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Capítulo 17 — Capital, Juros e o Valor do Amanhã

Introdução

A economia não se resume a decisões instantâneas. Agentes econômicos constantemente fazem escolhas que envolvem o tempo: poupar hoje para consumir amanhã, investir em uma fábrica cujos retornos virão ao longo de anos, extrair um recurso natural agora ou preservá-lo para o futuro. Neste capítulo, estudamos a teoria do capital e dos juros, que fornece o arcabouço analítico para compreender essas decisões intertemporais.

Começamos com os conceitos fundamentais de capital e taxa de retorno, passamos pelo elegante modelo de dois períodos de Irving Fisher, discutimos a precificação de ativos arriscados, analisamos os critérios de decisão de investimento (VPL e TIR) e concluímos com a regra de Hotelling para recursos naturais exauríveis. Ao longo do capítulo, conectamos a teoria à experiência brasileira, marcada por décadas de juros reais elevados e seus efeitos sobre o investimento produtivo.


17.1 Capital e Taxa de Retorno

O conceito de capital

Capital

Capital é o estoque de bens produzidos que são utilizados como insumos na produção de outros bens e serviços. Diferentemente do trabalho e da terra, o capital é um fator de produção produzido — máquinas, equipamentos, edifícios, infraestrutura, estoques.

É fundamental distinguir entre:

  • Estoque de capital (\(K\)): o valor total dos bens de capital em um dado momento;
  • Fluxo de serviços do capital: a contribuição produtiva do capital por unidade de tempo;
  • Investimento (\(I\)): a variação no estoque de capital, \(I = \Delta K + \delta K\), onde \(\delta\) é a taxa de depreciação.

Taxa de retorno do capital

A taxa de retorno (\(r\)) de um investimento mede a remuneração do capital por unidade monetária investida, por período. Se um investimento de \(K_0\) reais gera um fluxo de rendimento líquido \(\pi\) por período, a taxa de retorno é:

\[ r = \frac{\pi}{K_0} \]

No equilíbrio competitivo de longo prazo, a taxa de retorno do capital se iguala à taxa de juros do mercado, pois o investidor é indiferente entre aplicar recursos no mercado financeiro e investir em capital físico.


17.2 Determinação da Taxa de Retorno

Equilíbrio intertemporal

A taxa de juros de equilíbrio é determinada pela interação entre:

  • Oferta de fundos emprestáveis (poupança): positivamente relacionada à taxa de juros — juros mais altos incentivam a poupança;
  • Demanda de fundos emprestáveis (investimento): negativamente relacionada à taxa de juros — juros mais altos encarecem o custo do capital e reduzem o investimento.

No equilíbrio:

\[ S(r) = I(r) \]

onde \(S\) é a poupança agregada e \(I\) é o investimento agregado. A taxa de juros \(r^*\) que iguala oferta e demanda de fundos é a taxa de juros de equilíbrio.

Fatores que afetam a taxa de juros

Fator Efeito sobre \(r^*\) Mecanismo
Aumento da produtividade do capital \(\uparrow r^*\) Desloca demanda por investimento para a direita
Aumento da preferência pelo consumo presente \(\uparrow r^*\) Reduz oferta de poupança
Aumento da oferta de fundos (ex.: poupança externa) \(\downarrow r^*\) Desloca oferta de poupança para a direita
Aumento do risco percebido \(\uparrow r^*\) Exige prêmio de risco maior

17.3 Modelo de Dois Períodos de Fisher

Estrutura do modelo

O modelo de Irving Fisher é a pedra angular da teoria do consumo intertemporal. Considere um consumidor que vive dois períodos (\(t = 1, 2\)) e deve decidir quanto consumir em cada período.

  • Renda nos períodos 1 e 2: \(Y_1\) e \(Y_2\);
  • Consumo nos períodos 1 e 2: \(C_1\) e \(C_2\);
  • Taxa de juros de mercado: \(r\);
  • O consumidor pode poupar (\(S > 0\)) ou tomar empréstimo (\(S < 0\)).

