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17.7–17.8 Monopsônio e Sindicatos

17.7 Quando Só Tem Um Patrão na Cidade: Monopsônio

Até aqui, o mercado de trabalho era uma democracia: muitos vendedores, muitos compradores, ninguém mandando no preço. Mas pergunte a um professor em cidade pequena do interior, onde a prefeitura é a única empregadora com carteira assinada, se o mercado parece competitivo. Quando há poder de mercado do lado da demanda — isto é, quando uma firma (ou poucas firmas) é a única compradora de trabalho em uma região ou ocupação —, entramos no território do monopsônio, o espelho do monopólio no mercado de bens. O resultado é previsível e desagradável: salários abaixo da produtividade e emprego inferior ao socialmente ótimo.

Monopsônio

Monopsônio é a estrutura de mercado em que existe um único comprador de trabalho (ou poucos compradores com poder de mercado). Nessa situação, a firma não é tomadora de salário: ao contratar mais trabalhadores, ela eleva o salário de mercado.

Maximização de lucro do monopsonista

Para o monopsonista, a oferta de trabalho é a curva de oferta do mercado: \(w = w(H)\), com \(w'(H) > 0\). O custo total do trabalho é:

\[ CT_L = w(H) \cdot H \]

O custo marginal do trabalho (despesa marginal) é:

\[ CMg_L = \frac{dCT_L}{dH} = w(H) + H \cdot w'(H) > w(H) \label{eq:17.14} \tag{17.14} \]

O monopsonista contrata até que:

\[ VPMg_L = CMg_L \label{eq:17.15} \tag{17.15} \]

Isso resulta em:

  • Emprego menor do que no equilíbrio competitivo;
  • Salário menor do que no equilíbrio competitivo.

A diferença \(VPMg_L - w\) é a exploração monopsonística (no sentido de Joan Robinson).

Intuição Econômica

Em uma frase: Quando há um único grande empregador na região, ele pode pagar salários abaixo da produtividade dos trabalhadores porque eles não têm para onde ir.

Pense assim: Em muitas cidades pequenas do interior do Brasil, a prefeitura ou uma única fábrica é praticamente a única empregadora formal. Se o trabalhador pede aumento, não tem concorrente para onde migrar. O empregador sabe disso e mantém salários baixos, mesmo que o trabalhador produza muito mais do que recebe.

Por que isso importa: Em mercados monopsonísticos, um salário mínimo bem calibrado pode, paradoxalmente, aumentar emprego e salário ao mesmo tempo — uma das conclusões mais contraintuitivas da economia do trabalho.

O "novo monopsônio": poder de mercado sem ser o único empregador

O modelo clássico de monopsônio — uma única firma em uma cidade isolada — pode parecer uma construção teórica com aplicações limitadas. Mas a partir dos anos 2000, uma revolução na economia do trabalho mostrou que o poder monopsonístico é muito mais disseminado do que se pensava. O trabalho seminal de Alan Manning (2003, Monopsony in Motion) demonstrou que custos de mobilidade, fricções de busca e informação imperfeita conferem às firmas poder de mercado sobre seus trabalhadores mesmo em mercados com múltiplos empregadores. Essa abordagem, conhecida como "novo monopsônio" (new monopsony), tem implicações profundas para a análise do mercado de trabalho.

A ideia central é simples: se um trabalhador não pode instantaneamente e sem custo encontrar um emprego equivalente em outra firma, então seu empregador atual detém algum poder de monopsônio sobre ele. As fontes desse poder incluem:

  • Custos de busca: encontrar um novo emprego requer tempo, esforço e, frequentemente, custos financeiros (deslocamento para entrevistas, períodos sem salário).
  • Custos de mudança geográfica: se as alternativas de emprego estão em outra cidade, os custos de mudança (moradia, escola dos filhos, redes sociais) criam uma barreira significativa.
  • Informação imperfeita: trabalhadores nem sempre conhecem todas as vagas disponíveis e suas condições — especialmente em mercados informais.
  • Preferências heterogêneas por empregador: trabalhadores podem preferir certas firmas por localização, ambiente de trabalho ou horário, mesmo que paguem menos.
  • Concentração do mercado de trabalho: em muitos mercados de trabalho locais (definidos por ocupação × região), poucas firmas respondem pela maioria das contratações.

