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Exercícios e ANPEC

Dados para exercicios empiricos

  • Previc / Previdencia complementar: gov.br/previc — Dados sobre adesao a planos de previdencia complementar para analisar o efeito de defaults (opt-in vs. opt-out) — nudge classico.
  • Efeito disposicao na B3: b3.com.br — Dados de volume e preco para testar se investidores vendem winners cedo demais e seguram losers (aversao a perda em acao).
  • Notebook: N5 — Vieses cognitivos em dados (experimento de ancoragem simulado).

🧠 Revisão Rápida

Teste seu entendimento dos conceitos centrais deste capítulo.

1. Na Teoria do Prospecto de Kahneman e Tversky, a função valor é:
  • (a) Côncava para ganhos e côncava para perdas, com simetria
  • (b) Côncava para ganhos e convexa para perdas, com inclinação mais acentuada para perdas
  • (c) Convexa para ganhos e côncava para perdas
  • (d) Linear tanto para ganhos quanto para perdas
Resposta

(b) A função valor é definida sobre ganhos e perdas relativos a um ponto de referência: côncava para ganhos (aversão ao risco), convexa para perdas (busca de risco) e mais íngreme para perdas do que para ganhos (aversão à perda, \(\lambda \approx 2{,}25\)). A alternativa (a) ignora a convexidade para perdas e a assimetria; (c) inverte; (d) descreve utilidade esperada linear.

2. O desconto quasi-hiperbólico (β, δ) difere do exponencial porque:
  • (a) A taxa de desconto aumenta com o horizonte temporal
  • (b) Há um desconto extra entre o presente e todos os períodos futuros, gerando viés do presente
  • (c) O fator de desconto entre períodos futuros consecutivos é β, não δ
  • (d) O agente é sempre consistente temporalmente
Resposta

(b) O modelo \((\beta, \delta)\) aplica um fator extra \(\beta < 1\) a todos os períodos futuros em relação ao presente (Equação 8.7). Isso cria uma "fronteira psicológica" entre agora e depois, gerando o viés do presente. Dentro do futuro, o desconto entre períodos consecutivos é \(\delta\) (como no exponencial). A alternativa (a) é falsa (a taxa implícita diminui); (c) confunde os fatores; (d) é o oposto do que ocorre.

3. O Paradoxo de Ellsberg demonstra que:
  • (a) Agentes são neutros em relação à ambiguidade
  • (b) Agentes preferem situações com probabilidades conhecidas a situações com probabilidades ambíguas
  • (c) A utilidade esperada subjetiva de Savage é sempre válida
  • (d) A aversão à ambiguidade é o mesmo que a aversão ao risco
Resposta

(b) O Paradoxo de Ellsberg mostra que agentes sistematicamente preferem apostar em urnas com probabilidades conhecidas (risco) a urnas com probabilidades desconhecidas (ambiguidade), mesmo quando as probabilidades subjetivas implicariam indiferença. Isso viola a UE de Savage e revela aversão à ambiguidade — distinta da aversão ao risco.

4. No modelo de Fehr-Schmidt, a aversão à inequidade desvantajosa (α) é tipicamente:
  • (a) Menor que a aversão à inequidade vantajosa (β)
  • (b) Igual a zero para a maioria dos agentes
  • (c) Maior que a aversão à inequidade vantajosa (β)
  • (d) Irrelevante para o resultado do jogo do ultimato
Resposta

(c) A restrição \(\beta_i \leq \alpha_i\) garante que a inequidade desvantajosa (ganhar menos que os outros) dói mais que a vantajosa (ganhar mais). Isso reflete a assimetria empírica observada nos jogos experimentais: as pessoas sofrem mais quando estão "por baixo" do que quando estão "por cima".

5. Um nudge, conforme definido por Thaler e Sunstein, deve:
  • (a) Proibir opções prejudiciais ao agente
  • (b) Alterar significativamente os incentivos econômicos
  • (c) Ser fácil e barato de evitar, sem proibir nenhuma opção
  • (d) Funcionar apenas para agentes sofisticados
Resposta

(c) Um nudge altera o comportamento de forma previsível sem proibir opções nem mudar significativamente os incentivos. A intervenção deve ser fácil e barata de evitar — é "libertária" porque preserva a liberdade de escolha. Proibir opções (a) é paternalismo duro; alterar incentivos (b) é política tradicional; (d) é falso — nudges como defaults funcionam para todos.

