Pesquisa em Ação¶
Esta seção apresenta pesquisas acadêmicas que aplicam os conceitos deste capítulo a problemas reais.
Angrist, J. D.; Pischke, J.-S. (2010). The Credibility Revolution in Empirical Economics: How Better Research Design Is Taking the Con out of Econometrics. Journal of Economic Perspectives, 24(2), 3–30.
O que investiga: Como a economia empírica evoluiu para produzir evidências mais confiáveis sobre relações causais? A verificação de modelos econômicos — tema central da Seção 1.2 — depende crucialmente da capacidade de distinguir correlação de causalidade nos dados observacionais.
Conexão com o capítulo: Angrist e Pischke documentam a "revolução da credibilidade" que transformou a economia empírica a partir dos anos 1990. A cláusula ceteris paribus, apresentada como recurso teórico neste capítulo, é também o objetivo prático da econometria moderna: as técnicas de identificação causal — variáveis instrumentais, diferenças em diferenças, regressão descontínua — foram desenvolvidas para aproximar o ceteris paribus com dados observacionais.
Principais resultados: A adoção dessas técnicas elevou substancialmente a qualidade da evidência empírica. Estudos sobre retornos da educação, efeito do salário mínimo e impacto de programas sociais passaram a produzir resultados mais robustos e replicáveis. Joshua Angrist recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2021 por essas contribuições.
Por que importa: A revolução da credibilidade mostra que a microeconomia empírica não se limita a testar modelos — ela os refina, revelando quais suposições são empiricamente sustentáveis e quais precisam ser revisadas.
Thaler, R. H. (2016). Behavioral Economics: Past, Present, and Future. American Economic Review, 106(7), 1577–1600.
O que investiga: Até que ponto a hipótese de otimização racional — fundamento dos modelos microeconômicos discutidos na Seção 1.3 — descreve adequadamente o comportamento humano? E quando os desvios da racionalidade são sistemáticos, como devemos modificar nossos modelos?
Conexão com o capítulo: Em seu discurso presidencial na AEA, Thaler traça a trajetória da economia comportamental desde seus precursores até sua consolidação. O argumento central é que os agentes reais (Humans) diferem sistematicamente dos agentes perfeitamente racionais (Econs): exibem racionalidade limitada, autocontrole imperfeito e preferências sociais. A abordagem "as if" de Friedman funciona em muitos contextos, mas falha em decisões intertemporais, escolhas sob incerteza e situações com baixa experiência.
Principais resultados: Thaler documenta vieses robustos — efeito dotação, aversão à perda, desconto hiperbólico — e mostra como incorporá-los a modelos formais sem abandonar o arcabouço de otimização. A economia comportamental não rejeita a modelagem; propõe modelos alternativos que preservam o rigor formal.
Por que importa: Thaler recebeu o Nobel em 2017, consolidando a economia comportamental como parte do mainstream microeconômico. O artigo dialoga com as Seções 1.3 e 1.6 sobre os limites e extensões do modelo racional.
Card, D.; Krueger, A. B. (1994). Minimum Wages and Employment: A Case Study of the Fast-Food Industry in New Jersey and Pennsylvania. American Economic Review, 84(4), 772–793.
O que investiga: O modelo competitivo do mercado de trabalho prevê que um aumento no salário mínimo acima do equilíbrio reduz o emprego. Essa previsão é empiricamente verdadeira? Card e Krueger testam a previsão do modelo usando um "experimento natural" — um aumento do salário mínimo em New Jersey em 1992, enquanto a vizinha Pennsylvania manteve o valor inalterado.
Conexão com o capítulo: O estudo é um exemplo paradigmático de verificação indireta de modelos (Seção 1.2): os autores confrontam a previsão do modelo competitivo com dados empíricos, usando a estratégia de diferenças em diferenças — uma forma de aproximar o ceteris paribus (Seção 1.3) com dados observacionais. Pennsylvania funciona como "grupo de controle" para New Jersey.
Principais resultados: Contrariamente à previsão do modelo competitivo simples, o emprego no setor de fast-food em New Jersey não caiu após o aumento do salário mínimo — na verdade, cresceu ligeiramente em relação a Pennsylvania. O resultado sugere que o modelo competitivo de mercado de trabalho, embora útil como benchmark, pode ser incompleto: modelos com poder de monopsônio do empregador explicam melhor o resultado.
Por que importa: O artigo de Card e Krueger é um dos mais influentes da economia do trabalho e ilustra como a verificação empírica pode levar à revisão e ao refinamento de modelos teóricos — não ao abandono da modelagem, mas à busca por modelos melhores. David Card recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2021.
Roth, A. E. (2002). The Economist as Engineer: Game Theory, Experimentation, and Computation as Tools for Design Economics. Econometrica, 70(4), 1341–1378.
