Soluções dos Exercícios — Capítulo 2¶
✏️ Exercício 2.1¶
Solução.
(a) Pontos críticos: \(f'(x) = 0\).
Fatorando: \(f'(x) = -(x^3 - 6x^2 + 6x - 12)\). Testando \(x = 0\): \(f'(0) = 12 \neq 0\). Reorganizando, note que:
Testando \(x = 2\): \(f'(2) = 12 - 12 + 24 - 8 = 16 \neq 0\). Testando fatores, note que podemos reescrever \(f'(x) = -x^3 + 6x^2 - 6x + 12\). Para encontrar raízes, igualamos a zero:
Pelo teste racional e/ou método numérico, a equação tem uma raiz real aproximadamente em \(x \approx 4{,}54\) e duas raízes complexas. No intervalo \([0, 4]\), como \(f'(0) = 12 > 0\) e \(f'(4) = 12 - 24 + 96 - 64 = 20 > 0\), a derivada não se anula — não há pontos críticos interiores em \([0,4]\).
(b) Como não há pontos críticos interiores em \([0, 4]\), não há máximos ou mínimos locais interiores a classificar. A segunda derivada é:
Para \(x \approx 4{,}54\): \(f''(4{,}54) = -6 + 54{,}5 - 61{,}8 \approx -13{,}3 < 0\), logo é um máximo local (fora do intervalo).
(c) O máximo global em \([0, 4]\) ocorre nos extremos do intervalo (já que \(f' > 0\) em todo o intervalo, a função é crescente):
O máximo global é \(f(4) = 64\).
Interpretação econômica: Este exercício ilustra a importância de verificar as fronteiras do domínio. Em problemas econômicos, restrições como \(q \geq 0\) frequentemente implicam soluções de canto que não são capturadas apenas pela CPO.
✏️ Exercício 2.2¶
Solução.
(a) O Lagrangeano é:
(b) Condições de primeira ordem:
(c) Dividindo (1) por (2):
Substituindo em (3):
(d) Multiplicando todos os argumentos por \(t > 0\):
Analogamente para \(x_2^*\). As demandas são homogêneas de grau 0: dobrar simultaneamente todos os preços e a renda não altera as quantidades demandadas. Isso reflete a ausência de ilusão monetária.
(e) De (1): \(\lambda^* = \frac{1}{3p_1} x_1^{*-2/3} x_2^{*2/3}\). Substituindo as demandas e simplificando:
O multiplicador \(\lambda^*\) mede a utilidade marginal da renda: o aumento na utilidade máxima quando a renda \(m\) aumenta em uma unidade, mantidos os preços. É o "preço-sombra" da restrição orçamentária — quanto maior \(\lambda^*\), mais "apertada" está a restrição.
✏️ Exercício 2.3¶
Solução.
(a) Multiplicando ambos os insumos por \(t > 0\):
Logo \(Q\) é homogênea de grau \(\alpha + \beta\). \(\blacksquare\)
(b) O Teorema de Euler afirma que, para \(Q\) homogênea de grau \(k\):
Calculando:
(c) Retornos constantes de escala: \(\alpha + \beta = 1\) (dobrar insumos dobra o produto). Retornos decrescentes: \(\alpha + \beta < 1\) (dobrar insumos menos que dobra o produto).
(d) A TMST é a razão dos produtos marginais:
Interpretação econômica: A TMST mede a taxa à qual a firma pode substituir capital por trabalho mantendo o mesmo nível de produto. Se \(\alpha/\beta = 1/2\), por exemplo, uma unidade a menos de capital exige duas unidades adicionais de trabalho. A TMST depende da razão \(L/K\): à medida que a firma usa mais trabalho e menos capital, cada unidade adicional de trabalho substitui menos capital — isso reflete a lei dos rendimentos marginais decrescentes de cada fator.
✏️ Exercício 2.4¶
Solução.
(a) A receita é \(R = PQ = (a - bQ)Q = aQ - bQ^2\). O lucro é:
CPO: \(\pi'(Q) = (a - c) - 2bQ = 0\)
O lucro máximo é:
(b) Pelo Teorema do Envelope, \(\frac{\partial \pi^*}{\partial \theta} = \frac{\partial \pi}{\partial \theta}\bigg|_{Q=Q^*}\), onde a derivada parcial é tomada tratando \(Q\) como fixo:
(c) Diferenciando diretamente \(\pi^* = \frac{(a-c)^2}{4b}\):
(d) Interpretação dos sinais:
- \(\partial \pi^*/\partial a > 0\): um aumento na disposição a pagar dos consumidores (intercepto da demanda mais alto) eleva o lucro do monopolista.
- \(\partial \pi^*/\partial b < 0\): uma demanda mais sensível ao preço (inclinação mais acentuada) reduz o lucro — o monopolista tem menos poder de mercado.