📋 Resumo do Capítulo

  • Heurísticas cognitivas (representatividade, disponibilidade, ancoragem, excesso de confiança) são atalhos mentais que produzem vieses previsíveis; o modelo dual de Kahneman (Sistema 1 rápido e intuitivo vs. Sistema 2 lento e deliberado) explica por que esses vieses persistem.
  • A Teoria do Prospecto substitui a utilidade esperada por uma função valor definida sobre ganhos e perdas relativos a um ponto de referência, com três propriedades: concavidade para ganhos, convexidade para perdas e aversão à perda (perdas pesam cerca de 2,25 vezes mais que ganhos equivalentes).
  • A ponderação não-linear de probabilidades sobrevaloriza eventos raros e subvaloriza probabilidades moderadas a altas, explicando simultaneamente a compra de loterias e a contratação de seguros contra catástrofes; a PT Cumulativa corrige a violação de dominância estocástica da versão original.
  • A aversão à ambiguidade (Paradoxo de Ellsberg) mostra que agentes distinguem entre risco (probabilidades conhecidas) e ambiguidade (probabilidades vagas), preferindo sistematicamente o risco conhecido, o que viola a utilidade esperada subjetiva de Savage.
  • Preferências sociais (aversão à inequidade, reciprocidade, punição altruísta) são formalizadas pelo modelo de Fehr-Schmidt e explicam os resultados dos jogos do ultimato, ditador e confiança que contradizem a hipótese de autointeresse puro.
  • O desconto quasi-hiperbólico captura o viés do presente e gera inconsistência temporal, explicando procrastinação e subpoupança; nudges (opções-padrão, framing, normas sociais, compromisso prévio) aproveitam os vieses comportamentais para melhorar decisões sem restringir a liberdade de escolha.

🔑 Conceitos-Chave

Conceito Definição
Heurística Atalho cognitivo que simplifica julgamentos complexos, podendo gerar vieses sistemáticos em contextos específicos.
Sistema 1 e Sistema 2 Modelo dual de Kahneman: Sistema 1 é rápido, automático e intuitivo; Sistema 2 é lento, deliberado e analítico.
Teoria do Prospecto Modelo de decisão sob risco em que o valor é definido sobre ganhos e perdas relativos a um ponto de referência, com aversão à perda e ponderação não-linear de probabilidades.
Aversão à perda Assimetria em que perdas produzem impacto psicológico maior que ganhos de mesma magnitude; o coeficiente \(\lambda\) é tipicamente estimado em torno de 2,25.
Ponderação de probabilidades Função que transforma probabilidades objetivas em pesos decisórios, sobrevalorizando eventos raros e subvalorizando eventos prováveis.
Aversão à ambiguidade Preferência sistemática por situações com probabilidades conhecidas em relação a situações com probabilidades vagas ou desconhecidas.
Modelo de Fehr-Schmidt Modelo de preferências sociais em que a utilidade depende do próprio payoff e das diferenças em relação aos payoffs dos demais, com aversão à inequidade desvantajosa e vantajosa.
Desconto quasi-hiperbólico Modelo de desconto intertemporal com parâmetros (\(\beta\), \(\delta\)) que captura o viés do presente: um desconto extra aplicado a todos os períodos futuros em relação ao presente.
Contabilidade mental Tendência de organizar, avaliar e acompanhar atividades financeiras em contas mentais separadas, violando a fungibilidade do dinheiro.
Nudge Intervenção na arquitetura de escolha que altera o comportamento de forma previsível sem proibir opções nem alterar incentivos econômicos significativos.

Tabela 8.9 — Conceitos-chave.


✏️ Exercícios

Exercício 8.1. Um investidor avalia duas opções: (A) ganhar R$ 500 com certeza; (B) ganhar R$ 1.000 com probabilidade \(0{,}50\). Sob utilidade esperada com função de utilidade côncava, o investidor prefere A. Agora considere: (C) perder R$ 500 com certeza; (D) perder R$ 1.000 com probabilidade \(0{,}50\). Sob a Teoria do Prospecto, qual a escolha provável em cada par? Explique usando as propriedades da função valor.