Estudos recentes sobre concentração do mercado de trabalho (Azar, Marinescu e Steinbaum, 2022) documentaram que muitos mercados de trabalho locais nos EUA são altamente concentrados — com índices Herfindahl-Hirschman (HHI) comparáveis aos de mercados de bens que seriam alvo de regulação antitruste. Mercados mais concentrados apresentam salários significativamente menores, mesmo controlando para produtividade. No Brasil, onde a combinação de grandes distâncias, informalidade e baixa mobilidade geográfica é particularmente acentuada, o poder monopsonístico pode ser ainda mais relevante.

O novo monopsônio tem implicações diretas para políticas públicas. Se as firmas detêm poder de mercado sobre os trabalhadores, então: (i) o salário mínimo pode elevar o emprego (como no modelo clássico); (ii) políticas que aumentam a transparência salarial e facilitam a busca por emprego (como plataformas de vagas e obrigatoriedade de divulgação de faixas salariais) podem elevar salários; (iii) a análise antitruste deveria considerar não apenas os efeitos sobre consumidores, mas também sobre trabalhadores — uma fronteira emergente no direito concorrencial.

Monopsônio e salário mínimo

Uma implicação surpreendente do modelo de monopsônio é que a imposição de um salário mínimo pode, sob certas condições, aumentar simultaneamente o salário e o emprego. Isso ocorre porque o salário mínimo transforma a curva de custo marginal do trabalho em uma linha horizontal até o ponto em que a oferta de trabalho ao salário mínimo se esgota, eliminando o incentivo do monopsonista a restringir contratações.


O gráfico abaixo mostra o equilíbrio monopsonístico versus o competitivo. A curva de oferta de trabalho \(S(w)\), o custo marginal do trabalho (CMgL) e a curva de valor do produto marginal (VPMgL) determinam o emprego e o salário. A diferença entre VPMg e o salário pago no monopsônio é a exploração monopsonística.

**Figura 17.3 — Equilíbrio monopsonístico versus competitivo no mercado de trabalho.** A diferença entre VPMg e o salário pago no monopsônio é a exploração monopsonística.

Box Mundo 17.2 — Card e Krueger e a revolução do salário mínimo

Contexto: Em 1992, o estado de New Jersey elevou seu salário mínimo de US$ 4,25 para US$ 5,05 por hora, enquanto a vizinha Pennsylvania manteve o mínimo inalterado. Os economistas David Card e Alan Krueger aproveitaram esse "experimento natural" para estimar o efeito causal do salário mínimo sobre o emprego, comparando restaurantes de fast-food nos dois estados antes e depois do aumento — um design de diferenças-em-diferenças que se tornaria um marco na economia empírica.

Dados: Card e Krueger (1994) pesquisaram 410 restaurantes (Burger King, KFC, Wendy's, Roy Rogers) ao longo da fronteira NJ-PA. Seus resultados foram surpreendentes:

Indicador New Jersey (aumento do SM) Pennsylvania (controle) Diferença-em-diferenças
Variação no emprego médio (ETI) +0,59 −2,16 +2,76

O emprego em New Jersey não caiu — ao contrário, aumentou relativamente a Pennsylvania. Este resultado desafiou diretamente a previsão do modelo competitivo.

Análise: O estudo gerou intensa controvérsia. Neumark e Wascher (2000) reanalisaram os dados usando registros administrativos (em vez de pesquisas telefônicas) e encontraram efeitos negativos sobre o emprego. Card e Krueger (2000) responderam com uma nova análise dos mesmos dados administrativos, confirmando seus resultados originais. Meta-análises recentes (Dube, 2019) sugerem que o consenso empírico se moveu significativamente: aumentos moderados do salário mínimo (da ordem de 10%) têm efeitos sobre o emprego próximos de zero ou muito pequenos, consistentes com modelos de monopsônio ou busca com fricções. Os efeitos negativos, quando existem, concentram-se em aumentos muito grandes ou em mercados com muita competição entre empregadores.

Para refletir: O debate Card-Krueger ilustra como a evidência empírica pode desafiar modelos teóricos estabelecidos. O modelo competitivo prevê inequivocamente que salários mínimos acima do equilíbrio reduzem o emprego. Se a evidência mostra efeitos nulos ou positivos, isso sugere que o mercado de trabalho não é competitivo — e que modelos com poder monopsonístico (seção 17.7) podem ser mais realistas. Qual modelo melhor descreve o mercado de trabalho do seu bairro?


