Soluções dos Exercícios — Capítulo 7¶
✏️ Exercício 7.1¶
Solução.
(a) Utilidade esperada:
(b) O equivalente de certeza é \(EC\) tal que \(u(EC) = E[u]\):
(c) O prêmio de risco exato:
Aproximação de Arrow-Pratt: \(PR \approx \frac{1}{2} A(W) \sigma^2\), onde:
- \(A(W) = -u''/u' = 1/W = 1/10000\)
- \(\sigma^2 = E[W^2] - (E[W])^2 = 0{,}5(15000^2 + 5000^2) - 10000^2 = 125 \times 10^6 - 100 \times 10^6 = 25 \times 10^6\)
A aproximação (1250) subestima o prêmio de risco exato (1340) porque a fórmula de Arrow-Pratt é uma aproximação de segunda ordem, válida para riscos "pequenos" relativamente à riqueza. Aqui o risco é grande (±50% da riqueza), logo a aproximação é menos precisa.
Interpretação econômica: O investidor com utilidade logarítmica exigiria R$ 1.340 de compensação para aceitar esse risco. Equivalentemente, ele é indiferente entre ter R$ 10.000 com o risco da loteria e ter R$ 8.660 com certeza.
✏️ Exercício 7.2¶
Solução.
Com \(u(W) = -e^{-aW}\):
Aversão absoluta ao risco:
\(A(W) = a\) é constante — independente de \(W\). Logo, a utilidade exponencial negativa exibe CARA (Constant Absolute Risk Aversion). \(\blacksquare\)
Aversão relativa ao risco:
\(R(W)\) é crescente na riqueza (IRRA — Increasing Relative Risk Aversion).
Implicações econômicas:
- CARA: O prêmio de risco em unidades monetárias não depende da riqueza. Um bilionário e um assalariado exigiriam o mesmo prêmio em reais para aceitar um risco de ±R$ 1.000. Isso é empiricamente implausível para a maioria dos contextos.
- IRRA: A fração da riqueza investida no ativo arriscado diminui à medida que a riqueza cresce. O agente fica relativamente mais avesso ao risco conforme enriquece, o que também é discutível empiricamente.
Na prática, a CARA é usada por conveniência analítica (permite soluções explícitas com riscos gaussianos), não por realismo descritivo.
✏️ Exercício 7.3¶
Solução.
(a) Valor esperado:
(b) Equivalente de certeza:
(c) Prêmio máximo pelo seguro de cobertura total:
O agricultor pagaria até R$ 10.501 pelo seguro.
(d) Se a seguradora cobra R$ 60.000, o agricultor com seguro teria \(W_{\text{seg}} = 200000 - 60000 = 140000\) com certeza (na safra boa, paga o prêmio e não aciona; na seca, recebe R$ 150.000 e paga R$ 60.000 de prêmio, resultando em \(200000 - 60000 = 140000\) na boa e \(50000 + 150000 - 60000 = 140000\) na seca).
\(u(140000) = \sqrt{140000} = 374{,}17\)
Como \(374{,}17 < 380{,}13 = E[u]\), o agricultor não contrata: ficar sem seguro dá maior utilidade esperada. O prêmio cobrado (R$ 60.000) excede enormemente o prêmio máximo aceitável (R$ 10.501).
Interpretação econômica: Este exemplo ilustra por que seguros agrícolas no Brasil frequentemente requerem subsídios governamentais (como o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural — PSR). As seguradoras cobram prêmios que incluem custos administrativos, seleção adversa e risco moral, elevando o preço acima do que muitos produtores estão dispostos a pagar.
✏️ Exercício 7.4¶
Solução.
(a) O agente escolhe consumo contingente \((c_1, c_2)\) para maximizar:
(b) CPOs (condição de tangência):
Logo \(c_1^* = c_2^*\). Da restrição: \(0{,}6 c + 0{,}4 c = c = 100\).
(c) O agente consome exatamente o mesmo em ambos os estados. Isso é seguro pleno: o risco é completamente eliminado. Esse resultado ocorre porque os preços dos ativos contingentes são "atuarialmente justos" — os preços \(\psi_i\) são iguais às probabilidades \(\pi_i\). Quando os preços de Arrow-Debreu são justos, um agente avesso ao risco equaliza o consumo entre estados, alcançando suavização perfeita.
Interpretação econômica: Em mercados completos com preços justos, agentes avessos ao risco se protegem completamente. A existência de mercados de seguros e derivativos permite essa suavização na prática — embora custos de transação, informação assimétrica e mercados incompletos limitem a suavização real.