Restrição orçamentária intertemporal

A restrição orçamentária intertemporal é: [ C_1 + \frac{C_2}{1+r} = Y_1 + \frac{Y_2}{1+r} \equiv W ] onde \(W\) é a riqueza intertemporal — o valor presente de toda a renda futura. A inclinação da reta orçamentária intertemporal é \(-(1+r)\).

Otimização

O consumidor maximiza \(U(C_1, C_2)\) sujeito à restrição intertemporal. A condição de ótimo é:

\[ \frac{U_1}{U_2} = 1 + r \]

ou equivalentemente:

\[ TMS_{C_1, C_2} = 1 + r \]

Taxa de preferência intertemporal

A taxa de preferência intertemporal (ou taxa de desconto subjetiva) \(\rho\) é definida implicitamente por: [ TMS_{C_1, C_2} = 1 + \rho ] No ótimo, \(\rho = r\): a taxa de desconto subjetiva se iguala à taxa de juros de mercado. Se \(\rho > r\), o consumidor é "impaciente" e toma empréstimo; se \(\rho < r\), ele poupa.

Efeitos de uma variação na taxa de juros

Um aumento em \(r\) tem dois efeitos sobre \(C_1\):

  • Efeito substituição: consumo presente fica relativamente mais caro (maior custo de oportunidade), reduzindo \(C_1\);
  • Efeito renda: depende da posição do consumidor:
    • Se é poupador (\(S > 0\)): fica mais rico, tende a aumentar \(C_1\);
    • Se é devedor (\(S < 0\)): fica mais pobre, tende a reduzir \(C_1\).

Para um poupador, o efeito líquido sobre \(C_1\) é ambíguo (semelhante à curva backward-bending no mercado de trabalho).


Gráfico interativo: Modelo de Fisher

O gráfico abaixo ilustra o modelo de consumo intertemporal de dois períodos. A reta orçamentária intertemporal tem inclinação \(-(1+r)\) e passa pelo ponto de dotação \((Y_1, Y_2)\). O consumidor escolhe o ponto de tangência com a curva de indiferença. Observe como variações na taxa de juros \(r\) alteram a inclinação da reta e a classificação do agente como poupador ou devedor.


17.4 Precificação de Ativos Arriscados

O CAPM básico

O Capital Asset Pricing Model (Modelo de Precificação de Ativos de Capital) estabelece que o retorno esperado de um ativo arriscado é:

\[ E[r_i] = r_f + \beta_i \cdot (E[r_m] - r_f) \]

onde:

  • \(r_f\) é a taxa de retorno livre de risco;
  • \(E[r_m]\) é o retorno esperado do portfólio de mercado;
  • \(\beta_i = \frac{\text{Cov}(r_i, r_m)}{\text{Var}(r_m)}\) é o beta do ativo, que mede seu risco sistemático.

O prêmio de risco do ativo \(i\) é proporcional ao seu beta: ativos com maior correlação com o mercado exigem retornos esperados mais altos.

Fator de desconto estocástico

Uma abordagem mais geral utiliza o fator de desconto estocástico (SDF, stochastic discount factor). O preço de qualquer ativo satisfaz:

\[ p_i = E[m \cdot x_i] \]

onde \(m\) é o fator de desconto estocástico e \(x_i\) é o payoff do ativo. No modelo de consumo intertemporal com utilidade esperada:

\[ m = \beta \frac{U'(C_2)}{U'(C_1)} \]

onde \(\beta = \frac{1}{1+\rho}\) é o fator de desconto subjetivo. Ativos que pagam mais em estados de escassez (quando \(U'(C_2)\) é alto) são mais valiosos.

Equity premium puzzle

O enigma do prêmio de risco das ações (Mehra e Prescott, 1985) refere-se ao fato de que o prêmio de risco histórico das ações sobre títulos públicos (~6% ao ano nos EUA) é muito maior do que modelos padrão de consumo intertemporal conseguem explicar com níveis razoáveis de aversão ao risco.


17.5 Demanda da Firma por Capital

A firma demanda capital até que o valor do produto marginal do capital iguale o custo de uso do capital:

\[ p \cdot PMg_K = c_K \]

O custo de uso do capital (user cost of capital, ou custo de Jorgenson) é:

\[ c_K = p_K(r + \delta) \]

onde \(p_K\) é o preço do bem de capital, \(r\) é a taxa de juros real e \(\delta\) é a taxa de depreciação.