🎯 Exercícios Resolvidos

Exercício Resolvido 17.2

Enunciado: Uma firma monopsonista enfrenta a curva de oferta de trabalho \(w = 4 + 2H\) e possui valor do produto marginal \(VPMg_L = 100 - 2H\). (a) Encontre o equilíbrio competitivo. (b) Encontre o equilíbrio monopsonístico e calcule a exploração. (c) Se o governo impõe um salário mínimo igual ao competitivo, qual o efeito sobre emprego e salário no monopsônio?

Dados: \(w(H) = 4 + 2H\); \(VPMg_L = 100 - 2H\).

Resolução:

Passo 1 — Equilíbrio competitivo

No equilíbrio competitivo, \(VPMg_L = w\):

\[ 100 - 2H = 4 + 2H \;\Rightarrow\; 96 = 4H \;\Rightarrow\; H_c = 24, \quad w_c = 4 + 2(24) = 52 \]

Passo 2 — Equilíbrio monopsonístico

O custo total do trabalho é \(CT_L = w \cdot H = (4 + 2H)H = 4H + 2H^2\).

O custo marginal do trabalho é:

\[ CMg_L = \frac{dCT_L}{dH} = 4 + 4H \]

Igualando \(VPMg_L = CMg_L\):

\[ 100 - 2H = 4 + 4H \;\Rightarrow\; 96 = 6H \;\Rightarrow\; H_m = 16 \]

O salário pago é determinado pela curva de oferta:

\[ w_m = 4 + 2(16) = 36 \]

O valor do produto marginal no ponto de emprego monopsonístico é:

\[ VPMg_L(16) = 100 - 32 = 68 \]

Exploração monopsonística: \(VPMg_L - w_m = 68 - 36 = 32\).

Passo 3 — Salário mínimo no monopsônio

Com \(w_{\min} = 52\), o custo marginal do trabalho torna-se horizontal em 52 até \(H = 24\) (quando a oferta se iguala a 52):

\[ VPMg_L = w_{\min}:\quad 100 - 2H = 52 \;\Rightarrow\; H = 24 \]

Resultado: O salário mínimo eleva o emprego de 16 para 24 (+50%) e o salário de 36 para 52 (+44%), restaurando o equilíbrio competitivo.

Interpretação econômica: O salário mínimo elimina o poder monopsonístico ao tornar o custo marginal do trabalho constante. Este resultado contrasta com o modelo competitivo, no qual o salário mínimo sempre reduz o emprego — e ajuda a entender por que estudos empíricos (como Card e Krueger, 1994) encontram efeitos nulos ou positivos do salário mínimo sobre o emprego em mercados com concentração de empregadores.

**WebR 17.3 — Monopsônio vs. competição.** Altere os parâmetros da oferta de trabalho e da VPMgL para comparar os equilíbrios e visualizar a exploração monopsonística.

Exercício Resolvido 17.3

Enunciado: Um economista estima a seguinte equação de Mincer com dados da PNAD para o Brasil:

\[ \ln w_i = 1{,}20 + 0{,}12 S_i + 0{,}05 X_i - 0{,}0007 X_i^2 - 0{,}18 D_i^{fem} - 0{,}15 D_i^{negro} + \varepsilon_i \]

onde \(w_i\) é o salário-hora, \(S_i\) são os anos de escolaridade, \(X_i\) é a experiência (em anos), \(D_i^{fem}\) é uma dummy para gênero feminino e \(D_i^{negro}\) é uma dummy para raça negra.

(a) Interprete o coeficiente \(\hat{\beta}_1 = 0{,}12\).

(b) Calcule a experiência que maximiza o salário (mantidos os demais fatores constantes).

(c) Calcule a diferença salarial percentual entre um homem branco e uma mulher negra com mesma escolaridade e experiência.

(d) Discuta se os coeficientes das dummies capturam necessariamente discriminação.

Resolução:

Passo 1 — Retorno da educação

O coeficiente \(\hat{\beta}_1 = 0{,}12\) indica que cada ano adicional de escolaridade está associado a um aumento de aproximadamente 12% no salário-hora, ceteris paribus. Formalmente, como a variável dependente está em logaritmo:

\[ \frac{\partial \ln w}{\partial S} = 0{,}12 \implies \frac{\Delta w / w}{\Delta S} \approx 12\% \]

Esse valor é consistente com estimativas para o Brasil, que encontram retornos à educação entre 10% e 15% por ano — entre os mais altos do mundo, refletindo a grande escassez relativa de mão de obra qualificada.