✏️ Exercício 7.5¶
Solução.
(a) Com \(W = 10000\):
Agente A (\(u_A = \ln W\)):
Agente B (\(u_B = -e^{-0{,}001W}\)):
B é significativamente mais avesso ao risco que A em ambas as medidas.
(b) Aproximação de Arrow-Pratt: \(PR \approx \frac{1}{2} A(W) \sigma^2\), com \(\sigma^2 = 1000^2 = 10^6\):
B exigiria R$ 500 de compensação, 10 vezes mais que A (R$ 50).
(c) Com \(W = 50000\):
Agente A: \(A_A = 1/50000 = 0{,}00002\). \(PR_A \approx \frac{1}{2} \times 0{,}00002 \times 10^6 = 10\).
O prêmio de A caiu de R$ 50 para R$ 10 — ele exibe DARA (Decreasing Absolute Risk Aversion). Com mais riqueza, a aversão absoluta diminui: o mesmo risco em valor absoluto (±R$ 1.000) representa uma fração menor da riqueza.
Agente B: \(A_B = 0{,}001\) (constante). \(PR_B \approx 500\).
O prêmio de B permanece R$ 500 — ele exibe CARA. A riqueza não afeta sua aversão absoluta, o que é pouco realista: um bilionário com CARA se preocuparia tanto com R$ 1.000 quanto alguém com R$ 10.000.
Interpretação econômica: A evidência empírica favorece DARA: indivíduos mais ricos aceitam mais risco absoluto. A utilidade logarítmica (agente A) captura essa propriedade e é frequentemente usada como especificação padrão em modelos de finanças e macroeconomia. A CARA (agente B) é usada quando a tratabilidade analítica é prioritária.
✏️ Exercício 7.6¶
Solução.
Dados: \(u(W) = \sqrt{W}\), \(W_0 = 100\), loteria: \(+60\) com \(p = 0{,}5\) e \(-60\) com \(p = 0{,}5\).
Riquezas possíveis:
- Estado favorável: \(W_1 = 100 + 60 = 160\), com probabilidade \(0{,}5\)
- Estado desfavorável: \(W_2 = 100 - 60 = 40\), com probabilidade \(0{,}5\)
Valor esperado da riqueza:
(a) Utilidade esperada:
(b) Utilidade do valor esperado:
(c) Classificação da atitude frente ao risco:
Como \(E[u] = 9{,}487 < 10 = u(E[W])\), temos:
Pela desigualdade de Jensen, isso ocorre quando \(u\) é estritamente côncava. De fato, \(u(W) = W^{1/2}\) tem segunda derivada \(u''(W) = -\frac{1}{4}W^{-3/2} < 0\), confirmando concavidade. Portanto, o agente é avesso ao risco.
O equivalente de certeza é \(EC = (9{,}487)^2 \approx 90\), e o prêmio de risco é \(\pi = E[W] - EC = 100 - 90 = 10\). O agente abriria mão de R$ 10 de riqueza esperada para eliminar a incerteza desta loteria.
✏️ Exercício 7.7¶
Solução.
(a) Um agente neutro ao risco possui função de utilidade linear. — VERDADEIRO.
Por definição, um agente neutro ao risco satisfaz \(u(E[L]) = E[u(L)]\) para toda loteria \(L\). Pela teoria das funções convexas/côncavas, isso ocorre se e somente se a função de utilidade é linear (afim): \(u(W) = aW + b\), com \(a > 0\). Qualquer curvatura — côncava (\(u'' < 0\)) ou convexa (\(u'' > 0\)) — geraria aversão ou propensão ao risco, respectivamente.
(b) A utilidade CARA implica que o prêmio de risco é independente da riqueza. — VERDADEIRO.
Para \(u(W) = -e^{-aW}\), a aversão absoluta ao risco é \(A(W) = a\), constante em \(W\). Pela aproximação de Arrow-Pratt, \(\pi \approx \frac{1}{2} A(W) \sigma^2 = \frac{1}{2} a \sigma^2\), que não depende de \(W\). Isso implica que, para uma mesma loteria (mesma \(\sigma^2\)), o prêmio de risco é o mesmo independentemente de o agente ser rico ou pobre — propriedade empiricamente implausível, pois sugere que um milionário se preocuparia tanto com uma aposta de R$ 1.000 quanto um assalariado.