- \(\partial \pi^*/\partial c < 0\): um aumento no custo marginal reduz o lucro — cada unidade fica mais cara para produzir.
Interpretação econômica: O Teorema do Envelope permite calcular o efeito de mudanças paramétricas sobre o valor ótimo sem re-resolver o problema de otimização. Em economia, isso é extremamente útil para estática comparativa: basta avaliar a derivada parcial da função objetivo no ponto ótimo.
✏️ Exercício 2.5¶
Solução.
(a) O problema é:
(b) Condições de Kuhn-Tucker:
(c) Para \(m = 10\): como a renda é elevada, testamos solução interior (\(x_1 > 0, x_2 > 0\)), logo \(\mu_1 = \mu_2 = 0\).
De (ii): \(\lambda = 1\). De (i): \(\frac{1}{x_1} = 2\lambda = 2\), logo \(x_1^* = 1/2\).
De (iii) com \(\lambda > 0\): \(2(1/2) + x_2 = 10\), logo \(x_2^* = 9\).
Verificação das KKT: \(\lambda = 1 > 0\) ✓; \(\mu_1 = \mu_2 = 0\) ✓; \(x_1 = 1/2 > 0\) ✓; \(x_2 = 9 > 0\) ✓; restrição ativa ✓.
(d) Para \(m = 0{,}3\): testamos \(x_2 = 0\) (solução de canto), \(\mu_2 \geq 0\).
Com \(x_2 = 0\), toda a renda vai para \(x_1\): \(2x_1 = 0{,}3\), logo \(x_1^* = 0{,}15\).
De (i) com \(\mu_1 = 0\) (pois \(x_1 > 0\)): \(\frac{1}{0{,}15} = 2\lambda\), logo \(\lambda = 10/3 \approx 3{,}33\).
De (ii): \(\mu_2 = \lambda - 1 = 7/3 \approx 2{,}33 > 0\) ✓ (confirma \(x_2 = 0\)).
(e) Na fronteira entre solução interior e de canto, \(x_2 = 0\) e \(\mu_2 = 0\). De (ii): \(\lambda = 1\). De (i): \(x_1 = 1/2\). Da restrição: \(m = 2(1/2) + 0 = 1\).
Para \(m \geq 1\), o consumidor compra ambos os bens. Para \(m < 1\), gasta tudo em \(x_1\).
Interpretação econômica: Com utilidade quase-linear, a demanda por \(x_1\) é constante (\(x_1^* = 1/2\)) quando a renda é suficiente. Toda variação de renda é absorvida por \(x_2\), que funciona como "numerário". A solução de canto ocorre quando a renda é tão baixa que o consumidor não pode adquirir a quantidade "ideal" de \(x_1\) e ainda sobrar algo para \(x_2\).
✏️ Exercício 2.6¶
Solução.
(a) Testamos: \(f(tx, ty) = (tx)^2(ty) = t^2 x^2 \cdot t y = t^3 x^2 y = t^3 f(x,y)\). Portanto, \(f\) é homogênea de grau 3.
(b) No ponto \((3, 4)\): \(f(3,4) = 9 \times 4 = 36\). As derivadas parciais: \(f_x = 2xy = 24\), \(f_y = x^2 = 9\). Pelo Teorema de Euler: \(x f_x + y f_y = 3 \times 24 + 4 \times 9 = 72 + 36 = 108\). Verificação: \(k \cdot f = 3 \times 36 = 108\). ✓
(c) \(f_x = 2xy\): testamos \(f_x(tx, ty) = 2(tx)(ty) = t^2 \cdot 2xy = t^2 f_x(x,y)\). Logo \(f_x\) é homogênea de grau 2. \(f_y = x^2\): \(f_y(tx, ty) = (tx)^2 = t^2 x^2 = t^2 f_y(x,y)\). Logo \(f_y\) é homogênea de grau 2. Em geral, se \(f\) é homogênea de grau \(k\), suas derivadas parciais são homogêneas de grau \(k-1\).
✏️ Exercício 2.7¶
Solução.
(a) No ótimo da função Leontief \(U = \min\{x_1, 2x_2\}\), o consumidor deseja \(x_1 = 2x_2\). Consumir mais de \(x_1\) além de \(2x_2\) não aumenta a utilidade (o mínimo permanece \(2x_2\)); analogamente para \(x_2\). A proporção ótima é 2:1.
(b) Substituindo \(x_1 = 2x_2\) na restrição: \(3(2x_2) + 6x_2 = 90 \implies 12x_2 = 90 \implies x_2^* = 7{,}5\), \(x_1^* = 15\).
(c) \(U^* = \min\{15, 2(7{,}5)\} = \min\{15, 15\} = 15\).
