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Exercícios e ANPEC — Capítulo 16b

Revisão Rápida

1. A sustentabilidade de um cartel (colusão) em oligopólio é dificultada porque:
  • (a) Os custos de produção são muito baixos
  • (b) Cada membro tem incentivo individual a trair o acordo, produzindo mais que a cota para obter lucros maiores no curto prazo
  • (c) Os consumidores formam cartéis em resposta
  • (d) A legislação antitruste é sempre eficaz em impedir cartéis
Resposta

(b) O cartel enfrenta o clássico Dilema dos Prisioneiros: o lucro conjunto é maximizado com restrição de produção, mas cada firma individualmente lucra mais ao desviar (produzir acima da cota enquanto os demais restringem). A sustentabilidade depende de mecanismos de punição, transparência e paciência (Folk Theorem). A alternativa (d) ignora que muitos cartéis operam impunemente.

2. A análise antitruste de fusões horizontais entre oligopolistas tipicamente avalia se a fusão:
  • (a) Aumenta o número de firmas no mercado
  • (b) Gera poder de mercado unilateral ou coordenado que prejudica consumidores, considerando possíveis eficiências compensatórias
  • (c) Reduz os custos fixos da firma resultante
  • (d) É aprovada unanimemente pelos acionistas
Resposta

(b) A análise antitruste (ex.: pelo CADE no Brasil) avalia se a concentração resultante permite à firma fusionada elevar preços ou facilitar colusão tácita, ponderando eventuais eficiências (redução de custos, sinergias). A alternativa (a) é o oposto — fusões reduzem o número de firmas; (c) é parcial; (d) é irrelevante para a análise concorrencial.


Resumo do Capítulo

  • A colusão tácita pode ser sustentada em jogos repetidos por meio de estratégias de gatilho, desde que o fator de desconto seja suficientemente alto.
  • Decisões de longo prazo como investimento em capacidade, dissuasão estratégica de entrada e inovação ampliam a análise para além dos modelos estáticos.
  • A competição monopolística combina diferenciação de produto com livre entrada, gerando equilíbrio de longo prazo com lucro zero e excesso de capacidade.
  • A análise de fusões horizontais envolve o trade-off entre poder de mercado e eficiência, com o HHI como ferramenta de triagem.
  • A regulação de oligopólios (price cap, rate-of-return, Laffont-Tirole) busca disciplinar firmas com poder de mercado sob assimetria de informação.

Conceitos-Chave

Conceito Definição
Colusão tácita Coordenação de preços acima do competitivo sustentada por interação repetida e ameaça de retaliação, sem acordo explícito
Estratégia de gatilho (grim trigger) Estratégia em que firmas cooperam enquanto todas cooperam, mas revertem permanentemente ao equilíbrio de Nash se alguém desviar
Dissuasão estratégica de entrada Uso de investimento em capacidade ou preços-limite para tornar a entrada de rivais não lucrativa
Competição monopolística Estrutura com muitas firmas, produtos diferenciados e livre entrada; equilíbrio de longo prazo com lucro zero e excesso de capacidade
Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI) Medida de concentração de mercado: \(HHI = \sum s_i^2\); usado por autoridades antitruste para análise de fusões
Price cap (preço-teto) Regulação que fixa teto de preço ajustado por \(RPI - X\), incentivando eficiência produtiva

Exercícios Resolvidos

Exercício Resolvido 16b.1 — Sustentação de colusão com trigger strategy

Enunciado. Três firmas idênticas competem em Bertrand com custo marginal \(c = 20\) e demanda \(Q = 200 - p\). Considere um jogo infinitamente repetido com fator de desconto \(\delta\) e estratégia de gatilho (grim trigger) para sustentar o preço de monopólio. (a) Calcule o preço de monopólio e o lucro dividido por firma. (b) Calcule o ganho do desvio. (c) Determine o \(\delta\) mínimo para sustentação da colusão.

Resolução.

(a) Preço de monopólio e lucro dividido.

