Capítulo 18 — O Que Você Sabe e Eu Não: Informação Assimétrica¶
Introdução¶
A teoria microeconômica clássica, desenvolvida nos capítulos anteriores, pressupõe que todos os agentes econômicos possuem informação completa e simétrica sobre as características dos bens, os preços vigentes e as ações dos demais participantes do mercado. Essa hipótese, embora analiticamente conveniente, raramente se sustenta na prática. Empregadores não observam perfeitamente o esforço de seus funcionários; compradores de carros usados desconhecem o histórico real de manutenção do veículo; seguradoras não conseguem distinguir com precisão clientes de alto e baixo risco.
A informação assimétrica — situação em que uma parte de uma transação detém informação relevante que a outra parte não possui — gera consequências profundas para o funcionamento dos mercados. Em casos extremos, mercados inteiros podem deixar de existir. O estudo sistemático dessas questões rendeu o Prêmio Nobel de Economia a George Akerlof, Michael Spence e Joseph Stiglitz em 2001, e permanece como uma das áreas mais férteis da microeconomia moderna.
Neste capítulo, apresentamos o arcabouço do modelo principal-agente, analisamos os dois problemas fundamentais — risco moral (ações ocultas) e seleção adversa (tipos ocultos) — e discutimos mecanismos de mercado e contratuais que atenuam essas falhas, incluindo sinalização, triagem e leilões.
18.1 Contratos Complexos como Resposta à Assimetria de Informação¶
Na presença de informação assimétrica, contratos simples de preço fixo frequentemente não são suficientes para garantir transações eficientes. Os agentes econômicos respondem desenhando contratos complexos que buscam alinhar incentivos, revelar informação privada ou mitigar comportamentos oportunistas.
Informação Assimétrica
Situação em que, numa relação econômica entre duas ou mais partes, ao menos uma delas possui informação relevante que as demais não detêm. A parte mais informada é dita ter informação privada.
Exemplos de contratos complexos que emergem como resposta à assimetria de informação incluem:
- Contratos de trabalho com bônus vinculados a desempenho (resposta ao risco moral);
- Franquias e coparticipações em seguros (resposta ao risco moral e à seleção adversa);
- Garantias oferecidas pelo vendedor de um produto (sinalização de qualidade);
- Menus de contratos com diferentes combinações preço-qualidade (triagem de tipos).
A análise econômica desses arranjos contratuais constitui o campo da teoria dos contratos e da economia da informação, que se desenvolveu a partir dos trabalhos seminais de Akerlof (1970), Spence (1973), Rothschild e Stiglitz (1976), Mirrlees (1971) e Holmström (1979).
18.2 O Modelo Principal-Agente¶
O modelo principal-agente fornece o arcabouço analítico geral para estudar situações de informação assimétrica em relações contratuais.
Relação Principal-Agente
Relação econômica em que uma parte (o principal) delega uma tarefa ou decisão a outra parte (o agente), que possui informação privada sobre suas características (tipo) ou sobre suas ações (esforço). O principal desenha um contrato para induzir o agente a agir de forma compatível com seus interesses.
Elementos do modelo¶
O modelo canônico envolve os seguintes componentes:
- Principal: parte que propõe o contrato (empregador, segurador, comprador).
- Agente: parte que aceita ou rejeita o contrato e possui informação privada (trabalhador, segurado, vendedor).
- Contrato: mecanismo que especifica pagamentos contingentes a variáveis observáveis.
- Restrição de participação (RP): o agente só aceita o contrato se a utilidade esperada for ao menos igual à sua utilidade de reserva \(\bar{U}\).
- Restrição de compatibilidade de incentivos (RCI): o contrato deve induzir o agente a escolher a ação ou revelar o tipo desejado pelo principal.
Formalmente, o principal resolve:
sujeito a:
onde \(w(x)\) é o esquema de pagamento contingente ao resultado observável \(x\), \(e\) é o esforço do agente e \(\pi(x)\) é o lucro bruto do principal.
Informação completa vs. incompleta¶
Sob informação completa (ou simétrica), o principal observa tanto o tipo quanto a ação do agente. Nesse caso, basta oferecer um contrato que satisfaça a restrição de participação com igualdade — o chamado first-best (ótimo de primeiro melhor).
