Capítulo 9a — Pedra, Papel, Nash¶
Até aqui, os agentes do nosso livro viviam em solidão confortável. O consumidor maximizava utilidade olhando apenas para preços e renda — sem se preocupar com o que os outros consumidores faziam. A firma igualava custo marginal ao preço de mercado sem pensar nos concorrentes. Cada um no seu canto, todos tomadores de preço.
A partir deste capítulo, essa inocência acaba. No mundo real, a Ambev fixa o preço da cerveja pensando no que a Heineken vai fazer. O candidato à presidência monta sua plataforma olhando as pesquisas do adversário. A Petrobras decide quanto produzir considerando a reação da OPEP. Em todos esses casos, o resultado para cada jogador depende do que todos os jogadores fazem — e cada um sabe que os outros estão pensando a mesma coisa. Bem-vindo à teoria dos jogos.
A teoria dos jogos é o ramo da matemática e da economia que estuda a tomada de decisão em ambientes de interdependência estratégica. Sua genealogia intelectual remonta a Émile Borel (1921), que formulou os primeiros jogos de soma zero, mas é a obra monumental de Von Neumann e Morgenstern — Theory of Games and Economic Behavior (1944) — que lança os alicerces formais da disciplina. A grande ruptura conceitual veio com o trabalho de doutorado de John Nash em Princeton (1950, 1951): ao introduzir o conceito de equilíbrio que leva seu nome, Nash generalizou a análise de jogos soma-zero para jogos de soma não nula com qualquer número de jogadores. Reinhard Selten (1965) e John Harsanyi (1967–68) refinaram e estenderam o aparato de Nash para jogos dinâmicos e jogos com informação incompleta, respectivamente — contribuições que, juntas com as de Nash, valeram o Prêmio Nobel de Economia de 1994. Paralelamente, os economistas industriais Antoine-Augustin Cournot (1838), Joseph Bertrand (1883) e Heinrich von Stackelberg (1934) já haviam formulado modelos de oligopólio que, quando reinterpretados pela linguagem da teoria dos jogos, revelaram ser casos especiais do equilíbrio de Nash. A teoria dos jogos revolucionou a microeconomia e se tornou ferramenta indispensável em campos tão diversos quanto organização industrial, economia política, relações internacionais e biologia evolutiva.
Este módulo apresenta os jogos estáticos (simultâneos) com informação completa: todos os jogadores conhecem a estrutura do jogo — payoffs, estratégias disponíveis e número de jogadores — e escolhem suas ações ao mesmo tempo, sem observar as decisões dos demais. O conceito central de solução é o equilíbrio de Nash, e as principais aplicações são os modelos clássicos de oligopólio (Cournot, Bertrand e Stackelberg). Os módulos seguintes (9b–9d) generalizam progressivamente: 9b introduz a dimensão temporal (jogos dinâmicos com informação completa), enquanto 9c e 9d incorporam assimetria de informação — território onde os conceitos deste módulo servem de âncora para refinamentos mais sofisticados.
Estrutura do Capítulo 9
A teoria dos jogos é dividida em quatro módulos, seguindo a taxonomia de Gibbons (1992):
| Módulo | Informação | Timing | Conceito de equilíbrio |
|---|---|---|---|
| 9a (este) | Completa | Estático | Equilíbrio de Nash |
| 9b | Completa | Dinâmico | Equilíbrio Perfeito em Subjogos |
| 9c | Incompleta | Estático | Equilíbrio Bayesiano de Nash |
| 9d | Incompleta | Dinâmico | Equilíbrio Bayesiano Perfeito |
9a.1 As Regras do Tabuleiro: Jogadores, Estratégias e Payoffs¶
Antes de jogar, precisamos aprender as regras. A teoria dos jogos exige uma descrição completa do ambiente: quem joga, o que cada um pode fazer, e o que cada combinação de ações rende para cada jogador. Parece burocrático, mas é libertador — uma vez que o jogo está bem definido, a análise se torna mecânica. Duas representações capturam essa informação: a forma normal (uma tabela, ideal para jogos simultâneos como os deste capítulo) e a forma extensiva (uma árvore, ideal para jogos sequenciais do Módulo 9b).
Jogo na forma normal (ou estratégica)
Um jogo na forma normal é definido pela tripla \(\Gamma = \langle N, (S_i)_{i \in N}, (u_i)_{i \in N} \rangle\), onde:
- \(N = \{1, 2, \ldots, n\}\) é o conjunto finito de jogadores.
- \(S_i\) é o conjunto de estratégias disponíveis para o jogador \(i\). O perfil de estratégias é \(s = (s_1, s_2, \ldots, s_n) \in S = S_1 \times S_2 \times \cdots \times S_n\).
- \(u_i: S \to \mathbb{R}\) é a função de payoff (utilidade) do jogador \(i\), que associa a cada perfil de estratégias um resultado para \(i\).
Jogo na forma extensiva
Um jogo na forma extensiva é representado por uma árvore de decisão que especifica:
- A ordem cronológica das jogadas.
- Os conjuntos de informação de cada jogador (o que cada um sabe quando decide).
- As ações disponíveis em cada nó de decisão.
- Os payoffs nos nós terminais.
- A distribuição de probabilidade nos nós da natureza (se houver).
A forma extensiva é especialmente útil para jogos sequenciais (Módulo 9b) e jogos com informação imperfeita.
Com essas duas representações em mãos, podemos definir os conceitos que serão utilizados ao longo de todo o capítulo. Quais são os ingredientes mínimos que um jogador racional precisa considerar ao tomar uma decisão? A resposta passa pelas noções de estratégia, dominância e melhor resposta. É importante distinguir o conceito de estratégia do conceito de ação: em jogos estáticos as duas noções coincidem, mas em jogos dinâmicos (Módulo 9b) uma estratégia é um plano completo que especifica a ação do jogador em cada nó de decisão — inclusive aqueles que não são alcançados no equilíbrio. Essa distinção, aparentemente pedante, tem consequências profundas para o refinamento de equilíbrios.
🔑 Conceitos auxiliares¶
- Estratégia pura: uma escolha determinística de ação, \(s_i \in S_i\).
- Estratégia mista: uma distribuição de probabilidade sobre as estratégias puras, \(\sigma_i \in \Delta(S_i)\).
- Estratégia dominante: \(s_i^*\) é (estritamente) dominante se \(u_i(s_i^*, s_{-i}) > u_i(s_i, s_{-i})\) para todo \(s_i \neq s_i^*\) e todo \(s_{-i} \in S_{-i}\).
- Estratégia dominada: \(s_i\) é dominada se existe \(s_i'\) tal que \(u_i(s_i', s_{-i}) > u_i(s_i, s_{-i})\) para todo \(s_{-i}\).
- Notação \(s_{-i}\): perfil de estratégias de todos os jogadores exceto \(i\), ou seja, \(s_{-i} = (s_1, \ldots, s_{i-1}, s_{i+1}, \ldots, s_n)\).
Estratégia Dominante
A estratégia \(s_i^* \in S_i\) é estritamente dominante para o jogador \(i\) se, para toda estratégia alternativa \(s_i \in S_i\) com \(s_i \neq s_i^*\) e para todo perfil de estratégias dos demais jogadores \(s_{-i} \in S_{-i}\):
Ou seja, \(s_i^*\) é estritamente ótima independentemente do que os outros jogadores façam. Um jogador racional sempre joga sua estratégia dominante quando ela existe — e, se todos os jogadores têm estratégia dominante, a solução do jogo é trivial.
A estratégia dominante é fracamente dominante se a desigualdade for \(\geq\) (em vez de \(>\)) e estrita em ao menos um perfil \(s_{-i}\).
Eliminação Iterada de Estratégias Dominadas (EIED)¶
A noção de dominância já sugere um primeiro método de solução. Se um jogador racional jamais escolheria uma estratégia estritamente dominada, e se todos sabem que todos são racionais (e que todos sabem que todos são racionais, ad infinitum — a condição de conhecimento comum de racionalidade), então é possível eliminar essas estratégias e simplificar o jogo. Repetindo esse raciocínio — agora no jogo reduzido — chega-se ao procedimento de Eliminação Iterada de Estratégias Estritamente Dominadas (EIED).
Este é um procedimento de solução que não requer o conceito de equilíbrio: elimine, iterativamente, as estratégias estritamente dominadas de cada jogador. O conjunto de estratégias que sobrevive a todas as rodadas de eliminação é o conjunto de estratégias racionalizáveis. Quando a EIED leva a um único perfil de estratégias, dizemos que o jogo é dominância-solucionável — o resultado decorre apenas da hipótese de racionalidade sem necessidade de coordenação de expectativas. O Dilema dos Prisioneiros é o exemplo canônico: trair domina cooperar para ambos os jogadores, e a EIED resolve o jogo em uma única rodada. Nos mercados financeiros, esse raciocínio embasou a crítica de Milgrom e Stokey (1982) ao paradoxo do não-comércio: se os preços de mercado revelam informação, é difícil que ambos os lados de uma transação acreditem, simultaneamente, estar em vantagem.
Ordem de eliminação
Para estratégias estritamente dominadas, o resultado da EIED independe da ordem de eliminação. Para estratégias fracamente dominadas, a ordem pode afetar o conjunto sobrevivente — um resultado frequentemente cobrado em provas da ANPEC.
9a.2 Por Que Mafiosos Confessam: O Dilema dos Prisioneiros¶
Com a linguagem formal estabelecida, podemos agora examinar os jogos que deram forma à teoria. Começamos pelo mais influente de todos — um jogo tão simples que pode ser descrito em uma frase, mas tão profundo que suas implicações permeiam a economia, a ciência política e a biologia.
O Dilema dos Prisioneiros é possivelmente o jogo mais célebre da teoria dos jogos. A história da sua criação é ela mesma fascinante: formulado em 1950 por Merrill Flood e Melvin Dresher no laboratório RAND, e batizado pelo matemático Albert Tucker (orientador de Nash) ao apresentá-lo para uma plateia de psicólogos em Stanford, o Dilema dos Prisioneiros captura, com elegância mínima, a tensão estrutural entre interesse individual e bem coletivo. Dois suspeitos são interrogados separadamente e cada um pode cooperar (ficar calado) ou trair (delatar o outro). A narrativa da prisão é apenas um disfarce: a mesma estrutura de payoffs aparece na corrida armamentista entre países, na concorrência predatória entre firmas, na tragédia dos comuns e na guerra fiscal entre estados brasileiros. É precisamente essa universalidade que torna o Dilema dos Prisioneiros o caso de teste obrigatório para qualquer teoria de comportamento estratégico.
| Jogador 2: Cooperar | Jogador 2: Trair | |
|---|---|---|
| Jogador 1: Cooperar | \((-1, -1)\) | \((-10, 0)\) |
| Jogador 1: Trair | \((0, -10)\) | \((-5, -5)\) |
Tabela 9a.1 — Dilema dos Prisioneiros.
A estrutura de payoffs satisfaz: \(T > R > P > S\) (onde \(T\) = tentação, \(R\) = recompensa mútua, \(P\) = punição, \(S\) = sucker's payoff), com a condição adicional \(2R > T + S\). Essa parametrização não é arbitrária: a desigualdade \(T > R\) garante que trair seja tentador quando o outro coopera; \(R > P\) garante que a cooperação mútua seja preferível à traição mútua; e \(P > S\) garante que ser traído enquanto se coopera é o pior resultado possível. A condição \(2R > T + S\) assegura que a cooperação mútua gera mais valor total do que a alternância entre traição e cooperação.
Cada jogador tem uma estratégia estritamente dominante: Trair. O equilíbrio (Trair, Trair) com payoffs \((-5, -5)\) é o único equilíbrio de Nash, mas é Pareto-dominado pelo resultado (Cooperar, Cooperar) com payoffs \((-1, -1)\). Essa tensão entre racionalidade individual e eficiência coletiva é o cerne do dilema. Vale notar que o resultado (Cooperar, Cooperar), embora superior para ambos, não é um equilíbrio de Nash: cada jogador teria incentivo unilateral para desviar e trair. O equilíbrio de Nash é um ponto de estabilidade — ninguém deseja mover-se sozinho — mas estabilidade não implica eficiência.
Cuidado
Equilíbrio de Nash ≠ resultado ótimo. O Dilema dos Prisioneiros demonstra, de forma definitiva, que o equilíbrio de Nash pode ser Pareto-dominado: existe outro resultado factível em que todos os jogadores estão melhor, mas esse resultado não é sustentável pela racionalidade individual.
Em linguagem econômica: o equilíbrio de Nash é uma condição de estabilidade (ninguém quer desviar unilateralmente), não de eficiência (ninguém poderia estar melhor sem prejudicar alguém). As duas propriedades coincidem em mercados perfeitamente competitivos (Primeiro Teorema do Bem-Estar, Capítulo 7), mas divergem em situações de externalidades, poder de mercado ou interação estratégica. A distinção importa na prática: reguladores como o CADE, ao reprimir cartéis, estão precisamente forçando a transição de um equilíbrio de Nash eficiente para as firmas (conluio) para um equilíbrio menos lucrativo para elas, mas superior do ponto de vista do bem-estar social.