Passo 2 — Experiência ótima

O perfil de experiência-salário é côncavo: \(0{,}05X - 0{,}0007X^2\). Maximizando:

\[ \frac{\partial \ln w}{\partial X} = 0{,}05 - 0{,}0014X = 0 \implies X^* = \frac{0{,}05}{0{,}0014} \approx 35{,}7 \text{ anos} \]

O salário atinge seu pico com aproximadamente 36 anos de experiência (para alguém que começou a trabalhar aos 18, isso corresponde aos 54 anos de idade). Após esse ponto, o salário decresce — refletindo a depreciação do capital humano (obsolescência de habilidades, menor vigor físico em trabalhos manuais).

Passo 3 — Diferencial de gênero e raça

Para um homem branco (\(D^{fem} = 0, D^{negro} = 0\)) e uma mulher negra (\(D^{fem} = 1, D^{negro} = 1\)) com mesma escolaridade e experiência:

\[ \ln w_{HB} - \ln w_{MN} = -(-0{,}18) - (-0{,}15) = 0{,}33 \]

Em termos percentuais:

\[ \frac{w_{HB} - w_{MN}}{w_{MN}} = e^{0{,}33} - 1 \approx 0{,}391 = 39{,}1\% \]

Uma mulher negra recebe, em média, 39,1% a menos que um homem branco com mesma educação e experiência.

Passo 4 — Interpretação causal

Os coeficientes das dummies não capturam necessariamente discriminação pura. Eles medem o diferencial salarial condicional às variáveis incluídas na regressão. Parte desse diferencial pode refletir:

  • Variáveis omitidas: diferenças na qualidade da educação (escolas em bairros mais pobres), tipo de curso, habilidades não cognitivas;
  • Segregação ocupacional: mulheres e negros podem estar concentrados em ocupações que pagam menos, mesmo controlando por escolaridade total;
  • Seleção amostral: a composição de quem trabalha (e aparece na amostra) difere por gênero e raça;
  • Discriminação efetiva: diferenças de tratamento por empregadores, no sentido de Becker ou estatístico.

A decomposição de Oaxaca-Blinder (equação \(\eqref{eq:17.13b}\)) é uma extensão natural desta análise: permite separar formalmente a parte do diferencial que se deve a diferenças de características versus diferenças de retornos.

**WebR 17.4 — Equação de Mincer.** Altere os coeficientes e visualize como educação, experiência e dummies de gênero/raça afetam o perfil salarial previsto.

17.8 A Força do Coletivo: Sindicatos e Barganha Salarial

O monopsônio representa poder de mercado do lado da demanda por trabalho. Do lado da oferta, a contrapartida é o sindicato — uma organização que agrega o poder de barganha dos trabalhadores para negociar coletivamente salários e condições de emprego. Enquanto no mercado competitivo cada trabalhador é individualmente incapaz de influenciar o salário, o sindicato confere aos trabalhadores poder de mercado análogo ao do monopolista no mercado de bens. Como esse poder afeta salários, emprego e eficiência?

Objetivos dos sindicatos

Os sindicatos podem ser modelados como agentes que buscam maximizar alguma função objetivo, como:

  • Maximização do salário com emprego fixo;
  • Maximização do emprego com salário fixo;
  • Maximização da renda total dos membros: \(\max_w \; w \cdot H^d(w)\);
  • Maximização da utilidade dos membros: \(\max_w \; U(w) \cdot H^d(w)\).

O modelo de monopólio sindical

No modelo mais simples, o sindicato fixa o salário \(w_s > w^*\) e a firma escolhe o nível de emprego ao longo de sua curva de demanda por trabalho. O resultado é:

\[ H^d(w_s) < H^d(w^*) = H^* \]

Há um trade-off entre salário e emprego: salários mais altos reduzem o emprego.

Barganha eficiente

O modelo de barganha eficiente (McDonald e Solow, 1981) propõe que sindicato e firma negociam simultaneamente salário e emprego, atingindo a curva de contrato — o conjunto de alocações Pareto-eficientes. Nesse caso, o nível de emprego pode ser maior do que no modelo de monopólio sindical.

Na negociação de Nash, o resultado da barganha maximiza o produto:

\[ \max_{w, H} \; \bigl[U_S(w, H) - U_S^0\bigr]^\beta \cdot \bigl[\pi(w, H) - \pi^0\bigr]^{1-\beta} \label{eq:17.15b} \tag{17.15b} \]

onde \(U_S\) é a utilidade do sindicato, \(\pi\) é o lucro da firma, os sobrescritos \(0\) denotam os payoffs no ponto de desacordo (por exemplo, greve prolongada) e \(\beta \in [0,1]\) mede o poder de barganha relativo do sindicato. Quando \(\beta = 0\), a firma tem todo o poder e o resultado é competitivo; quando \(\beta = 1\), o sindicato tem todo o poder e o resultado se aproxima do monopólio sindical.

