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Pesquisa em Ação — Capítulo 10

Gasques, José Garcia; Bastos, Eliana Teles; Bacchi, Mirian Rumenos Piedade; Valdes, Constanza. (2010). Produtividade Total dos Fatores e Transformações da Agricultura Brasileira: Análise dos Dados dos Censos Agropecuários. In: Gasques, J. G.; Vieira Filho, J. E. R.; Navarro, Z. (Orgs.). A Agricultura Brasileira: Desempenho, Desafios e Perspectivas. Brasília: IPEA, Cap. 1, 19-44. ISBN: 978-85-7811-050-5

Pergunta central: Quanto do crescimento da produção agropecuária brasileira nas últimas décadas se deve ao uso de mais insumos (terra, trabalho, capital) e quanto se deve ao progresso técnico? A decomposição do crescimento entre acumulação de fatores e produtividade total dos fatores (PTF) é uma aplicação direta da contabilidade de crescimento à la Solow discutida na Seção 10.6.

Método: Gasques et al. utilizam dados dos Censos Agropecuários do IBGE para construir índices de produtividade total dos fatores na agropecuária brasileira entre 1970 e 2006. A metodologia consiste em calcular índices de Törnqvist para produto e insumos agregados (terra, trabalho, capital, materiais) e obter a PTF como resíduo — o mesmo conceito do resíduo de Solow, agora aplicado a dados censitários reais.

Resultado principal: A PTF agropecuária cresceu a uma taxa média de 3,3% ao ano entre 1970 e 2006, respondendo por mais de dois terços do crescimento do produto no período. A terra cultivada cresceu modestamente, o trabalho rural declinou, e o capital e os insumos intermediários cresceram — mas a maior parte do crescimento veio da produtividade. A taxa de crescimento da PTF acelerou após os anos 1990, coincidindo com a intensificação da pesquisa da Embrapa e a abertura comercial.

Por que isso importa: O resultado tem implicações diretas para a política agrícola: investimento em pesquisa e extensão rural gera retornos sociais elevados, pois desloca a função de produção agregada da agricultura. Em um país onde a agropecuária responde por cerca de 25% do PIB (considerando toda a cadeia), a PTF agrícola é um dos principais motores do crescimento econômico.

Relevância para o capítulo: O estudo é uma aplicação empírica da decomposição do crescimento apresentada na Seção 10.6. O parâmetro \(A(t)\) da função de produção não é uma abstração teórica: é medido, acompanhado e influenciado por políticas públicas. O caso da agricultura brasileira mostra que o progresso técnico — capturado pelo resíduo de Solow — pode ser a força dominante do crescimento, exatamente como previsto pela teoria quando a PTF cresce mais rápido que os insumos.

Oberfield, Ezra; Raval, Devesh. (2021). Micro Data and Macro Technology. Econometrica, 89(2), 703-732. DOI: 10.3982/ECTA12807

Pergunta central: Qual é a elasticidade de substituição entre capital e trabalho na economia? Esse parâmetro — o \(\sigma\) da função CES discutido na Seção 10.4 — é crucial para entender se a participação do capital na renda aumenta ou diminui quando o capital se torna mais abundante. Piketty (2014) argumentou que \(\sigma > 1\) explicaria o aumento da desigualdade; outros pesquisadores contestaram essa estimativa.

Método: Oberfield e Raval propõem uma abordagem que usa microdados de plantas industriais (Census of Manufactures dos EUA) para estimar a elasticidade de substituição agregada. A ideia-chave é que a elasticidade agregada depende de dois componentes: a elasticidade de substituição dentro de cada planta (entre capital e trabalho) e a elasticidade de substituição entre plantas (realocação de recursos de plantas intensivas em trabalho para plantas intensivas em capital). Os autores estimam ambas separadamente.