Sob informação assimétrica, o principal não observa o tipo ou a ação do agente, e precisa satisfazer adicionalmente a restrição de incentivos. O resultado é o second-best (ótimo de segundo melhor), que geralmente envolve uma perda de eficiência em relação ao first-best.
18.3 Ações Ocultas: Risco Moral¶
Risco Moral (Moral Hazard)
Problema de informação assimétrica que surge quando uma parte de uma transação pode tomar ações não-observáveis (ocultas) que afetam o resultado da relação, e a outra parte não consegue monitorar ou verificar essas ações diretamente. O termo refere-se à mudança de comportamento do agente após a celebração do contrato.
O risco moral é um problema pós-contratual: a assimetria de informação diz respeito a ações tomadas pelo agente depois de firmado o acordo.
18.3.1 A relação proprietário-gerente¶
Considere um proprietário (principal) que contrata um gerente (agente) para administrar sua empresa. O lucro \(\pi\) depende do esforço \(e\) do gerente e de um choque aleatório \(\varepsilon\):
O esforço \(e\) é custoso para o gerente, com custo \(c(e)\), onde \(c'(e) > 0\) e \(c''(e) > 0\). Se o proprietário pudesse observar \(e\), contrataria o nível eficiente \(e^*\) tal que:
Quando \(e\) não é observável, o proprietário precisa desenhar um esquema de compensação \(w(\pi)\) que dependa do resultado observável \(\pi\). Se o gerente é avesso ao risco com utilidade \(U(w) - c(e)\), o contrato ótimo envolve um trade-off entre incentivos e seguro:
- Um salário fixo \(w = \bar{w}\) provê seguro perfeito ao gerente, mas nenhum incentivo para se esforçar.
- Um contrato puramente variável \(w = \pi - R\) (em que \(R\) é a renda fixa do proprietário) provê incentivos perfeitos, mas transfere todo o risco ao gerente.
Princípio da Informativididade (Holmström, 1979)
O contrato ótimo deve vincular o pagamento do agente a qualquer variável que contenha informação sobre o esforço do agente, e somente a essas variáveis. Formalmente, uma variável \(y\) deve ser incluída no contrato se e somente se a distribuição condicional de \(x\) dado \(e\) muda com \(y\), ou seja, se \(y\) é informativa sobre \(e\).
18.3.2 Risco moral em seguros¶
O caso clássico de risco moral ocorre no mercado de seguros. Após contratar um seguro contra roubo, o segurado pode reduzir os cuidados com a prevenção (não trancar o carro, não instalar alarme), aumentando a probabilidade de sinistro.
Seja \(p(e)\) a probabilidade de sinistro, com \(p'(e) < 0\) (mais esforço de prevenção reduz a probabilidade). O segurado escolhe \(e\) para maximizar:
onde \(W_0\) é a riqueza inicial, \(q\) é o prêmio do seguro, \(L\) é a perda potencial, \(I\) é a indenização e \(c(e)\) é o custo do esforço de prevenção.
Com seguro completo (\(I = L\)), o segurado recebe \(W_0 - q\) em qualquer estado, eliminando todo incentivo para esforço preventivo. Por isso, seguros com franquias e coparticipação são mecanismos para mitigar o risco moral, fazendo com que o segurado assuma parte do risco e mantenha incentivos para prevenção.
18.3.3 O problema do esforço não-observável: modelo formal¶
Considere dois níveis de esforço: alto (\(e_H\)) e baixo (\(e_L\)), com \(c(e_H) > c(e_L)\). O resultado pode ser bom (\(x_H\)) ou ruim (\(x_L\)). Sob esforço alto, a probabilidade de \(x_H\) é \(p_H\); sob esforço baixo, é \(p_L\), com \(p_H > p_L\).