Outros exemplos de EN Pareto-dominados: corrida armamentista entre nações (ambas estariam melhor sem armas, mas nenhuma quer desarmar sozinha), propaganda excessiva em mercados oligopolísticos (anular a publicidade do rival é sempre dominante, mesmo que ambas as firmas preferissem cortar gastos de marketing), e tragédia dos comuns na exploração de recursos pesqueiros.
Intuição Econômica
Em uma frase: No Dilema dos Prisioneiros, cada um faz o melhor para si e o resultado é ruim para todos.
Pense assim: Dois quiosques vizinhos na praia de Copacabana poderiam manter preços altos e lucrar bem. Mas cada um pensa: "se eu baixar o preço, roubo os clientes do vizinho". Ambos baixam, ambos lucram menos — e nenhum consegue voltar atrás sozinho.
Por que isso importa: A guerra fiscal entre estados brasileiros, os cartéis de postos de gasolina e o desmatamento da Amazônia são versões reais desse dilema — situações em que o interesse individual corrói o bem coletivo. A repetição do jogo (Módulo 9b) e o desenho institucional são os mecanismos para escapar da armadilha.
Figura 9a.1 — Matriz de payoffs e equilíbrio de Nash. Edite os payoffs ou selecione um jogo clássico (Dilema dos Prisioneiros, Batalha dos Sexos, Hawk-Dove, Matching Pennies). O solver detecta estratégias dominantes, equilíbrios de Nash em puras e mistas.
O Dilema dos Prisioneiros não é, contudo, o único arquétipo de interação estratégica. Diferentes configurações de payoffs capturam problemas econômicos fundamentalmente distintos — coordenação, anti-coordenação, competição pura. A Tabela 9a.2 sistematiza os jogos clássicos que servirão de referência ao longo dos quatro módulos de teoria dos jogos.
Taxonomia dos Jogos Clássicos¶
| Jogo | Payoffs (genéricos) | EN em puras | EN em mistas | Característica | Aplicação |
|---|---|---|---|---|---|
| Dilema dos Prisioneiros | \(T > R > P > S\); \(2R > T+S\) | (Trair, Trair) — único | — | Dominância estrita; ineficiência | Cartéis, corrida armamentista |
| Batalha dos Sexos | Coordenação com preferências divergentes | (F,F) e (C,C) | Sim — ver Seção 9a.4 | Múltiplos equilíbrios | Padrões tecnológicos |
| Hawk-Dove | \(V>0\), \(C > V\) | (H,D) e (D,H) | \(p_H = V/C\) | Anti-coordenação | Disputas territoriais |
| Coordenação Pura | Payoffs altos na diagonal | (A,A) e (B,B) | Sim (instável) | Seleção de equilíbrio | Convenções sociais |
| Matching Pennies | Soma zero; interesses opostos | Nenhum | \((1/2, 1/2)\) cada | Jogo estritamente competitivo | Estratégias militares, esportes |
Tabela 9a.2 — Taxonomia dos jogos clássicos.
9a.3 Ninguém Quer Mudar: O Equilíbrio de Nash¶
No Dilema dos Prisioneiros, a solução era fácil: trair domina cooperar, aconteça o que acontecer. Mas a maioria dos jogos não é tão generosa. Na Batalha dos Sexos, por exemplo, a melhor ação depende do que o outro jogador faz — não existe "bala de prata". Como prever o resultado quando nenhuma estratégia é obviamente superior?
O equilíbrio de Nash é a ferramenta que generaliza essa lógica: em vez de exigir que uma estratégia ganhe de tudo, exige apenas que cada jogador esteja fazendo o melhor dado o que o outro faz. É menos ambicioso que dominância — e por isso funciona em muito mais jogos.
A resposta de Nash — elegante a ponto de caber numa tese de doutorado de 28 páginas, defendida em Princeton em 1950 sob orientação de Albert Tucker1 — é trocar de pergunta. Em vez de buscar uma estratégia boa contra tudo, buscar estratégias que sejam boas umas contra as outras. O equilíbrio de Nash é um perfil de estratégias que se sustenta a si próprio: se cada jogador acredita que os demais jogarão as estratégias de equilíbrio, então é de fato ótimo para ele jogar sua estratégia de equilíbrio — e a crença se confirma. Essa mudança de perspectiva — de dominância absoluta para consistência mútua — é o salto conceitual que permitiu a Nash generalizar a análise para qualquer jogo.
Essa propriedade de auto-sustentação tem uma leitura econômica poderosa: o equilíbrio de Nash é uma previsão estável de como agentes racionais e informados jogarão. Não é necessário supor que os jogadores se comuniquem ou façam acordos vinculantes — basta que cada um raciocine corretamente sobre o comportamento dos demais. Em mercados financeiros, os preços de ativos tendem a refletir equilíbrios de Nash entre investidores que simultaneamente tentam explorar desvios de preços e, ao fazê-lo, os eliminam. Em leilões (Capítulo 9c), os lances de equilíbrio são funções das informações privadas de cada participante que formam um equilíbrio bayesiano — generalização direta do conceito de Nash.
Antes da definição formal, a intuição: um equilíbrio de Nash é uma situação em que ninguém se arrepende. Cada jogador, ao ver o que os outros fizeram, pensa 'eu não mudaria nada'. Não é o melhor resultado coletivo (o PD mostrou isso), mas é o resultado estável — aquele do qual ninguém desvia sozinho.
Equilíbrio de Nash (estratégias puras)
Um perfil de estratégias \(s^* = (s_1^*, s_2^*, \ldots, s_n^*)\) é um Equilíbrio de Nash se, para todo jogador \(i \in N\):
Em palavras: nenhum jogador pode melhorar unilateralmente seu payoff desviando de \(s_i^*\), dado que os demais jogadores mantêm suas estratégias de equilíbrio.
A definição \(\eqref{eq:9a.1}\) estabelece um conceito de consistência mútua de expectativas (Gibbons, 1992, Cap. 1): se cada jogador espera que os demais joguem suas estratégias de equilíbrio, então é ótimo para ele também jogar sua estratégia de equilíbrio. Ninguém tem incentivo para desviar unilateralmente.
Intuição Econômica
O equilíbrio de Nash como "ausência de arrependimento" (no-regret).
Uma forma intuitiva e memorável de entender o equilíbrio de Nash: um perfil de estratégias \(s^*\) é um equilíbrio de Nash se e somente se nenhum jogador, ao revelar o que os outros fizeram, deseja ter escolhido diferente. Depois de ver as ações de todos os demais, cada jogador confirma: "Dada a escolha dos outros, eu não poderia ter feito melhor."
Isso distingue o equilíbrio de Nash de um resultado ex ante ótimo (que seria o ótimo de Pareto) e de uma estratégia dominante (que é ótima contra qualquer coisa). O Nash é o ponto onde expectativas e ações se alinham retroativamente — um estado de consistência epistêmica.
Cuidado com a interpretação causal. O equilíbrio de Nash não diz que os jogadores chegam a esse ponto por algum processo de aprendizado. Ele descreve o que acontece se os jogadores têm expectativas corretas sobre as ações dos demais. Como chegam a ter essas expectativas é questão separada — respondida pelos modelos de aprendizado em jogos (fictitious play, best-response dynamics) que vão além do escopo deste módulo.
🏅 Prêmio Nobel — John Nash, John Harsanyi e Reinhard Selten (1994)
John Forbes Nash Jr. (1928–2015) foi um matemático americano, PhD em Princeton, onde formulou o conceito de equilíbrio que leva seu nome. John Charles Harsanyi (1920–2000) foi um economista húngaro-americano, PhD em Stanford, professor em Berkeley. Reinhard Selten (1930–2016) foi um economista alemão, PhD em Frankfurt, professor em Bonn.
Por que ganharam o Nobel: Premiados por sua análise pioneira de equilíbrios em jogos não cooperativos. Nash demonstrou a existência de pelo menos um equilíbrio em estratégias mistas para todo jogo finito (1950). Harsanyi estendeu a teoria para jogos com informação incompleta, introduzindo o equilíbrio bayesiano (1967–68). Selten refinou o conceito para jogos dinâmicos com o equilíbrio perfeito em subjogos (1965).
Conexão com este capítulo: O equilíbrio de Nash — perfil de estratégias em que nenhum jogador pode melhorar unilateralmente — é o conceito central deste capítulo. Toda a análise de jogos estáticos com informação completa se organiza em torno da identificação e interpretação desses equilíbrios.
Intuição Econômica
Em uma frase: No equilíbrio de Nash, ninguém se arrepende da própria escolha depois de ver o que os outros fizeram.
Pense assim: Pense no trânsito de São Paulo: se todo mundo usa o Waze e escolhe a rota mais rápida, nenhum motorista individual consegue melhorar seu tempo mudando de caminho — porque todas as alternativas já estão igualmente congestionadas. Isso é um equilíbrio de Nash do trânsito (e uma versão do paradoxo de Braess).
Por que isso importa: O conceito de equilíbrio de Nash é a pedra angular da regulação de mercados, do desenho de leilões (como os de espectro da Anatel) e da política antitruste do CADE. Se quiser prever como firmas se comportarão, procure o Nash.
O que Nash não garante: O equilíbrio de Nash não implica eficiência (o Dilema dos Prisioneiros mostra isso), nem unicidade (a Batalha dos Sexos tem três equilíbrios), nem que os jogadores o encontrem de fato. É um conceito de consistência, não de otimalidade.
Para fixar o conceito, vejamos como o equilíbrio de Nash se manifesta em jogos com estruturas distintas. A diferença entre o Dilema dos Prisioneiros (equilíbrio único e ineficiente) e a Batalha dos Sexos (múltiplos equilíbrios e problema de coordenação) ilustra que o conceito de Nash é versátil, mas nem sempre oferece uma previsão única. O procedimento prático para encontrar equilíbrios de Nash em estratégias puras em um jogo finito é direto: para cada perfil de estratégias \((s_i, s_{-i})\), verifique se nenhum jogador pode aumentar seu payoff mudando unilateralmente sua estratégia. Em uma matriz 2×2, isso equivale a marcar a melhor resposta de cada jogador para cada estratégia do oponente (sublinhando o maior payoff em cada coluna para J1 e em cada linha para J2) — as células em que ambos os payoffs estão sublinhados são os equilíbrios de Nash.
Exemplos clássicos¶
Batalha dos Sexos (BoS)
Dois parceiros querem sair juntos, mas um prefere futebol (F) e o outro prefere cinema (C).
| Jogador 2: F | Jogador 2: C | |
|---|---|---|
| Jogador 1: F | \((3, 1)\) | \((0, 0)\) |
| Jogador 1: C | \((0, 0)\) | \((1, 3)\) |
Tabela 9a.3 — Batalha dos Sexos.
Existem dois equilíbrios de Nash em estratégias puras: \((F, F)\) e \((C, C)\), e um em estratégias mistas (derivado na Seção 9a.4). O jogo ilustra o problema de coordenação quando existem múltiplos equilíbrios. Diferentemente do Dilema dos Prisioneiros, aqui não há conflito entre racionalidade individual e eficiência coletiva — ambos os equilíbrios em puras são Pareto-eficientes. O problema é outro: como os jogadores se coordenam em um dos equilíbrios sem comunicação prévia? É nesse contexto que os "pontos focais" de Schelling (1960) — soluções que se destacam por saliência cultural, histórica ou contextual — desempenham papel crucial.
Hawk-Dove (Falcão-Pomba)
Dois animais (ou firmas) disputam um recurso de valor \(V\). Cada um pode ser agressivo (Hawk, H) ou passivo (Dove, D).
| Jogador 2: H | Jogador 2: D | |
|---|---|---|
| Jogador 1: H | \(\left(\frac{V-C}{2}, \frac{V-C}{2}\right)\) | \((V, 0)\) |
| Jogador 1: D | \((0, V)\) | \(\left(\frac{V}{2}, \frac{V}{2}\right)\) |
Tabela 9a.4 — Hawk-Dove (Falcão-Pomba).
Quando \(C > V\) (custo do conflito excede o valor do recurso), existem dois equilíbrios em puras — \((H, D)\) e \((D, H)\) — e um em mistas. Note que, diferentemente da Batalha dos Sexos, o Hawk-Dove é um jogo de anti-coordenação: os equilíbrios em puras envolvem jogadores fazendo escolhas diferentes (um agressivo, outro passivo). Em mercados, essa estrutura aparece quando firmas segmentam nichos para evitar concorrência destrutiva. A versão biológica desse jogo (Maynard Smith e Price, 1973) está na origem da teoria dos jogos evolutiva, que estuda como populações de agentes convergem para padrões estáveis de comportamento sem assumir racionalidade individual.
9a.4 O Blefe Calculado: Estratégias Mistas¶
Alguns jogos simplesmente não têm equilíbrio — se os jogadores são obrigados a escolher uma ação fixa. No Matching Pennies, qualquer escolha determinística é explorada pelo adversário. Parece um beco sem saída. A solução de Nash: jogar cara ou coroa — literalmente. Se você randomiza entre suas ações com as probabilidades certas, o adversário não consegue explorar sua estratégia. E Nash provou algo impressionante: todo jogo finito tem equilíbrio, se permitirmos aleatorização. Essa é a ideia de estratégia mista — e ela transforma jogos aparentemente sem solução em jogos com solução garantida.