(c) Se \(u''(W) < 0\), o agente sempre rejeita qualquer loteria justa. — VERDADEIRO (com ressalva).
Uma loteria justa tem \(E[\tilde{\varepsilon}] = 0\), de modo que a riqueza esperada é \(E[W] = W_0\). Com \(u'' < 0\) (concavidade estrita), a desigualdade de Jensen implica:
Logo, o agente prefere estritamente \(W_0\) com certeza à loteria justa. Ele a rejeita. A ressalva é de ordem: "rejeita" significa não aceitar participar da loteria por nada; se ele já está na loteria, a questão seria diferente. Mas como enunciado de escolha, a afirmativa é correta.
(d) A diversificação elimina todo o risco de uma carteira de ativos. — FALSO.
A diversificação elimina apenas o risco idiossincrático (ou não sistemático) — o risco específico de cada ativo, que se cancela quando muitos ativos são combinados. O risco sistemático (de mercado), que afeta todos os ativos simultaneamente (por exemplo, flutuações do PIB, variações da taxa Selic, crises financeiras globais), não é reduzido pela diversificação. No modelo CAPM, apenas o risco sistemático é remunerado, pois o risco idiossincrático pode ser eliminado sem custo pela diversificação. Portanto, a afirmativa é falsa: diversificação reduz mas não elimina todo o risco.
✏️ Exercício 7.8¶
Solução.
Dados: \(u(W) = \ln(W)\), \(W_0 = 10.000\). Risco: perda de R$ 5.000 com \(p = 0{,}1\); sem perda com \(p = 0{,}9\).
Estados possíveis: - Estado ruim: \(W_1 = 10.000 - 5.000 = 5.000\), com \(p_1 = 0{,}1\) - Estado bom: \(W_2 = 10.000\), com \(p_2 = 0{,}9\)
Valor esperado da riqueza:
(a) Equivalente de certeza e prêmio de risco exato:
Utilidade esperada:
Equivalente de certeza:
Prêmio de risco exato:
(b) Prêmio máximo que o agente pagaria por cobertura total:
Com seguro de cobertura total a prêmio \(P\), o agente tem \(W_0 - P = 10.000 - P\) com certeza. Ele aceita pagar até \(P_{max}\) tal que:
Alternativamente: \(P_{max} = E[W] - EC + (W_0 - E[W]) = EC_{riqueza\ com\ risco}$. Na verdade, \(P_{max} = W_0 - EC = 10.000 - 9.367 = \text{R\$ } 633\).
Note que o prêmio atuarialmente justo é \(P_{justo} = 0{,}1 \times 5.000 = \text{R\$ } 500\). O agente pagaria até R$ 633, ou seja, até R$ 133 acima do prêmio justo — e esse R$ 133 é exatamente o prêmio de risco calculado no item (a).
(c) Decisão com prêmio de R$ 600:
Como \(P = 600 < P_{max} = 633\), o agente contrata o seguro.
Verificação:
- Sem seguro: \(E[u] = 9{,}1410\)
- Com seguro a R$ 600: \(u(10.000 - 600) = \ln(9.400) = 9{,}1483\)
Como \(9{,}1483 > 9{,}1410\), confirma-se que o agente prefere contratar o seguro a R$ 600.
Interpretação econômica: O agente pagaria até R$ 133 acima do prêmio justo para eliminar o risco. Um prêmio de R$ 600 = R$ 500 (justo) + R$ 100 (carregamento) ainda é aceitável, pois R$ 100 < R$ 133. Se a seguradora cobrasse R$ 650, o agente recusaria.
✏️ Exercício 7.9¶
Solução.
Dados: \(u(W) = -W^{-1}\) (CRRA com \(\gamma = 2\)), \(W_0 = 200.000\). Estados: - Seca: \(W_1 = 120.000\) com \(p_1 = 0{,}3\) - Sem seca: \(W_2 = 200.000\) com \(p_2 = 0{,}7\)
Prêmio do Proagro: R$ 30.000 (cobre integralmente a perda de R$ 80.000).
(a) Prêmio de risco exato:
Valor esperado da riqueza:
Utilidade esperada sem seguro:
Equivalente de certeza:
Prêmio de risco exato:
Este é o máximo que o agricultor pagaria pelo seguro.
(b) Decisão com o Proagro (prêmio de R$ 30.000):
Utilidade sem seguro: \(E[u] = -6{,}000 \times 10^{-6}\) (calculada acima).
