8.4 Eu Me Importo Com Você (Às Vezes): Preferências Sociais¶
Até aqui, discutimos como o agente erra ao avaliar riscos e probabilidades. Mas há uma suposição ainda mais básica que merece ser testada: a de que as pessoas só se importam consigo mesmas. Faça o teste: se alguém lhe oferecesse R$ 100, mas com a condição de que outra pessoa (que você não conhece) receba R$ 1.000, você aceitaria? A maioria aceita. Agora inverta: alguém recebe R$ 100, mas você ganha R$ 0. Justo? A maioria rejeita — mesmo que rejeitar signifique que ninguém recebe nada.
Esse resultado destruidor aparece em laboratório com a regularidade de um relógio. As pessoas se importam com a distribuição dos resultados, com a justiça e com as intenções dos outros. Essas preferências sociais — aversão à inequidade, reciprocidade, altruísmo punitivo — não são ruído: são padrões robustos que mudam equilíbrios de jogos e resultados de mercado.
A transição desta seção para as anteriores é relevante: nas Seções 8.2 e 8.3, os desvios comportamentais eram individuais — um único agente, tomando decisões sob risco ou ambiguidade, se afasta das previsões normativas. Aqui, entramos no domínio da interação estratégica, onde o comportamento de cada agente depende de suas crenças sobre os demais. Isso torna o fenômeno das preferências sociais duplamente interessante: ao mesmo tempo que desafia o pressuposto de autointeresse, conecta-se naturalmente à teoria dos jogos (Capítulo 14). A diferença é que, enquanto a teoria dos jogos padrão assume autointeresse e pergunta quais equilíbrios surgem, a economia comportamental das preferências sociais pergunta como os equilíbrios mudam quando os agentes se importam com a distribuição dos resultados e com as intenções alheias.
8.4.1 Evidência experimental: os jogos de laboratório¶
Três jogos experimentais formam a base empírica das preferências sociais (Dhami 2016, p. 384–404; Wilkinson e Klaes 2012, p. 397–420). A Tabela 8.5 sintetiza os resultados. O valor científico desses jogos de laboratório reside em sua transparência estrutural: as regras, os payoffs e os incentivos são conhecidos por todos os participantes e pelo experimentador. Isso permite isolar o papel das preferências dos demais fatores — informação assimétrica, reputação de longo prazo, normas legais — que normalmente tornam ambíguas as inferências sobre motivações em situações de campo.
Jogo do Ultimato (Ultimatum Game). Um proponente P divide uma quantia \(S\) com um respondedor R. P oferece \(x\) a R e fica com \(S - x\). R pode aceitar (ambos recebem os valores propostos) ou rejeitar (ambos recebem zero). O equilíbrio de Nash por indução retroativa prevê que P ofereça o mínimo possível e R aceite qualquer oferta positiva. Mas os resultados experimentais são sistematicamente diferentes:
- A oferta modal é de 40% a 50% do bolo total (Güth, Schmittberger e Schwarze 1982).
- Ofertas abaixo de 20% são rejeitadas em aproximadamente metade das vezes (Wilkinson e Klaes 2012, p. 416).
- Esses padrões são robustos a aumentos de stakes: mesmo com \(S = \text{US\$}\,400\), um quarto dos respondedores rejeitou ofertas de US$ 100 (List e Cherry 2000).
Jogo do Ditador (Dictator Game). Idêntico ao jogo do ultimato, mas R não pode rejeitar — recebe passivamente o que P oferece. A previsão autointeressada é \(x = 0\). Na prática, ditadores oferecem em média 20% do bolo (Forsythe et al. 1994), indicando algum grau de altruísmo genuíno (não motivado pelo medo de rejeição). Com duplo-anonimato, as ofertas caem para cerca de 10% (Hoffman et al. 1994).