(d) Com \(I = 120\): \(12x_2 = 120 \implies x_2^* = 10\), \(x_1^* = 20\). Variação: \(x_1\) subiu 33,3%, \(x_2\) subiu 33,3%. A elasticidade-renda é unitária para ambos os bens — propriedade geral das preferências homotéticas (Leontief é homotética).
Interpretação econômica: Como os bens são complementos perfeitos (pense em café e filtro de papel, ou impressora e cartucho), o consumidor mantém a proporção fixa independentemente de preços e renda. Todo aumento de renda é distribuído proporcionalmente entre os bens.
✏️ Exercício 2.8¶
Solução.
(a) Equilíbrio: \(Q^d = Q^s\):
(b) \(\frac{dP^*}{dt} = \frac{-d}{b+d}\). Como \(b, d > 0\), temos \(0 < \frac{d}{b+d} < 1\). O imposto não é integralmente repassado: o consumidor absorve a fração \(\frac{d}{b+d}\) e o produtor absorve \(\frac{b}{b+d}\).
(c) O repasse é maior que 50% quando \(\frac{d}{b+d} > \frac{1}{2}\), ou seja, \(d > b\). Em termos de elasticidades: como \(\varepsilon_d = -b(P/Q)\) e \(\varepsilon_s = d(P/Q)\), o repasse é maior quando a oferta é mais elástica que a demanda (\(\varepsilon_s > |\varepsilon_d|\)). Intuitivamente, produtores mais sensíveis a preço conseguem "escapar" do imposto reduzindo a quantidade, forçando o ajuste pelo lado do consumidor.
(d) \(R(t) = t \cdot Q^*(t) = t \cdot \frac{ad - bc + bdt}{b+d}\). Derivando e igualando a zero:
Para que \(t^* > 0\), precisamos \(bc > ad\). A receita primeiro cresce com \(t\) (efeito base: mais receita por unidade) e depois cai (efeito quantidade: a base tributária encolhe). Esse é o formato da curva de Laffer: alíquotas muito altas podem reduzir a receita.
✏️ Exercício 2.9¶
Solução.
(a) O produtor maximiza a receita total:
sujeito a \(L_s + L_m = 100\).
(b) Lagrangeano: \(\mathcal{L} = 1600\sqrt{L_s} + 720\sqrt{L_m} + \lambda(100 - L_s - L_m)\).
CPOs:
(c) Igualando: \(\frac{800}{\sqrt{L_s}} = \frac{360}{\sqrt{L_m}} \implies \frac{\sqrt{L_m}}{\sqrt{L_s}} = \frac{360}{800} = 0{,}45 \implies \frac{L_m}{L_s} = 0{,}2025\).
Logo \(L_m = 0{,}2025 L_s\). Substituindo: \(L_s + 0{,}2025 L_s = 100 \implies 1{,}2025 L_s = 100 \implies L_s^* \approx 83{,}16\).
\(L_m^* = 100 - 83{,}16 = 16{,}84\).
(d) \(\lambda^* = \frac{800}{\sqrt{83{,}16}} = \frac{800}{9{,}12} \approx 87{,}7\) R$/hora.
Interpretação: Uma hora adicional de trabalho aumentaria a receita do produtor em aproximadamente R$ 87,70. Esse é o valor-sombra do recurso escasso (tempo).
(e) Se \(P_s\) sobe para 200, a CPO para \(L_s\) torna-se \(\frac{1000}{\sqrt{L_s}} = \lambda\). A razão \(L_m/L_s\) cai (de 0,2025 para \((360/1000)^2 = 0{,}1296\)), logo o produtor realoca horas da milho para a soja — exatamente o que a estática comparativa prevê. O multiplicador \(\lambda\) também sobe, refletindo que cada hora de trabalho agora é mais valiosa.
✏️ Exercício 2.10¶
Solução.
(a) A firma maximiza \(\pi = PQ - wL - rK\) sujeita a \(Q = K^\alpha L^{1-\alpha}\) e \(K \leq \bar{K}\). Substituindo a função de produção:
Lagrangeano com restrição de capacidade:
(b) KKT:
(c) Se \(K < \bar{K}\), então \(\mu = 0\). Da segunda CPO: \(P\alpha K^{\alpha-1}L^{1-\alpha} = r\), ou seja, \(P \cdot PMg_K = r\) — o valor do produto marginal do capital iguala o custo do capital. Da primeira CPO: \(P(1-\alpha)K^\alpha L^{-\alpha} = w\), ou seja, \(P \cdot PMg_L = w\).
Dividindo: \(\frac{\alpha}{1-\alpha} \cdot \frac{L}{K} = \frac{r}{w} \implies K = \frac{\alpha w}{(1-\alpha)r} L\).