Utilidade com seguro (prêmio R$ 30.000, cobertura total):
Com seguro, a riqueza do agricultor em qualquer estado é \(W_0 - P = 200.000 - 30.000 = 170.000\) (em caso de seca, recebe indenização de R$ 80.000, mas paga prêmio de R$ 30.000: riqueza líquida = \(120.000 + 80.000 - 30.000 = 170.000\); sem seca, riqueza = \(200.000 - 30.000 = 170.000\)).
Como \(-5{,}882 \times 10^{-6} > -6{,}000 \times 10^{-6}\) (menos negativo = maior utilidade), o agricultor contrata o seguro.
Verificação via prêmio máximo: \(P_{max} = W_0 - EC = 200.000 - 166.667 = \text{R\$ } 33.333\). Como \(P_{Proagro} = 30.000 < 33.333 = P_{max}\), confirma-se que o agricultor contrata.
(c) Carregamento máximo \(\lambda^*\):
O agricultor é indiferente quando \(P = P_{max} = \text{R\$ }33.333\).
O prêmio atuarialmente justo é \(P_{justo} = 0{,}3 \times 80.000 = \text{R\$ }24.000\).
O carregamento máximo é:
Com o carregamento atual de 25% (\(30.000/24.000 - 1\)), o agricultor ainda contrata. Somente se o carregamento superasse 38,9% ele deixaria de contratar.
Interpretação econômica: O agricultor com CRRA \(\gamma = 2\) está disposto a pagar quase 39% acima do prêmio justo para eliminar o risco de seca. Isso reflete sua aversão ao risco relativa: uma queda de 40% na riqueza (de R$ 200.000 para R$ 120.000) é muito custosa para uma utilidade com curvatura constante \(\gamma = 2\). O subsídio implícito do Proagro (que reduz o carregamento percebido pelo produtor) é, portanto, compatível com a teoria: ele viabiliza o seguro para produtores cuja disposição a pagar é positiva mas inferior ao custo de mercado não subsidiado.
✏️ Exercício 7.10¶
Solução.
Objetivo: Demonstrar que \(\pi \approx \frac{1}{2}\sigma^2 \cdot A(W_0)\), onde \(A(W_0) = -u''(W_0)/u'(W_0)\).
Configuração: Seja \(\tilde{W} = W_0 + \tilde{\varepsilon}\), onde \(\tilde{\varepsilon}\) é um risco justo: \(E[\tilde{\varepsilon}] = 0\) e \(\text{Var}(\tilde{\varepsilon}) = E[\tilde{\varepsilon}^2] = \sigma^2\).
Por definição, o prêmio de risco \(\pi\) satisfaz:
Passo 1 — Expansão do lado direito:
Expanda \(u(W_0 + \tilde{\varepsilon})\) em série de Taylor de segunda ordem em torno de \(W_0\):
Tomando o valor esperado de ambos os lados e usando \(E[\tilde{\varepsilon}] = 0\) e \(E[\tilde{\varepsilon}^2] = \sigma^2\):
Passo 2 — Expansão do lado esquerdo:
Expanda \(u(W_0 - \pi)\) em série de Taylor de primeira ordem em torno de \(W_0\), tratando \(\pi\) como pequeno:
Passo 3 — Igualação:
Igualando (I) e (II) via a condição (*):
Cancelando \(u(W_0)\) de ambos os lados:
Como \(u'(W_0) > 0\) (utilidade crescente), dividindo ambos os lados por \(-u'(W_0)\):
Interpretação dos termos:
- \(\frac{1}{2}\sigma^2\): representa a "quantidade" de risco — metade da variância da loteria.
- \(A(W_0) = -u''(W_0)/u'(W_0)\): representa o "preço" do risco — a intensidade da aversão ao risco no ponto \(W_0\), medida pela razão entre a curvatura (\(u''\)) e a inclinação (\(u'\)) da função de utilidade.
- O produto \(\frac{1}{2}A(W_0)\sigma^2\) combina preferências (subjetivo) e risco (objetivo) numa fórmula que determina quanto o agente pagaria para eliminar a incerteza.
Validade da aproximação: A expansão de Taylor de segunda ordem é válida quando \(\sigma\) é pequeno em relação a \(W_0\) (risco "pequeno"). Para riscos grandes, os termos de ordem superior importam e a aproximação subestima ou superestima o prêmio exato dependendo do sinal da terceira derivada de \(u\). Para \(u = \ln W\), onde \(u''' > 0\), a aproximação subestima o prêmio exato — como observamos no Exercício 7.1.