Estratégia mista
Uma estratégia mista para o jogador \(i\) é uma distribuição de probabilidade \(\sigma_i \in \Delta(S_i)\) sobre o conjunto de estratégias puras \(S_i\). Se \(S_i = \{s_i^1, s_i^2, \ldots, s_i^{m_i}\}\), então:
O payoff esperado do jogador \(i\) sob o perfil de estratégias mistas \(\sigma = (\sigma_1, \ldots, \sigma_n)\) é:
Princípio da indiferença¶
Como encontrar as probabilidades de equilíbrio? A chave é um resultado que, à primeira vista, parece contra-intuitivo: em equilíbrio misto, cada jogador escolhe suas probabilidades não para maximizar seu próprio payoff, mas de forma a tornar o oponente indiferente entre suas opções. Afinal, se o oponente não fosse indiferente, ele escolheria uma ação com certeza — e não randomizaria.
Em um equilíbrio em estratégias mistas, cada jogador randomiza de tal forma que os outros jogadores ficam indiferentes entre as estratégias puras que recebem probabilidade positiva. Formalmente, se \(\sigma_i^*\) atribui probabilidade positiva a \(s_i^k\), então:
Intuição Econômica
Em uma frase: Jogar de forma imprevisível pode ser a melhor estratégia quando qualquer padrão fixo seria explorado pelo adversário.
Pense assim: Um cobrador de pênaltis que sempre chuta no mesmo canto será facilmente defendido. Por isso, os melhores batedores variam entre esquerda, direita e centro de forma quase aleatória — e a proporção ideal é exatamente aquela que deixa o goleiro indiferente entre os lados. Chiappori, Levitt e Groseclose (2002) confirmaram isso empiricamente com dados de cobranças de pênaltis na Série A italiana e na liga francesa.
Por que isso importa: Estratégias mistas aparecem em fiscalizações da Receita Federal (auditar aleatoriamente para que ninguém saiba se será fiscalizado), em blitz de trânsito — a imprevisibilidade é o que gera o efeito dissuasório — e em licitações onde o lance ótimo envolve randomização.
Cálculo de equilíbrio misto: Batalha dos Sexos
Na Batalha dos Sexos, suponha que o jogador 1 joga F com probabilidade \(p\) e C com probabilidade \(1-p\), enquanto o jogador 2 joga F com probabilidade \(q\) e C com probabilidade \(1-q\).
Para o jogador 2 ser indiferente:
Para o jogador 1 ser indiferente:
Logo, o equilíbrio em estratégias mistas é \(\sigma_1 = (3/4, 1/4)\), \(\sigma_2 = (1/4, 3/4)\). O payoff esperado de cada jogador é \(3/4\), inferior ao payoff em qualquer dos dois equilíbrios puros — a incerteza sobre a coordenação é custosa.
Figura 9a.2 — Equilíbrio em estratégias mistas. Para um jogo 2×2, os gráficos mostram o payoff esperado de cada jogador em função da probabilidade de mistura do oponente. O ponto de interseção determina a probabilidade de equilíbrio (princípio da indiferença). Edite os payoffs e selecione jogos predefinidos.
Existência de Equilíbrio (Teorema de Nash)¶
O exemplo da Batalha dos Sexos ilustra como calcular o equilíbrio misto em um jogo específico. Mas será que todo jogo finito possui ao menos um equilíbrio? A resposta afirmativa — o Teorema de Nash — é um dos resultados mais importantes da matemática aplicada do século XX. Sua demonstração utiliza o Teorema do Ponto Fixo de Kakutani e, embora a apresentação formal possa parecer abstrata, a intuição geométrica é elegante: as correspondências de melhor resposta dos jogadores devem necessariamente se "cruzar" em algum ponto.
Teorema de Nash (1950)
Todo jogo finito (número finito de jogadores e de estratégias puras para cada jogador) possui pelo menos um equilíbrio de Nash em estratégias mistas.2
Demonstração: Existência de equilíbrio de Nash (caso 2×2)
Objetivo: Demonstrar a existência de equilíbrio de Nash em estratégias mistas para um jogo com dois jogadores, cada um com duas estratégias puras.
Considere um jogo \(2 \times 2\) com jogadores 1 e 2, cada um com estratégias \(\{A, B\}\). O jogador 1 escolhe \(A\) com probabilidade \(p \in [0,1]\) e o jogador 2 escolhe \(A\) com probabilidade \(q \in [0,1]\).
Passo 1 — Funções de melhor resposta.
O payoff esperado do jogador 1 é linear em \(p\) (para \(q\) fixo):
A melhor resposta do jogador 1 é:
Passo 2 — Propriedades das correspondências de melhor resposta.
Para cada jogador \(i\), \(BR_i: [0,1] \rightrightarrows [0,1]\) satisfaz: (i) valores não vazios; (ii) valores convexos (intervalos fechados); (iii) gráfico fechado (semicontinuidade superior).
Passo 3 — Teorema do Ponto Fixo de Kakutani.
A correspondência conjunta \(BR(p, q) = BR_1(q) \times BR_2(p)\) mapeia o compacto convexo \([0,1]^2\) em si mesmo com valores não vazios, convexos e gráfico fechado. Pelo Teorema de Kakutani, existe \((p^*, q^*)\) tal que \(p^* \in BR_1(q^*)\) e \(q^* \in BR_2(p^*)\) — um equilíbrio de Nash. \(\blacksquare\)
Caso geral
A demonstração para \(n\) jogadores e \(m\) estratégias segue a mesma lógica, aplicando Kakutani no simplexo \(\Delta(S_1) \times \cdots \times \Delta(S_n)\).
Box Mundo 9a.2 — Pênaltis, saques e o equilíbrio misto no esporte profissional
Contexto: Cobranças de pênaltis no futebol e saques no tênis são laboratórios naturais para o equilíbrio em estratégias mistas. Em ambos os casos, dois jogadores fazem escolhas essencialmente simultâneas (o cobrador escolhe o lado e o goleiro mergulha; o sacador escolhe a direção e o receptor se posiciona), o jogo é de soma zero e qualquer padrão previsível seria explorado pelo adversário. A teoria prevê que, em equilíbrio, cada jogador randomiza de modo a tornar o oponente indiferente entre suas opções — e que as taxas de sucesso devem ser iguais entre as direções escolhidas.
Dados: Palacios-Huerta (2003), em estudo seminal publicado na Review of Economic Studies, analisou 1.417 cobranças de pênaltis em ligas profissionais europeias (1995–2000). Os resultados são notavelmente consistentes com o equilíbrio em estratégias mistas: (i) as taxas de sucesso dos cobradores não diferiam significativamente entre chutar à esquerda e à direita do goleiro (~63% em ambos os lados); (ii) não havia correlação serial nas escolhas — cada cobrança era estatisticamente independente das anteriores; (iii) jogadores individuais variavam suas escolhas com frequências próximas às previstas pelo equilíbrio. Walker e Wooders (2001), analisando 10 temporadas de partidas de tênis de Grand Slam, encontraram padrão análogo nos saques: os melhores sacadores distribuíam seus saques entre forehand e backhand do receptor em proporções que igualavam a probabilidade de ganhar o ponto em ambas as direções. Chiappori, Levitt e Groseclose (2002), usando dados da Série A italiana e da liga francesa, confirmaram independentemente os resultados de Palacios-Huerta.
Análise: Esses resultados são relevantes porque testam uma das previsões mais específicas — e aparentemente implausíveis — da teoria dos jogos: que agentes reais, em ambientes de alta pressão e com milhões em jogo, se comportam como se resolvessem o sistema de equações do princípio da indiferença (Equação 9a.3). A convergência para o equilíbrio misto não exige que os jogadores façam cálculos conscientes — basta que, ao longo de repetidas interações, a seleção competitiva elimine padrões exploráveis. É a mesma lógica do como se friedmaniano aplicada a um contexto observável em tempo real.
Para refletir: Se um cobrador de pênaltis tem o pé esquerdo mais forte, como isso altera as probabilidades de equilíbrio? (Dica: ele chutará mais vezes para o lado natural — mas não exclusivamente, pois isso o tornaria previsível.)
Fonte: Palacios-Huerta, Ignacio (2003). "Professionals Play Minimax." Review of Economic Studies, 70(2), 395–415. Walker, Mark e Wooders, John (2001). "Minimax Play at Wimbledon." American Economic Review, 91(5), 1521–1538. Chiappori, Pierre-André; Levitt, Steven e Groseclose, Tim (2002). "Testing Mixed-Strategy Equilibria When Players Are Heterogeneous: The Case of Penalty Kicks in Soccer." American Economic Review, 92(4), 1138–1151.
Misturar é racional — pergunte a qualquer cobrador de pênaltis. Se ele sempre chuta no mesmo canto, o goleiro aprende. Se randomiza, o goleiro vira loteria. O equilíbrio misto formaliza exatamente essa intuição: quando previsibilidade é punida, imprevisibilidade é ótima.
9a.5 Quanto Produzir Quando o Rival Está Olhando: Cournot e Oligopólio¶
Até agora, os jogos tinham botões: "cooperar ou trair", "futebol ou cinema". Clique numa opção, fim. Mas a Ambev não escolhe entre "produzir" e "não produzir" — ela escolhe quantos milhões de litros produzir. E o iFood não escolhe entre "cobrar caro" e "cobrar barato" — ele fixa um preço exato. Os jogos economicamente mais importantes têm estratégias contínuas: números reais, não botões. E os três modelos clássicos de oligopólio — Cournot (quantidades), Bertrand (preços) e Stackelberg (líder-seguidor) — são os exemplos paradigmáticos.
O conceito de oligopólio remonta, pelo menos, a Cournot (1838), que analisou a competição entre duas firmas que extraem água de um poço mineral — o duopólio de Cournot. Cinquenta anos depois, o matemático Joseph Bertrand (1883) publicou uma resenha do trabalho de Cournot sugerindo que, se as firmas competem em preços em vez de quantidades, o resultado é radicalmente diferente: o preço cai para o custo marginal mesmo com apenas dois concorrentes. O debate Cournot-Bertrand — mesma estrutura de mercado, variável estratégica diferente, resultados opostos — é um dos mais frutíferos da história do pensamento econômico e continua relevante para a análise antitruste moderna. Stackelberg (1934) acrescentou a dimensão da sequencialidade: o que acontece se uma firma é líder e move antes das demais? O resultado, como veremos, depende crucialmente da capacidade de comprometimento crível — tema que será aprofundado no Módulo 9b com o conceito de equilíbrio perfeito em subjogos.
A pergunta central desta seção é: como a forma da competição (preço vs. quantidade) e a ordem do movimento (simultâneo vs. sequencial) afetam o resultado de mercado? Extensões desses modelos — diferenciação de produto, colusão tácita, dissuasão de entrada, fusões e regulação — são tratadas no Capítulo 16.
Competição de Cournot: quanto produzir quando o vizinho também está produzindo¶
Começamos pelo modelo mais antigo e, em muitos sentidos, mais intuitivo de oligopólio. No modelo de Cournot (1838), cada firma decide quanto produzir, e o preço de mercado se ajusta para equilibrar a oferta total com a demanda. A variável estratégica é a quantidade, e o jogo é simultâneo: nenhuma firma observa a decisão da outra antes de se comprometer com sua produção.
Duas firmas escolhem simultaneamente as quantidades \(q_1, q_2 \geq 0\). A demanda inversa é \(P(Q) = a - bQ\), onde \(Q = q_1 + q_2\), e o custo marginal é constante e igual a \(c\) para ambas as firmas.
O lucro da firma \(i\) é:
Observe que o lucro de cada firma depende não apenas da própria quantidade, mas também da quantidade produzida pela rival — a interdependência estratégica que motiva toda a teoria dos jogos. Cada firma maximiza seu lucro tomando como dada a quantidade da outra, o que gera a seguinte condição de primeira ordem e a correspondente função de melhor-resposta (melhor resposta):
A função de melhor-resposta é decrescente: quanto mais a rival produz, menos é ótimo para a firma produzir. Em linguagem estratégica, as quantidades são substitutos estratégicos — o aumento da ação de um jogador reduz a melhor resposta do outro. O equilíbrio de Nash (Cournot-Nash) é obtido pela interseção das funções de melhor-resposta:
O lucro de cada firma no equilíbrio é:
Extensão: \(N\) firmas simétricas. Com \(N\) firmas idênticas, o equilíbrio de Cournot é:
Pela equação \(\eqref{eq:9a.8}\), quando \(N \to \infty\), \(P^* \to c\): o resultado converge para competição perfeita. Esse resultado é notável: ele conecta a teoria dos jogos à teoria clássica de mercados competitivos, mostrando que a competição perfeita é o caso limite de um oligopólio de Cournot quando o número de firmas cresce indefinidamente.
Extensão: Custos assimétricos. Com custos marginais \(c_1 \neq c_2\):
Comparando com o equilíbrio simétrico \(\eqref{eq:9a.6}\), a firma com menor custo produz mais e obtém lucro maior. Esse resultado tem implicação direta para a análise de fusões: se uma fusão reduz custos (gera eficiências), a firma resultante aumenta sua produção e pode até reduzir o preço de mercado. O CADE precisa ponderar esse efeito de eficiência contra o aumento de poder de mercado.