O declínio global dos sindicatos e a desigualdade

Uma das transformações mais marcantes do mercado de trabalho nas últimas quatro décadas é o declínio da sindicalização na maioria dos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, a taxa de sindicalização caiu de 35% na década de 1950 para cerca de 10% atualmente (e apenas 6% no setor privado). No Reino Unido, a queda foi de 50% para 23%. Mesmo em países com tradição sindical forte, como França e Alemanha, as taxas de cobertura de negociações coletivas têm diminuído.

Esse declínio resulta de uma combinação de fatores: (i) a desindustrialização e o crescimento do setor de serviços, onde a sindicalização é historicamente menor; (ii) mudanças legislativas que enfraqueceram o poder sindical (como as reformas Thatcher no Reino Unido e a Reforma Trabalhista de 2017 no Brasil); (iii) a globalização e a ameaça de realocação da produção para países com mão de obra mais barata; (iv) o aumento do trabalho temporário, terceirizado e por plataforma (gig economy), que dificulta a organização coletiva.

A relação entre o declínio sindical e o aumento da desigualdade é um dos debates centrais da economia contemporânea. Estudos como o de Farber et al. (2021) para os EUA estimam que a dessindicalização explica entre 20% e 33% do aumento da desigualdade salarial desde 1980. O mecanismo é duplo: sindicatos comprimem a distribuição salarial dentro das firmas sindicalizadas (reduzindo o prêmio para gestores e aumentando o piso para operários) e exercem pressão sobre os salários de firmas não sindicalizadas na mesma região ou setor (efeito threat effect). Quando os sindicatos enfraquecem, ambos os canais de compressão salarial se dissipam.

No Brasil, a queda foi ainda mais acentuada: a Reforma Trabalhista de 2017, ao eliminar a contribuição sindical obrigatória, acelerou o declínio da sindicalização para níveis historicamente baixos (ver Box Brasil a seguir). Esse "experimento natural" permite avaliar se o enfraquecimento sindical está associado a maior dispersão salarial nos setores afetados — uma questão empiricamente relevante e ainda em investigação.

**WebR 17.5 — Barganha sindical.** Ajuste o poder de barganha \(\beta\) e visualize como o salário negociado e o emprego variam entre o resultado competitivo e o monopólio sindical.

A informalidade estrutural e os efeitos da Reforma Trabalhista de 2017

O mercado de trabalho brasileiro é marcado por uma taxa de informalidade persistentemente elevada, que condiciona a eficácia de políticas salariais e trabalhistas.

Informalidade em números (PNAD Contínua/IBGE):

Indicador 2024 2025
Taxa de informalidade 39,0% 38,1%
Empregados com carteira (CLT) 38,4 milhões 39,4 milhões
Empregados sem carteira 13,2 milhões 13,4 milhões
Trabalhadores por conta própria 25,4 milhões 26,2 milhões
Rendimento real médio habitual R$ 3.470 R$ 3.652
Taxa de desocupação 6,6% 5,6%

Fonte: PNAD Contínua/IBGE, médias anuais 2024-2025.

Reforma Trabalhista de 2017:

A Lei 13.467/2017 promoveu ampla flexibilização das relações de trabalho, com destaque para o fim da contribuição sindical obrigatória. Os efeitos sobre os sindicatos foram imediatos e profundos:

  • A taxa de sindicalização caiu de 16,1% (2012) para 8,4% (2023), o menor patamar da série histórica do IBGE.
  • A receita dos sindicatos despencou cerca de 90% no primeiro ano após a reforma, comprometendo a capacidade de negociação coletiva e de fiscalização em regiões remotas.

Conexão com a teoria:

O modelo de monopólio sindical (seção 17.8) prevê que sindicatos mais fortes elevam salários acima do nível competitivo, ao custo de menor emprego. A drástica redução do poder sindical após 2017 representa um "experimento natural" que permite testar essa previsão: se o modelo está correto, o enfraquecimento sindical deveria aproximar os salários negociados do equilíbrio competitivo.

Fonte: PNAD Contínua/IBGE; IPEA, Nota Técnica sobre Reforma Trabalhista, 2023.