Resultado principal: A elasticidade de substituição dentro das plantas é de aproximadamente 0,5 a 0,7 — abaixo de 1, consistente com a complementaridade entre capital e trabalho. Porém, a elasticidade agregada pode ser maior que a elasticidade no nível da planta devido à realocação entre plantas. Para a manufatura americana, a elasticidade agregada estimada situa-se em torno de 0,7, ainda abaixo de 1. Isso sugere que capital e trabalho são complementares brutos e que a participação do capital na renda cai quando o capital se torna relativamente mais abundante.

Por que isso importa: O resultado tem implicações diretas para o debate sobre desigualdade e para a calibração de modelos macroeconômicos. Se \(\sigma < 1\), a automação e a acumulação de capital não levam necessariamente a um aumento da participação do capital na renda — contrariando uma versão simplificada da tese de Piketty.

Relevância para o capítulo: O artigo demonstra que a elasticidade de substituição \(\sigma\) — apresentada na Seção 10.4 como um parâmetro abstrato da CES — é um objeto empiricamente estimável e economicamente consequente. A distinção entre a CES no nível da planta e no nível agregado mostra que a escolha da forma funcional (Seção 10.5) tem implicações que vão muito além do exercício de sala de aula: ela determina previsões sobre distribuição de renda, política fiscal e futuro do trabalho.

Solow, Robert M. (1957). Technical Change and the Aggregate Production Function. Review of Economics and Statistics, 39(3), 312–320.

Pergunta central: Quanto do crescimento do produto nos EUA entre 1909 e 1949 se deveu à acumulação de capital e trabalho, e quanto decorreu do progresso técnico? O artigo fundacional de Solow introduz a metodologia da contabilidade do crescimento — hoje conhecida como "resíduo de Solow" — e aplica-a pela primeira vez a dados macroeconômicos americanos.

Método: Solow parte de uma função de produção agregada \(Q = A(t) \cdot F(K, L)\) e diferencia ao longo do tempo. Sob hipótese de mercados competitivos (cada fator é remunerado pelo seu produto marginal), as participações factoriais na renda podem ser usadas como pesos para os fatores, permitindo isolar \(\dot{A}/A\) como resíduo. O método não requer assumir uma forma funcional específica para \(F\) — apenas que a função seja homogênea de grau 1 (rendimentos constantes de escala).

Resultado principal: Solow encontrou que apenas 12,5% do crescimento do produto por hora trabalhada nos EUA no período era explicado pela acumulação de capital — os 87,5% restantes constituíam o resíduo, interpretado como progresso técnico. Esse resultado, hoje reproduzido em inúmeras economias, foi decisivo para redirecionar a pesquisa em crescimento econômico da acumulação de fatores para a inovação e o conhecimento.

Por que isso importa: O artigo é a base empírica e metodológica de tudo que se estuda sobre PTF e progresso técnico, tanto em macroeconomia quanto na microeconomia da produção. O Prêmio Nobel de 1987 concedido a Solow reconhece precisamente esse legado.

Relevância para o capítulo: A equação de contabilidade do crescimento (eq. 10.12) apresentada na Seção 10.6 é diretamente derivada da metodologia deste artigo. O "resíduo de Solow" é o parâmetro \(\dot{A}/A\) — e sua estimação para o Brasil, nos estudos de Gasques et al. e Bonelli & Fonseca, replica a metodologia pioneira deste trabalho.

Griliches, Zvi. (1963). The Sources of Measured Productivity Growth: United States Agriculture, 1940–60. Journal of Political Economy, 71(4), 331–346.

Pergunta central: Quanto cresceu a produtividade da agricultura americana nas décadas de 1940 e 1950, e quais foram as fontes desse crescimento? Griliches aplica a contabilidade de Solow ao setor agrícola americano, com foco especial na adoção tecnológica e na qualidade dos insumos.

Método: O trabalho constrói índices de produto agrícola e insumos ajustados pela qualidade: trabalho ponderado por educação, capital ajustado pela vintage tecnológica dos equipamentos. A ideia central é que parte do "resíduo" de Solow reflete mudanças na qualidade dos insumos, não apenas progresso técnico desincorporado. Griliches distingue entre progresso técnico incorporado (embodied — melhorias nos bens de capital, como tratores mais eficientes) e desincorporado (disembodied — aumentos de produtividade independentes dos insumos).