Competição de Bertrand: o paradoxo de que dois é multidão¶
O que acontece quando as firmas competem em preços em vez de quantidades? A resposta, surpreendente e provocadora, é conhecida como o paradoxo de Bertrand: bastam duas firmas para que o preço caia até o custo marginal, eliminando completamente os lucros econômicos. A mudança da variável estratégica — de quantidade para preço — transforma radicalmente a natureza da competição.
Duas firmas com produtos homogêneos e custo marginal constante \(c\) escolhem simultaneamente os preços \(p_1, p_2\). Os consumidores compram da firma com menor preço.
O paradoxo de Bertrand: o único equilíbrio de Nash é \(p_1^* = p_2^* = c\), com lucro zero para ambas as firmas — mesmo com apenas dois concorrentes, o resultado é competitivo. Por que isso é paradoxal? Porque contradiz a intuição de que um mercado com apenas duas firmas deveria gerar lucros oligopolísticos substanciais. A razão é a extrema sensibilidade da demanda: com produtos perfeitamente homogêneos, uma diferença infinitesimal de preço desloca toda a demanda para a firma mais barata. Essa "competição à navalha" força ambas as firmas ao custo marginal — um resultado idêntico ao de competição perfeita com infinitas firmas.
Intuição Econômica
Em uma frase: A variável estratégica da firma — preço ou quantidade — determina radicalmente o equilíbrio do mercado.
Pense assim: Imagine duas padarias vizinhas no mesmo bairro. Se cada uma decide quantos pães assar de manhã (capacidade), estamos no mundo de Cournot: a produção é decidida antes, e o preço se ajusta pela demanda. Se cada uma decide o preço na vitrine a cada hora (e pode atender toda a demanda), estamos no mundo de Bertrand: qualquer diferença de preço desvia todos os clientes.
Quando usar cada modelo:
- Cournot é mais apropriado quando a capacidade é comprometida antes da competição em preços — petróleo, aço, companhias aéreas em rotas com slots limitados.
- Bertrand é mais apropriado quando os preços são flexíveis e a capacidade não é restrição — varejo online, serviços digitais, telecomunicações.
- Bertrand com diferenciação (produtos não homogêneos) elimina o paradoxo e gera lucros positivos — a maioria dos mercados reais.
Por que isso importa para o Brasil: O CADE precisa escolher o modelo correto ao simular fusões. Na aviação (Cournot por slots), fusões têm efeito grande sobre preços; no varejo online (Bertrand com diferenciação), o efeito pode ser menor.
Intuição Econômica
Cournot vs. Bertrand: mesma estrutura de mercado, resultados opostos.
Considere dois mercados com exatamente duas firmas e produtos homogêneos. Em Cournot, o preço de equilíbrio é \(P^C = (a + 2c)/3\), com margens positivas para as firmas. Em Bertrand, \(P^B = c\) — margem zero. A única diferença é a variável estratégica escolhida: quantidade ou preço.
Esse resultado — às vezes chamado de paradoxo de Bertrand — captura algo profundo sobre como a natureza da competição é tão importante quanto o número de concorrentes. Dois concorrentes podem gerar resultado competitivo (Bertrand com produtos homogêneos) ou resultado quase monopolístico (Cournot com poucas firmas).
A resolução do paradoxo em contextos reais vem de três fontes: (i) restrições de capacidade — se cada firma não consegue atender toda a demanda sozinha, a competição Bertrand não leva mais ao custo marginal (resultado de Edgeworth-Kreps-Scheinkman); (ii) diferenciação de produto — com bens substitutos imperfeitos, os clientes não migram instantaneamente para o fornecedor mais barato, restaurando margens positivas; (iii) custos de mudança — lealdade do cliente e custos de troca (switching costs) tornam a demanda menos sensível a pequenas diferenças de preço. Nos mercados reais, os três fatores coexistem — e o julgamento de qual modelo é mais adequado é central para a análise antitruste.
Figura 9a.3 — Funções de melhor-resposta de Cournot. Ajuste os parâmetros de demanda (\(a\), \(b\)) e os custos marginais (\(c_1\), \(c_2\)). O equilíbrio de Nash é a interseção. Clique em "Animar convergência" para visualizar a dinâmica de melhores respostas alternadas.
Competição de Stackelberg: a vantagem de jogar primeiro¶
Os modelos de Cournot e Bertrand pressupõem decisões simultâneas. Mas em muitos mercados, uma firma estabelecida — por tamanho, reputação ou capacidade instalada — age como líder, tomando sua decisão antes das concorrentes. Existe vantagem em mover primeiro? E como a seguidora deve reagir? O modelo de Stackelberg (1934) responde a essas perguntas, introduzindo a dimensão temporal na competição por quantidades.
Por que Stackelberg está neste módulo?
Stackelberg é, rigorosamente, um jogo sequencial — e portanto pertenceria ao Módulo 9b. Apresentamo-lo aqui por uma razão pedagógica: a comparação direta com Cournot e Bertrand (mesma estrutura de mercado, variável diferente) é mais iluminadora do que tratá-lo isoladamente. O leitor deve saber, porém, que a justificativa formal para o resultado de Stackelberg — a indução retroativa e o equilíbrio perfeito em subjogos — será desenvolvida no Módulo 9b (Seção 9b.1). Em particular, a "vantagem do primeiro movimento" só existe porque a líder se compromete credivelmente com uma quantidade; se pudesse mudar de ideia, o resultado voltaria a ser Cournot. A credibilidade desse comprometimento é o tema central do próximo módulo.
No modelo de Stackelberg, a firma 1 (líder) escolhe \(q_1\) primeiro, e a firma 2 (seguidora) observa \(q_1\) e escolhe \(q_2\). A solução é por indução retroativa (conceito formalizado no Módulo 9b, Seção 9b.1).
Passo 1 — Seguidora. Dado \(q_1\), a firma 2 maximiza \(\pi_2\):
Passo 2 — Líder. A firma 1 antecipa a reação da firma 2 e maximiza:
A CPO gera (para \(c_1 = c_2 = c\)):
A Tabela 9a.5 compara Cournot, Stackelberg, monopólio e competição perfeita:
| Modelo | \(Q\) total | Preço \(P\) | \(\pi_{\text{líder}}\) | \(\pi_{\text{seguidora}}\) |
|---|---|---|---|---|
| Monopólio | \(\frac{a-c}{2b}\) | \(\frac{a+c}{2}\) | \(\frac{(a-c)^2}{4b}\) | — |
| Stackelberg | \(\frac{3(a-c)}{4b}\) | \(\frac{a+3c}{4}\) | \(\frac{(a-c)^2}{8b}\) | \(\frac{(a-c)^2}{16b}\) |
| Cournot | \(\frac{2(a-c)}{3b}\) | \(\frac{a+2c}{3}\) | \(\frac{(a-c)^2}{9b}\) | \(\frac{(a-c)^2}{9b}\) |
| Comp. Perfeita | \(\frac{a-c}{b}\) | \(c\) | 0 | 0 |
Tabela 9a.5 — Comparação Cournot, Stackelberg, monopólio e competição perfeita.
A líder em Stackelberg produz mais e lucra mais que em Cournot. A seguidora produz menos e lucra menos. A quantidade total é maior e o preço é menor — o consumidor prefere Stackelberg a Cournot. Em termos econômicos, a tabela revela uma hierarquia clara de bem-estar do consumidor: competição perfeita > Stackelberg > Cournot > Monopólio. Quanto mais intensa a competição — seja pelo número de firmas ou pela estrutura do jogo — mais o excedente é transferido dos produtores para os consumidores.
Vantagem do primeiro movimento
A vantagem da líder em Stackelberg vem do comprometimento crível com uma quantidade alta. Se a líder pudesse mudar de ideia depois de observar \(q_2\), o resultado voltaria a ser Cournot. O comprometimento (ex: investimento irreversível em capacidade) é o que confere poder à líder.
Figura 9a.4 — Stackelberg vs Cournot. A isoprofit da líder tangencia a função de melhor-resposta da seguidora no ponto de Stackelberg. Compare com o equilíbrio de Cournot (interseção das funções de melhor-resposta). Altere os custos para ver o efeito de assimetrias.
Box Brasil — CADE, fusões e o mercado de cervejas: Ambev, Heineken e Petrópolis
O mercado brasileiro de cervejas é um dos mais concentrados do mundo e ilustra com precisão como os modelos de Cournot, Bertrand e Stackelberg se articulam com a análise antitruste do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Estrutura do mercado
O mercado de cervejas no Brasil é dominado por três grupos:
| Grupo | Principais marcas | Market share estimado (2024) |
|---|---|---|
| Ambev (InBev) | Skol, Brahma, Antarctica, Bohemia, Corona | ~45% |
| Heineken Brasil | Heineken, Kaiser, Amstel, Sol | ~20% |
| Petrópolis | Itaipava, Crystal, TNT, Black Princess | ~11% |
| Outros | Backer, Cervas artesanais, importadas | ~24% |
Os três maiores grupos acumulam cerca de 76% do mercado, configurando um oligopólio altamente concentrado — com HHI (Índice Herfindahl-Hirschman) estimado acima de 2.500, bem acima do limiar de 1.500 adotado pelo CADE como sinal de concentração elevada.
Modelos de oligopólio aplicados ao setor
A Ambev, como líder histórica de mercado e de custo mais baixo (economias de escala na produção e logística), opera frequentemente como líder de Stackelberg: define volumes de produção e promoções com antecedência, e os demais ajustam suas estratégias. Em episódios de guerra de preços — como a disputa pelo mercado popular (cervejas abaixo de R$ 3,00 a lata) —, o mercado se aproxima do modelo de Bertrand com diferenciação: marcas são substitutos imperfeitos, e a migração de consumidores entre marcas depende de preço, disponibilidade no PDV e identidade de marca.
Análise do CADE: o caso Heineken/Brasil Kirin (2017)
Em 2017, o CADE analisou a aquisição da Brasil Kirin (Schincariol/Devassa) pela Heineken. Usando simulação de fusão baseada em modelo de Bertrand com diferenciação, o CADE estimou os efeitos sobre preços e market share. O órgão aprovou a operação com restrições: a Heineken foi obrigada a vender a marca Devassa para evitar concentração excessiva em cervejas populares no Nordeste — região em que as marcas eram substitutos mais próximos.
Lição teórica: A escolha do modelo de oligopólio (Cournot vs. Bertrand vs. Stackelberg) não é indiferente para a análise antitruste. O método GUPPI (Gross Upward Pricing Pressure Index), padrão internacional em análise de fusões horizontais, é derivado diretamente de um modelo de Bertrand com diferenciação — e o CADE passou a adotá-lo sistematicamente a partir do Guia para Análise de Atos de Concentração Horizontal (2016).
Fonte: CADE, Ato de Concentração nº 08700.001642/2017-05 (Heineken/Brasil Kirin); CADE, Guia para Análise de Atos de Concentração Horizontal (2016).
Box Mundo 9a.1 — A OPEP como jogo repetido: cartéis, cotas e traição endêmica
Contexto: A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), fundada em 1960, é o cartel mais visível e longevo da economia mundial. Seus membros — incluindo Arábia Saudita, Iraque, Irã, Kuwait, Venezuela e, desde 2016, aliados como a Rússia no formato OPEP+ — controlam aproximadamente 40% da produção mundial de petróleo e detêm cerca de 80% das reservas provadas convencionais. O problema central da OPEP é um dilema dos prisioneiros em escala geopolítica: cada membro se beneficia individualmente ao produzir acima de sua cota (capturando receita extra a preços elevados sustentados pelos demais), mas se todos trapaceiam, a oferta excedente derruba o preço e todos perdem. A estrutura de payoffs satisfaz exatamente a condição \(T > R > P > S\) do Dilema dos Prisioneiros: trair a cota é a estratégia dominante de curto prazo, mas a traição mútua gera o pior resultado coletivo.
A história da OPEP é, na prática, uma sequência de ciclos cooperação-traição-punição prevista pela teoria de jogos repetidos (Módulo 9b). A Arábia Saudita frequentemente desempenha o papel de swing producer — absorvendo cortes de produção para sustentar o preço, enquanto membros menores excedem suas cotas. Essa assimetria de custos e capacidade ociosa confere à Arábia Saudita uma posição análoga ao líder de Stackelberg: ela define o "tom" da produção e os demais reagem. Quando a traição se torna insustentável, episódios de punição coletiva — como a guerra de preços de 1985–86, a decisão de não cortar produção em 2014–16 e a breve guerra de preços saudita-russa de março de 2020 — restauram temporariamente a disciplina.
Dados: Alhajji e Huettner (2000), analisando dados de produção da OPEP entre 1973 e 1998, estimaram que os membros excederam suas cotas em média 10–20% ao longo do período, com picos de até 30% em períodos de baixa fiscalização interna. Smith (2005) mostrou que o grau de cumprimento das cotas é positivamente correlacionado com o preço do petróleo (quando o preço está alto, o incentivo para trair é maior, mas o custo da punição também) e negativamente correlacionado com o número de membros efetivos — confirmando a previsão teórica de que cartéis maiores são mais difíceis de sustentar. Estudos mais recentes de Colgan (2014) documentaram que, entre 1980 e 2009, os membros da OPEP cumpriram integralmente suas cotas em apenas cerca de 40% dos trimestres observados.
