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🔬 Pesquisa em Ação — Capítulo 13

Roberts, M. J.; Schlenker, W. (2013). Identifying Supply and Demand Elasticities of Agricultural Commodities: Implications for the US Ethanol Mandate. American Economic Review, 103(6), 2265–2295.

Pergunta central: Quais são as elasticidades de oferta e demanda de curto prazo para as principais commodities agrícolas globais (milho, soja, trigo e arroz)? E quais as consequências do mandato americano de mistura de etanol de milho para os preços de alimentos?

Método: Os autores exploram variações exógenas de produtividade agrícola causadas por condições climáticas (choques de rendimento) como instrumento para identificar a curva de demanda, e choques de demanda por biocombustíveis para identificar a oferta. A estratégia de variáveis instrumentais resolve o clássico problema de identificação simultânea (curvas de oferta e demanda se deslocam juntas).

Resultado principal: As elasticidades estimadas são surpreendentemente baixas: a elasticidade-preço da oferta de curto prazo está entre 0,08 e 0,13, e a da demanda entre –0,05 e –0,10. Essas magnitudes implicam que pequenos choques de produção (uma seca, uma praga) geram enormes flutuações de preço. O mandato de etanol, ao desviar ~40% da safra de milho americana para combustível, teria elevado os preços de grãos globais em 30% ou mais.

Por que isso importa: O artigo fornece as estimativas empíricas mais rigorosas das elasticidades que estão no coração da estática comparativa deste capítulo. Para o Brasil — segundo maior produtor e exportador de soja do mundo —, os resultados são diretamente relevantes: a baixa elasticidade de oferta explica por que geadas, secas e pragas no Paraná e Mato Grosso causam picos de preço nos CEASAs e na bolsa de Chicago.

Relevância para o capítulo: O artigo quantifica empiricamente o que a Seção 13.4 formaliza: quanto mais inelásticas são oferta e demanda, maior a variação de preço em resposta a choques. As estimativas alimentam diretamente a fórmula de estática comparativa da equação (13.8).

Chetty, R.; Looney, A.; Kroft, K. (2009). Salience and Taxation: Theory and Evidence. American Economic Review, 99(4), 1145–1177.

Pergunta central: A forma como um imposto é apresentado ao consumidor — se incluído no preço na prateleira ou adicionado no caixa — afeta o comportamento de compra? A teoria clássica de incidência diz que não deveria importar; a economia comportamental sugere que sim.

Método: Os autores realizaram um experimento de campo em um supermercado: para certos produtos, o imposto sobre vendas foi explicitado na etiqueta de preço (em vez de ser adicionado apenas no caixa). Complementam com análise de dados de cerveja explorando variações estaduais em impostos sobre consumo (excise taxes, incluídos no preço) versus impostos sobre vendas (sales taxes, adicionados no caixa).

Resultado principal: Quando o imposto é tornado mais visível (saliente), os consumidores reagem mais — a demanda cai significativamente mais do que quando o imposto está "escondido" no caixa. Isso viola a predição da teoria neoclássica padrão (que prevê que a incidência econômica é idêntica). A "saliência" do imposto importa: impostos menos salientes são parcialmente ignorados pelos consumidores.

Por que isso importa: O resultado desafia diretamente a elegante irrelevância da incidência legal demonstrada na Seção 13.11. Na prática, consumidores com atenção limitada (bounded attention) não processam perfeitamente informação sobre preços e impostos. Para a reforma tributária brasileira — que busca tornar a carga tributária mais transparente —, o estudo sugere que a transparência pode, por si só, alterar comportamentos.

Relevância para o capítulo: O artigo mostra os limites do modelo de incidência clássico e abre a porta para a economia comportamental aplicada a tributação. É um complemento perfeito à análise formal da equação (13.14): a teoria funciona como benchmark, mas o mundo real pode desviar sistematicamente.

Diamond, R.; McQuade, T.; Qian, F. (2019). The Effects of Rent Control Expansion on Tenants, Landlords, and Inequality: Evidence from San Francisco. American Economic Review, 109(9), 3365–3394.

Pergunta central: Qual é o efeito causal do controle de aluguéis sobre inquilinos, proprietários e a oferta de imóveis para aluguel? O controle protege os inquilinos ou acaba prejudicando-os no longo prazo?

Método: Os autores exploram uma expansão do controle de aluguéis em São Francisco em 1994, que cobriu edifícios com 4 ou menos unidades construídos antes de 1980 — criando um grupo de tratamento (imóveis cobertos) e um grupo de controle (imóveis não cobertos) numa configuração de diferenças-em-diferenças. Utilizam dados granulares de registros imobiliários e de moradia.