Substituindo na função de produção, obtemos as demandas por fatores como funções de \(P, w, r\).
(d) Se \(K = \bar{K}\), a CPO para \(K\) dá:
Como \(\mu > 0\), temos \(P \cdot PMg_K > r\): a produtividade marginal do capital excede seu custo — a firma gostaria de contratar mais capital, mas não pode. O multiplicador \(\mu\) é o "aluguel-sombra" do capital: quanto de lucro adicional a firma obteria se pudesse usar uma unidade a mais de capital. Em termos práticos, \(\mu\) mede o valor de uma expansão de capacidade.
(e) A restrição se torna ativa quando a demanda ótima irrestrita de capital excede \(\bar{K}\):
Isso ocorre quando \(\bar{K}\) é suficientemente baixo (ou quando \(P\) e \(w/r\) são suficientemente altos, incentivando uma intensidade de capital maior).
✏️ Exercício 2.11¶
Solução.
(a) O Lagrangeano é:
Condições de Kuhn-Tucker:
(b) Sem restrição de capacidade (\(\lambda = 0\)): \(20 - 2q_1 = 0 \implies q_1 = 10\) e \(16 - 2q_2 = 0 \implies q_2 = 8\). Total: \(q_1 + q_2 = 18 > 12\). Sim, a restrição é violada.
(c) Com a restrição ativa (\(q_1 + q_2 = 12\), \(\lambda > 0\)): das CPOs com igualdade (ambos \(q_i > 0\)):
Igualando: \(20 - 2q_1 = 16 - 2q_2 \implies q_1 - q_2 = 2\). Com \(q_1 + q_2 = 12\):
O multiplicador: \(\lambda^* = 20 - 2(7) = 6\).
(d) \(\lambda^* = 6\) significa que uma unidade adicional de capacidade (passar de 12 para 13) aumentaria o lucro em aproximadamente R$ 6. É o preço-sombra da restrição de capacidade — o valor marginal de expandir a planta.
(e) Verificação: com capacidade 12, \(\pi^*(12) = 20(7) + 16(5) - 49 - 25 = 140 + 80 - 74 = 146\).
Com capacidade 13, resolvendo analogamente: \(q_1 - q_2 = 2\) e \(q_1 + q_2 = 13\), logo \(q_1 = 7{,}5\), \(q_2 = 5{,}5\). \(\pi^*(13) = 20(7{,}5) + 16(5{,}5) - 56{,}25 - 30{,}25 = 150 + 88 - 86{,}5 = 151{,}5\).
Diferença: \(151{,}5 - 146 = 5{,}5\), próximo de \(\lambda^* = 6\). A diferença existe porque \(\lambda^*\) é uma aproximação marginal (linear); para variações discretas, a aproximação não é exata. \(\blacksquare\)
✏️ Exercício 2.12¶
Solução.
(a) O problema de minimização de custos é:
Lagrangeano (com sinal ajustado para minimização):
(b) Condições de primeira ordem:
Dividindo (i) por (ii): \(\frac{r}{w} = \frac{L}{K} \implies K = \frac{w}{r}L\).
Substituindo na restrição: \(\left(\frac{w}{r}L\right)^{1/2} L^{1/2} = \bar{Q} \implies \left(\frac{w}{r}\right)^{1/2} L = \bar{Q}\).
(c) A função custo é:
(d) Pelo teorema do envelope na minimização restrita: \(\frac{\partial C}{\partial r} = \frac{\partial \mathcal{L}}{\partial r}\big|_{\text{ótimo}} = K^*\).
Verificação por diferenciação direta:
Este é o Lema de Shephard para a firma: a demanda condicional de cada insumo é a derivada da função custo em relação ao respectivo preço.
(e) De (i): \(\lambda = \frac{2rK^{1/2}}{L^{1/2}} = 2r \left(\frac{w}{r}\right)^{1/2} \cdot \frac{1}{\left(\frac{r}{w}\right)^{1/2} \cdot \bar{Q}^{-1/2} \cdot \bar{Q}^{1/2}}\). Simplificando com os valores ótimos:
\(\lambda^* = 2\sqrt{rw}\).
Pelo teorema do envelope: \(\frac{\partial C}{\partial \bar{Q}} = \frac{\partial \mathcal{L}}{\partial \bar{Q}}\big|_{\text{ótimo}} = \lambda^*\).
Verificação direta: \(\frac{\partial C}{\partial \bar{Q}} = 2\sqrt{rw} = \lambda^*\). \(\checkmark\)
Interpretação econômica: O multiplicador \(\lambda^*\) é o custo marginal — o custo de produzir uma unidade adicional. O Lema de Shephard e a igualdade \(CMg = \lambda^*\) são ambos aplicações do teorema do envelope, confirmando sua centralidade na teoria da firma. \(\blacksquare\)