No acordo OPEP+ de abril de 2020 — o maior corte coordenado da história (9,7 milhões de barris/dia) —, o monitoramento foi reforçado por um comitê ministerial conjunto, mas Iraque e Nigéria consistentemente excederam suas cotas em 2020–2022, enquanto a Arábia Saudita fez cortes voluntários adicionais para compensar. Em 2024–2025, com a transição energética reduzindo a demanda projetada de longo prazo, a coesão do cartel enfrenta pressão estrutural: o fator de desconto efetivo \(\delta\) dos membros diminui à medida que o horizonte de relevância do petróleo encurta.
Análise: A OPEP ilustra com precisão os modelos de oligopólio e jogos repetidos deste capítulo. A competição por cotas é um jogo de Cournot (firmas escolhem quantidades), e o equilíbrio não cooperativo de Nash-Cournot — em que cada membro produz sua quantidade de melhor resposta — gera preços substancialmente abaixo do nível de cartel. A cooperação (cotas restritivas) é sustentável como equilíbrio de jogo repetido apenas quando \(\delta \geq \delta^* = (T-R)/(T-P)\), condição que depende da paciência dos membros, da capacidade de monitoramento e do número de participantes. A persistência da traição endêmica confirma que a condição de sustentabilidade é frequentemente violada na prática — seja por heterogeneidade de interesses (países com necessidades fiscais urgentes, como Venezuela e Irã sob sanções, têm \(\delta\) efetivamente baixo), seja pela dificuldade de monitoramento preciso da produção real. A OPEP é, simultaneamente, o melhor exemplo de um cartel que funciona parcialmente e a confirmação empírica de que a cooperação plena em dilemas dos prisioneiros é extraordinariamente difícil.
Fonte: Alhajji, A. F. e Huettner, D. (2000). "OPEC and Other Commodity Cartels: A Comparison." Energy Policy, 28(15), 1151–1164. Smith, James L. (2005). "Inscrutable OPEC? Behavioral Tests of the Cartel Hypothesis." The Energy Journal, 26(1), 51–82. Colgan, Jeff D. (2014). "The Emperor Has No Clothes: The Limits of OPEC in the Global Oil Market." International Organization, 68(3), 599–632.
Box Mundo 9a.3 — Leilões de espectro de telecomunicações: bilhões em jogo na teoria dos jogos
Contexto: Os leilões de espectro eletromagnético para telecomunicações (3G, 4G, 5G) são uma das aplicações mais espetaculares — e lucrativas — da teoria dos jogos ao desenho de políticas públicas. Governos ao redor do mundo vendem licenças de uso de faixas de frequência para operadoras de telecomunicações, e o formato do leilão determina não apenas a receita arrecadada, mas também a eficiência alocativa (se as frequências vão para as empresas que mais as valorizam) e a estrutura de mercado resultante. Os economistas Paul Milgrom e Robert Wilson, laureados com o Nobel de Economia em 2020, revolucionaram esse campo ao desenvolver a teoria de leilões com múltiplos itens interdependentes e ao projetar o Simultaneous Multiple Round Auction (SMRA), adotado pela FCC americana em 1994.
Dados: O leilão da FCC de 1994 (Broadband PCS) arrecadou US$ 7,7 bilhões — na época, o maior leilão da história. O leilão britânico de 3G em 2000, desenhado pelo economista Ken Binmore com base na teoria de jogos, arrecadou £22,5 bilhões (cerca de 2,5% do PIB do Reino Unido), superando todas as expectativas. Em contraste, o leilão de 3G da Holanda em 2000 arrecadou uma fração do esperado: com apenas cinco licenças e exatamente cinco incumbentes, o formato do leilão eliminou a competição efetiva — um caso clássico de falha no desenho de mecanismo. O leilão brasileiro de 5G em 2021 (Anatel) envolveu compromissos de investimento de R$ 47,2 bilhões e utilizou um formato de leilão combinatório com rodadas ascendentes, exigindo das operadoras (Claro, Vivo, TIM e entrantes regionais) estratégias de lance que são, formalmente, equilíbrios de Nash bayesianos em jogos com informação incompleta (Módulo 9c).
Análise: Leilões de espectro ilustram vários conceitos deste capítulo e dos módulos seguintes. A interação estratégica entre poucos licitantes (tipicamente 3–6 operadoras) configura um jogo oligopolístico: cada empresa considera não apenas sua própria valoração das frequências, mas como seus lances afetam o comportamento dos rivais. O risco de conluio tácito — operadoras sinalizando intenções através dos dígitos finais dos lances, prática documentada por Cramton e Schwartz (2000) nos leilões da FCC — é um dilema dos prisioneiros: todas se beneficiariam de preços baixos, mas cada uma tem incentivo para desviar se acreditar que obterá uma licença valiosa. O desenho do leilão é, portanto, um exercício de desenho de mecanismo (Módulo 9d): o regulador escolhe as regras do jogo sabendo que os jogadores otimizarão dentro dessas regras.
Para refletir: Por que o leilão britânico de 3G foi um sucesso e o holandês um fracasso, se ambos vendiam o mesmo tipo de ativo? (Dica: pense no número de licenças versus o número de incumbentes e como isso afeta a intensidade da competição.)
Fonte: Milgrom, Paul (2004). Putting Auction Theory to Work. Cambridge University Press. Binmore, Ken e Klemperer, Paul (2002). "The Biggest Auction Ever: the Sale of the British 3G Telecom Licences." Economic Journal, 112(478), C74–C96. Cramton, Peter e Schwartz, Jesse (2000). "Collusive Bidding: Lessons from the FCC Spectrum Auctions." Journal of Regulatory Economics, 17(3), 229–252.
Os modelos de oligopólio apresentados acima não são meros exercícios teóricos — eles fornecem a estrutura analítica que órgãos reguladores como o CADE utilizam diariamente para avaliar práticas anticompetitivas. O primeiro Box Brasil deste capítulo examina precisamente essa conexão entre teoria e prática regulatória.
Box Brasil — Cartéis de postos de combustíveis: conluio, detecção e punição
O mercado de revenda de combustíveis no Brasil é um dos campos mais ativos de investigação antitruste pelo CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A frequência de cartéis nesse setor oferece um laboratório natural para a teoria dos jogos.
Por que o conluio é frequente nesse mercado?
A teoria dos jogos repetidos (Módulo 9b) identifica condições que facilitam a sustentação de conluio como equilíbrio: (i) poucas firmas no mercado relevante; (ii) produto homogêneo (gasolina comum é igual em qualquer posto); (iii) preços facilmente observáveis (placas na entrada); (iv) interação repetida entre os mesmos competidores. O mercado de revenda de combustíveis em muitas cidades brasileiras satisfaz todas essas condições.
Casos recentes
Apenas entre 2024 e 2025, o CADE condenou cartéis de revenda de combustíveis em três estados:
- Distrito Federal (2025): sete redes de postos condenadas, com multas superiores a R$ 150 milhões.
- Paraná (2024): 12 postos e 2 pessoas físicas condenados em Francisco Beltrão, com multas de R$ 59 milhões.
- Santa Catarina (2024): cartel em Joinville condenado com multas de R$ 55 milhões.
Mecanismos de sustentação do cartel
Na linguagem da teoria dos jogos, os postos operam uma estratégia do tipo grim trigger informal: todos praticam preços elevados e, se algum desviar, os demais retomam a competição. A transparência dos preços (afixados em totens luminosos) funciona como mecanismo de monitoramento — qualquer desvio é imediatamente detectável.
O papel do CADE e do programa de leniência
O CADE atua como um mecanismo institucional que torna o conluio mais custoso: ao impor multas elevadas (até 20% do faturamento bruto), a autoridade antitruste reduz o payoff esperado da cooperação ilícita. O programa de leniência oferece redução de pena ao primeiro membro do cartel que denunciar, explorando a mesma lógica do Dilema dos Prisioneiros: a tentação de trair o cartel em troca de imunidade desestabiliza o acordo.
Fonte: CADE, decisões do Tribunal Administrativo (2024–2025).
Se o mercado de combustíveis ilustra a dinâmica de cartéis em mercados locais, o transporte aéreo doméstico oferece um panorama complementar: um oligopólio altamente concentrado em escala nacional, no qual coexistem elementos de Cournot, Bertrand e Stackelberg dependendo da rota e do horizonte temporal.
Box Brasil — Gol, Latam e Azul: competição estratégica a 10.000 metros
O transporte aéreo doméstico no Brasil é um dos mercados mais concentrados do país e ilustra diretamente os modelos de oligopólio.
Concentração extrema
Dados da ANAC para 2024 mostram que três companhias detêm 98,9% do mercado doméstico:
| Companhia | Market share (2024) |
|---|---|
| Latam | 39,1% |
| Gol | 30,7% |
| Azul | 29,7% |
| Outras | 0,5% |
Qual modelo se aplica?
- Em rotas com concorrência direta (São Paulo–Rio), a competição se aproxima de Bertrand com diferenciação: preços são a variável estratégica.
- Em rotas com slots limitados (Congonhas, Santos Dumont), a competição se aproxima de Cournot: a oferta de assentos é decidida antecipadamente.
- A dinâmica de liderança de preço em promoções evoca o modelo de Stackelberg, com a Latam frequentemente agindo como líder.
Barreiras à entrada e credibilidade de ameaças
A entrada de novas companhias é dificultada por custos afundados (frota, certificação, slots), economias de escala e rede de rotas. A história do setor inclui episódios de guerras de preço que podem ser interpretados como estratégias de deterrência: companhias incumbentes praticaram preços agressivos em rotas disputadas por entrantes (Webjet, Avianca Brasil).
Fonte: ANAC, Relatório de Demanda e Oferta do Transporte Aéreo 2024; CADE, Cadernos do CADE — Mercado de Transporte Aéreo.
R Interativo — Dados reais do game show Friend or Foe (Adams, 2025, Cap. 1)
No início dos anos 2000, o programa de TV Friend or Foe (Game Show Network) colocava duplas de participantes para jogar um Dilema dos Prisioneiros real — o Trust Box — com milhares de dólares em jogo. Cada jogador escolhia "Friend" (cooperar) ou "Foe" (trair). Se ambos cooperavam, dividiam o prêmio igualmente; se um traía e o outro cooperava, o traidor ficava com tudo; se ambos traíam, ninguém recebia nada.
Os dados de 227 episódios (Kalist, 2004; List, 2006) estão disponíveis no pacote R Ecdat. Explore: qual fração coopera? A decisão depende do valor em jogo? Da idade?
glm(play == "friend" ~ age + cash, family=binomial, data=df) para estimar um modelo logit.
R Interativo — Cournot Duopólio: equilíbrio analítico e gráfico (Adams, 2025, Cap. 3)
O modelo de Cournot com demanda linear admite solução analítica. Neste box interativo, você pode alterar os parâmetros de demanda (\(a\), \(b\)) e os custos marginais (\(c_1\), \(c_2\)) para explorar como o equilíbrio muda. O R calcula quantidades, preço e lucros de equilíbrio e plota as funções de melhor-resposta.
Exercício sugerido: mude \(c_2\) para 40 e compare com o caso simétrico. A firma de custo alto produz menos — qual é o efeito sobre o preço de mercado?
a, b, c1, c2 e re-execute. Baseado em Adams (2025, Cap. 3).
Nos jogos simultâneos, todos apostam no escuro. No próximo módulo, alguém move primeiro — e isso muda tudo. And now for something completely different.
🧪 Atividades de Sala de Aula¶
Atividade 9a.1 — Dilema dos Prisioneiros ao vivo (20 min)
Objetivo: Demonstrar a tensão entre racionalidade individual e eficiência coletiva — e testar se a cooperação emerge com repetição.
Material: Cartões com "C" (Cooperar) e "T" (Trair) para cada aluno, tabela de payoffs projetada.
Protocolo:
- Formação de duplas (2 min): Alunos formam pares aleatórios. Cada dupla recebe 2 cartões (C e T).
- Rodada única (3 min): Sem comunicação, cada aluno escolhe C ou T simultaneamente (cartões virados para baixo, revelados ao mesmo tempo). Payoffs: (C,C) = 3 pontos cada; (C,T) = 0 e 5; (T,T) = 1 cada. Anote os resultados.
- 5 rodadas com o mesmo parceiro (8 min): Repita o jogo 5 vezes com o mesmo par. Permita que vejam as escolhas anteriores do parceiro (mas não permitam conversa). Anote rodada a rodada.
- Debrief coletivo (7 min):
- Projete a distribuição de escolhas (% cooperação) por rodada. Tipicamente, cooperação cresce nas rodadas 2–4 e cai na rodada 5 (efeito de endgame).
- Pergunte: "Quem cooperou mais nas rodadas intermediárias? Por quê?" → Conecte com o shadow of the future (Módulo 9b).
- Pergunte: "Quem traiu na última rodada sabendo que não haveria 'amanhã'?" → Conecte com unraveling em jogos finitos.
- Compare a taxa de cooperação observada com a previsão teórica (0% em jogo de uma rodada; 0% em jogo finito por indução retroativa).