O principal deseja induzir esforço alto. O contrato especifica pagamentos \(w_H\) (se \(x = x_H\)) e \(w_L\) (se \(x = x_L\)). As restrições são:
Restrição de Participação (RP): [ p_H \, U(w_H) + (1 - p_H) \, U(w_L) - c(e_H) \geq \bar{U} ]
Restrição de Compatibilidade de Incentivos (RCI): [ p_H \, U(w_H) + (1 - p_H) \, U(w_L) - c(e_H) \geq p_L \, U(w_H) + (1 - p_L) \, U(w_L) - c(e_L) ]
Simplificando a RCI:
Essa condição exige que a diferença de pagamentos entre os estados bom e ruim seja suficientemente grande para compensar o custo adicional do esforço. Como \(p_H > p_L\), precisamos de \(w_H > w_L\): o pagamento deve ser maior quando o resultado é bom.
Intuição Econômica
A RCI nos diz que o "prêmio" por bom desempenho, \(w_H - w_L\), deve ser grande o suficiente para que o agente prefira se esforçar. Quanto maior a diferença \(c(e_H) - c(e_L)\) e menor a diferença \(p_H - p_L\), mais difícil é prover incentivos — e maior o custo de agência.
18.4 Tipos Ocultos: Seleção Adversa¶
Seleção Adversa (Adverse Selection)
Problema de informação assimétrica que surge quando uma parte de uma transação possui informação privada sobre suas características (seu "tipo") antes da celebração do contrato, e essa informação não é observável pela outra parte. A seleção adversa é um problema pré-contratual.
18.4.1 O mercado de limões (Akerlof, 1970)¶
George Akerlof demonstrou que a assimetria de informação pode levar ao colapso de mercados inteiros. Considere um mercado de carros usados com dois tipos:
- Carros bons ("cerejas"): valor \(V_H\) para o comprador, \(C_H\) para o vendedor, com \(V_H > C_H\).
- Carros ruins ("limões"): valor \(V_L\) para o comprador, \(C_L\) para o vendedor, com \(V_L > C_L\).
Suponha \(V_H > C_H > V_L > C_L\) e que uma fração \(\lambda\) dos carros são bons. O vendedor conhece a qualidade; o comprador, não.
Se o comprador não distingue os tipos, está disposto a pagar no máximo:
Se \(\bar{V} < C_H\), os donos de carros bons não aceitam vender pelo preço médio. Somente carros ruins permanecem no mercado, e o comprador, antecipando isso, oferece no máximo \(V_L\). A qualidade média do mercado cai, configurando a seleção adversa: os "bons" saem, os "ruins" ficam.
Resultado de Akerlof
Em casos extremos, a seleção adversa pode provocar o desaparecimento completo do mercado (market unraveling), mesmo quando ganhos de troca existiriam sob informação simétrica. Esse resultado mostra que a informação assimétrica é uma genuína falha de mercado.
18.4.2 Precificação não-linear: menus de contratos¶
Uma forma de lidar com a seleção adversa é oferecer um menu de contratos desenhado para que cada tipo de agente selecione voluntariamente o contrato destinado a ele. Esse é o princípio da auto-seleção (self-selection) ou triagem (screening).
Considere um monopolista vendendo um bem a consumidores de dois tipos: alta valoração (\(\theta_H\)) e baixa valoração (\(\theta_L\)), com proporções \(\mu\) e \(1-\mu\), respectivamente. O monopolista oferece dois pacotes \((q_L, T_L)\) e \((q_H, T_H)\), onde \(q\) é a quantidade e \(T\) o pagamento total.
As restrições de auto-seleção (incentivo-compatibilidade) são:
E as restrições de participação:
A solução ótima envolve: (i) o tipo baixo recebe quantidade distorcida para baixo (\(q_L < q_L^*\)); (ii) o tipo alto recebe a quantidade eficiente (\(q_H = q_H^*\)); (iii) o tipo alto obtém uma renda informacional positiva; (iv) o tipo baixo fica na fronteira de participação (renda zero).
18.4.3 Seleção adversa em seguros: o modelo de Rothschild-Stiglitz¶
Rothschild e Stiglitz (1976) analisaram o mercado de seguros competitivo com dois tipos de consumidores: alto risco (\(p_H\)) e baixo risco (\(p_L\)), com \(p_H > p_L\). As seguradoras não observam o tipo de cada consumidor.
