Soluções dos Exercícios — Capítulo 6¶
✏️ Exercício 6.1¶
Solução.
(a) Com \(U = (x_1^\rho + x_2^\rho)^{1/\rho}\), a CPO gera:
Definindo \(\sigma = 1/(1-\rho)\) (elasticidade de substituição):
(b) Calculando \(\partial x_1/\partial p_2\):
O sinal depende de \((1-\sigma)\):
- Se \(\sigma > 1\) (\(\rho > 0\)): \(1 - \sigma < 0\), logo \(\partial x_1/\partial p_2 < 0\) → complementos brutos.
- Se \(\sigma < 1\) (\(\rho < 0\)): \(1 - \sigma > 0\), logo \(\partial x_1/\partial p_2 > 0\) → substitutos brutos.
- Se \(\sigma = 1\) (\(\rho \to 0\), Cobb-Douglas): \(\partial x_1/\partial p_2 = 0\) → independentes (nem substitutos nem complementos brutos).
(c) O efeito substituição cruzado (via Slutsky):
Com dois bens, o efeito substituição cruzado é sempre positivo (os bens são sempre substitutos líquidos). Isso resulta da negatividade semidefinida da matriz de Slutsky: com apenas dois bens, o efeito substituição próprio negativo implica necessariamente efeito substituição cruzado positivo (os termos diagonais e fora da diagonal são de sinais opostos para a matriz \(2 \times 2\)).
Interpretação econômica: A distinção entre substitutos brutos e líquidos é fundamental. Dois bens podem ser complementos brutos (Marshallian) mas substitutos líquidos (Hicksian) — a diferença é o efeito-renda. A classificação hicksiana (líquida) é mais "pura" porque isola o efeito substituição da mudança no poder de compra.
✏️ Exercício 6.2¶
Solução.
(a) Se os preços das frutas variam na mesma proporção (\(\alpha\)), definimos o bem composto "frutas" (\(F\)) como:
onde \(\bar{p}_b, \bar{p}_m, \bar{p}_l\) são os preços-base. O preço do bem composto é \(P_F = \alpha\). A restrição orçamentária fica:
Pelo Teorema do Bem Composto (Hicks), podemos tratar "frutas" como um único bem com preço \(\alpha\).
(b) Um aumento de 15% em \(\alpha\) (todos os preços de frutas sobem 15%) equivale a um aumento de 15% no preço do bem composto \(F\). No modelo de dois bens (\(F, y\)), podemos usar as ferramentas padrão: efeito substituição (consumidor troca frutas por outros bens) e efeito-renda (poder de compra cai). O efeito líquido sobre "todos os outros" (\(y\)) depende de o consumo de frutas ser normal ou inferior.
(c) A hipótese de proporcionalidade falharia quando os preços relativos entre as frutas mudam — por exemplo: (i) uma geada em Santa Catarina encarece a maçã mas não a banana; (ii) safra recorde de laranja reduz seu preço enquanto o da banana sobe por custos de transporte; (iii) políticas de subsídio diferenciadas (como isenção de ICMS para frutas regionais). No Brasil, a sazonalidade e os choques climáticos regionais tornam a proporcionalidade improvável para janelas temporais curtas.
✏️ Exercício 6.3¶
Solução.
(a) As demandas são Cobb-Douglas (\(\alpha = 1/3\)): \(x_1 = I/(3p_1)\), \(x_2 = 2I/(3p_2)\).
Os bens são independentes (nem substitutos nem complementos brutos). Com Cobb-Douglas, a demanda de cada bem depende apenas do próprio preço e da renda.
(b) Utilidade indireta: \(V = (I/(3p_1))^{1/3} (2I/(3p_2))^{2/3} = \frac{2^{2/3}}{3} \cdot I \cdot p_1^{-1/3} p_2^{-2/3}\).
Invertendo \(V = \bar{u}\): \(E = \frac{3}{2^{2/3}} \bar{u} p_1^{1/3} p_2^{2/3}\).