Variação avançada: Após o debrief, jogue mais 5 rodadas com parceiro aleatório (rematching a cada rodada). Preveja: a cooperação vai cair drasticamente. Por quê? Porque a repetição com parceiro fixo cria reputação; com parceiro aleatório, cada rodada é efetivamente um jogo de uma vez.
Conexão com o conteúdo: Dilema dos Prisioneiros (Seção 9a.2), Folk Theorem e cooperação em jogos repetidos (Módulo 9b). Evidência experimental: Axelrod (1984), The Evolution of Cooperation.
Atividade 9a.2 — Leilão de primeiro preço vs. segundo preço (25 min)
Objetivo: Verificar empiricamente o Teorema da Equivalência de Receita e o sombreamento de lances (bid shading).
Material: Baralho de cartas (ou geradores aleatórios no celular); envelopes de papel; planilha projetada.
Protocolo:
- Sorteio de valores (2 min): Cada aluno sorteia uma carta de um baralho (Ás = 1, ..., Rei = 13). Esse é seu valor privado \(v_i\). Ninguém mostra a carta.
- Leilão de primeiro preço (8 min): Grupos de 4 alunos. Cada um escreve seu lance \(b_i\) em papel dobrado e entrega ao "leiloeiro" (um colega). O maior lance ganha e paga o próprio lance. Lucro = \(v_i - b_i\) se ganhou, 0 se perdeu. Façam 3 rodadas (re-sorteio de cartas a cada rodada).
- Leilão de segundo preço (8 min): Mesmos grupos. Agora o maior lance ganha, mas paga o segundo maior lance. Façam 3 rodadas.
- Debrief (7 min):
- Calcule a receita média em cada formato. São próximas? → Equivalência de receita.
- Pergunte: "Quanto você sombreou no primeiro preço?" → Compare com a fórmula teórica \(b(v) = v \cdot (N-1)/N = v \cdot 3/4\).
- Pergunte: "No segundo preço, alguém lançou abaixo do valor? Acima?" → Discuta por que \(b_i = v_i\) é dominante.
- Alunos que lançaram acima do valor no segundo preço cometeram a maldição do vencedor em miniatura.
Conexão com o conteúdo: Leilões IPV (Módulo 9c, Seção 9c.3), Teorema da Equivalência de Receita (Myerson, 1981; Riley e Samuelson, 1981). Inspirado em Holt (2007, Cap. 19).
Atividade 9a.3 — Competição de Cournot com post-its (15 min)
Objetivo: Demonstrar o equilíbrio de Cournot e a tentação do conluio.
Material: Post-its, quadro branco.
Protocolo:
- Setup (3 min): Projete: demanda inversa \(P = 100 - Q\), custo marginal \(c = 10\). Alunos formam duplas (firmas). Cada firma escolhe quantidade \(q_i \in \{0, 5, 10, ..., 45\}\).
- Rodada 1 — Sem comunicação (4 min): Cada firma escreve \(q_i\) no post-it, entrega ao professor. Calcule \(Q\), \(P\) e lucros. Projete os resultados.
- Rodada 2 — Com comunicação (4 min): Permita que as duplas conversem por 1 minuto antes de decidir (separadamente). Observe: muitas tentarão conluio (\(q_1 = q_2 = 22{,}5\)), mas sem enforcement, a tentação de desviar é forte.
- Debrief (4 min):
- Compare as quantidades observadas com Cournot (\(q^* = 30\) cada), monopólio dividido (\(q = 22{,}5\) cada) e Bertrand (\(q = 45\) cada).
- Pergunte: "Quem prometeu produzir 22,5 mas colocou 30 no post-it?" → Dilema dos Prisioneiros no oligopólio.
Conexão com o conteúdo: Modelo de Cournot (Seção 9a.5), conluio e incentivo a desviar (Módulo 9b).
🧠 Revisão Rápida¶
Teste seu entendimento dos conceitos centrais deste capítulo.
1. Um equilíbrio de Nash é um perfil de estratégias no qual:
- (a) Todos os jogadores obtêm o maior payoff possível
- (b) Nenhum jogador pode melhorar seu payoff alterando unilateralmente sua estratégia
- (c) Todos os jogadores usam estratégias dominantes
- (d) A soma dos payoffs é maximizada
Resposta
(b) O equilíbrio de Nash exige que cada jogador esteja fazendo a melhor resposta à estratégia dos demais — nenhum tem incentivo a desviar unilateralmente. Não exige que os payoffs sejam máximos (a), que existam estratégias dominantes (c) ou que o resultado seja socialmente ótimo (d). O Dilema dos Prisioneiros ilustra bem: o EN é mutuamente pior, mas ninguém desvia sozinho.
2. No Dilema dos Prisioneiros, o resultado de equilíbrio é ineficiente porque:
- (a) Os jogadores não conseguem se comunicar
- (b) Cada jogador tem uma estratégia dominante que leva a um resultado Pareto-inferior à cooperação mútua
- (c) O jogo não tem equilíbrio de Nash
- (d) Os payoffs são assimétricos entre os jogadores
Resposta
(b) Cada prisioneiro tem incentivo individual a confessar (estratégia dominante), independentemente do que o outro faz. Mas quando ambos confessam, obtêm um resultado pior do que se ambos calassem. O problema não é falta de comunicação (a) — mesmo com comunicação, sem enforcement, cada um desvia. O jogo tem EN (c é falsa); a simetria (d) é irrelevante.
3. No duopólio de Cournot (competição em quantidades), comparado ao monopólio, o preço de equilíbrio é:
- (a) Igual ao preço de monopólio
- (b) Menor que o de monopólio e maior que o competitivo
- (c) Igual ao preço competitivo (custo marginal)
- (d) Maior que o preço de monopólio devido à competição
Resposta
(b) No Cournot, cada firma produz considerando a produção da rival como dada. O resultado é intermediário: mais produção e menor preço que o monopólio, mas menos produção e maior preço que a concorrência perfeita. À medida que o número de firmas cresce, o resultado converge para o competitivo.
4. O Paradoxo de Bertrand afirma que, com produtos homogêneos e custos marginais constantes iguais, duas firmas já bastam para:
- (a) Manter preços de monopólio indefinidamente
- (b) Gerar o resultado competitivo: preço igual ao custo marginal e lucro econômico zero
- (c) Produzir quantidades iguais às de Cournot
- (d) Eliminar o incentivo à entrada de novas firmas
Resposta
(b) No modelo de Bertrand com produtos homogêneos, cada firma tem incentivo a cortar marginalmente o preço para capturar todo o mercado. O único equilíbrio é \(p_1 = p_2 = c\) (custo marginal), com lucro zero — resultado idêntico à concorrência perfeita com apenas duas firmas. Isso é 'paradoxal' porque esperaríamos algum poder de mercado com tão poucas firmas.
5. Um equilíbrio de Nash em estratégias mistas existe:
- (a) Apenas em jogos com estratégias dominantes
- (b) Apenas quando não há equilíbrio em estratégias puras
- (c) Em todo jogo finito (com número finito de jogadores e estratégias), pelo Teorema de Nash
- (d) Apenas em jogos de soma zero
Resposta
(c) O Teorema de Nash (1950) garante que todo jogo finito possui pelo menos um equilíbrio de Nash, possivelmente em estratégias mistas. A alternativa (b) é incorreta — podem coexistir equilíbrios puros e mistos; (a) é muito restritiva; (d) ignora que o teorema se aplica a jogos gerais, não apenas soma zero.
📋 Resumo do Capítulo¶
- A teoria dos jogos estuda a tomada de decisão em ambientes de interdependência estratégica, nos quais o resultado de cada agente depende das ações de todos os demais. A disciplina foi fundada por Von Neumann e Morgenstern (1944) e revolucionada por Nash (1950, 1951), Selten (1965) e Harsanyi (1967–68).
- Jogos estáticos com informação completa são representados na forma normal (matriz de payoffs) e resolvidos pelo conceito de equilíbrio de Nash: um perfil de estratégias em que nenhum jogador pode melhorar unilateralmente seu payoff — a condição de "ausência de arrependimento" (no-regret).
- O Dilema dos Prisioneiros ilustra a tensão central entre racionalidade individual e eficiência coletiva: a estratégia dominante de cada jogador leva a um resultado Pareto-dominado. O equilíbrio de Nash é uma condição de estabilidade, não de eficiência.
- A Eliminação Iterada de Estratégias Dominadas (EIED) é um procedimento de solução baseado apenas em racionalidade e conhecimento comum de racionalidade. Para estratégias estritamente dominadas, a ordem de eliminação não altera o resultado.
- Estratégias mistas garantem a existência de equilíbrio em todo jogo finito (Teorema de Nash) e são determinadas pelo princípio da indiferença — cada jogador randomiza de modo a deixar o oponente indiferente entre suas estratégias puras.
- Os modelos de oligopólio (Cournot, Bertrand e Stackelberg) aplicam o equilíbrio de Nash a mercados com poucos concorrentes, mostrando como a variável estratégica (quantidade vs. preço) e a ordem de movimento alteram radicalmente preços, quantidades e lucros.
- No Cournot, firmas competem em quantidades (substitutos estratégicos) e o resultado situa-se entre monopólio e competição perfeita; no Bertrand com produtos homogêneos, duas firmas bastam para reproduzir o resultado competitivo (paradoxo de Bertrand); no Stackelberg, a líder obtém vantagem via comprometimento crível com quantidade elevada.
- O resultado de Kreps-Scheinkman (1983) unifica Cournot e Bertrand: quando as firmas escolhem capacidade antes de competir em preços, o equilíbrio de dois estágios reproduz o resultado de Cournot.
🔑 Conceitos-Chave¶
| Conceito | Definição |
|---|---|
| Jogo na forma normal | Tripla \(\langle N, (S_i), (u_i) \rangle\) que especifica jogadores, estratégias e payoffs. |
| Equilíbrio de Nash | Perfil de estratégias em que nenhum jogador pode melhorar seu payoff desviando unilateralmente. |
| Estratégia dominante | Estratégia que é ótima para um jogador independentemente das ações dos demais. |
| Estratégia mista | Distribuição de probabilidade sobre as estratégias puras de um jogador. |
| Princípio da indiferença | Em equilíbrio misto, cada jogador randomiza de forma a tornar o oponente indiferente entre suas estratégias puras. |
| EIED | Eliminação Iterada de Estratégias Estritamente Dominadas — procedimento de solução que reduz o jogo removendo estratégias que nunca são ótimas. |
| Modelo de Cournot | Oligopólio em que firmas escolhem quantidades simultaneamente; o equilíbrio é a interseção das funções de melhor-resposta. |
| Modelo de Bertrand | Oligopólio em que firmas escolhem preços simultaneamente; com produtos homogêneos, o preço converge para o custo marginal. |
| Modelo de Stackelberg | Oligopólio sequencial em que a líder se compromete com uma quantidade antes da seguidora, obtendo vantagem de primeiro movimento. |
| Dilema dos Prisioneiros | Jogo em que a estratégia dominante de cada jogador leva a um resultado coletivamente inferior (Pareto-dominado). |
Tabela 9a.6 — Conceitos-chave.
🎯 Exercícios Resolvidos¶
Exercício Resolvido 9a.1 — Equilíbrios de Nash na Batalha dos Sexos
Enunciado: Encontre todos os equilíbrios de Nash (em puras e em mistas) do seguinte jogo simultâneo:
| Jogador 2: E | Jogador 2: D | |
|---|---|---|
| Jogador 1: C | \((2, 1)\) | \((0, 0)\) |
| Jogador 1: B | \((0, 0)\) | \((1, 2)\) |
Resolução:
Passo 1 — Equilíbrios em estratégias puras
- \((C, E)\): J1 obtém 2 (desviar → 0). J2 obtém 1 (desviar → 0). Nash ✓
- \((C, D)\): J1 obtém 0 (desviar → 1). Não é Nash.
- \((B, E)\): J1 obtém 0 (desviar → 2). Não é Nash.
- \((B, D)\): J1 obtém 1 (desviar → 0). J2 obtém 2 (desviar → 0). Nash ✓
Passo 2 — Equilíbrio em estratégias mistas
Seja \(p = \Pr(\text{J1 joga C})\) e \(q = \Pr(\text{J2 joga E})\).
Para J2 ser indiferente: \(p \cdot 1 = (1-p) \cdot 2 \implies p = 2/3\)
Para J1 ser indiferente: \(2q = (1-q) \implies q = 1/3\)
Resultado: Três equilíbrios de Nash: \((C, E)\), \((B, D)\) e o misto \(\sigma_1 = (2/3, 1/3)\), \(\sigma_2 = (1/3, 2/3)\) com payoffs esperados \(U_1 = U_2 = 2/3\).
Interpretação: Este é um jogo de coordenação com preferências conflitantes. Múltiplos equilíbrios explicam por que convenções, normas (ABNT, INMETRO) e regulamentações são valiosas — funcionam como "pontos focais" (Schelling, 1960).
Exercício Resolvido 9a.2 — Cournot assimétrico no setor aéreo
Enunciado: Duas companhias aéreas competem à la Cournot em uma rota doméstica. A demanda inversa é \(P(Q) = 500 - 2Q\), onde \(Q = q_1 + q_2\) (em milhares de assentos/mês). A incumbente tem custo marginal \(c_1 = 100\) e a entrante tem \(c_2 = 150\). Encontre o equilíbrio de Cournot-Nash.