Um contrato de seguro é representado por um par \((\alpha_1, \alpha_2)\), onde \(\alpha_1\) é o prêmio pago e \(\alpha_2\) é a indenização líquida em caso de sinistro.
Resultado de Rothschild-Stiglitz
Em equilíbrio competitivo com informação assimétrica: (a) não existe equilíbrio agregador (pooling) — um contrato único para ambos os tipos é sempre destruído por um contrato desviante; (b) um equilíbrio separador existe somente se a proporção de tipos de alto risco for suficientemente grande; (c) no equilíbrio separador, o tipo de alto risco recebe seguro completo (atuarialmente justo para ele) e o tipo de baixo risco recebe seguro parcial (distorção para baixo).
Demonstração: Condição de Incentivo-Compatibilidade no Modelo de Rothschild-Stiglitz
Considere dois tipos de consumidores, \(i \in \{L, H\}\), com probabilidades de sinistro \(p_L < p_H\). Cada consumidor possui riqueza inicial \(W\) e enfrenta perda potencial \(d\). Um contrato de seguro \(C_i = (\alpha_i, \beta_i)\) especifica um prêmio \(\alpha_i\) e uma cobertura \(\beta_i\), de modo que a riqueza nos dois estados é:
A utilidade esperada do tipo \(i\) com o contrato \(C_j\) é:
Condições de incentivo-compatibilidade requerem que cada tipo prefira seu próprio contrato:
Passo 1. Em equilíbrio competitivo com lucro zero, cada contrato é atuarialmente justo para o tipo que o escolhe:
Passo 2. Mostramos que \(C_H\) oferece seguro completo, ou seja, \(\beta_H = d\). Como a seguradora oferece contrato atuarialmente justo ao tipo \(H\), a condição de ótimo do consumidor avesso ao risco com preço justo implica equalização da riqueza nos dois estados:
Logo, \(\alpha_H = p_H d\) e \(W_H^{NS} = W_H^{S} = W - p_H d\).
Passo 3. Para que o tipo \(H\) não desvie para \(C_L\), precisamos de:
Passo 4. Para que o tipo \(L\) não desvie para \(C_H\), precisamos de:
Passo 5. Combinando as duas condições, a RCI do tipo \(H\) impõe um limite superior sobre a cobertura \(\beta_L\) do tipo de baixo risco. Se \(\beta_L = d\) (seguro completo para L), então o lado direito da RCI de \(H\) seria \(U(W - p_L d) > U(W - p_H d)\) (pois \(p_L < p_H\)), violando a restrição. Portanto, em equilíbrio separador, necessariamente:
O tipo de baixo risco recebe seguro parcial — uma distorção que é o "custo" da assimetria de informação. A cobertura \(\beta_L^*\) é determinada pela RCI do tipo \(H\) com igualdade (binding), garantindo que o tipo de alto risco seja indiferente entre os dois contratos. \(\blacksquare\)
18.5 Sinalização no Mercado¶
Sinalização (Signaling)
Mecanismo pelo qual a parte informada (agente) toma uma ação custosa e observável para transmitir credibilmente sua informação privada à parte desinformada (principal). Para que o sinal seja efetivo, ele deve ser diferencialmente custoso entre os tipos.
18.5.1 Educação como sinal (Spence, 1973)¶
Michael Spence propôs que a educação pode funcionar como sinal de produtividade, mesmo que não aumente diretamente as habilidades do trabalhador. A ideia central é que adquirir educação é menos custoso para trabalhadores de alta produtividade.
Considere dois tipos de trabalhadores:
- Alta produtividade (\(\theta_H\)): produção \(\theta_H\), custo de educação \(c_H(s) = s / \theta_H\)
- Baixa produtividade (\(\theta_L\)): produção \(\theta_L\), custo de educação \(c_L(s) = s / \theta_L\)
com \(\theta_H > \theta_L\), de modo que \(c_H(s) < c_L(s)\) para todo \(s > 0\): a educação custa menos ao trabalhador mais produtivo (hipótese de single-crossing).