Resultado principal: No curto prazo, o controle de aluguel beneficiou os inquilinos cobertos, que permaneceram nos imóveis com aluguéis abaixo do mercado. Mas no longo prazo, os proprietários responderam: (i) convertendo imóveis de aluguel em condomínios ou uso próprio (redução de 15% na oferta); (ii) demolindo e reconstruindo edifícios não cobertos; (iii) realizando reformas que os excluíam da regulação. O efeito líquido sobre o estoque de aluguel foi negativo, e os novos inquilinos — que enfrentaram oferta reduzida — pagaram aluguéis mais altos no mercado não controlado.

Por que isso importa: O estudo é a evidência empírica mais rigorosa sobre os efeitos de longo prazo do controle de aluguel, confirmando as predições teóricas do Box Brasil 13.3: o controle gera escassez ao desincentivar a oferta. Para o Brasil, onde o debate sobre regulação de aluguéis ressurge periodicamente (especialmente em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro), a evidência de São Francisco é um alerta contundente.

Relevância para o capítulo: Ilustra empiricamente a análise de teto de preço da Seção 13.10: no curto prazo, o teto redistribui (EC \(\uparrow\) para alguns); no longo prazo, a redução de oferta domina e o bem-estar total cai.

Atkin, D.; Donaldson, D. (2015). Who's Getting Globalized? The Size and Implications of Intra-National Trade Costs. NBER Working Paper 21439.

Pergunta central: Quão grandes são os custos de comércio dentro de um país como a Etiópia ou a Nigéria? E como esses custos afetam a formação de preços, o bem-estar e a eficiência dos mercados locais?

Método: Os autores usam dados detalhados de preços de commodities agrícolas em diferentes localidades da Etiópia e Nigéria para estimar os custos de transação intranacionais — incluindo transporte, perdas, intermediação e barreiras informais. Comparam esses custos com modelos de equilíbrio espacial (à la Armington) que preveem convergência de preços quando os custos de comércio são baixos.

Resultado principal: Os custos de comércio intranacionais são enormes — em muitos casos, maiores que os custos de comércio internacional entre países desenvolvidos. Isso gera mercados locais segmentados, com preços que divergem substancialmente entre regiões do mesmo país. A perda de bem-estar associada a esses custos é da ordem de 15–25% do PIB agrícola.

Por que isso importa: O Brasil compartilha esse desafio: o custo de transporte de soja do Mato Grosso ao porto de Santos pode representar 20–30% do preço FOB, criando cunhas de preço entre regiões produtoras e consumidoras. A heterogeneidade de preços entre CEASAs brasileiras é, em grande parte, explicada por custos de transação — exatamente o fenômeno que o modelo de equilíbrio parcial da Seção 13.3 captura quando reconhecemos que "o mercado" não é homogêneo no espaço.

Relevância para o capítulo: O artigo ilustra como custos de transação impedem a formação de um mercado único, gerando equilíbrios locais que diferem do equilíbrio teórico integrado. É uma extensão natural da análise de equilíbrio parcial marshalliano para contextos com fricções espaciais.

Hendel, I.; Nevo, A. (2006). Measuring the Implications of Sales and Consumer Inventory Behavior. Econometrica, 74(6), 1637–1673.

Pergunta central: Quando supermercados fazem promoções temporárias (sales), os consumidores realmente consomem mais ou simplesmente antecipam compras futuras (estocam)? Qual é a elasticidade "verdadeira" da demanda, depois de separar o efeito de estocagem?

Método: Os autores desenvolvem um modelo dinâmico de demanda em que consumidores decidem quando e quanto comprar, levando em conta estoques domésticos e a probabilidade de promoções futuras. Estimam o modelo com dados de scanner de detergentes em supermercados americanos.

Resultado principal: Grande parte da resposta aparente dos consumidores a promoções é estocagem, não aumento de consumo. A elasticidade-preço de consumo (longo prazo) é muito menor que a elasticidade de compra (curto prazo). Ignorar a estocagem superestima a sensibilidade ao preço dos consumidores por um fator de 2 a 4.

Por que isso importa: Para o Brasil, onde promoções de supermercado são frequentes e o comportamento de estocagem é relevante (especialmente para produtos não perecíveis), o resultado tem implicações diretas para a análise de poder de mercado no varejo e para políticas de defesa do consumidor.

Relevância para o capítulo: O artigo mostra que a distinção entre curtíssimo, curto e longo prazos (Seções 13.213.5) não é apenas uma conveniência teórica — ela tem implicações empíricas reais para a estimação de elasticidades. A demanda "aparente" de curto prazo pode ser muito mais elástica do que a demanda "verdadeira" de longo prazo, e confundir as duas leva a conclusões de política erradas.

📚 Referências do Capítulo