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Capítulo 16a — Poucos — e Isso Muda Tudo

Modelos Básicos de Oligopólio

Em 2018, a Gol lançou uma promoção-relâmpago com passagens a R$ 200 para Nordeste. Em menos de 24 horas, a LATAM igualou os preços. A Azul respondeu no dia seguinte. Em 48 horas, os preços voltaram ao patamar anterior — como se nada tivesse acontecido. Nenhuma empresa agiu isoladamente; cada uma calibrou seu movimento observando os rivais. Bem-vindo ao oligopólio, onde cada decisão é um lance num jogo de xadrez com poucos jogadores e apostas altas.

Quando o mercado tem poucos vendedores, cada firma sabe que suas decisões afetam — e são afetadas por — as decisões das rivais. Essa interdependência estratégica é o que torna o oligopólio fundamentalmente diferente da concorrência perfeita e do monopólio. Neste módulo, construímos os modelos clássicos: Bertrand (competição em preços), Cournot (competição em quantidades), Stackelberg (líder-seguidora), e suas extensões com restrições de capacidade e diferenciação de produto.1

A teoria dos oligopólios recorre extensivamente à teoria dos jogos para modelar a interação estratégica entre firmas. Os resultados são extremamente sensíveis às hipóteses sobre a variável de decisão (preço ou quantidade), a sequência de movimentos (simultâneo ou sequencial) e a natureza da informação.

Pré-requisitos

Cap. 9a (equilíbrio de Nash) e Cap. 15 (monopólio). Para IO avançada (colusão, entrada, fusões), veja o Cap. 16b.


Roteiro do Capítulo

Seção Pergunta-guia O que você vai aprender Página
16a.1 Espadas ou flechas? A primeira decisão do oligopolista Bertrand vs. Cournot: a escolha da variável estratégica Fundamentos
16a.2 Dois bastam para a guerra? O paradoxo de Bertrand Modelo de Bertrand e o paradoxo Bertrand
16a.3 "Quanto eu produzo se ele pensa a mesma coisa?" Cournot, funções de reação, EN Cournot
16a.4 De monopólio a concorrência em \(n\) passos Cournot com n firmas, convergência para competição Cournot-n
16a.5 A fábrica tem limite — e o rival sabe disso Restrições de capacidade, Edgeworth Capacidade
16a.6 Nem todo café é igual — e a localização importa Diferenciação horizontal/vertical, Hotelling Diferenciação
Exercícios Teste, pratique, resolva Revisão, exercícios, ANPEC Exercícios
Pesquisa O que a pesquisa recente diz? Artigos seminais e fronteira empírica Pesquisa

Atividade em Sala: O Torneio de Oligopólio — Bertrand, Cournot e Colusão ao Vivo

Objetivo pedagógico: Vivenciar a diferença entre competição em preços (Bertrand), competição em quantidades (Cournot) e colusão, revelando como a variável de decisão e a possibilidade de comunicação alteram radicalmente os resultados de mercado.

Materiais: Formulários impressos (ou Google Forms) com campos para decisão de preço ou quantidade; planilha projetada para calcular resultados em tempo real; cartões de "identidade da firma" (custos marginais).

Formato: 3 rodadas × 15 min cada + 10 min debrief = 55 min


Rodada 1 — Bertrand (15 min)

  • Divida a turma em duplas. Cada dupla representa um duopólio com produtos homogêneos.
  • Custos marginais: \(c = 20\). Demanda: \(Q = 100 - p\).
  • Cada firma escolhe um preço simultaneamente (sem comunicação). O consumidor compra da firma com menor preço; se iguais, divide-se a demanda.
  • Repita 5 rounds. Registre preços e lucros de cada round.
  • Previsão teórica: convergência para \(p = c = 20\), lucro zero.

Rodada 2 — Cournot (15 min)

  • Mesmas duplas, mesma demanda e custos.
  • Agora cada firma escolhe uma quantidade simultaneamente (sem comunicação). O preço é determinado por \(p = 100 - Q\).
  • Repita 5 rounds.
  • Previsão teórica: \(q_1 = q_2 \approx 26{,}7\), \(p \approx 46{,}7\), lucros positivos.

Rodada 3 — Colusão (15 min)

  • Mesmas duplas, mesma demanda, competição em quantidades.
  • Agora as firmas podem se comunicar por 2 minutos antes de cada round. Mas a decisão é individual e secreta.
  • Repita 5 rounds. Observe quem trai o acordo e quando.
  • Previsão teórica: tentativa de colusão em \(Q^m = 40\), mas incentivo a desviar.

Debrief (10 min)

  1. Projete os resultados agregados: preços médios caíram para \(c\) na Rodada 1? Ficaram acima de \(c\) na Rodada 2?
  2. Na Rodada 3, quantas duplas sustentaram a colusão nos 5 rounds? Quantas tiveram "traição" nos últimos rounds?
  3. Conecte com a teoria: "Por que a variável de decisão (preço vs. quantidade) gera resultados tão diferentes?" → função de demanda residual descontínua (Bertrand) vs. contínua (Cournot).
  4. Conecte com antitruste: "Se vocês fossem o CADE, o que fariam para impedir a Rodada 3?"

Variação avançada: Introduza custos assimétricos (\(c_1 = 10\), \(c_2 = 30\)) para explorar como a eficiência relativa afeta o equilíbrio e a sustentabilidade da colusão.



  1. "Nobody expects the Spanish Inquisition!" — e ninguém espera que o resultado de equilíbrio mude tão drasticamente ao trocar preço por quantidade como variável de decisão. A Inquisição Espanhola de Monty Python aparecia sempre quando menos se esperava, com armas inesperadas ("Our chief weapon is surprise... surprise and fear... fear and surprise..."). No oligopólio, a "arma" do modelo muda tudo: Bertrand gera competição perfeita com duas firmas; Cournot gera lucros positivos com as mesmas duas firmas. A hipótese que "ninguém espera" — a variável de decisão — é a que mais importa.