18.5.2 Equilíbrio separador vs. equilíbrio agregador¶
Equilíbrio Separador e Agregador
- Equilíbrio separador: os diferentes tipos escolhem sinais distintos, permitindo que a parte desinformada identifique cada tipo. Cada tipo recebe um salário igual à sua produtividade.
- Equilíbrio agregador (pooling): todos os tipos escolhem o mesmo nível de sinal, e a parte desinformada não consegue distingui-los. O salário ofertado é a produtividade média.
No equilíbrio separador, o tipo \(H\) escolhe nível de educação \(s^*\) e o tipo \(L\) escolhe \(s = 0\). O nível \(s^*\) deve satisfazer simultaneamente:
Resolvendo:
O equilíbrio separador de menor custo (equilíbrio de Riley ou least-cost separating) ocorre em \(s^* = \theta_L(\theta_H - \theta_L)\).
Eficiência da Sinalização
No modelo de Spence, a sinalização envolve um custo social real: recursos são gastos em educação apenas para sinalizar tipo, sem ganho de produtividade. O equilíbrio separador pode ser Pareto-inferior ao equilíbrio agregador se a perda de bem-estar do sinal superar o ganho informacional. Esse resultado ilustra que a revelação de informação nem sempre é socialmente desejável.
18.6 Screening (Triagem pelo Principal)¶
Enquanto a sinalização é iniciativa da parte informada, a triagem (screening) é desenhada pela parte desinformada para extrair informação privada da parte informada.
Triagem (Screening)
Mecanismo pelo qual a parte desinformada (principal) oferece um menu de opções desenhado de forma que cada tipo de agente revele voluntariamente sua informação privada ao escolher a opção mais adequada ao seu tipo.
Exemplos práticos:
| Contexto | Mecanismo de Triagem |
|---|---|
| Seguros | Menu de apólices com diferentes combinações de prêmio/franquia |
| Mercado de trabalho | Oferta de contratos com diferentes combinações salário fixo/bônus |
| Companhias aéreas | Classes tarifárias com diferentes restrições (antecedência, reembolso) |
| Telecomunicações | Planos com diferentes volumes de dados e preços por unidade |
| Educação | Programas com diferentes graus de seletividade e rigor |
A diferença fundamental entre sinalização e triagem é quem toma a iniciativa:
- Sinalização: a parte informada age primeiro, escolhendo um sinal custoso.
- Triagem: a parte desinformada age primeiro, desenhando um menu de contratos.
Em equilíbrio, os dois mecanismos podem levar a alocações equivalentes (como nos modelos de Rothschild-Stiglitz), mas o timing e a distribuição de excedentes podem diferir.
18.7 Leilões¶
Leilões são mecanismos de venda particularmente interessantes sob informação assimétrica, pois cada licitante possui informação privada sobre sua valoração do objeto.
Leilão
Mecanismo de mercado para alocação de bens em que os participantes submetem lances, e o bem é alocado (e o preço determinado) de acordo com regras predefinidas. O desenho de leilões é uma aplicação central da teoria de mecanismos.
Tipos de leilões¶
| Tipo de Leilão | Descrição | Lance | Preço pago |
|---|---|---|---|
| Inglês (ascendente) | Preço sobe até restar um único licitante | Aberto, sequencial | Segundo maior valor |
| Holandês (descendente) | Preço cai até alguém aceitar | Fechado (estrategicamente) | Valor do lance aceito |
| Primeiro preço (selado) | Lances simultâneos em envelope fechado | Fechado, simultâneo | Maior lance |
| Segundo preço (Vickrey) | Lances simultâneos; vencedor paga o segundo maior lance | Fechado, simultâneo | Segundo maior lance |
O leilão de segundo preço (Vickrey)¶
No leilão de segundo preço, cada licitante tem uma estratégia dominante: ofertar sua verdadeira valoração.
Proposição: Estratégia Dominante no Leilão de Vickrey
No leilão de segundo preço com valores privados independentes, é estratégia fracamente dominante para cada licitante ofertar \(b_i = v_i\) (lance igual à valoração verdadeira).
Intuição da prova: Se \(b_i > v_i\), o licitante pode vencer e pagar mais que sua valoração; se \(b_i < v_i\), pode perder uma oportunidade lucrativa. Em ambos os casos, desviar de \(b_i = v_i\) não melhora o payoff esperado.