Box Mundo 17.1 — O modelo nórdico de mercado de trabalho: flexicurity

Contexto: Os países nórdicos (Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia) combinam altas taxas de sindicalização com mercados de trabalho flexíveis e baixos níveis de desigualdade — um aparente paradoxo para modelos que preveem rigidez quando sindicatos são fortes. O segredo reside no modelo de flexicurity (flexibilidade + segurança), particularmente desenvolvido na Dinamarca.

Dados:

País Taxa de sindicalização (2023) Taxa de desemprego (2024) Índice de Gini (renda disponível)
Dinamarca 67% 5,0% 0,28
Suécia 65% 8,3% 0,28
Noruega 50% 3,7% 0,26
EUA 10% 4,1% 0,39
Brasil 8,4% 5,6% 0,52

Fonte: OCDE, Statistics; OIT, ILOSTAT; IBGE, PNAD Contínua 2024–2025.

Análise: O modelo nórdico opera em três pilares: (i) flexibilidade para demitir — firmas podem ajustar o emprego com facilidade, sem custos de demissão elevados; (ii) generoso seguro-desemprego — o trabalhador demitido recebe até 90% do salário anterior por até dois anos na Dinamarca; (iii) políticas ativas de emprego — programas de requalificação, intermediação de mão de obra e incentivos à recolocação. A negociação coletiva é centralizada e coordenada, com sindicatos e associações patronais negociando pisos salariais por setor (sem salário mínimo legal na Dinamarca e na Suécia). A compressão salarial resultante — a diferença entre o salário mais alto e o mais baixo é muito menor que nos EUA — é uma consequência direta do poder de barganha sindical coordenado. O modelo demonstra que a barganha eficiente (seção 17.8), quando institucionalizada em nível nacional, pode aproximar o resultado do ótimo de Pareto.

Para refletir: Se sindicatos fortes podem coexistir com flexibilidade e baixo desemprego nos países nórdicos, por que a sindicalização é frequentemente vista como obstáculo à eficiência? Que fatores institucionais (tamanho do país, homogeneidade social, cultura de cooperação) podem limitar a replicabilidade do modelo nórdico em países grandes e desiguais como o Brasil?


O salário mínimo e o debate sobre o 'efeito-farol'

O salário mínimo (SM) no Brasil desempenha um papel que vai muito além de um piso salarial para trabalhadores formais com carteira assinada. Ele serve como referência (ou "farol") para a fixação de salários em todo o mercado de trabalho — inclusive no setor informal, onde não há obrigação legal de cumpri-lo.

Fatos estilizados:

  • O SM real cresceu significativamente entre 2003 e 2014, acumulando ganho real superior a 70% no período. A política de valorização do SM adotada a partir de 2007 previa reajustes pela inflação acumulada mais o crescimento do PIB.
  • Em 2025, o SM atingiu R$ 1.518, beneficiando diretamente cerca de 59,9 milhões de brasileiros entre trabalhadores formais, informais, aposentados e pensionistas.
  • O efeito-farol, documentado em estudos do IPEA (Neri, Gonzaga e Camargo, 2001; Saboia, 2007), mostra que aumentos no SM elevam salários não apenas no setor formal, mas também no informal, e até afetam rendimentos de trabalhadores por conta própria e aposentadorias/pensões (que são indexadas ao SM).

Impactos sobre emprego e informalidade:

O debate empírico sobre os efeitos do SM sobre o emprego no Brasil é rico:

  • Estudos como Corseuil e Carneiro (2001) encontraram efeitos negativos pequenos sobre o emprego formal, mas significativos sobre a informalidade.
  • Lemos (2009) mostrou que o efeito compressão salarial (redução da desigualdade) domina o efeito desemprego.
  • Engbom e Moser (2022) estimam que a alta real de 128% do SM entre 1996 e 2018 explica 45% da queda da desigualdade salarial no período, com efeitos limitados sobre o emprego total.
  • Dados do CAGED/MTE e da PNAD indicam que a elevação do SM tende a aumentar a proporção de trabalhadores na informalidade, pois empregadores que não conseguem pagar o novo piso migram para relações informais.

Como mostra a tabela do Box Brasil anterior, a elevada taxa de informalidade (38,1% em 2025) implica que uma parcela substancial da força de trabalho opera à margem da legislação trabalhista, o que limita a eficácia de políticas baseadas exclusivamente em regulação do mercado formal. Em 2025, o SM atingiu R$ 1.518, com rendimento real médio habitual de R$ 3.652 (PNAD Contínua/IBGE).