Resultado principal: A produtividade da agricultura americana cresceu a aproximadamente 2% ao ano entre 1940 e 1960. Quando os insumos são ajustados pela qualidade, o resíduo não explicado pelo crescimento dos fatores cai substancialmente — sugerindo que parte significativa do "milagre" da produtividade agrícola americana refletia melhorias na qualidade do capital e do trabalho, e não apenas progresso técnico puro.

Por que isso importa: O trabalho de Griliches inaugurou a tradição de medir a PTF ajustada pela qualidade dos insumos, uma linha de pesquisa central em econometria da produção até hoje. Seus estudos posteriores sobre P&D e spillovers de conhecimento influenciaram diretamente a política de apoio à pesquisa agrícola nos EUA — e a criação de instituições como a Embrapa no Brasil.

Relevância para o capítulo: A decomposição entre progresso técnico incorporado e desincorporado é uma extensão natural do conceito de PTF apresentado na Seção 10.6. No contexto brasileiro, a Embrapa produz tanto progresso incorporado (sementes de alto rendimento, máquinas adaptadas ao Cerrado) quanto desincorporado (técnicas agronômicas, manejo de solo) — e a distinção de Griliches ajuda a interpretar quanto de cada tipo explicou a revolução agrícola brasileira.

Bustos, Paula; Caprettini, Bruno; Ponticelli, Jacopo. (2016). Agricultural Productivity and Structural Transformation: Evidence from Brazil. American Economic Review, 106(6), 1320–1365. DOI: 10.1257/aer.20131061

Pergunta central: A introdução de novas tecnologias agrícolas de alta produtividade leva ao desenvolvimento econômico e à transformação estrutural? O artigo usa a adoção da soja transgênica de alta tecnologia (HT — high-yield varieties) no Brasil como experimento natural para estimar o impacto do progresso técnico agrícola sobre a alocação de trabalho entre setores.

Método: Bustos, Caprettini e Ponticelli exploram a variação geográfica na adequação das novas variedades de soja HT (introduzidas no Brasil a partir dos anos 2000): municípios onde as condições climáticas e de solo favoreciam a adoção da nova tecnologia experimentaram maiores aumentos de produtividade agrícola. Usando essa variação como instrumento, os autores estimam o efeito causal do progresso técnico agrícola sobre o emprego industrial e o processo de urbanização.

Resultado principal: A adoção de HT causou aumento significativo da produtividade agrícola e, simultaneamente, liberação de trabalho do campo em direção ao setor industrial. Municípios com maior adequação à HT experimentaram maior crescimento do emprego industrial, consistente com um processo de transformação estrutural clássico: ganhos de produtividade na agricultura liberam mão de obra que se emprega em atividades de maior valor adicionado. O efeito foi quantitativamente relevante — municípios com alta adequação à HT cresceram o emprego industrial cerca de 10 pontos percentuais a mais que os demais.

Por que isso importa: O artigo conecta diretamente a teoria da produção (progresso técnico, PTF) ao desenvolvimento econômico. O "resíduo de Solow" agrícola não é apenas um número contábil — ele tem consequências reais sobre a estrutura do emprego e o nível de renda per capita. Para o Brasil, onde a agropecuária continua sendo setor fundamental, a pesquisa da Embrapa tem impactos que vão muito além da porteira da fazenda.

Relevância para o capítulo: O artigo é uma aplicação direta da decomposição do crescimento (Seção 10.6) a dados brasileiros reais, conectando o parâmetro \(A(t)\) da função de produção agrícola a transformações macroeconômicas de longo prazo. Combina os instrumentais de teoria da produção e econometria para identificar causalidade, exemplificando como os conceitos deste capítulo fundamentam pesquisa empírica de fronteira.

📚 Referências do Capítulo