Pesquisa em Ação
Pesquisa em Ação¶
Nordhaus, W. D. (2017). Revisiting the Social Cost of Carbon. Proceedings of the National Academy of Sciences, 114(7), 1518–1523.
Pergunta central: Qual é o custo social do carbono atualizado, e como ele depende da taxa de desconto, da sensibilidade climática e da trajetória de emissões?
Método: Nordhaus utiliza a versão DICE-2016R do seu modelo de avaliação integrada — que conecta um modelo de crescimento econômico neoclássico a um modelo climático geofísico e a uma função de dano que traduz aquecimento em perda de PIB. O SCC é calculado como o preço-sombra das emissões de CO₂ na trajetória ótima.
Resultado principal: O SCC estimado é de US$ 31/tCO₂ (em dólares de 2010), com taxa de desconto de ~4,25%. A trajetória ótima implica um imposto de carbono crescente ao longo do tempo. Nordhaus mostra que o SCC é altamente sensível à taxa de desconto: com desconto de 3%, o SCC sobe para ~US$ 50; com 1,5%, ultrapassa US$ 100. O artigo enfatiza que o SCC é uma ferramenta de análise de custo-benefício, não um número único e definitivo.
Relevância para o capítulo: Este é o artigo de referência para o modelo DICE e o SCC, discutido na Seção 24.3. Nordhaus recebeu o Nobel de 2018 por "integrar a mudança climática na análise macroeconômica de longo prazo". O artigo conecta diretamente com o debate sobre taxa de desconto (Seção 24.3.4) e com os fundamentos de escolha intertemporal do Capítulo 18.
Weitzman, M. L. (1974). Prices vs. Quantities. Review of Economic Studies, 41(4), 477–491.
Pergunta central: Sob incerteza sobre os custos de abatimento, o regulador deve usar um instrumento de preço (imposto) ou de quantidade (quota/cap)?
Método: Weitzman desenvolve um modelo teórico em que o regulador não conhece os custos de abatimento das firmas. Compara a perda esperada de bem-estar (desvio em relação ao ótimo com informação perfeita) de dois instrumentos: um imposto fixo e uma quota fixa. A comparação depende das inclinações das curvas de benefício marginal e custo marginal de abatimento.
Resultado principal: O imposto é preferível quando a curva de custo marginal de abatimento é mais inclinada que a de benefício marginal; a quota é preferível no caso oposto. A intuição: com imposto, a quantidade flutua com os custos (desconhecidos) — e a perda é proporcional à inclinação do benefício marginal. Com quota, o preço flutua — e a perda é proporcional à inclinação do custo marginal. A vantagem comparativa de cada instrumento depende de qual flutuação é menos custosa.
Relevância para o capítulo: Este é um dos artigos mais citados em economia ambiental e fundamenta a análise da Seção 24.2.3. A contribuição de Weitzman vai além do resultado formal: seu framework é a base para o debate sobre se o preço do carbono deve ser fixado por imposto ou por cap-and-trade — uma questão central da política climática contemporânea.
Stavins, R. N. (1998). What Can We Learn from the Grand Policy Experiment? Lessons from SO₂ Allowance Trading. Journal of Economic Perspectives, 12(3), 69–88.
Pergunta central: O programa americano de comércio de permissões de SO₂ (dióxido de enxofre), criado pelo Clean Air Act de 1990, confirmou as previsões teóricas sobre a eficiência de instrumentos de mercado?
Método: Stavins analisa os primeiros anos de implementação do programa de cap-and-trade para SO₂, comparando custos realizados com estimativas prévias do custo de abordagens de comando e controle. Examina também o funcionamento do mercado de permissões, a distribuição dos esforços de abatimento entre firmas e as inovações tecnológicas induzidas.
Resultado principal: O programa reduziu as emissões de SO₂ em ~50% entre 1990 e 1997, a um custo estimado em US$ 1 bilhão/ano — significativamente menos que os US$ 2,5–5 bilhões/ano estimados para uma abordagem de comando e controle equivalente. O mercado de permissões funcionou: o preço convergiu e as firmas com menor custo de abatimento venderam permissões para as de maior custo, equalizando custos marginais como prevê a teoria.
Relevância para o capítulo: O SO₂ Allowance Trading Program é o "experimento natural" fundador dos mercados de carbono. Seus resultados validaram empiricamente a superioridade de instrumentos de mercado e serviram de modelo para o EU ETS e outros sistemas cap-and-trade. O artigo conecta com a análise da Seção 24.2 e com os mercados de carbono da Seção 24.4.