Custo de uso do capital

O custo de uso do capital \(c_K = p_K(r + \delta)\) representa o custo por período de utilizar uma unidade de capital. Ele inclui dois componentes: o custo de oportunidade do capital (\(p_K \cdot r\), o retorno que se obteria aplicando o valor do capital no mercado financeiro) e o custo de depreciação (\(p_K \cdot \delta\), a perda de valor do capital por desgaste ou obsolescência).

A demanda por capital é decrescente na taxa de juros: quando \(r\) sobe, \(c_K\) aumenta e a firma reduz seu estoque de capital desejado.


17.6 Critério do Valor Presente Descontado (VPL)

Definição

Valor Presente Líquido (VPL)

O Valor Presente Líquido de um projeto de investimento que gera fluxos de caixa \(\{F_0, F_1, F_2, \ldots, F_n\}\) é: [ VPL = \sum_{t=0}^{n} \frac{F_t}{(1+r)^t} = F_0 + \frac{F_1}{1+r} + \frac{F_2}{(1+r)^2} + \cdots + \frac{F_n}{(1+r)^n} ] onde \(r\) é a taxa de desconto (custo de oportunidade do capital) e \(F_0 < 0\) representa o investimento inicial.

Regra de decisão

  • Se \(VPL > 0\): o projeto gera valor líquido positivo; deve ser aceito.
  • Se \(VPL < 0\): o projeto destrói valor; deve ser rejeitado.
  • Se \(VPL = 0\): o projeto remunera exatamente o custo de oportunidade; indiferente.

Sensibilidade à taxa de desconto

O VPL é uma função decrescente de \(r\). Projetos com fluxos de caixa mais distantes no tempo são mais sensíveis a variações na taxa de desconto.


17.7 Taxa Interna de Retorno (TIR)

Taxa Interna de Retorno (TIR)

A Taxa Interna de Retorno é a taxa de desconto \(r^*\) que torna o VPL igual a zero: [ \sum_{t=0}^{n} \frac{F_t}{(1+r^*)^t} = 0 ] A regra de decisão é: aceitar o projeto se \(TIR > r\) (custo de oportunidade do capital).

Limitações da TIR

A TIR apresenta problemas conhecidos:

  1. Múltiplas TIRs: quando os fluxos de caixa mudam de sinal mais de uma vez, pode haver mais de uma TIR (pela regra de Descartes);
  2. Projetos mutuamente exclusivos: a TIR pode ordenar projetos de forma diferente do VPL;
  3. Escala: a TIR não leva em conta o tamanho do investimento.

Por essas razões, o VPL é considerado o critério superior para avaliação de investimentos.


Gráfico interativo: VPL e TIR

O gráfico abaixo plota o Valor Presente Líquido como função da taxa de desconto. Edite os fluxos de caixa \(F_0\) a \(F_5\) e ajuste a taxa de desconto \(r\) com o slider. O ponto onde a curva cruza o eixo horizontal é a Taxa Interna de Retorno (TIR). Projetos com VPL positivo (acima da linha zero) devem ser aceitos.


17.8 Precificação de Recursos Naturais: A Regra de Hotelling

O problema do recurso exaurível

Considere o proprietário de uma mina com estoque finito \(S_0\) de um recurso natural não renovável (petróleo, minério, gás). Em cada período, ele deve decidir quanto extrair (\(q_t\)) e quanto preservar para o futuro.

Se o preço do recurso é \(P_t\), o custo marginal de extração é \(c\) (constante) e a taxa de juros é \(r\), o proprietário enfrenta um problema de otimização intertemporal.