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Exercício 8.2. Usando a função valor paramétrica \(v(x) = x^{0{,}88}\) para ganhos e \(v(x) = -2{,}25 \cdot (-x)^{0{,}88}\) para perdas, calcule \(v(100)\), \(v(-100)\), \(v(200)\) e \(v(-200)\). Verifique que \(|v(-100)| > v(100)\) e interprete economicamente.

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Exercício 8.3. Um consumidor com desconto quasi-hiperbólico \((\beta = 0{,}70,\; \delta = 0{,}99)\) avalia dois planos de poupança. O Plano X exige um depósito de R$ 100 hoje e paga R$ 150 em 1 ano. O Plano Y exige um depósito de R$ 100 em 6 meses e paga R$ 150 em 18 meses. (a) Calcule a utilidade descontada de cada plano sob desconto quasi-hiperbólico, assumindo \(u(x) = x\). (b) O consumidor prefere Y hoje, mas quando chegar o mês 6, ele vai aderir? Explique a diferença entre agentes sofisticados e ingênuos.

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Exercício 8.4. Uma empresa oferece dois planos de academia: (A) pagamento mensal de R$ 100; (B) pagamento anual antecipado de R$ 960 (equivalente a R$ 80/mês). DellaVigna e Malmendier (2006) mostram que muitos consumidores escolhem (A) e depois frequentam a academia menos de 5 vezes por mês, pagando mais de R$ 20 por visita — quando poderiam comprar passes avulsos por R$ 12. Explique esse comportamento usando: (i) excesso de confiança sobre o uso futuro; (ii) viés do presente.

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Exercício 8.5. O governo está considerando duas políticas para aumentar a poupança previdenciária: (i) subsídio fiscal de 10% sobre contribuições voluntárias; (ii) adesão automática com opt-out. Com base na literatura comportamental, qual política provavelmente terá maior impacto sobre a taxa de poupança agregada? Justifique.

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Exercício 8.6. Explique por que o Paradoxo de Allais viola o axioma da independência da utilidade esperada. Mostre formalmente que as preferências \(A \succ B\) e \(D \succ C\) são inconsistentes com a existência de uma função de utilidade de Von Neumann–Morgenstern.

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Exercício 8.7. No Paradoxo de Ellsberg (duas cores), mostre que a preferência simultânea pela Urna A em ambas as apostas (vermelho e preto) é incompatível com qualquer probabilidade subjetiva atribuída à composição da Urna B. Qual axioma da UE de Savage é violado?

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Exercício 8.8. Em um jogo do ultimato com \(S = 200\), o respondedor tem parâmetros de Fehr-Schmidt \(\alpha_R = 3\) e \(\beta_R = 0{,}5\). (a) Calcule a oferta mínima aceita. (b) Se o respondedor fosse puramente autointeressado (\(\alpha_R = \beta_R = 0\)), qual seria a oferta mínima? (c) Interprete a diferença à luz da aversão à inequidade.

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Exercício 8.9. Usando as quatro regras de edição hedônica de Thaler (1985), explique por que: (a) lojas de departamento anunciam promoções como "20% de desconto + 10% extra" em vez de "28% de desconto"; (b) a cobrança de taxa condominial é mensal (não anual); (c) supermercados oferecem "cashback" em vez de desconto no preço.

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Exercício 8.10. A função de ponderação de probabilidades de Tversky e Kahneman é \(w(p) = p^{\gamma}/(p^{\gamma} + (1-p)^{\gamma})^{1/\gamma}\). (a) Mostre que \(w(0) = 0\) e \(w(1) = 1\). (b) Calcule \(w(0{,}01)\), \(w(0{,}50)\) e \(w(0{,}99)\) para \(\gamma = 0{,}61\). (c) Verifique a propriedade de subcerteza: \(w(p) + w(1-p) < 1\) para \(p = 0{,}50\).

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Exercício 8.11. Um consumidor tem \(u(x) = x^{0{,}5}\) (utilidade esperada padrão) e riqueza inicial \(W = 1000\). Compare as seguintes opções: (a) Perda certa de R$ 400 (riqueza final = 600); (b) Loteria: perde R$ 800 com probabilidade \(0{,}5\) ou não perde nada com probabilidade \(0{,}5\) (riqueza esperada = 600). (i) Sob utilidade esperada, qual opção é preferida? (ii) Sob Teoria do Prospecto com ponto de referência \(r = 1000\), função valor \(v(x) = x^{0{,}88}\) para ganhos e \(v(x) = -2{,}25(-x)^{0{,}88}\) para perdas, e sem ponderação de probabilidades (\(w(p) = p\)), qual opção é preferida? (iii) Explique a diferença entre as previsões dos dois modelos.