Stern, N. (2007). The Economics of Climate Change: The Stern Review. Cambridge: Cambridge University Press.
Pergunta central: Quais são os custos econômicos das mudanças climáticas e da inação, e qual é o nível ótimo de investimento em mitigação?
Método: O Stern Review é uma avaliação abrangente encomendada pelo governo britânico. Utiliza modelos de avaliação integrada (PAGE model) com taxa de desconto de ~1,4% (taxa pura de preferência temporal de 0,1%, refletindo o princípio ético de que gerações futuras merecem peso quase igual às atuais).
Resultado principal: Sem mitigação, os custos das mudanças climáticas equivaleriam a uma perda permanente de 5–20% do PIB global. O custo de mitigação suficiente para limitar o aquecimento a 2°C seria de ~1% do PIB global/ano — muito menor que o custo da inação. Stern conclui que "os benefícios da ação forte e antecipada superam amplamente os custos da inação".
Relevância para o capítulo: O Stern Review é o contraponto a Nordhaus no debate sobre taxa de desconto (Seção 24.3.4). Sua conclusão de que ação imediata e agressiva é justificada decorre fundamentalmente da escolha de taxa de desconto baixa — uma decisão ética, não técnica. O debate Nordhaus–Stern permanece central para a formulação de política climática.
Greenstone, M.; Kopits, E.; Wolverton, A. (2013). Developing a Social Cost of Carbon for US Regulatory Analysis: A Methodology and Interpretation. Review of Environmental Economics and Policy, 7(1), 23–46.
Pergunta central: Como o governo dos EUA deve estimar o custo social do carbono para uso na análise regulatória?
Método: Os autores descrevem a metodologia do Interagency Working Group (IWG) para estimar o SCC. O IWG combina três modelos de avaliação integrada (DICE, PAGE, FUND) com distribuições de parâmetros-chave (sensibilidade climática, taxa de desconto, crescimento econômico), gerando uma distribuição de estimativas do SCC.
Resultado principal: A estimativa central do IWG (taxa de desconto de 3%) é de US$ 36/tCO₂ (em dólares de 2007). Com taxa de 5%, cai para US$ 11; com 2,5%, sobe para US$ 56. O percentil 95 (risco catastrófico, taxa de 3%) é de US$ 105. Os autores enfatizam que o SCC deve ser tratado como uma distribuição de estimativas, não como um número único.
Relevância para o capítulo: O artigo documenta como o SCC passou de conceito acadêmico a ferramenta operacional de política pública. A metodologia do IWG foi usada em centenas de regulações federais dos EUA. A discussão sobre a escolha da taxa de desconto conecta diretamente com a Seção 24.3.4 e com o Capítulo 18.
Exercício com IA
IA.11 — Simulando um mercado de carbono
Peça à IA para simular um mercado de carbono com 10 firmas, cada uma com curva de custo marginal de abatimento linear \(\text{CMgA}_i = a_i + b_i \cdot e_i\), onde os parâmetros \(a_i\) e \(b_i\) variam entre firmas. Peça para ela: (1) encontrar a alocação eficiente para um cap de 500 toneladas; (2) calcular o preço de equilíbrio da permissão; (3) comparar o custo total com uma regulação uniforme; (4) plotar as curvas de custo marginal de cada firma e o preço de equilíbrio. Compare a economia de custos com o Exemplo 24.1.
Referências¶
- Bayer, P.; Aklin, M. 2020. The European Union Emissions Trading System Reduced CO₂ Emissions Despite Low Prices. Proceedings of the National Academy of Sciences, 117(16), 8804–8812.
- Coase, R. H. 1960. The Problem of Social Cost. Journal of Law and Economics, 3, 1–44.
- Costanza, R.; d'Arge, R.; de Groot, R.; et al. 1997. The Value of the World's Ecosystem Services and Natural Capital. Nature, 387, 253–260.
- European Commission. 2024. EU Emissions Trading System (EU ETS) data viewer. European Environment Agency.
- Gordon, H. S. 1954. The Economic Theory of a Common-Property Resource: The Fishery. Journal of Political Economy, 62(2), 124–142.
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- INPE. 2024. PRODES — Monitoramento do desmatamento da Amazônia. São José dos Campos: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
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- Nordhaus, W. D. 2018. Nobel Prize Lecture: Climate Change: The Ultimate Challenge for Economics. Stockholm: Nobel Foundation.
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