O que investiga: Os modelos econômicos podem ser usados não apenas para entender mercados existentes, mas para projetar novos mercados e instituições? Roth argumenta que sim, e apresenta o economista como "engenheiro" — alguém que usa modelos teóricos para construir mecanismos que funcionam na prática.
Conexão com o capítulo: O artigo conecta a discussão teórica sobre modelos (Seções 1.1–1.4) aos desenvolvimentos modernos da Seção 1.6 — especificamente, a teoria dos mecanismos e a economia experimental. A tese de Roth é que modelos abstratos de teoria dos jogos, quando combinados com experimentação e computação, tornam-se ferramentas de engenharia econômica.
Principais resultados: Roth documenta três casos de sucesso do design de mercados: (i) o National Resident Matching Program (NRMP), que aloca médicos residentes a hospitais nos EUA desde 1952; (ii) o redesenho de sistemas de admissão escolar em cidades como Nova York e Boston; e (iii) mecanismos de troca de rins entre doadores vivos incompatíveis. Em todos os casos, o design foi informado por modelos formais de matching e teoria dos jogos cooperativos.
Por que importa: O artigo demonstra que modelos econômicos não são apenas ferramentas de análise retrospectiva, mas instrumentos de design prospectivo — podem criar instituições e mercados que melhoram o bem-estar. Roth recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2012, juntamente com Lloyd Shapley, por seus trabalhos sobre a teoria de matching e design de mercados.
Naritomi, J. (2019). Consumers as Tax Auditors. American Economic Review, 109(9), 3031–3072.
O que investiga: Políticas públicas que incentivam consumidores a pedir nota fiscal podem reduzir a evasão tributária? Naritomi estuda o programa Nota Fiscal Paulista (NFP), implementado pelo governo de São Paulo em 2007, que devolve parte do ICMS a consumidores que incluem o CPF na nota fiscal — transformando consumidores em "auditores fiscais" involuntários.
Conexão com o capítulo: O estudo exemplifica a aplicação de modelos microeconômicos a políticas públicas brasileiras (Seção 1.6). O modelo teórico subjacente combina teoria dos incentivos — firmas decidem quanto evadir considerando a probabilidade de detecção — com a hipótese de otimização dos consumidores (Seção 1.3), que pedem nota quando o benefício esperado (devolução do ICMS) supera o custo (tempo, inconveniência). A autora utiliza variações no calendário de implementação e nos prêmios como fonte de identificação causal.
Principais resultados: O programa NFP aumentou a receita de ICMS declarada em 21% nos setores varejistas, com efeitos maiores em setores com muitas transações com consumidores finais. Firmas previamente subdeclarantes responderam mais fortemente, e os efeitos persistiram ao longo do tempo. O custo fiscal do programa (devoluções aos consumidores) foi significativamente inferior ao ganho de arrecadação.
Por que importa: O artigo demonstra, com dados brasileiros, que modelos econômicos bem construídos podem informar o desenho de políticas públicas eficazes. A NFP transformou um problema de informação assimétrica (o fisco não observa todas as transações) em um mecanismo de incentivos alinhados — um exemplo concreto de teoria dos mecanismos aplicada (Seção 1.6).
Referências do Capítulo¶
- Arrow, Kenneth J. 1963. "Uncertainty and the Welfare Economics of Medical Care." American Economic Review, 53(5), 941–973.
- Friedman, Milton. 1953. "The Methodology of Positive Economics." In Essays in Positive Economics. Chicago: University of Chicago Press.
- Holmström, Bengt. 1979. "Moral Hazard and Observability." Bell Journal of Economics, 10(1), 74–91.
- Keynes, John Neville. 1891. The Scope and Method of Political Economy. London: Macmillan.
- Mas-Colell, Andreu, Michael D. Whinston, e Jerry R. Green. 1995. Microeconomic Theory. New York: Oxford University Press. Cap. 1.
- Nicholson, Walter, e Christopher M. Snyder. 2017. Microeconomic Theory: Basic Principles and Extensions. 12ª ed. Boston: Cengage Learning. Cap. 1.
- Pindyck, Robert S., e Daniel L. Rubinfeld. 2013. Microeconomia. 8ª ed. São Paulo: Pearson. Cap. 1–2.
- Rochet, Jean-Charles, e Jean Tirole. 2003. "Platform Competition in Two-Sided Markets." Journal of the European Economic Association, 1(4), 990–1029.
- Samuelson, Paul A. 1947. Foundations of Economic Analysis. Cambridge: Harvard University Press.
- Varian, Hal R. 2015. Microeconomia: uma abordagem moderna. 9ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier. Cap. 1.