(c) Pelo Lema de Shephard:
Os bens são substitutos líquidos (como deve ser com dois bens).
(d) Verificação de Slutsky:
Lado esquerdo: 0 (calculado em (a)).
Lado direito: \(\frac{\partial h_1}{\partial p_2} - \frac{2I}{3p_2} \cdot \frac{1}{3p_1}\). Substituindo \(\bar{u} = V\) e simplificando, os termos se cancelam e o resultado é 0. ✓
Interpretação econômica: Os bens são independentes na classificação marshalliana (bruta) mas substitutos na hicksiana (líquida). Isso ocorre porque, com Cobb-Douglas, o efeito-renda cruzado exatamente compensa o efeito substituição cruzado. A parcela de renda gasta em cada bem é fixa, logo uma mudança em \(p_2\) não libera nem absorve gasto do bem 1.
✏️ Exercício 6.4¶
Solução.
(a) Atributos por unidade de gasto:
| Bem | Calorias/R$ | Proteínas/R$ |
|---|---|---|
| Arroz | 130/5 = 26 | 2,5/5 = 0,5 |
| Frango | 165/18 = 9,17 | 31/18 = 1,72 |
Sejam \(a\) = unidades de arroz e \(f\) = unidades de frango. Os atributos são:
A restrição orçamentária: \(5a + 18f = 200\).
A utilidade é \(U = z_1^{0,4} z_2^{0,6}\). Substituindo \(a = (200 - 18f)/5 = 40 - 3{,}6f\):
Maximizando \(z_1^{0,4} z_2^{0,6}\) em relação a \(f\):
CPO: \(\frac{0{,}4}{z_1}(-303) + \frac{0{,}6}{z_2}(22) = 0\)
Substituindo: \(5200 - 303f = 9{,}182(100 + 22f)\)
(b) Com o ovo (155 cal, 13 prot, R$ 8), o problema passa a ter 3 bens e 2 atributos. A eficiência do ovo: 19,4 cal/R$ e 1,63 prot/R$. O ovo é dominado pelo frango em proteínas/R$ (1,63 < 1,72) e pelo arroz em calorias/R$ (19,4 < 26). No entanto, oferece uma combinação intermediária que pode ser ótima dependendo dos pesos.
Resolvendo o sistema expandido (omitindo álgebra extensa), o ovo tenderia a substituir parcialmente ambos os bens existentes se oferecer uma combinação de atributos mais próxima da razão ótima \(z_1/z_2\) que a dos bens originais. Na prática, o ovo entraria na cesta como uma fonte intermediária custo-efetiva.
Interpretação econômica: O modelo de Lancaster permite analisar a entrada de novos produtos não por seus preços diretos, mas por seus "preços de atributos". No Brasil, a diversidade de fontes proteicas (frango, ovo, feijão) com diferentes perfis de atributos e preços explica a heterogeneidade dos padrões alimentares entre regiões e classes de renda.
✏️ Exercício 6.5¶
Solução.
(a) A condição de Gorman exige que as curvas de Engel individuais sejam lineares e paralelas: \(x_i = a_i(p) + b(p) \cdot I_i\), onde \(b(p)\) é comum a todos os consumidores.
- Consumidor A: \(x_1^A = I^A/(2p_1)\) → linear em \(I^A\), com \(b^A = 1/(2p_1)\).
- Consumidor B: \(x_1^B = (I^B)^2/(100 p_1)\) → não linear em \(I^B\).
A curva de Engel de B é quadrática. A condição de Gorman não é satisfeita. Logo, a demanda de mercado não pode ser escrita como função da renda agregada.
(b) Com \(I^A = I^B = 100\), \(p_1 = 10\):
Redistribuição (\(I^A = 50\), \(I^B = 150\)):
A demanda aumentou de 15 para 25, apesar da renda total permanecer em 200.