Jogo da Confiança (Trust Game). O investidor I recebe uma dotação \(E\) e decide quanto enviar ao administrador A. O valor enviado é triplicado (representando os ganhos da cooperação). A então decide quanto devolver a I. O equilíbrio autointeressado prevê que A não devolva nada e, antecipando isso, I não envie nada. Na prática, investidores enviam em média 50% de sua dotação, e administradores devolvem em média cerca de 1/3 do valor recebido — suficiente para gerar retorno positivo ao investidor em muitos casos (Berg, Dickhaut e McCabe 1995).
| Jogo | Previsão UE autointeressada | Resultado experimental típico |
|---|---|---|
| Ultimato | P oferece \(\approx 0\); R aceita qualquer \(x > 0\) | Oferta modal 40–50%; rejeição de ofertas \(< 20\%\) |
| Ditador | P oferece \(x = 0\) | Oferta média \(\approx 20\%\) |
| Confiança | I envia 0; A devolve 0 | I envia \(\approx 50\%\); A devolve \(\approx 33\%\) do recebido |
| Bens públicos (sem punição) | Contribuição = 0 | Contribuição inicial \(\approx 40{-}60\%\); decai com repetição |
| Bens públicos (com punição) | Contribuição = 0 | Contribuição estável \(\approx 50{-}80\%\) |
Tabela 8.5 — Resultados experimentais vs. previsão autointeressada.
Intuição Econômica
Em uma frase: No jogo do ultimato, as pessoas rejeitam ofertas "injustas" mesmo perdendo dinheiro — porque a dor da desigualdade supera o benefício monetário da aceitação.
Pense assim: Imagine que alguém vai dividir R$ 200 com você. Ela fica com R$ 170 e oferece R$ 30 para você. Você aceita? A teoria padrão diz "sim, R$ 30 > R$ 0". Mas a maioria das pessoas rejeita — R$ 30 de uma divisão de R$ 200 (15%) é percebido como uma afrontação, e a dor de aceitar algo "injusto" supera o ganho de R$ 30. Esse mesmo mecanismo aparece em negociações salariais: trabalhadores rejeitam propostas que percebem como desvantajosas em relação aos colegas, mesmo que o salário em valor absoluto seja adequado.
Por que isso importa: O equilíbrio de Nash por indução retroativa prevê que qualquer oferta positiva seja aceita — mas essa previsão falha sistematicamente. Qualquer modelo de barganha aplicado a negociações trabalhistas, contratos públicos ou fusões corporativas precisa levar em conta que os agentes reais têm um "preço da dignidade" — um limiar abaixo do qual preferem o impasse à capitulação.
Box Brasil 8.5: Preferências sociais e informalidade fiscal
A alta tolerância à informalidade fiscal no Brasil pode ser interpretada à luz das preferências sociais. Quando os contribuintes percebem que o sistema tributário é inequitativo — com altas alíquotas sobre o trabalho formal e baixa tributação sobre lucros e dividendos —, a reciprocidade negativa pode reduzir a disposição a pagar impostos. Pesquisas de opinião do Ipea indicam que a percepção de injustiça fiscal é um dos principais fatores associados à tolerância com a evasão tributária. O modelo de Fehr-Schmidt (Seção 8.4.2) prevê exatamente esse padrão: agentes com alta aversão à desvantagem (\(\alpha_i\) elevado) podem preferir a "punição" de não cooperar a aceitar uma distribuição percebida como injusta.
8.4.2 O modelo de Fehr-Schmidt (aversão à inequidade)¶
Os experimentos da subseção anterior documentam o fenômeno — as pessoas se importam com a justiça distributiva. Mas como incorporar essas preferências em um modelo formal que gere previsões testáveis? É necessário ir além da observação empírica e construir uma função de utilidade que capture a aversão à desigualdade de forma tratável e elegante.
O modelo de Fehr-Schmidt tem um mérito metodológico crucial: é parcimoniosa. Adiciona apenas dois parâmetros (\(\alpha_i\) e \(\beta_i\)) ao modelo padrão e, com isso, explica um conjunto muito amplo de resultados experimentais. Essa parcimônia não é cosmética — quanto mais parâmetros um modelo tem, mais fácil é ajustá-lo a dados já observados, mas menor é seu poder preditivo para novos contextos. A robustez do modelo de Fehr-Schmidt, confirmada em inúmeros estudos de replicação e em contextos culturais muito distintos, sugere que a aversão à inequidade é um traço humano genuinamente universal, ainda que com variações quantitativas entre populações e contextos.
