Pesquisa em Ação — Capítulo 14¶
Pesquisa em Ação¶
Dix-Carneiro (2014) — Custos de ajuste no comércio internacional
Referência: Dix-Carneiro, R. (2014). "Trade Liberalization and Labor Market Dynamics." Econometrica, 82(3), 825–885.
Pergunta: Quanto tempo leva para os trabalhadores se realocarem entre setores após uma liberalização comercial — e qual o custo de bem-estar dessa transição?
Método: Modelo de equilíbrio geral dinâmico com fricções no mercado de trabalho, estimado estruturalmente com dados da RAIS e da Pesquisa Mensal de Emprego (Brasil). Explora a liberalização comercial brasileira de 1990–1995 como fonte de variação exógena.
Resultado: Os custos de ajuste são substanciais: trabalhadores em setores que perderam proteção tarifária sofreram perdas salariais persistentes por até 10 anos. A realocação intersetorial é lenta e custosa, especialmente para trabalhadores mais velhos e menos qualificados. O modelo de equilíbrio geral é essencial para capturar os efeitos de retroalimentação entre mercados de trabalho e de bens.
Conexão com o capítulo: Ilustra que os ganhos de comércio previstos pelo modelo walrasiano estático (Seção 14.10) podem ser substancialmente reduzidos — ou adiados — quando há fricções no mercado de trabalho. A hipótese de "pleno emprego" dos modelos CGE padrão é especialmente problemática nesse contexto.
Caliendo & Parro (2015) — NAFTA em equilíbrio geral
Referência: Caliendo, L. & Parro, F. (2015). "Estimates of the Trade and Welfare Effects of NAFTA." Review of Economic Studies, 82(1), 1–44.
Pergunta: Quais foram os efeitos do NAFTA sobre comércio, preços e bem-estar nos três países-membros?
Método: Modelo de equilíbrio geral ricardiano multi-setorial (extensão de Eaton & Kortum, 2002) com encadeamentos insumo-produto entre setores. Estima as elasticidades de comércio setor a setor e simula o contrafactual sem NAFTA.
Resultado: O México foi o principal beneficiário (ganho de bem-estar de ~1,3% do PIB), seguido pelos EUA (~0,08%) e Canadá (~0,06%). Os encadeamentos insumo-produto amplificam os efeitos das reduções tarifárias: uma redução de tarifa no setor automotivo beneficia toda a cadeia de fornecedores. Modelos sem encadeamentos subestimam significativamente os efeitos.
Conexão com o capítulo: Demonstra o poder dos modelos CGE modernos (Seção 14.11) para avaliação de políticas comerciais. O modelo captura exatamente os efeitos de equilíbrio geral que a análise parcial ignora.
Kehoe & Ruhl (2010) — CGEs previram bem o NAFTA?
Referência: Kehoe, T. & Ruhl, K. (2010). "Why Have Economic Reforms in Mexico Not Generated Growth?" Journal of Economic Literature, 48(4), 1005–1027.
Pergunta: Os modelos CGE ex ante previram corretamente os efeitos do NAFTA e das reformas mexicanas?
Método: Comparação sistemática entre previsões de modelos CGE produzidos antes do NAFTA (anos 1990) e os dados observados ex post (2000–2010).
Resultado: Os modelos CGE acertaram razoavelmente a direção dos efeitos (aumento de comércio, realocação setorial), mas subestimaram a magnitude dos ajustes no mercado de trabalho e superestimaram os ganhos de crescimento. A principal falha: os modelos assumiam instituições e produtividade constantes, quando na prática a liberalização interage com a qualidade institucional.
Conexão com o capítulo: Um lembrete honesto das limitações dos modelos CGE (Seção 14.11). Como dizem Angrist e Pischke em outro contexto: "Todos os modelos estão errados; alguns são úteis." Os CGEs são úteis — mas não são oráculos.
Donaldson (2018) — Ferrovias e equilíbrio geral na Índia colonial
Referência: Donaldson, D. (2018). "Railroads of the Raj: Estimating the Impact of Transportation Infrastructure." American Economic Review, 108(4-5), 899–934. Prêmio Clark 2017.
Pergunta: Qual foi o impacto das ferrovias na Índia colonial sobre preços, comércio e renda real?