(c) Quando a condição de Gorman falha, a distribuição de renda afeta a demanda agregada. Políticas de redistribuição como o Bolsa Família alteram a demanda de mercado não apenas pelo efeito mecânico sobre a renda total (que não muda em transferências puras), mas pela diferença nas propensões marginais a consumir entre os beneficiários e os contribuintes. No exemplo, transferir renda para o consumidor B (com demanda convexa na renda) eleva a demanda agregada. Empiricamente, famílias de baixa renda tendem a ter maior propensão marginal a consumir bens básicos — uma violação da condição de Gorman que é relevante para avaliar os efeitos macroeconômicos de programas de transferência.
✏️ Exercício 6.6¶
Solução.
(a) Com \(U = x_1^{0{,}5} x_2^{0{,}5}\) (Cobb-Douglas com \(a = 0{,}5\)), as demandas marshallianas são:
A elasticidade-preço cruzada marshalliana de \(x_1\) em relação a \(p_2\):
pois \(x_1^* = I/(2p_1)\) não depende de \(p_2\). Os bens são marshallianos independentes (nem substitutos nem complementos brutos).
(b) A utilidade indireta é \(V(p_1, p_2, I) = \frac{I}{2p_1^{0{,}5} p_2^{0{,}5}}\). Invertendo para obter a função dispêndio:
Pelo Lema de Shephard, as demandas hicksianas são:
O efeito substituição cruzado hicksiano:
Os bens são substitutos líquidos (hicksianos), como esperado para qualquer par de bens com apenas dois bens na economia.
(c) Pela Equação de Slutsky:
Os dois termos do lado direito se cancelam exatamente. O efeito substituição cruzado (\(\partial h_1 / \partial p_2 > 0\)) é positivo: quando \(p_2\) sobe, mantendo a utilidade constante, o consumidor substitui \(x_2\) por \(x_1\). No entanto, o aumento de \(p_2\) também reduz o poder de compra real, diminuindo a demanda por \(x_1\) (já que \(x_1\) é bem normal). Com a Cobb-Douglas, esses dois efeitos se cancelam perfeitamente porque a parcela orçamentária de cada bem é constante (50% de \(I\) para cada bem) — propriedade característica da Cobb-Douglas. O que cancela o efeito substituição é o efeito renda cruzado \(x_2 \frac{\partial x_1}{\partial I} = \frac{I}{2p_2} \cdot \frac{1}{2p_1}\).
✏️ Exercício 6.7¶
Solução.
(a) Os preços do arroz e do feijão variam proporcionalmente: \(p_R = \alpha \bar{p}_R\) e \(p_F = \alpha \bar{p}_F\). Definimos o bem composto "alimentos básicos":
onde \(R\) e \(F\) são as quantidades de arroz e feijão, respectivamente. A restrição orçamentária original:
Substituindo \(p_R = \alpha \bar{p}_R\) e \(p_F = \alpha \bar{p}_F\):
(b) O "preço" do bem composto \(A\) é \(\alpha\) (o índice que escala os preços do grupo). A "quantidade" de \(A\) é \(\bar{p}_R \cdot R + \bar{p}_F \cdot F\) — o valor do consumo de alimentos básicos a preços-base.
(c) O problema original tem 4 bens (\(R\), \(F\), \(M\), \(y\)) e se reduz a 3 bens (\(A\), \(M\), \(y\)) com a agregação. A simplificação é inválida para analisar o impacto de uma seca que afeta apenas o arroz, porque nesse caso \(p_R\) sobe sem que \(p_F\) suba na mesma proporção — os preços relativos dentro do grupo "alimentos básicos" mudam. O Teorema do Bem Composto exige que \(p_R/p_F = \bar{p}_R/\bar{p}_F\) permaneça constante (apenas o escalar \(\alpha\) varia). Quando a seca é específica ao arroz, o preço relativo arroz/feijão muda, invalidando a agregação. Nesse caso, seria necessário manter arroz e feijão como bens separados na análise.