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Exercício 8.12. Julgue cada afirmação como Verdadeira (V) ou Falsa (F) e justifique brevemente: (a) A Teoria do Prospecto prevê que agentes exibem busca por risco no domínio das perdas. (b) O efeito dotação contradiz a teoria neoclássica da demanda, pois implica que a disposição a aceitar (WTA) sistematicamente excede a disposição a pagar (WTP). (c) Agentes com desconto quasi-hiperbólico (\(\beta < 1\)) sempre preferem recompensas imediatas a recompensas futuras, independentemente do horizonte. (d) Um nudge restringe o conjunto de escolhas disponíveis ao agente.

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Exercício 8.13. Um agente com preferências \((\beta, \delta)\) e \(\beta = 0{,}70\), \(\delta = 0{,}95\), utilidade linear \(u(x) = x\), avalia três opções: (A) receber R$ 100 hoje; (B) receber R$ 120 daqui a 1 mês (\(t = 1\)); (C) receber R$ 150 daqui a 3 meses (\(t = 3\)). (a) Calcule as utilidades descontadas de A, B e C avaliadas em \(t = 0\) e ordene as opções. (b) Quando chega o mês 1, o agente reavalia B (que agora é imediato) e C (a 2 meses). Calcule as utilidades em \(t = 1\) e ordene novamente. (c) Ocorre inversão de preferências entre \(t = 0\) e \(t = 1\)? Qual é a fonte da inconsistência?

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Exercício 8.14. Um trabalhador brasileiro pode escolher entre dois contratos: (A) salário fixo de R$ 5.000/mês; (B) salário-base de R$ 4.000 mais bônus uniformemente distribuído entre R$ 0 e R$ 2.000 dependendo do desempenho (valor esperado do bônus = R$ 1.000, então renda esperada de R$ 5.000). (i) Sob utilidade esperada com \(u(x) = x^{1-\gamma}/(1-\gamma)\), \(\gamma = 2\), calcule a utilidade esperada de cada contrato e determine qual é preferido. Normalize as rendas dividindo por 1000 para simplificar os cálculos. (ii) Sob Teoria do Prospecto com ponto de referência \(r = 5.000\), \(\lambda = 2\), função valor linear por partes (\(v(x) = x\) para \(x \geq 0\) e \(v(x) = 2x\) para \(x < 0\)) e sem ponderação de probabilidades, calcule o valor esperado do prospecto B e compare com o contrato A.

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Exercício 8.15. (Difícil) Um agente enfrenta uma perda potencial \(L\) com probabilidade \(p\), e pode comprar seguro a preço atuarialmente justo. O agente tem preferências da Teoria do Prospecto com: ponto de referência = riqueza inicial \(W\), função valor \(v(x) = x\) para \(x \geq 0\) e \(v(x) = -\lambda(-x)\) para \(x < 0\) (com \(\lambda > 1\)), e função de ponderação \(w(p)\) satisfazendo \(w(p) > p\) para \(p\) pequeno e \(w(p) < p\) para \(p\) grande. (a) Mostre que, para perdas pequenas com probabilidade pequena (\(p \to 0\), \(L\) moderado), o agente sobre-segura — isto é, compra mais do que a cobertura completa seria necessária ou está disposto a pagar prêmio acima do atuarialmente justo. (b) Mostre que, para perdas catastróficas com probabilidade pequena (\(p\) pequeno, \(L \to W\)), a interação entre \(\lambda\) e \(w(p)\) pode gerar sub-seguro — o agente rejeita cobertura mesmo a preço justo. Interprete a diferença entre os dois resultados.

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🏆 Vem, ANPEC!

Nota sobre questões ANPEC

A economia comportamental é um campo relativamente recente na microeconomia e, até o momento, não aparece como tópico explícito nas provas da ANPEC de Microeconomia (período 2010–2025). As questões de decisão sob incerteza na ANPEC concentram-se na teoria da utilidade esperada, aversão ao risco e equivalente de certeza — temas tratados no Capítulo 7. As questões a seguir são elaboradas no estilo ANPEC para fins de preparação, caso o tema venha a ser cobrado.