Método: Modelo de equilíbrio geral ricardiano (Eaton & Kortum) combinado com dados históricos detalhados de preços, produção agrícola e rotas ferroviárias na Índia (1870–1930). Usa a expansão da malha ferroviária como variação quase-exógena.
Resultado: As ferrovias reduziram drasticamente os custos de transporte, convergindo preços regionais e expandindo o comércio inter-regional. O efeito sobre a renda real foi de ~16% nos distritos conectados. O modelo de equilíbrio geral é essencial: uma análise de equilíbrio parcial capturaria apenas o efeito direto nos mercados conectados, ignorando a realocação de produção entre regiões e a convergência de preços via arbitragem.
Conexão com o capítulo: Aplicação empírica magistral da teoria do equilíbrio geral ao mundo real. Mostra que a "interdependência de mercados" (Seção 14.1) não é abstração — é o mecanismo central pelo qual infraestrutura afeta bem-estar.
Fleurbaey (2009) — Além da eficiência de Pareto
Referência: Fleurbaey, M. (2009). "Beyond GDP: The Quest for a Measure of Social Welfare." Journal of Economic Literature, 47(4), 1029–1075.
Pergunta: A eficiência de Pareto é suficiente como critério normativo? Como ir além?
Método: Revisão analítica da literatura sobre medidas de bem-estar social, comparando o critério de Pareto com alternativas (funções de bem-estar social, variação equivalente, índices de Atkinson, capabilidades de Sen).
Resultado: O critério de Pareto é "silencioso" sobre distribuição: uma alocação em que uma pessoa tem tudo e as demais nada é Pareto-eficiente. Fleurbaey propõe critérios que combinam eficiência com equidade, notadamente a variação equivalente equalizada (que mede bem-estar individual de forma comparável entre agentes) e funções de bem-estar social que respeitam preferências individuais.
Conexão com o capítulo: O Segundo Teorema do Bem-Estar (Seção 14.7) separa eficiência de equidade — mas não resolve a questão "qual alocação eficiente é a melhor?". Fleurbaey mostra que essa pergunta exige ferramentas normativas além do Pareto.
Referências¶
Arrow, K. J. & Debreu, G. (1954). "Existence of an Equilibrium for a Competitive Economy." Econometrica, 22(3), 265–290.
Akerlof, G. A., Rose, A. K., Yellen, J. L. & Hessenius, H. (1991). "East Germany in from the Cold: The Economic Aftermath of Currency Union." Brookings Papers on Economic Activity, 1991(1), 1–87.
Caliendo, L. & Parro, F. (2015). "Estimates of the Trade and Welfare Effects of NAFTA." Review of Economic Studies, 82(1), 1–44.
Debreu, G. (1959). Theory of Value: An Axiomatic Analysis of Economic Equilibrium. New Haven: Yale University Press.
Debreu, G. (1974). "Excess Demand Functions." Journal of Mathematical Economics, 1(1), 15–21.
Dix-Carneiro, R. (2014). "Trade Liberalization and Labor Market Dynamics." Econometrica, 82(3), 825–885.
Donaldson, D. (2018). "Railroads of the Raj: Estimating the Impact of Transportation Infrastructure." American Economic Review, 108(4-5), 899–934.
Edgeworth, F. Y. (1881). Mathematical Psychics: An Essay on the Application of Mathematics to the Moral Sciences. London: Kegan Paul.
Fleurbaey, M. (2009). "Beyond GDP: The Quest for a Measure of Social Welfare." Journal of Economic Literature, 47(4), 1029–1075.
Kehoe, T. J. & Ruhl, K. J. (2010). "Why Have Economic Reforms in Mexico Not Generated Growth?" Journal of Economic Literature, 48(4), 1005–1027.
Mantel, R. (1974). "On the Characterization of Aggregate Excess Demand." Journal of Economic Theory, 7(3), 348–353.
Mas-Colell, A., Whinston, M. D. & Green, J. R. (1995). Microeconomic Theory. New York: Oxford University Press.
Sonnenschein, H. (1973). "Do Walras' Identity and Continuity Characterize the Class of Community Excess Demand Functions?" Journal of Economic Theory, 6(4), 345–354.
Walras, L. (1874). Éléments d'économie politique pure. Lausanne: Corbaz.