✏️ Exercício 6.8¶
Solução.
(a) A propriedade \(S\mathbf{p} = \mathbf{0}\) implica, para a primeira linha da matriz:
Com \(\mathbf{p} = (1, 1, 1)^\top\):
(b) Como \(s_{13} = 1 > 0\), o bem 1 e o bem 3 são substitutos líquidos (hicksianos).
(c) Usando a segunda linha (\(s_{21} p_1 + s_{22} p_2 + s_{23} p_3 = 0\)):
A segunda linha já está balanceada. Para a terceira linha (\(s_{31} p_1 + s_{32} p_2 + s_{33} p_3 = 0\)):
De fato \(s_{33} = -3 \leq 0\), confirmando o efeito substituição próprio não positivo do bem 3, como exigido pela negatividade semidefinida da matriz de Slutsky.
✏️ Exercício 6.9¶
Solução.
(a) O imposto sobre gasolina eleva \(p_G\) em 10% (\(\Delta p_G / p_G = +10\%\)). A variação percentual na demanda por gasolina:
A demanda por gasolina cai aproximadamente 6%.
(b) A variação percentual na demanda por etanol, via elasticidade cruzada:
A demanda por etanol aumenta aproximadamente 6,5%.
(c) A perda de peso morto (triângulo de Harberger) associada ao imposto sobre gasolina é:
Com \(Q_G^0 = 100\) litros, \(p_G^0 = 6{,}00\) R$/l e \(\Delta p_G / p_G = 10\%\):
[ \Delta p_G = 0{,}10 \times 6{,}00 = 0{,}60 \text{ R$/l} ] [ \Delta Q_G = -0{,}06 \times 100 = -6 \text{ litros} ] [ DWL \approx \frac{1}{2} \times 6 \times 0{,}60 = \text{R$ } 1{,}80 ]
Interpretação: A elevada elasticidade-preço da gasolina (\(-0{,}60\)) — muito superior à de bens como alimentos ou habitação — implica que o imposto sobre combustíveis gera perdas de peso morto relativamente maiores por real arrecadado. Bens com elevada elasticidade-preço cruzada (gasolina e etanol são fortes substitutos) também redistribuem demanda significativamente: um imposto sobre gasolina efetivamente subsidia o etanol, alterando a composição da frota e as emissões de carbono — uma externalidade positiva que poderia ser contabilizada como benefício social parcialmente compensando o peso morto.
✏️ Exercício 6.10¶
Solução.
Queremos provar que, com \(n = 2\) bens, \(s_{12} = \frac{\partial h_1}{\partial p_2} \geq 0\).
Passo 1: Condição de homogeneidade.
Pela homogeneidade de grau zero das demandas hicksianas, aplicando o Teorema de Euler:
Com \(n = 2\) e \(i = 1\):
Passo 2: Negatividade do efeito substituição próprio.
Da negatividade semidefinida da matriz de Slutsky (decorrente da minimização de dispêndio), temos:
Passo 3: Isolando \(s_{12}\).
Da equação \eqref{eq:passo1}:
Como \(p_1 > 0\), \(p_2 > 0\) e \(s_{11} \leq 0\), concluímos:
Conclusão: \(\frac{\partial h_1}{\partial p_2} = s_{12} \geq 0\). Com dois bens, o efeito substituição cruzado hicksiano é sempre não negativo, confirmando que dois bens são sempre substitutos líquidos (ou no mínimo independentes). \(\blacksquare\)
Observação: A igualdade \(s_{12} = 0\) ocorreria apenas se \(s_{11} = 0\), o que implicaria que o bem 1 não reage compensadamente ao seu próprio preço — um caso degenerado que na prática não ocorre para bens interiores. Para soluções interiores com preferências estritamente convexas, \(s_{11} < 0\) e, portanto, \(s_{12} > 0\) estritamente.