ANPEC (estilo) — Teoria do Prospecto e função valor

Com relação à Teoria do Prospecto de Kahneman e Tversky (1979, 1992) e à função valor, indique quais das afirmações a seguir são verdadeiras e quais são falsas:

Item Afirmação
0 Na Teoria do Prospecto, os agentes avaliam resultados como ganhos ou perdas relativos a um ponto de referência, e não em termos de riqueza final — o que implica que dois indivíduos com a mesma riqueza total podem tomar decisões diferentes dependendo de suas trajetórias prévias.
1 A aversão à perda e a aversão ao risco são conceitos equivalentes: ambas decorrem da concavidade da função de utilidade sobre a riqueza.
2 A função valor da Teoria do Prospecto é côncava para ganhos e convexa para perdas, o que implica que os agentes são avessos ao risco no domínio dos ganhos e propensos ao risco no domínio das perdas.
3 A função de ponderação de probabilidades \(w(p)\) na Teoria do Prospecto é linear, preservando a propriedade de que uma probabilidade de 10% recebe exatamente um décimo do peso de um evento certo.
4 Considere a função valor paramétrica \(v(x) = x^{\alpha}\) para \(x \geq 0\) e \(v(x) = -\lambda(-x)^{\beta}\) para \(x < 0\), com \(\alpha = \beta = 0{,}88\) e \(\lambda = 2{,}25\). Se um agente enfrenta uma aposta simétrica de 50% de ganhar R$ 100 e 50% de perder R$ 100, o valor subjetivo esperado dessa aposta (usando probabilidades não distorcidas) é negativo.
Gabarito

Respostas: V F V F V

Justificativa por item:

  • Item 0 — V: A dependência de referência é uma das três propriedades fundamentais da função valor (Seção 8.2.2). O portador de valor é a variação \(x\) em relação ao ponto de referência (status quo), não o nível absoluto de riqueza. Dois indivíduos com riqueza idêntica, mas pontos de referência distintos (por exemplo, um que ganhou e outro que perdeu para chegar àquele nível), avaliarão as mesmas opções de forma diferente.
  • Item 1 — F: Aversão à perda e aversão ao risco são conceitos distintos (Seção 8.2.2, box "Cuidado"). A aversão ao risco decorre da concavidade da função de utilidade sobre a riqueza e descreve a preferência por um resultado certo sobre uma aposta de mesmo valor esperado. A aversão à perda é a assimetria \(\lambda > 1\) na função valor: \(|v(-x)| > v(x)\). Um agente pode ser neutro ao risco (função valor linear) e ainda assim ser avesso à perda.
  • Item 2 — V: A concavidade para ganhos implica sensibilidade decrescente e aversão ao risco nesse domínio; a convexidade para perdas implica sensibilidade decrescente e propensão ao risco no domínio das perdas. Esse é o efeito reflexão documentado por Kahneman e Tversky: no domínio dos ganhos, as pessoas preferem o certo; no das perdas, preferem arriscar para tentar evitar a perda (Seção 8.2.2).
  • Item 3 — F: A função de ponderação \(w(p)\) tem formato de S invertido (Equação 8.2, Seção 8.2.3). Probabilidades pequenas são sobrevalorizadas (\(w(p) > p\) para \(p\) pequeno) e probabilidades altas são subvalorizadas (\(w(p) < p\) para \(p\) grande). Essa não linearidade é justamente o que diferencia a Teoria do Prospecto da utilidade esperada no tratamento das probabilidades.
  • Item 4 — V: Com \(\alpha = \beta = 0{,}88\) e \(\lambda = 2{,}25\): \(v(100) = 100^{0{,}88} \approx 57{,}54\) e \(v(-100) = -2{,}25 \times 100^{0{,}88} \approx -129{,}47\). O valor subjetivo esperado (sem distorção de probabilidades) é \(0{,}5 \times 57{,}54 + 0{,}5 \times (-129{,}47) = 28{,}77 - 64{,}74 = -35{,}97 < 0\). A aversão à perda torna a aposta subjetivamente negativa, embora seu valor esperado monetário seja zero — por isso a maioria das pessoas recusa apostas simétricas (Exercício Resolvido 8.1).
ANPEC (estilo) — Vieses cognitivos e efeitos comportamentais