Fehr e Schmidt (1999) formalizaram as preferências sociais com um modelo elegante de aversão à inequidade. Em um grupo de \(n\) jogadores com payoffs \(y_1, y_2, \ldots, y_n\), a utilidade do jogador \(i\) é:
onde:
- \(\alpha_i \geq 0\) mede a aversão à inequidade desvantajosa (a dor de ganhar menos que os outros).
- \(0 \leq \beta_i < 1\) mede a aversão à inequidade vantajosa (o desconforto de ganhar mais que os outros).
- Na equação \(\eqref{eq:8.4}\), a restrição \(\beta_i \leq \alpha_i\) garante que a inequidade desvantajosa dói mais que a vantajosa — as pessoas sofrem mais quando estão "por baixo" do que quando estão "por cima".
Aversão à inequidade (Fehr-Schmidt)
O modelo de Fehr-Schmidt assume que os agentes comparam seus payoffs com os dos demais membros do grupo de referência. A utilidade diminui tanto quando o agente ganha menos que os outros (inequidade desvantajosa, ponderada por \(\alpha_i\)) quanto quando ganha mais (inequidade vantajosa, ponderada por \(\beta_i\)). A restrição \(\beta_i < \alpha_i\) reflete a assimetria empírica: o ressentimento de ficar atrás é mais forte que a culpa de ficar à frente.
Aplicação ao jogo do ultimato (caso de 2 jogadores). Com \(n = 2\), a utilidade do respondedor R ao aceitar uma oferta \(x\) de um bolo \(S\) é:
Se \(x < S/2\) (oferta abaixo da metade), a inequidade é desvantajosa: \(U_R = x - \alpha_R(S - 2x) = x(1 + 2\alpha_R) - \alpha_R S\). O respondedor rejeita se \(U_R < 0\), ou seja, se:
Com \(\alpha_R = 1\), o limiar é \(x^* = S/3\) — ofertas abaixo de 33% são rejeitadas. Com \(\alpha_R = 4\), o limiar sobe para \(x^* \approx 0{,}44 \cdot S\). O modelo prevê corretamente que respondedores com maior aversão à desvantagem exigem ofertas mais generosas.
Figura 8.4 — Utilidade de Fehr-Schmidt para dois jogadores. Ajuste os parâmetros de aversão à desigualdade desvantajosa e vantajosa para observar o efeito sobre a utilidade.
Figura 8.5 — Jogo do ultimato: decisão do respondedor com preferências de Fehr-Schmidt. Observe como a aversão à inequidade determina o limiar de rejeição.
Exercício Resolvido 8.2 — Fehr-Schmidt no jogo do ultimato
Enunciado: Em um jogo do ultimato com bolo \(S = 100\), o respondedor R tem parâmetros de Fehr-Schmidt \(\alpha_R = 2\) e \(\beta_R = 0{,}4\). (a) Qual é a oferta mínima que R aceita? (b) Se o proponente P tem \(\alpha_P = 0{,}5\) e \(\beta_P = 0{,}3\), qual é a oferta que maximiza a utilidade de P, sabendo que P conhece os parâmetros de R?
Dados: \(S = 100\), \(\alpha_R = 2\), \(\beta_R = 0{,}4\), \(\alpha_P = 0{,}5\), \(\beta_P = 0{,}3\).
Resolução:
Passo 1 — Oferta mínima aceita por R
R aceita se \(U_R \geq 0\). Para \(x < 50\): \(U_R = x(1 + 2\alpha_R) - \alpha_R S = x(1 + 4) - 200 = 5x - 200\).
\(5x - 200 \geq 0 \implies x \geq 40\).
Oferta mínima aceita: \(x^* = 40\) (ou seja, 40% do bolo).
Passo 2 — Oferta ótima de P
P fica com \(S - x = 100 - x\) e sua utilidade (para \(x \leq 50\)) é:
\(U_P = (100 - x) - \beta_P \cdot ((100 - x) - x) = (100 - x) - 0{,}3(100 - 2x) = (100 - x) - 30 + 0{,}6x = 70 - 0{,}4x\)
\(U_P\) é decrescente em \(x\), então P quer oferecer o mínimo aceito: \(x = 40\).