O monopolista maximiza \(\pi = (p - 20)(200 - p)\). CPO: \(200 - 2p + 20 = 0 \implies p^m = 110\).

\[ Q^m = 90, \quad \pi^m = 90 \times 90 = 8.100 \]

Lucro dividido por firma (com 3 firmas): \(\pi^m / 3 = 2.700\).

(b) Ganho do desvio.

Ao desviar (cobrando \(p^m - \epsilon\)), a firma captura toda a demanda e obtém aproximadamente \(\pi^m = 8.100\) no período do desvio. A partir do período seguinte, todas as firmas revertem para \(p = c = 20\) e o lucro é zero.

(c) \(\delta\) mínimo.

A colusão é sustentável se o valor presente de cooperar supera o valor de desviar:

\[ \frac{\pi^m / 3}{1 - \delta} \geq \pi^m + 0 \]
\[ \frac{1/3}{1 - \delta} \geq 1 \implies \frac{1}{3} \geq 1 - \delta \implies \delta \geq \frac{2}{3} \]

Isso confirma a fórmula geral \(\delta \geq 1 - 1/n\): com \(n = 3\), \(\delta \geq 2/3\). Note que com 2 firmas bastaria \(\delta \geq 1/2\); com 3 firmas a colusão exige mais paciência. Quanto mais firmas no cartel, mais difícil sustentá-lo — cada firma tem incentivo maior para desviar, pois captura toda a demanda ao invés de apenas \(1/n\) dela.

**WebR 16b.1 — Sustentação de colusão com trigger strategy.** Explore como o $\delta$ mínimo cresce com o número de firmas e compare o valor presente de cooperar vs. desviar ao longo do tempo.

Exercícios

Exercício 16b.1

Considere o modelo de Cournot com \(n\) firmas idênticas, demanda \(p = 200 - Q\) e custo marginal \(c = 20\). O custo fixo de entrada é \(f = 400\).

a) Encontre preço, quantidade por firma e lucro por firma em função de \(n\).

b) Determine o número de firmas em equilíbrio de entrada livre.

c) Calcule o número socialmente ótimo de firmas (que maximiza o excedente total menos os custos fixos totais). Há excesso de entrada?

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Exercício 16b.2

Duas firmas jogam um jogo de Bertrand repetido infinitamente com fator de desconto \(\delta\). A demanda de mercado é \(Q = 100 - p\) e o custo marginal é \(c = 40\). As firmas consideram usar uma estratégia de gatilho para sustentar o preço de monopólio.

a) Calcule o preço de monopólio e o lucro de monopólio dividido.

b) Determine o fator de desconto mínimo para que a colusão seja sustentável.

c) Como o resultado se altera se há três firmas ao invés de duas?

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Exercício 16b.3

Considere um mercado de competição monopolística com \(n\) firmas. Cada firma enfrenta demanda \(q_i = S/n - b(p_i - \bar{p})\), onde \(S = 1.000\) é o tamanho do mercado, \(\bar{p}\) é o preço médio das rivais e \(b = 2\). O custo total de cada firma é \(C(q) = 100 + 10q\) (custo fixo de 100, custo marginal de 10).

a) No equilíbrio simétrico de curto prazo (com \(n\) dado), encontre o preço e o lucro por firma em função de \(n\).

b) Determine o número de firmas no equilíbrio de longo prazo (lucro zero).

c) Verifique se há excesso de capacidade no equilíbrio de longo prazo.

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Exercício 16b.4

Um mercado tem 5 firmas com as seguintes participações de mercado: 35%, 25%, 20%, 12%, 8%.

a) Calcule o HHI do mercado. Classifique-o segundo os critérios do CADE/DOJ.

b) Se as duas maiores firmas se fundirem, qual será o novo HHI? A variação (ΔHHI) justificaria escrutínio detalhado?

c) Se a fusão gerar redução de custo marginal de 5% para a firma combinada, essa eficiência é suficiente para compensar o efeito anticompetitivo, assumindo demanda linear? Discuta qualitativamente.