Demonstração: Derivação da Regra de Hotelling

O proprietário da mina maximiza o valor presente dos lucros da extração:

\[ \max_{\{q_t\}} \sum_{t=0}^{\infty} \frac{(P_t - c) \cdot q_t}{(1+r)^t} \quad \text{sujeito a} \quad \sum_{t=0}^{\infty} q_t \leq S_0, \quad q_t \geq 0 \]

O lagrangeano é:

\[ \mathcal{L} = \sum_{t=0}^{\infty} \frac{(P_t - c) q_t}{(1+r)^t} + \lambda \left( S_0 - \sum_{t=0}^{\infty} q_t \right) \]

A condição de primeira ordem para \(q_t > 0\) é:

\[ \frac{\partial \mathcal{L}}{\partial q_t} = \frac{P_t - c}{(1+r)^t} - \lambda = 0 \]

Portanto:

\[ P_t - c = \lambda (1+r)^t \]

Definindo a renda de escassez (ou royalty) como \(R_t \equiv P_t - c\), temos:

\[ R_t = \lambda (1+r)^t = R_0 (1+r)^t \]

onde \(R_0 = \lambda\) é a renda de escassez no período inicial. Tomando a razão entre dois períodos consecutivos:

\[ \frac{R_{t+1}}{R_t} = 1 + r \]

Ou, equivalentemente:

\[ \frac{R_{t+1} - R_t}{R_t} = r \]

Esta é a Regra de Hotelling: em equilíbrio, a renda de escassez (preço líquido do custo de extração) de um recurso natural exaurível deve crescer à taxa de juros \(r\).

Intuição: se a renda de escassez crescesse a uma taxa superior a \(r\), seria mais lucrativo não extrair hoje e esperar — o proprietário reduziria a extração presente, elevando o preço hoje e reduzindo a taxa de crescimento. Se crescesse a uma taxa inferior a \(r\), seria melhor extrair tudo agora e aplicar no mercado financeiro — a extração presente aumentaria, reduzindo o preço hoje e elevando a taxa de crescimento. No equilíbrio, os dois incentivos se equilibram. \(\blacksquare\)

Regra de Hotelling

Em equilíbrio competitivo, o preço líquido (preço menos custo marginal de extração) de um recurso natural exaurível cresce à taxa de juros: [ \frac{\dot{R}}{R} = r \quad \text{(em tempo contínuo)} \qquad \text{ou} \qquad \frac{R_{t+1} - R_t}{R_t} = r \quad \text{(em tempo discreto)} ] onde \(R = P - c\) é a renda de escassez do recurso.

Implicações

  1. O preço do recurso tende a subir ao longo do tempo, refletindo sua crescente escassez;
  2. Recursos com custo de extração constante terão preços que convergem assintoticamente para um caminho exponencial;
  3. A taxa de juros determina a velocidade de exaustão: juros altos aceleram a extração (o futuro é mais fortemente descontado).

A regra de Hotelling na prática

Empiricamente, os preços de muitos recursos naturais não seguem a trajetória prevista pela regra de Hotelling. Isso pode ser explicado por: (i) descobertas de novas reservas; (ii) progresso tecnológico que reduz custos de extração; (iii) desenvolvimento de substitutos; (iv) poder de mercado (OPEP, por exemplo).


17.9 Juros Compostos e Tempo Contínuo

Juros compostos discretos

Com capitalização \(m\) vezes ao ano, um capital \(K_0\) investido à taxa nominal anual \(i\) rende, após \(n\) anos:

\[ K_n = K_0 \left(1 + \frac{i}{m}\right)^{mn} \]

Capitalização contínua

Quando \(m \to \infty\), obtemos a capitalização contínua:

\[ K(t) = K_0 \cdot e^{it} \]

onde \(e \approx 2{,}71828\) é a base do logaritmo natural. A taxa instantânea de crescimento é \(i\).