Resolução:
Passo 1 — Funções de melhor-resposta
CPO da firma 1: \(500 - 4q_1 - 2q_2 - 100 = 0 \implies q_1^*(q_2) = 100 - q_2/2\)
CPO da firma 2: \(500 - 2q_1 - 4q_2 - 150 = 0 \implies q_2^*(q_1) = 87{,}5 - q_1/2\)
Passo 2 — Equilíbrio
Substituindo: \(q_1 = 100 - (87{,}5 - q_1/2)/2 = 56{,}25 + q_1/4\), logo \(q_1^* = 75\), \(q_2^* = 50\).
Passo 3 — Preço e lucros
\(Q^* = 125\), \(P^* = 250\), \(\pi_1 = 150 \times 75 = 11.250\), \(\pi_2 = 100 \times 50 = 5.000\).
Interpretação: A firma mais eficiente produz mais e lucra mais. Na aviação brasileira, a Latam tem historicamente custos por ASK menores, o que contribui para seu market share de 39,1%.
Exercício Resolvido 9a.3 — Stackelberg no mercado de cervejas
Enunciado: A Ambev (líder) e a Heineken (seguidora) competem à la Stackelberg no mercado de cerveja premium. A demanda inversa é \(P = 20 - Q\) (R$/litro, em milhões de litros/mês), com \(c_1 = c_2 = 4\).
(a) Encontre o equilíbrio de Stackelberg. (b) Compare com Cournot.
Resolução:
(a) Stackelberg
Seguidora: \(q_2^*(q_1) = (20 - 4 - q_1)/2 = 8 - q_1/2\)
Líder: \(\pi_1 = (20 - q_1 - 8 + q_1/2 - 4)q_1 = (8 - q_1/2)q_1\)
CPO: \(8 - q_1 = 0 \implies q_1^S = 8\), \(q_2^S = 4\)
\(Q^S = 12\), \(P^S = 8\), \(\pi_1^S = 32\), \(\pi_2^S = 16\)
(b) Cournot
\(q_1^C = q_2^C = 16/3 \approx 5{,}33\), \(Q^C = 32/3 \approx 10{,}67\), \(P^C = 28/3 \approx 9{,}33\)
\(\pi_1^C = \pi_2^C = 256/9 \approx 28{,}4\)
Comparação:
| Stackelberg | Cournot | |
|---|---|---|
| \(q_1\) | 8 | 5,33 |
| \(q_2\) | 4 | 5,33 |
| Preço | R$ 8,00 | R$ 9,33 |
| \(\pi_{\text{líder}}\) | 32 | 28,4 |
| \(\pi_{\text{seguidora}}\) | 16 | 28,4 |
A líder ganha (+12,5%), a seguidora perde (–43,7%), e o consumidor ganha (preço menor, quantidade maior).
✏️ Exercícios¶
Exercício 9a.1. Considere o seguinte jogo simultâneo:
| Jogador 2: L | Jogador 2: R | |
|---|---|---|
| Jogador 1: U | \((4, 3)\) | \((1, 5)\) |
| Jogador 1: D | \((3, 1)\) | \((2, 2)\) |
(a) Existem estratégias estritamente dominantes? Justifique.
(b) Encontre todos os equilíbrios de Nash em estratégias puras.
(c) Encontre o equilíbrio de Nash em estratégias mistas e calcule os payoffs esperados.
Exercício 9a.2. Duas firmas idênticas competem à la Cournot com demanda inversa \(P(Q) = 120 - Q\) e custo marginal \(c = 30\).
(a) Derive as funções de melhor resposta e encontre o equilíbrio de Nash.
(b) Compare o resultado com monopólio e competição perfeita.
(c) Agora suponha que a firma 1 move primeiro (Stackelberg). Encontre o equilíbrio e compare.
Exercício 9a.3. No modelo de Bertrand com diferenciação, as demandas são \(q_1 = a - bp_1 + dp_2\) e \(q_2 = a - bp_2 + dp_1\), com \(b > d > 0\) e custo marginal \(c\).
(a) Derive as funções de melhor-resposta em preços e mostre que são crescentes (complementos estratégicos).
(b) Encontre o equilíbrio de Nash e mostre que os lucros são positivos (diferentemente do Bertrand homogêneo).
(c) O que acontece quando \(d \to 0\)? E quando \(d \to b\)?
Exercício 9a.4. (Jogo Bayesiano — prévia do Módulo 9c) Uma firma incumbente pode ser forte (\(\theta_F\), com probabilidade 0,6) ou fraca (\(\theta_W\), com probabilidade 0,4). Uma entrante decide se entra.
- Não entra: I obtém 10, E obtém 0.
- Entra + I forte: payoffs (3, –2).
- Entra + I fraca: payoffs (2, 4).
(a) Calcule o lucro esperado de E se entrar.
(b) Encontre o Equilíbrio de Nash Bayesiano.
(c) I teria incentivo para sinalizar força? (Tema do Módulo 9d.)
Exercício 9a.5. (Sinalização — prévia do Módulo 9d) No modelo de Spence, trabalhadores têm produtividade \(\theta_H = 2\) (prob. 0,5) ou \(\theta_L = 1\) (prob. 0,5). O custo da educação é \(c(e, \theta) = e/\theta\). Encontre um equilíbrio separador e verifique que nenhum tipo desvia.
Exercício 9a.6. (Fácil — equilíbrios de Nash em jogo 2×2) Considere o seguinte jogo simultâneo:
| Jogador 2: X | Jogador 2: Y | |
|---|---|---|
| Jogador 1: A | \((5, 4)\) | \((1, 3)\) |
| Jogador 1: B | \((2, 6)\) | \((4, 2)\) |
(a) Há estratégias estritamente dominantes? Justifique para cada jogador.
(b) Encontre todos os equilíbrios de Nash em estratégias puras utilizando o método das melhores respostas (sublinhado de payoffs).
(c) Mostre que os equilíbrios encontrados satisfazem a definição formal de Nash: nenhum jogador deseja desviar unilateralmente.
Exercício 9a.7. (Fácil — duopólio de Cournot com demanda linear) Duas firmas competem à la Cournot em um mercado com demanda inversa \(P(Q) = 100 - Q\), onde \(Q = q_1 + q_2\). A firma 1 tem custo marginal \(c_1 = 20\) e a firma 2 tem custo marginal \(c_2 = 20\).
(a) Derive as funções de melhor resposta (reação) de cada firma.
(b) Encontre o equilíbrio de Nash de Cournot \((q_1^*, q_2^*, P^*)\) e os lucros de equilíbrio.
(c) Se \(N\) firmas idênticas competem à la Cournot com os mesmos parâmetros, qual é o preço de equilíbrio para \(N = 1\) (monopólio), \(N = 2\), \(N = 5\) e \(N \to \infty\)? Interprete.
Exercício 9a.8. (Médio — Bertrand com diferenciação de produto) Duas firmas produzem bens diferenciados com demandas:
e custo marginal \(c = 10\) para ambas.
(a) Derive a função de melhor resposta em preços de cada firma. As estratégias de preço são complementos ou substitutos estratégicos? Justifique economicamente.
(b) Encontre o equilíbrio de Nash de Bertrand com diferenciação: preços, quantidades e lucros.
(c) Mostre que os lucros de equilíbrio são positivos e compare com o resultado de Bertrand com produto homogêneo. O que determina a magnitude dos lucros?
Exercício 9a.9. (Médio — Brasil — CADE e análise de fusão via HHI de Cournot) Três firmas idênticas competem à la Cournot em um mercado com demanda inversa \(P(Q) = 180 - Q\) e custo marginal \(c = 30\). O regulador (CADE) considera uma fusão entre as firmas 2 e 3, que formaria uma única firma com custo marginal \(c_M = 30\) (sem ganho de eficiência).
(a) Calcule o equilíbrio de Cournot pré-fusão: quantidades individuais, preço, lucros e HHI (Índice Herfindahl-Hirschman, definido como \(\text{HHI} = \sum_{i=1}^{N} s_i^2 \times 10000\), onde \(s_i\) é o market share em decimal).
(b) Calcule o equilíbrio de Cournot pós-fusão (duopólio com duas firmas, sendo uma delas a fusionada): quantidades, preço, lucros e HHI.
(c) O CADE usa como limiar de preocupação um aumento de HHI (\(\Delta\text{HHI}\)) acima de 200 pontos em mercados com HHI pré-fusão acima de 1.500. A fusão deve ser aprovada, aprovada com restrições ou bloqueada? A fusão beneficia consumidores ou produtores?
Exercício 9a.10. (Difícil — equilíbrio em estratégias mistas em jogo 3×3) Considere o seguinte jogo simultâneo de soma zero entre dois jogadores (os payoffs indicam o ganho do Jogador 1; o Jogador 2 obtém o negativo):
| J2: L | J2: M | J2: R | |
|---|---|---|---|
| J1: T | \(3\) | \(-1\) | \(2\) |
| J1: M | \(-2\) | \(4\) | \(-1\) |
| J1: B | \(1\) | \(0\) | \(3\) |
(a) Verifique se existe alguma estratégia estritamente dominada para algum dos jogadores. Use a EIED para simplificar o jogo, se possível.
(b) Após a EIED, encontre o equilíbrio em estratégias mistas do jogo reduzido. (Dica: em jogos de soma zero 2×2, o equilíbrio misto é determinado pelo princípio da indiferença aplicado a ambos os jogadores.)
(c) Calcule o valor do jogo (payoff esperado do Jogador 1 no equilíbrio) e interprete economicamente.
🏆 Vem, ANPEC!¶
ANPEC 2021 — Questão 11
Com relação à Teoria dos Jogos, julgue os itens a seguir:
| Item | Afirmação |
|---|---|
| 0 | A ordem em que estratégias fracamente dominadas são eliminadas é relevante, pois pode afetar o conjunto das estratégias sobreviventes. |
| 1 | No jogo abaixo, T, M, B são estratégias de J1 e E, C, D de J2. As estratégias racionalizáveis são T, M, E. |
Jogo do Item 1:
| J2: E | J2: C | J2: D | |
|---|---|---|---|
| J1: T | \((2, 0)\) | \((1, 1)\) | \((4, 2)\) |
| J1: M | \((3, 4)\) | \((1, 2)\) | \((2, 3)\) |
| J1: B | \((1, 3)\) | \((0, 2)\) | \((3, 0)\) |
| Item | Afirmação |
|---|---|
| 2 | No equilíbrio de Nash em mistas do jogo abaixo, J1 joga T com probabilidade \(1/3\) e B com \(2/3\), J2 joga E com \(2/3\) e D com \(1/3\). |
| J2: E | J2: D | |
|---|---|---|
| J1: T | \((2, 0)\) | \((4, 2)\) |
| J1: B | \((3, 4)\) | \((2, 3)\) |
| Item | Afirmação |
|---|---|
| 3 | No jogo abaixo existe um único equilíbrio de Nash em puras. |
| J2: E | J2: D | |
|---|---|---|
| J1: T | \((-1, -1)\) | \((4, 0)\) |
| J1: B | \((0, 4)\) | \((2, 2)\) |
| Item | Afirmação |
|---|---|
| 4 | Todo jogo na forma normal possui um equilíbrio de Nash em estratégias mistas. |
Gabarito
Respostas: 10100
-
Item 0 — V: Resultado clássico. Para estratégias estritamente dominadas, a ordem não importa. Para fracamente dominadas, a ordem pode alterar o conjunto sobrevivente.
-
Item 1 — F: Eliminando B (estritamente dominada por T), resta o jogo 2×3. C é estritamente dominada por uma mistura de E e D para J2. Eliminando C, sobram \(\{T, M\} \times \{E, D\}\) — nenhuma é dominada. As racionalizáveis são \(\{T, M, E, D\}\), não apenas \(\{T, M, E\}\).
-
Item 2 — V: Para J2 ser indiferente: \(U_2(E; p) = 4(1-p)\) e \(U_2(D; p) = 2p + 3(1-p) = 3-p\). Igualando: \(4-4p = 3-p \implies p = 1/3\). Para J1: \(U_1(T; q) = 2q + 4(1-q) = 4-2q\) e \(U_1(B; q) = 3q + 2(1-q) = 2+q\). Igualando: \(4-2q = 2+q \implies q = 2/3\). Correto.
-
Item 3 — F: Existem dois EN em puras: \((T, D)\) com payoffs \((4, 0)\) e \((B, E)\) com payoffs \((0, 4)\).
-
Item 4 — F: O Teorema de Nash garante existência para jogos finitos. Jogos com espaços infinitos de estratégias podem não ter equilíbrio sem condições adicionais (compacidade, continuidade — Teorema de Glicksberg).