O Teorema da Equivalência de Receita¶
Teorema da Equivalência de Receita (Revenue Equivalence Theorem)
Sob as seguintes condições: (i) valores privados independentes; (ii) licitantes neutros ao risco; (iii) distribuição de valorações simétrica e contínua; (iv) o licitante com valoração mínima obtém excedente zero — todos os quatro formatos de leilão geram a mesma receita esperada para o vendedor.
Esse resultado notável, devido a Vickrey (1961) e Myerson (1981), implica que, sob as condições do teorema, a escolha do formato de leilão é irrelevante para a receita. As diferenças surgem quando as condições são violadas — por exemplo, com aversão ao risco dos licitantes (favorece o primeiro preço) ou com valores correlacionados (favorece o inglês).
18.8 Taxonomia dos Problemas de Informação Assimétrica¶
A tabela a seguir resume os principais tipos de problemas de informação assimétrica, suas características e os mecanismos de resposta.
| Tipo de Assimetria | Timing | O que é oculto | Exemplos | Soluções de Mercado |
|---|---|---|---|---|
| Risco moral | Pós-contratual | Ação do agente | Seguro e prevenção; empregador e esforço do empregado; credor e comportamento do devedor | Contratos de incentivo, monitoramento, franquias, bônus por desempenho |
| Seleção adversa | Pré-contratual | Tipo/característica do agente | Mercado de carros usados; seguros (risco do segurado); crédito (qualidade do tomador) | Menu de contratos, triagem, sinalização, garantias, certificação |
| Sinalização | Pré-contratual | Tipo do agente (revelado pela ação) | Educação e produtividade; garantias e qualidade; dividendos e lucratividade | Ações custosas e observáveis com custo diferencial entre tipos |
| Triagem (screening) | Pré-contratual | Tipo do agente (revelado pela escolha) | Classes tarifárias; menus de planos de saúde; versões de software | Menus auto-seletivos, discriminação de preços de 2o grau |
| Leilões | Pré-contratual | Valoração dos licitantes | Leilões de arte, espectro, títulos públicos, concessões | Formatos de leilão (Vickrey, inglês, etc.), preço de reserva |
Box Brasil: Crédito Consignado e Seleção Adversa no Brasil¶
Box Brasil: Crédito Consignado e Seleção Adversa
O crédito consignado — modalidade em que as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício previdenciário — é um exemplo notável de como um desenho contratual pode reduzir drasticamente os problemas de informação assimétrica no mercado de crédito.
O problema da seleção adversa no crédito: No mercado de crédito pessoal convencional, o banco não observa perfeitamente o risco de inadimplência do tomador. Como resultado, cobra taxas de juros que refletem o risco médio da carteira. Tomadores de baixo risco (bons pagadores) consideram a taxa elevada e deixam de tomar empréstimos, enquanto tomadores de alto risco (potenciais inadimplentes) aceitam as condições — um mecanismo clássico de seleção adversa à la Akerlof.
O mecanismo do consignado: A vinculação do pagamento à folha de pagamento atua sobre dois canais:
- Redução do risco moral: o tomador não pode escolher deixar de pagar, pois o desconto é automático. Isso elimina grande parte do problema de ação oculta pós-contratual.
- Redução da seleção adversa: como o risco de crédito é drasticamente reduzido pelo mecanismo de desconto em folha, a diferença entre bons e maus pagadores torna-se muito menos relevante. O banco consegue efetivamente "observar" a capacidade de pagamento.
Evidência empírica: Dados do Banco Central do Brasil (Relatório de Economia Bancária) documentam diferenças substanciais de taxas de juros entre as modalidades. Em 2023, enquanto a taxa média do crédito pessoal não-consignado superava 80% ao ano, a taxa do consignado para servidores públicos situava-se em torno de 23% ao ano — uma diferença de quase 60 pontos percentuais que reflete em grande parte a redução da assimetria de informação.
