1)\) (perda com \(\lambda = 2\)).
- Para \(b > 1\): \(b - 1 > 0\), então \(v(b-1) = b-1\) (ganho).
Como \(V(A) = 0 > -0{,}25 = V(B)\), o trabalhador também prefere o Contrato A sob Teoria do Prospecto.
Interpretação econômica: Embora os dois modelos gerem a mesma preferência aqui, os mecanismos são diferentes. Sob EU, a preferência por A reflete aversão ao risco (utilidade marginal decrescente). Sob PT, a preferência por A reflete principalmente a aversão à perda: metade das realizações do bônus geram uma renda abaixo do ponto de referência (R$ 5.000), o que é codificado como perda com \(\lambda = 2\). A dor dessas perdas supera a alegria dos ganhos equivalentes. O modelo PT prevê que trabalhadores resistem a contratos variáveis mesmo quando o valor esperado é idêntico ao salário fixo — o que tem implicações para o design de pacotes de remuneração variável.
✏️ Exercício 8.15¶
Solução.
O agente enfrenta perda \(L\) com probabilidade \(p\) pequena. Preço do seguro atuarialmente justo: prêmio \(\pi = pL\) por cobertura total.
Configuração: Ponto de referência = riqueza inicial \(W\). Função valor linear por partes: \(v(x) = x\) para ganhos, \(v(x) = -\lambda(-x)\) para perdas (\(\lambda > 1\)). Função de ponderação \(w(p)\) com \(w(p) > p\) para \(p\) pequeno.
Sem seguro: O agente enfrenta o prospecto \((-L, p; 0, 1-p)\). O valor do prospecto é:
Com seguro completo a preço justo: O agente paga \(pL\) com certeza. O valor é:
O agente prefere o seguro se \(V(\text{com seguro}) > V(\text{sem seguro})\):
(a) Pequenas perdas com \(p\) pequeno (\(w(p) > p\)):
Para \(p \to 0\), a função de ponderação satisfaz \(w(p) > p\). Portanto \(V(\text{com seguro}) > V(\text{sem seguro}\)), e o agente compra o seguro. Mais do que isso: como \(w(p) \gg p\) para \(p\) muito pequeno, a disposição a pagar pelo seguro excede o prêmio atuarialmente justo. O agente está disposto a pagar um prêmio \(\pi^*\) tal que:
Isso é sobre-seguro: o agente paga acima do prêmio atuarialmente justo, porque a ponderação de probabilidades inflaciona a probabilidade subjetiva da perda.
(b) Perdas catastróficas com \(L \to W\) e \(p\) pequeno:
Quando a perda é quase total (\(L \to W\)), a função valor avalia a perda em \(-\lambda W\). O argumento acima continuaria sugerindo que o agente compraria seguro (pois \(w(p) > p\) ainda vale). A anomalia surge quando \(L\) é grande em valor absoluto mas pequeno em relação a \(W\) — ou quando a incerteza sobre as probabilidades (ambiguidade) é alta para eventos catastróficos.
Para capturar o sub-seguro observado em catástrofes, nota-se que: (i) eventos com \(p\) muito pequeno são frequentemente subestimados cognitivamente — a função de ponderação tem \(w(p) \approx 0\) para \(p < \varepsilon\) (negligência de probabilidade), e (ii) a interação com aversão à ambiguidade reduz ainda mais a disposição a pagar por seguros cujos termos são complexos. Formalmente, quando \(p\) é tão pequeno que o agente o arredonda para zero, \(w(p) \approx 0\) e \(V(\text{sem seguro}) \approx 0\), tornando qualquer prêmio positivo desvantajoso.
Resumo: A Teoria do Prospecto prevê sobre-seguro para perdas moderadas e frequentes (onde \(w(p) > p\) domina) e sub-seguro para catástrofes raras (onde \(p\) é tão pequeno que é negligenciado cognitivamente — \(w(p) \approx 0\)). Esse padrão em formato de U invertido — alta cobertura para riscos intermediários, baixa cobertura para os extremos — é consistente com evidências do mercado de seguros: as pessoas contratam seguros de celular mas negligenciam cobertura de terremoto.