Valor presente em tempo contínuo

O valor presente de um fluxo \(F(t)\) recebido no instante \(t\), descontado à taxa contínua \(r\), é:

\[ VP = F(t) \cdot e^{-rt} \]

Para um fluxo contínuo \(f(t)\) ao longo do tempo:

\[ VP = \int_0^T f(t) \cdot e^{-rt} \, dt \]

Relação entre taxas discreta e contínua

Se a taxa discreta (anual) é \(r_d\) e a taxa contínua é \(r_c\), então:

\[ 1 + r_d = e^{r_c} \quad \Leftrightarrow \quad r_c = \ln(1 + r_d) \]

Perpetuidades e anuidades

  • Perpetuidade (fluxo constante \(F\) para sempre): \(VP = F/r\)
  • Anuidade (fluxo constante \(F\) por \(n\) períodos): \(VP = F \cdot \frac{1 - (1+r)^{-n}}{r}\)
  • Perpetuidade crescente (fluxo crescendo a taxa \(g < r\)): \(VP = F/(r - g)\)

Tabela: VPL, Taxa de Desconto e Decisão de Investimento

Considere um projeto com investimento inicial de R$ 100.000 e fluxos de caixa anuais conforme a tabela abaixo:

Ano Fluxo de caixa (R$)
0 −100.000
1 30.000
2 35.000
3 40.000
4 45.000

A TIR deste projeto é aproximadamente 15,2%. A tabela a seguir mostra o VPL para diferentes taxas de desconto:

Taxa de desconto (\(r\)) VPL (R$) Decisão
5% 35.460 Aceitar
8% 24.689 Aceitar
10% 18.444 Aceitar
12% 12.658 Aceitar
15% 4.474 Aceitar
15,2% (TIR) ≈ 0 Indiferente
18% −5.536 Rejeitar
20% −10.648 Rejeitar
25% −22.560 Rejeitar

A tabela ilustra dois pontos fundamentais: (i) o VPL é decrescente na taxa de desconto; (ii) projetos viáveis a juros baixos podem se tornar inviáveis quando a taxa de juros sobe — um problema particularmente relevante no contexto brasileiro de juros historicamente elevados.


Box Brasil: Taxa Selic e o Custo de Capital no Brasil

Por que os juros brasileiros são historicamente altos?

O Brasil é conhecido internacionalmente por praticar uma das taxas de juros reais mais elevadas do mundo. A taxa Selic — a taxa básica de juros definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil — atingiu níveis estratosféricos ao longo das últimas décadas.

Evolução histórica da Selic:

  • Nos anos 1990 (pós-Plano Real), a taxa Selic real frequentemente superava 20% ao ano.
  • Entre 2003 e 2012, houve redução gradual, mas a Selic real ainda oscilava entre 5% e 10% ao ano.
  • Em 2020, durante a pandemia de COVID-19, a Selic nominal atingiu o mínimo histórico de 2% ao ano (taxa real negativa).
  • A partir de 2021, o ciclo de aperto monetário elevou a Selic a 13,75% ao ano em 2022, com taxa real em torno de 7-8%.

Por que os juros são tão altos? Principais hipóteses:

  1. Dominância fiscal: a elevada dívida pública e a percepção de risco fiscal exigem prêmios de risco maiores para financiamento do governo. Quanto maior a desconfiança sobre a sustentabilidade fiscal, maiores os juros que o Tesouro Nacional precisa oferecer.

  2. Crédito direcionado e segmentação: uma parcela significativa do crédito no Brasil é direcionada (BNDES, crédito rural, habitacional) a taxas subsidiadas. Isso reduz a eficácia da política monetária, exigindo uma Selic mais alta para atingir o mesmo efeito contracionista sobre a parcela livre do crédito.

  3. Inércia inflacionária e indexação: a memória inflacionária do período de hiperinflação (1980-1994) e mecanismos de indexação residuais tornam as expectativas de inflação mais resistentes, exigindo juros mais altos para ancorar expectativas.

  4. Incerteza jurisdicional: instabilidade regulatória, mudanças frequentes de regras tributárias e insegurança jurídica elevam o prêmio de risco exigido por investidores.

  5. Baixa taxa de poupança doméstica: a taxa de poupança bruta do Brasil (~15% do PIB) é significativamente inferior à de outros emergentes como China (~45%) e Índia (~30%), pressionando os juros de equilíbrio para cima.

Impacto sobre o investimento privado:

A taxa de investimento brasileira (Formação Bruta de Capital Fixo / PIB) oscila em torno de 15-18%, bem abaixo dos ~25% considerados necessários para sustentar crescimento robusto. Juros elevados encarecem o custo de uso do capital (\(c_K = p_K(r + \delta)\)), tornando inviáveis projetos que seriam rentáveis em ambientes de juros mais baixos.