Expansão e impacto: Regulamentado pela Lei n.º 10.820/2003, o crédito consignado expandiu-se rapidamente, atingindo saldo superior a R$ 600 bilhões em 2023. A modalidade foi estendida a aposentados e pensionistas do INSS, trabalhadores do setor privado com carteira assinada e beneficiários do Bolsa Família e BPC (a partir de 2023).
Limitações: O consignado não elimina todos os problemas. A margem consignável (até 35% da renda para empréstimos + 5% para cartão consignado) pode levar ao superendividamento. Além disso, práticas predatórias de intermediários e a concessão a públicos vulneráveis (como idosos com baixa literacia financeira) levantam questões regulatórias importantes. A literatura brasileira (e.g., Costa e De Mello, 2006; Coelho et al., 2013) documenta esses trade-offs entre acesso ao crédito e proteção do consumidor.
Este caso ilustra como o desenho institucional e contratual pode mitigar problemas de informação assimétrica, com efeitos quantitativamente expressivos sobre preços e volumes de mercado.
Exercícios¶
Exercício 18.1. Considere um mercado de carros usados no modelo de Akerlof. Há dois tipos de carros: bons (valor de \(R\$ 30.000\) para compradores, \(R\$ 25.000\) para vendedores) e ruins (valor de \(R\$ 15.000\) para compradores, \(R\$ 10.000\) para vendedores). Metade dos carros são bons.
(a) Calcule o preço máximo que um comprador desinformado estaria disposto a pagar. (b) Quais tipos de carros serão transacionados? (c) Qual seria o resultado sob informação simétrica? (d) Proponha um mecanismo institucional para atenuar a seleção adversa nesse mercado.
Exercício 18.2. Um proprietário contrata um gerente cuja utilidade é \(U = \sqrt{w} - e\), onde \(w\) é o salário e \(e \in \{0, 1\}\) é o esforço. O lucro é \(\pi_H = 200\) com probabilidade \(p(e)\) e \(\pi_L = 50\) caso contrário, onde \(p(1) = 0{,}8\) e \(p(0) = 0{,}3\). A utilidade de reserva é \(\bar{U} = 5\).
(a) Escreva as restrições de participação e de incentivo para induzir \(e = 1\). (b) Resolva para os pagamentos ótimos \(w_H^*\) e \(w_L^*\). (c) Compare o custo esperado do contrato com o first-best (em que o esforço é observável).
Exercício 18.3. No modelo de Spence, há dois tipos de trabalhadores. O tipo H tem produtividade \(\theta_H = 100\) e custo de educação \(c_H(s) = s/2\). O tipo L tem produtividade \(\theta_L = 50\) e custo de educação \(c_L(s) = s\).
(a) Determine o intervalo de níveis de educação \(s^*\) que sustentam um equilíbrio separador. (b) Qual é o equilíbrio separador de menor custo? (c) Existe um equilíbrio agregador estável neste modelo? Justifique. (d) Discuta se a sinalização por educação é socialmente eficiente neste contexto.
Exercício 18.4. Em um leilão de segundo preço com três licitantes cujas valorações são i.i.d. com distribuição uniforme em \([0, 100]\):
(a) Qual é a estratégia ótima de cada licitante? (b) Calcule a receita esperada do vendedor. (c) Usando o Teorema da Equivalência de Receita, qual seria a receita esperada em um leilão de primeiro preço? (d) No leilão de primeiro preço, qual é a estratégia de equilíbrio simétrico de cada licitante?
Exercício 18.5. Uma seguradora opera num mercado com dois tipos de consumidores. O tipo A tem probabilidade de sinistro \(p_A = 0{,}1\) e o tipo B tem \(p_B = 0{,}4\). Ambos têm riqueza \(W = 100\) e perda potencial \(d = 80\). A proporção de tipo A é \(60\%\). A utilidade é \(U(W) = \ln(W)\).
(a) Calcule os contratos de seguro completo atuarialmente justos para cada tipo. (b) Mostre que um contrato agregador (pooling) com seguro completo à taxa média não é um equilíbrio. (c) No equilíbrio separador, o tipo B recebe seguro completo. Escreva a condição de incentivo-compatibilidade que determina a cobertura máxima para o tipo A. (d) Discuta qualitativamente como a proporção de tipos afeta a existência do equilíbrio separador.