Interpretação econômica: A assimetria entre os dois domínios tem implicações para o design de seguros. Coberturas obrigatórias (como o seguro DPVAT no Brasil) podem ser justificadas comportamentalmente pelo fato de que o sub-seguro voluntário para catástrofes cria externalidades sociais quando as vítimas precisam de assistência pública.
🏆 ANPEC (estilo) — Teoria do Prospecto e função valor¶
Respostas: V F V F V
- Item 0 — V: A dependência de referência é propriedade fundamental da função valor. O portador de valor é a variação \(x\) em relação ao ponto de referência, não o nível absoluto de riqueza. Dois indivíduos com a mesma riqueza final podem tomar decisões diferentes se seus pontos de referência forem distintos.
- Item 1 — F: Aversão à perda (\(\lambda > 1\)) e aversão ao risco (concavidade de \(u\)) são conceitos distintos. Um agente pode ser neutro ao risco e ainda assim ser avesso à perda.
- Item 2 — V: A concavidade para ganhos gera aversão ao risco nesse domínio; a convexidade para perdas gera propensão ao risco — o efeito reflexão.
- Item 3 — F: A função de ponderação \(w(p)\) tem formato de S invertido: sobrevaloriza probabilidades pequenas e subvaloriza probabilidades grandes.
- Item 4 — V: \(v(100) \approx 57{,}54\) e \(v(-100) \approx -129{,}47\). Valor esperado subjetivo: \(0{,}5 \times 57{,}54 + 0{,}5 \times (-129{,}47) = -35{,}97 < 0\).
🏆 ANPEC (estilo) — Vieses cognitivos e efeitos comportamentais¶
Respostas: V V F F V
- Item 0 — V: A ancoragem é uma das três heurísticas fundamentais de Tversky e Kahneman (1974). No experimento da roda da fortuna, números completamente irrelevantes influenciaram sistematicamente as estimativas dos participantes.
- Item 1 — V: O experimento das doenças asiáticas demonstra o efeito framing: opções logicamente idênticas geram escolhas opostas dependendo do enquadramento (vidas salvas vs. mortes).
- Item 2 — F: O viés do status quo e o efeito dotação são consequências diretas da aversão à perda (\(\lambda > 1\)). O experimento das canecas (WTA \(\approx\) 2,5 \(\times\) WTP) ocorre sem custos de transação.
- Item 3 — F: A contabilidade mental descreve precisamente a violação da fungibilidade: os agentes segregam dinheiro em contas mentais separadas, com propensões marginais a consumir distintas.
- Item 4 — V: A ancoragem em negociações implica que a primeira oferta influencia o resultado final, independentemente de seu conteúdo informacional.
🏆 ANPEC (estilo) — Desconto hiperbólico e inconsistência temporal¶
Respostas: V V V F V
- Item 0 — V: No desconto exponencial, a razão entre fatores de desconto consecutivos é sempre \(\delta\), constante. Isso garante consistência temporal.
- Item 1 — V: O fator de desconto entre \(t=0\) e \(t=1\) é \(\beta\delta = 0{,}665\), mas entre períodos futuros consecutivos é \(\delta = 0{,}95\). Essa assimetria é o viés do presente.
- Item 2 — V: O valor presente de R$ 1.000 em \(t=1\) é \(\beta\delta \times 1000 = 665\). A razão dos valores presentes de pagamentos em \(t=10\) e \(t=11\) é \(\delta = 0{,}95\), pois o fator \(\beta\) se cancela.
- Item 3 — F: Nudges como adesão automática funcionam tanto para sofisticados quanto para ingênuos, pois exploram a inércia e o viés do status quo, que operam independentemente de autoconsciência sobre o viés do presente.
- Item 4 — V: Laibson (1997) formalizou a demanda racional por mecanismos de compromisso: o agente sofisticado antecipa o viés do presente do seu "eu futuro" e se vincula a instrumentos ilíquidos para proteger a poupança.