Dados do BNDES mostram que, historicamente, o banco de desenvolvimento desempenhou um papel de "compensação" parcial, oferecendo crédito de longo prazo a taxas subsidiadas (TJLP, depois TLP). Contudo, a partir de 2017, a substituição da TJLP pela TLP (atrelada a taxas de mercado) reduziu esse subsídio, aproximando o custo do crédito do BNDES ao custo de mercado.

Consequências para a avaliação de projetos:

Conforme a tabela de VPL apresentada na seção anterior, projetos que seriam viáveis a uma taxa de desconto de 5% (como em muitos países desenvolvidos) tornam-se inviáveis a 15% ou 20% (taxas reais historicamente observadas no Brasil). Isso representa um viés contra investimentos de longo prazo, especialmente em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, e indústrias capital-intensivas.


Exercícios

Exercícios do Capítulo 17

Exercício 17.1. Um consumidor vive dois períodos, com renda \(Y_1 = 100\) e \(Y_2 = 110\), e preferências \(U(C_1, C_2) = \ln C_1 + \frac{1}{1{,}1} \ln C_2\). A taxa de juros é \(r = 10\%\).

(a) Calcule a riqueza intertemporal \(W\).

(b) Derive as escolhas ótimas \(C_1^*\) e \(C_2^*\).

(c) O consumidor é poupador ou devedor? Quanto ele poupa/toma emprestado?

(d) Se \(r\) sobe para 20%, como mudam \(C_1^*\) e \(C_2^*\)? Decomponha em efeitos renda e substituição.


Exercício 17.2. Uma firma considera investir em uma máquina que custa R$ 500.000, tem vida útil de 5 anos, deprecia-se linearmente e gera receitas líquidas anuais de R$ 150.000.

(a) Calcule o VPL do projeto para \(r = 8\%\) e \(r = 15\%\).

(b) Calcule a TIR do projeto (use método numérico ou interpolação).

(c) Se a Selic real é 8% e o prêmio de risco do setor é 4%, o projeto deve ser aceito?


Exercício 17.3. Um recurso natural não renovável tem estoque inicial \(S_0 = 1000\) unidades. O preço de mercado é \(P_0 = 50\) reais por unidade, o custo marginal de extração é \(c = 10\) reais e a taxa de juros é \(r = 5\%\).

(a) Segundo a regra de Hotelling, qual será o preço do recurso daqui a 10 anos?

(b) Se uma nova tecnologia reduzir o custo de extração para \(c = 5\), o que acontece com a trajetória de preços? O recurso será exaurido mais rápido ou mais devagar?

(c) Se a taxa de juros subir para \(r = 10\%\), o que acontece com a velocidade de extração? Explique intuitivamente.


Exercício 17.4. Considere dois projetos mutuamente exclusivos:

Projeto A Projeto B
Investimento inicial R$ 100.000 R$ 200.000
Fluxo anual (5 anos) R$ 35.000 R$ 62.000
TIR 22,1% 16,8%

(a) Calcule o VPL de cada projeto para \(r = 10\%\).

(b) Qual projeto deve ser escolhido pelo critério do VPL? E pelo critério da TIR?

(c) Encontre a taxa de desconto na qual os dois projetos têm o mesmo VPL (taxa de Fisher).

(d) Explique por que o VPL é considerado o critério superior.


Exercício 17.5. Discuta as seguintes questões, articulando teoria e evidência empírica:

(a) "Se o Brasil conseguisse reduzir a taxa de juros real de longo prazo de 6% para 3%, o impacto sobre o investimento produtivo seria enorme." Avalie essa afirmação usando o conceito de custo de uso do capital e a sensibilidade do VPL à taxa de desconto.

(b) Explique por que a regra de Hotelling pode não ser observada empiricamente para o preço do petróleo.

(c) Um governo que deseja incentivar investimentos em infraestrutura de longo prazo (com payback de 20-30 anos) deve se preocupar mais com a taxa de juros real ou com a estabilidade regulatória? Justifique usando os conceitos de VPL e prêmio de risco.