Resultado: P oferece 40 e fica com 60. Ambos aceitam.
\(U_P = 70 - 0{,}4 \times 40 = 54\); \(U_R = 5 \times 40 - 200 = 0\) (indiferente, aceita).
Interpretação econômica: A aversão à inequidade eleva a oferta de equilíbrio de \(\approx 0\) (previsão autointeressada) para 40% do bolo — próximo aos valores observados experimentalmente. O modelo de Fehr-Schmidt explica por que proponentes fazem ofertas "justas" sem precisar assumir altruísmo: a ameaça crível de rejeição por respondedores avessos à inequidade disciplina os proponentes.
8.4.3 Reciprocidade e cooperação¶
O modelo de Fehr-Schmidt é um avanço importante, mas captura apenas a preocupação com a distribuição final dos resultados. Na prática, as pessoas também se importam com as intenções por trás das ações alheias: reagimos de forma diferente a uma oferta baixa feita por um computador e à mesma oferta feita por uma pessoa que sabemos estar agindo estrategicamente. Essa sensibilidade às intenções é o domínio da reciprocidade.
O modelo de Fehr-Schmidt captura a aversão à desigualdade de resultados, mas não explica completamente a reciprocidade — a tendência a recompensar comportamento cooperativo e punir comportamento injusto, mesmo a um custo pessoal. Fehr e Gächter (2000) demonstraram o poder da reciprocidade em jogos de bens públicos com punição: quando os participantes podem punir (a um custo para si mesmos) jogadores que contribuem pouco, as contribuições ao bem público sobem de níveis baixos e declinantes (sem punição) para níveis altos e estáveis.
Essa disposição à punição altruísta — pagar um custo para punir quem viola normas sociais — é difícil de explicar pelo autointeresse, mas emerge naturalmente de modelos que combinam aversão à inequidade com reciprocidade (Dhami 2016, p. 466–478).
As implicações para o mercado de trabalho são especialmente importantes. Akerlof (1982) havia proposto o modelo de salário-eficiência: trabalhadores que percebem seu salário como "justo" — acima do que o mercado exigiria como mínimo — respondem com maior esforço e lealdade, não por altruísmo puro, mas por reciprocidade. A firma faz uma "dádiva" ao trabalhador (salário acima do equilíbrio), e o trabalhador responde com uma "contradádiva" (esforço acima do mínimo contratável). Nesse modelo, os salários não caem até o equilíbrio walrasiano mesmo com desemprego, porque fazê-lo destruiria a reciprocidade e reduziria a produtividade.
A reciprocidade também tem implicações para o design de contratos de incentivo. Contratos de alto-monitoramento — câmeras, relatórios detalhados, métricas granulares de desempenho — podem transmitir a mensagem de que o empregador não confia no trabalhador, ativando reciprocidade negativa e reduzindo a motivação intrínseca. Fehr, Herz e Wilkening (2013) mostraram experimentalmente que contratos com forte controle externo podem ser menos eficientes do que contratos com menor monitoramento, porque destroem a reciprocidade positiva e substituem motivação intrínseca por motivação extrínseca. Essa tensão entre contratos formais e normas informais de reciprocidade é central para entender por que organizações bem-sucedidas muitas vezes dependem mais de cultura corporativa do que de sistemas de incentivo explícitos.
Intuição Econômica
Em uma frase: Reciprocidade positiva (recompensar cooperação) e negativa (punir deserção) criam um mecanismo descentralizado de imposição de normas — mais eficaz que contratos formais em comunidades pequenas.
Pense assim: Num condomínio, o vizinho que sempre limpa a churrasqueira ganha convites para festas (reciprocidade positiva). O que nunca ajuda é excluído do grupo de WhatsApp (reciprocidade negativa). Ninguém precisa de contrato formal — a pressão social sustenta a cooperação.
Por que isso importa: Henrich et al. (2001) mostraram que sociedades com maior integração de mercado exibem mais cooperação em jogos experimentais. Entender preferências sociais é essencial para desenhar mecanismos que funcionem com seres humanos reais, não com homo economicus.