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Exercício 16b.5

Duas firmas jogam um Bertrand repetido com fator de desconto \(\delta\). A firma 1 tem custo marginal \(c_1 = 10\) e a firma 2 tem \(c_2 = 20\). A demanda é \(Q = 100 - p\).

a) Qual seria o preço de monopólio se as firmas coluidissem perfeitamente? (Use o menor custo marginal.)

b) Como as firmas dividiriam a produção no cartel? (Sugestão: a firma eficiente produz tudo.)

c) Determine o \(\delta\) mínimo para que a colusão seja sustentável para cada firma. Qual firma tem maior incentivo para desviar?

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Exercício 16b.6

(Desafio) Considere o modelo de Salop (cidade circular) com \(n\) firmas, perímetro 1, custo de transporte \(t = 1\), custo fixo \(f\) e custo marginal \(c = 0\).

a) Derive o preço de equilíbrio simétrico \(p^*(n)\) e o lucro por firma \(\pi^*(n)\).

b) Determine o número de firmas em equilíbrio de entrada livre \(n^*\) como função de \(f\).

c) Mostre que o número socialmente ótimo de firmas \(n^{**}\) (que minimiza a soma de custos fixos + custos de transporte) é \(n^{**} = n^*/2\). Há excesso de entrada?

d) Interprete: a entrada excessiva ocorre porque cada firma ignora uma externalidade. Qual é essa externalidade?

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Vem, ANPEC!

ANPEC 2018 — Questão 09

Julgue as afirmativas sobre concorrência monopolística e oligopólio:

(0) No modelo de demanda quebrada (kinked demand), se houver um aumento no custo marginal da firma, haverá necessariamente um aumento no preço cobrado pela firma.

(1) A sinalização de preços (price signaling) por uma firma líder em um oligopólio exige necessariamente um acordo explícito entre as firmas.

(2) A liderança de preços pode funcionar como mecanismo para que firmas oligopolistas superem o dilema dos prisioneiros.

(3) Em um duopólio de Cournot simétrico, o lucro de cada firma no equilíbrio de Nash é maior do que o lucro que cada firma obteria em um cartel (colusão perfeita) com divisão igualitária da produção.

(4) No modelo de concorrência monopolística, a livre entrada e saída de firmas implica que, no equilíbrio de longo prazo, cada firma opera com lucro econômico zero.

Gabarito

(0) Falso. No modelo de demanda quebrada, a curva de receita marginal possui uma descontinuidade (gap) no nível de produção corrente. Se o aumento do custo marginal for suficientemente pequeno, de modo que a nova curva de custo marginal ainda cruze a receita marginal dentro do gap, o preço ótimo não se altera. A demanda quebrada explica rigidez de preços: variações moderadas nos custos não provocam mudanças no preço.

(1) Falso. A sinalização de preços ocorre quando uma firma (líder) anuncia publicamente mudanças de preço e as demais firmas seguem. Isso não requer acordo explícito — é um mecanismo de coordenação tácita.

(2) Verdadeiro. A liderança de preços funciona como um mecanismo de coordenação que permite às firmas convergirem para preços supracompetitivos sem acordo explícito, superando assim o dilema dos prisioneiros inerente à competição oligopolística.

(3) Falso. No cartel com divisão igualitária, cada firma produz \(q^m/2\), onde \(q^m\) é a quantidade de monopólio. O lucro por firma é \(\pi^m/2\). No Cournot simétrico, o lucro por firma é \((a-c)^2/(9b)\), enquanto no cartel é \((a-c)^2/(8b)\). Como \(1/9 < 1/8\), o lucro de Cournot é menor do que o lucro do cartel, não maior.

(4) Verdadeiro. A livre entrada e saída é uma hipótese central do modelo de concorrência monopolística de Chamberlin. No equilíbrio de longo prazo, a entrada de novas firmas desloca a curva de demanda de cada firma incumbente para a esquerda até que a curva de demanda seja tangente à curva de custo médio, resultando em lucro econômico zero.

Gabarito oficial: F-F-V-F-V