ANPEC 2022 — Questão 11
Com relação ao oligopólio, julgue os itens:
| Item | Afirmação |
|---|---|
| 0 | Em um Duopólio de Cournot com \(c_1(q_1) = q_1^2/2\), \(c_2(q_2) = q_2^2\) e \(P(Q) = 11 - Q\), o equilíbrio é \((q_1^*, q_2^*; P^*) = (3, 2; 6)\). |
| 1 | Ao comparar oligopolização pelo Índice de Lerner, a indústria mais oligopolizada tem necessariamente maior HHI. |
| 2 | No equilíbrio de Stackelberg, a seguidora lucra mais que em Cournot. |
| 3 | No equilíbrio de Stackelberg, a isoprofit da líder tangencia a curva de reação da seguidora. |
| 4 | Duopólio de Bertrand repetido infinitamente: se competir dá lucro 0, cartel dá 40 cada, desviar dá 200, então a menor taxa de desconto para sustentar o cartel com GRIM é \(\delta = 0{,}25\). |
Gabarito
Respostas: 10010
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Item 0 — V: Firma 1: CPO \(11 - 2q_1 - q_2 - q_1 = 0 \implies q_1 = (11-q_2)/3\). Firma 2: CPO \(11 - q_1 - 2q_2 - 2q_2 = 0 \implies q_2 = (11-q_1)/4\). Resolvendo: \(q_1 = 3\), \(q_2 = 2\), \(P = 6\). ✓
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Item 1 — F: No Cournot, \(L = \text{HHI}/|\varepsilon|\). Mesmo HHI pode gerar Lerner diferente se as elasticidades diferem.
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Item 2 — F: A seguidora produz menos que em Cournot e obtém lucro menor. (Confira na tabela comparativa da Seção 9a.5.)
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Item 3 — V: A líder maximiza lucro ao longo da curva de reação da seguidora — ponto de tangência com a isoprofit. (Visível na Figura 9a.4.)
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Item 4 — F: Condição: \(40/(1-\delta) \geq 200 \implies \delta \geq 0{,}80\), não \(0{,}25\).
🔬 Pesquisa em Ação¶
Bresnahan, Timothy F.; Reiss, Peter C. (1991). Entry and Competition in Concentrated Markets. Journal of Political Economy, 99(5), 977–1009.
Pergunta central: Quantas firmas são necessárias para que um mercado se torne efetivamente competitivo?
Método: Modelo econométrico de entrada em mercados locais geograficamente isolados nos EUA (cidades pequenas com 1 a 5 firmas), usando dados de cinco setores — médicos, dentistas, farmácias, encanadores e lojas de pneus. A ideia-chave: se o mercado precisa ser proporcionalmente maior para sustentar 3 firmas do que para 2, é porque a terceira firma reduz as margens.
Resultado: A transição de monopólio para duopólio e de duopólio para triopólio gera reduções significativas nas margens. A partir de 3 a 5 firmas, o tamanho por firma se estabiliza — a maior parte dos ganhos competitivos ocorre com as primeiras entrantes.
Relevância: Para o Brasil, os resultados têm implicações diretas para análise do CADE em atos de concentração. A metodologia é aplicável a mercados de combustíveis, farmácias e serviços de saúde no interior. O artigo testa empiricamente as previsões de Cournot e Bertrand (Seção 9a.5).
Adams, Christopher P. (2025). Game Theory for Applied Econometricians: Data Analytics with R. Boca Raton: CRC Press. Capítulos 1–5.
Escopo: Parte I do livro cobre jogos estáticos com informação completa — a matéria deste módulo — com ênfase em aplicações empíricas e análise de dados em R.
Contribuição pedagógica: Adams conecta cada conceito teórico a um dataset e um script R. O Capítulo 1 analisa o game show Friend or Foe (Dilema dos Prisioneiros com dinheiro real); o Capítulo 2 estuda entrada de firmas no mercado de pneus; o Capítulo 3 modela competição de hambúrgueres; o Capítulo 5 testa estratégias mistas com dados de pênaltis.
Relevância: Os R Boxes interativos deste módulo (9a.1 e 9a.2) são inspirados nos scripts de Adams, adaptados para execução no navegador via WebR. Os dados do pacote Ecdat permitem que o leitor reproduza e modifique as análises sem instalar nada.
Chiappori, Pierre-André; Levitt, Steven; Groseclose, Tim (2002). Testing Mixed-Strategy Equilibria When Players Are Heterogeneous. American Economic Review, 92(4), 1138–1147.
Pergunta central: Os jogadores de futebol profissional jogam estratégias mistas consistentes com a teoria em cobranças de pênalti?
Método: Dados de 459 pênaltis da Série A italiana e da liga francesa. Cada cobrança é modelada como um jogo 2×2 (cobrador escolhe lado, goleiro escolhe lado). A teoria prevê que as taxas de sucesso devem ser iguais em todos os lados — caso contrário, o cobrador deveria ajustar suas probabilidades.
Resultado: As taxas de sucesso dos cobradores são estatisticamente indistinguíveis entre esquerda e direita, consistente com a teoria de estratégias mistas. Os cobradores não exibem padrões seriais exploráveis.
Relevância: Evidência empírica direta do princípio da indiferença (Seção 9a.4) em um contexto de alto incentivo financeiro.
Kreps, David M.; Scheinkman, José A. (1983). Quantity Precommitment and Bertrand Competition Yield Cournot Outcomes. Bell Journal of Economics, 14(2), 326–337.
Pergunta central: Por que o resultado de Cournot emerge em mercados em que as firmas podem competir em preços?
Método: Modelo de dois estágios: no primeiro estágio, firmas escolhem capacidade produtiva simultaneamente; no segundo, competem em preços à la Bertrand. Capacidade é interpretada como comprometimento de quantidade.
Resultado: O equilíbrio do jogo de dois estágios reproduz exatamente o resultado de Cournot. A intuição é elegante: dada a capacidade instalada no primeiro estágio, a competição em preços no segundo estágio não pode levar ao preço de custo marginal porque as firmas têm capacidade limitada — e isso garante margens positivas idênticas às de Cournot.
Relevância: Este artigo resolve o debate Cournot-Bertrand mostrando que os dois modelos são compatíveis quando se incorpora a decisão de capacidade como etapa anterior à precificação. A distinção entre variável estratégica de curto prazo (preço) e compromisso de longo prazo (capacidade) — discutida na Seção 9a.5 e aprofundada no Módulo 9b — é fundamental para a análise de fusões em setores intensivos em capital.
Bajari, Patrick; Benkard, C. Lanier; Levin, Jonathan (2007). Estimating Dynamic Models of Imperfect Competition. Econometrica, 75(5), 1331–1370.
Pergunta central: Como estimar estruturalmente modelos de oligopólio dinâmico sem impor restrições funcionais rígidas?
Método: Procedimento de estimação em dois estágios (BBL) para jogos dinâmicos de oligopólio. No primeiro estágio, estimam-se as políticas de decisão dos agentes de forma não-paramétrica diretamente dos dados. No segundo, recuperam-se os parâmetros estruturais (custos, payoffs) exigindo que as políticas observadas sejam consistentes com um equilíbrio de Markov perfeito.
Resultado: O método BBL é computacionalmente tratável mesmo para jogos com muitos estados — um avanço em relação aos métodos de programação dinâmica que exigem resolver explicitamente o equilíbrio. Aplicações empíricas cobrem mercados de cimento, companhias aéreas e varejo.
Relevância: A estimação de modelos estruturais de oligopólio é o instrumento de fronteira para análise antitruste quantitativa. O CADE e o DOJ americano utilizam abordagens próximas do BBL para simular os efeitos de fusões. Conecta a Seção 9a.5 (equilíbrio estático de Cournot e Bertrand) com os modelos dinâmicos dos Módulos 9b e 9d.
Camerer, Colin F.; Ho, Teck-Hua (1999). Experience-Weighted Attraction Learning in Normal Form Games. Econometrica, 67(4), 827–874.
Pergunta central: Como agentes reais aprendem a jogar equilíbrios de Nash ao longo de experiências repetidas?
Método: Modelo EWA (Experience-Weighted Attraction) que generaliza aprendizado por reforço e fictitious play em um único framework paramétrico. O modelo é estimado em dados de experimentos laboratoriais com jogos como Batalha dos Sexos, Dilema dos Prisioneiros e Matching Pennies com sujeitos humanos.
Resultado: O modelo EWA se ajusta melhor aos dados do que os modelos concorrentes em 7 dos 8 jogos testados. Em geral, as estratégias dos sujeitos convergem para o equilíbrio de Nash, mas o processo de convergência é lento e heterogêneo entre sujeitos.
Relevância: Fornece evidência empírica sobre a validade descritiva do equilíbrio de Nash como previsão de comportamento. Os resultados sugerem que o equilíbrio é uma boa aproximação para situações com experiência repetida e incentivos elevados — contexto de muitos mercados industriais —, mas pode falhar em interações únicas entre agentes inexperientes. Dialoga diretamente com a discussão sobre fundamentos do equilíbrio de Nash na Seção 9a.3.
🤖 Exercício com IA
IA.2 — Equilíbrios de Nash: Puros e Mistos
Use a IA para encontrar todos os equilíbrios de Nash (puros e mistos) do jogo com payoffs (U,L)=(3,1), (U,R)=(0,0), (D,L)=(0,0), (D,R)=(1,3). Depois, peça para a IA explicar por que o equilíbrio misto existe. Verifique se as probabilidades calculadas são corretas resolvendo o sistema de indiferença manualmente.
📚 Referências do Capítulo¶
- Adams, Christopher P. 2025. Game Theory for Applied Econometricians: Data Analytics with R. Boca Raton: CRC Press.
- Bajari, Patrick, C. Lanier Benkard, e Jonathan Levin. 2007. "Estimating Dynamic Models of Imperfect Competition." Econometrica 75 (5): 1331–1370. DOI
- Axelrod, Robert. 1984. The Evolution of Cooperation. New York: Basic Books.
- Bertrand, Joseph. 1883. "Théorie mathématique de la richesse sociale." Journal des Savants 67: 499–508.
- Camerer, Colin F., e Teck-Hua Ho. 1999. "Experience-Weighted Attraction Learning in Normal Form Games." Econometrica 67 (4): 827–874. DOI
- Bresnahan, Timothy F., e Peter C. Reiss. 1991. "Entry and Competition in Concentrated Markets." Journal of Political Economy 99 (5): 977–1009. DOI
- Chiappori, Pierre-André, Steven Levitt, e Tim Groseclose. 2002. "Testing Mixed-Strategy Equilibria When Players Are Heterogeneous." American Economic Review 92 (4): 1138–1147. DOI
- Cournot, Antoine-Augustin. 1838. Recherches sur les Principes Mathématiques de la Théorie des Richesses. Paris: Hachette.
- Fudenberg, Drew, e Jean Tirole. 1991. Game Theory. Cambridge, MA: MIT Press.
- Gibbons, Robert. 1992. Game Theory for Applied Economists. Princeton: Princeton University Press.
- Kreps, David M., e José A. Scheinkman. 1983. "Quantity Precommitment and Bertrand Competition Yield Cournot Outcomes." Bell Journal of Economics 14 (2): 326–337. DOI
- Kalist, David E. 2004. "Data from the Television Game Show 'Friend or Foe?'" Journal of Statistics Education 12 (3). DOI
- List, John A. 2006. "Friend or Foe? A Natural Experiment of the Prisoner's Dilemma." Review of Economics and Statistics 88 (3): 463–471. DOI
- Mas-Colell, Andreu, Michael D. Whinston, e Jerry R. Green. 1995. Microeconomic Theory. New York: Oxford University Press. Caps. 7–8.
- Maynard Smith, John, e George R. Price. 1973. "The Logic of Animal Conflict." Nature 246: 15–18. DOI
- Nash, John F. 1950. "Equilibrium Points in N-Person Games." Proceedings of the National Academy of Sciences 36 (1): 48–49. DOI
- Nash, John F. 1951. "Non-Cooperative Games." Annals of Mathematics 54 (2): 286–295. DOI
- Osborne, Martin J., e Ariel Rubinstein. 1994. A Course in Game Theory. Cambridge, MA: MIT Press.
- Schelling, Thomas C. 1960. The Strategy of Conflict. Cambridge, MA: Harvard University Press.
- Selten, Reinhard. 1965. "Spieltheoretische Behandlung eines Oligopolmodells mit Nachfrageträgheit." Zeitschrift für die gesamte Staatswissenschaft 121: 301–324.
- Stackelberg, Heinrich von. 1934. Marktform und Gleichgewicht. Vienna: Springer.
- Von Neumann, John, e Oskar Morgenstern. 1944. Theory of Games and Economic Behavior. Princeton: Princeton University Press.
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A tese de Nash, Non-Cooperative Games (1950), é possivelmente o documento mais conciso e impactante da história da ciência econômica — 28 páginas que revolucionaram três campos simultaneamente (economia, matemática e ciência política). Para comparação, a tese média de doutorado em economia tem cerca de 150 páginas. Nash estava, aparentemente, demasiado ocupado sendo genial para ser prolixo. ↩
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A demonstração usa o Teorema do Ponto Fixo de Kakutani — o que pode intimidar o leitor na primeira leitura. Uma confissão: a maioria dos economistas aplicados nunca precisou refazer essa prova depois da pós-graduação. O que importa é a implicação: todo jogo finito tem solução. Se você está procurando o equilíbrio de um jogo e não encontra em estratégias puras, não desista — ele está escondido nas mistas. Kakutani garante. ↩