Considere os vieses cognitivos e os efeitos comportamentais discutidos na economia comportamental. Indique quais das afirmações a seguir são verdadeiras e quais são falsas:

Item Afirmação
0 A ancoragem é o viés pelo qual um valor inicial — mesmo que arbitrário e irrelevante para a decisão — influencia sistematicamente a estimativa final, como demonstrado no experimento da roda da fortuna de Tversky e Kahneman (1974).
1 O efeito framing viola o axioma da invariância das preferências: no experimento das "doenças asiáticas" de Tversky e Kahneman (1981), a maioria dos participantes escolheu a opção certa (avessa ao risco) quando o problema foi enquadrado em termos de vidas salvas, mas escolheu a opção arriscada quando o mesmo problema foi enquadrado em termos de mortes.
2 O viés do status quo e o efeito dotação são fenômenos independentes da aversão à perda: eles decorrem exclusivamente de custos de transação e assimetrias de informação, não de propriedades da função valor.
3 A contabilidade mental implica que os agentes tratam o dinheiro como perfeitamente fungível, avaliando cada decisão financeira em relação ao orçamento total, conforme prevê a teoria neoclássica.
4 No contexto de negociações, a ancoragem implica que quem faz a primeira oferta pode capturar uma parcela maior do excedente — não porque a oferta inicial seja mais informativa, mas porque serve de âncora para o processo de ajuste subsequente das partes.
Gabarito

Respostas: V V F F V

Justificativa por item:

  • Item 0 — V: A ancoragem é uma das três heurísticas fundamentais identificadas por Tversky e Kahneman (1974). No experimento da roda da fortuna, participantes que viram o número 10 estimaram a proporção de países africanos na ONU em 25%, enquanto os que viram 65 estimaram 45% — embora o número fosse gerado aleatoriamente e fosse irrelevante para a questão (Seção 8.1.3).
  • Item 1 — V: O experimento das doenças asiáticas é o exemplo clássico do efeito framing (Seção 8.2.5). Os programas A e C são matematicamente idênticos (200 salvas = 400 morrem, de 600), assim como B e D. Mas 72% escolheram A (certeza) no frame positivo e 78% escolheram D (risco) no frame negativo, o que é consistente com a Teoria do Prospecto: aversão ao risco para ganhos e propensão ao risco para perdas.
  • Item 2 — F: O viés do status quo e o efeito dotação são consequências diretas da aversão à perda da Teoria do Prospecto (Seções 8.2.5 e 8.6.2). Abrir mão de algo que se possui é codificado como perda, e a perda "pesa" mais do que o ganho equivalente (\(\lambda > 1\)). O experimento das canecas de Kahneman, Knetsch e Thaler (1990) demonstrou que a simples posse mais que dobrou a valoração do objeto (WTA = US$ 7,12 vs. WTP = US$ 2,87), sem que houvesse custos de transação ou assimetria informacional envolvidos.
  • Item 3 — F: A contabilidade mental descreve exatamente o oposto: os agentes não tratam o dinheiro como fungível (Seção 8.2.6). Thaler (1985, 1999) documentou que as pessoas segregam recursos em "contas mentais" separadas (salário, bônus, herança), e a propensão marginal a consumir difere entre essas categorias — violando a fungibilidade prevista pela teoria neoclássica.
  • Item 4 — V: A ancoragem em negociações é discutida na Seção 8.1.3. Estudos mostram que o preço de listagem de imóveis funciona como âncora mesmo para avaliadores profissionais (Northcraft e Neale 1987). A primeira oferta em uma negociação "ancora" o processo de ajuste, afetando o resultado final independentemente das posições de reserva objetivas.
ANPEC (estilo) — Desconto hiperbólico e inconsistência temporal

Com relação ao desconto intertemporal e à inconsistência temporal, indique quais das afirmações a seguir são verdadeiras e quais são falsas:

Item Afirmação
0 No modelo de desconto exponencial (Samuelson 1937), a taxa de desconto entre dois períodos consecutivos é constante, o que garante a consistência temporal: se um agente prefere a opção A à B quando ambas estão no futuro distante, essa preferência se mantém quando o momento da decisão se aproxima.
1 No modelo de desconto quasi-hiperbólico \((\beta, \delta)\), com \(\beta = 0{,}70\) e \(\delta = 0{,}95\), o fator de desconto entre \(t = 0\) e \(t = 1\) é \(\beta\delta = 0{,}665\), enquanto o fator de desconto entre \(t = 5\) e \(t = 6\) é \(\delta = 0{,}95\). Essa assimetria gera o viés do presente.
2 Um agente com desconto quasi-hiperbólico \((\beta = 0{,}70,\; \delta = 0{,}95)\) e utilidade linear avalia, em \(t = 0\), um pagamento de R$ 1.000 em \(t = 1\) como equivalente a um pagamento de aproximadamente R$ 665 hoje. Contudo, ao avaliar em \(t = 0\) dois pagamentos futuros — R$ 1.000 em \(t = 10\) e R$ 1.000 em \(t = 11\) —, a razão dos valores presentes é \(\delta = 0{,}95\), idêntica à do desconto exponencial.
3 A distinção entre agentes sofisticados e ingênuos é irrelevante para o desenho de políticas públicas, pois nudges como a adesão automática (opt-out) só são eficazes para agentes sofisticados que reconhecem seu viés do presente.
4 A demanda por mecanismos de compromisso — como planos de previdência com penalidade por resgate antecipado ou o programa Save More Tomorrow — é racional no contexto do modelo quasi-hiperbólico, pois o agente sofisticado reconhece que seu "eu futuro" terá viés do presente e busca restringir seu comportamento futuro.
Gabarito

Respostas: V V V F V

Justificativa por item:

  • Item 0 — V: O modelo de utilidade descontada (Equação 8.6, Seção 8.5.1) aplica o fator \(\delta^t\) ao período \(t\), de modo que a razão entre os fatores de desconto de dois períodos consecutivos é sempre \(\delta^{t+1}/\delta^t = \delta\), constante. Essa constância garante que as preferências não se invertem com a passagem do tempo — a propriedade de consistência temporal.
  • Item 1 — V: No modelo quasi-hiperbólico (Equação 8.7, Seção 8.5.3), o fator de desconto para \(t = 1\) visto de \(t = 0\) é \(\beta\delta = 0{,}70 \times 0{,}95 = 0{,}665\). Para períodos futuros consecutivos (\(t \geq 1\)), a razão entre os fatores é \(\beta\delta^{t+1}/\beta\delta^t = \delta = 0{,}95\). Assim, a transição do presente para o futuro imediato sofre um desconto desproporcionalmente grande (\(\beta\delta\) vs. \(\delta\)), criando o viés do presente (Tabela 8.6).
  • Item 2 — V: Em \(t = 0\): \(U_0(t=1) = \beta\delta \times 1000 = 0{,}665 \times 1000 = 665\). Para os pagamentos em \(t = 10\) e \(t = 11\): \(U_0(t=10) = \beta\delta^{10} \times 1000\) e \(U_0(t=11) = \beta\delta^{11} \times 1000\). A razão é \(\beta\delta^{11}/\beta\delta^{10} = \delta = 0{,}95\). Dentro do futuro, o desconto relativo entre dois períodos consecutivos é idêntico ao exponencial — o viés afeta apenas a fronteira presente/futuro.
  • Item 3 — F: Nudges como a adesão automática (opt-out) são eficazes tanto para agentes sofisticados quanto para ingênuos (Seção 8.5.4). Ambos os tipos permanecem no plano quando o default é "aderir", pois a inércia e o viés do status quo operam independentemente de o agente reconhecer ou não seu viés. A distinção é relevante para mecanismos de compromisso voluntário (como o Save More Tomorrow), que exigem sofisticação — mas nudges universais funcionam para todos.
  • Item 4 — V: Laibson (1997) formalizou a demanda por mecanismos de compromisso ("golden eggs") no modelo quasi-hiperbólico (Seção 8.5.4). O agente sofisticado antecipa que seu "eu futuro" terá \(\beta < 1\) e, portanto, consumirá mais do que o planejado. Ao se vincular a instrumentos ilíquidos (previdência com penalidade, poupança com desconto em folha), o agente restringe racionalmente seu comportamento futuro, protegendo a poupança da tentação de consumo imediato.